Cássia Eller: antídoto contra a hipocrisia

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Em homenagem à Cássia Eller, que nos deixou no dia 29 de dezembro, há 10 anos, reproduzo entrevista concedida pela cantora à revista Um Outro Olhar, nº 14, de junho de 2000. Ao fim da entrevista, para quem não viu, o vídeo do programa Arquivo N, da Globo (para interrompê-lo, basta clicar no >), com entrevistas e trechos de apresentações de Cássia. 

Ainda lembrando que hoje a MTV estará apresentando, a partir das 7h, uma programação de 24 horas também em homenagem à Cássia, o Especial MTV – 10 Anos sem Cássia Eller, com reprises do Acústivo MTV e o Luau MTV, com a cantora, além de shows, programas especiais, entrevistas exclusivas e exibição dos melhores clipes da grande sapa. Míriam Martinho

Cássia Eller: antídoto contra a hipocrisia

Cássia Eller com a revista Um Outro Olhar e fã
Cássia Eller, com exclusividade para a UM OUTRO OLHAR, conversou com Fátima Tassinari sobre sua carreira, sua relação de doze anos com Eugenia, seu filho Chicão, seu processo de assumir-se para a família e seus planos futuros. Aos 37 anos, 8 CD lançados, com vários sucessos nas paradas, a mais "sapata" entre as inúmeras sapatas cantoras deste país, revela-se preocupada com questões sociais e com a responsabilidade de ser cada vez mais conhecida. 

CARREIRA: RESOLVO MEUS PROBLEMAS ESCOLHENDO MUSICAS, FAZENDO SHOWS 

UOO- Fale um pouco do começo da sua carreira, Cássia, quando você tocava em trio elétrico, cantava ópera... 
Cássia Eller- Eu dava tiro pra todo lado porque eu não sabia o que eu queria fazer. Na verdade, eu queria ser guitarrista, acompanhar os outros, ter uma banda e tocar, mas aí falaram pra eu ser cantora, que a minha voz era legal, bacana... Vai cantar, rapaz, me falaram, vai cantar (risos)! Aí eu saí fazendo tudo o que aparecia de cantora. Fiz um teste para o Oswaldo Montenegro (foi a primeira coisa que eu fiz, tá?) e trabalhei um ano com ele lá em Brasília e Belo Horizonte, fazendo um espetáculo. Também fiz um teste para o primeiro trio elétrico de Brasília, o Massa Real, e fui cantar no trio. Logo depois me escrevi também na escola de música e fui ser cantora de ópera porque os professores falavam que a minha voz era bonita, que era contralto, que aqui no Brasil é difícil ter um contralto, entendeu? Que precisava (desse tipo de voz) abaixo do Equador porque a mulher nasce com a voz mais aguda, a maioria das mulheres, pelo menos, nasce com a voz mais aguda, e que essa coisa, essa característica da voz grave, é mais lá pró lado da Europa, pró outro lado do mundo. Aí eu falei,"- Opa, se eu sou diferente, vou ser cantora de ópera!" (risos). Mas não dei conta. A disciplina deles era incompatível com a minha. Mas foi bom pra mim também porque eu aprendi coisa pra caramba. E essa coisa de dar tiro pra todo lado foi me ajudando a não ter preconceito com música, com todos os géneros de música, porque na verdade eu nem sabia direito qual era o gênero que eu gostava mais (risos). Eu tava sem saber o que eu queria, depois é que eu fui ver que eu gosto de tudo. Eu gosto da música brasileira porque a música brasileira é um caldeirão, uma mistura de tudo quanto é música do mundo. Aqui tem África, tem Europa, tem índio, tem de tudo aqui, né? 

UOO- Nessa época, você tinha como ídolos e influências pessoas como Cazuza e Renato Russo entre outros. E hoje? 
Cássia Eller- Por causa dessa coisa de percussão, de eu tá aprendendo percussão, eu to escutando muito discos de músicos indianos, do Triloc, que é indiano. Muita coisa assim folclórica, de tudo que é lugar do mundo: da Venezuela, da África. Tudo que tem a ver com percussão. E tem muito Marco Suzano, Lenine, que eles fazem um trabalho muito legal de percussão. To estudando o trabalho deles. Todos os discos em que o Marco Suzano toca eu tenho aqui. Ney Matogrosso, Aquarela, todas as coisas que tem o Marco Suzano tocando eu compro pra ouvir. E muito Nirvana também. Eu to louca, to apaixonada pelo trabalho do Nirvana e toco o Nirvana porque o Chicão (filho de Cássia) pediu e porque eu gosto também. 

UOO-  E como é essa história de percussão, Cássia? Você está trabalhando com isso ou foi só uma apresentação para o PercPan (Panorama Percussivo Mundial, realizado em São Paulo)?
Cássia Eller- Foi pró PercPan que eu tomei coragem pra me apresentar tocando, mas eu to tocando bateria, pandeiro, berimbau, já faz uns três anos. Eu também to com uma conga e três pandeiros legais assim. Eu to estudando aqui em casa umas duas, três horas por dia. É uma coisa antiga minha. Desde criança, eu adorava bater, batucar. Eu sempre gostei muito. E agora eu to querendo levar a sério. Por enquanto, to só aprendendo, mas eu ainda quero tocar direito. Essa apresentação que a gente fez lá no PercPan foi diferente. É diferente a sensação de tá na frente cantando e de tá atrás fazendo parte do todo, entendeu? Dá pra você ver de fora, você não fica tão "agulhada". A responsabilidade é outra, não porque diminua não, mas a responsabilidade é outra. Foi muito legal. Parece que foi a primeira vez que eu fiz. 

UOO- Já há algum tempo você vem tocando praticamente com a mesma banda. Isso cria uma certa intimidade, facilita o trabalho ou, pelo contrário, obriga cada um a se cobrar mais para não fazer o mesmo tipo de som e cair no trivial?
Cássia Eller- As duas coisas. Eu gosto da coisa da convivência que eu acho muito importante. Eu não sou muito de conversar, de ficar explicando, nem de ficar ouvindo umas coisas muito não: Então, essa identificação rápida assim, só no olhar, só no gesto, fica mais fácil trabalhar. Você pega o violão assim, cê toca um negócio, o outro já entendeu o que tá acontecendo, e a música é feita assim até o fim. E tem a coisa do astral também que tem que combinar, entendeu? A gente tem que ser da mesma turma porque eu acho isso, poxa, essencial pra mim. Várias vezes já aconteceu de eu tocar com outras pessoas, mas não rola, não consigo me soltar, não consigo cantar direito, não consigo me emocionar.

Fátima Tassinari/Flávio Colker 
UOO- Cássia, quando você vai fazer um CD, como é que você seleciona as músicas, as letras?
Cássia Eller-  Ah! E puramente intuitivo, eu nem sei explicar bem isso. Eu não consigo me expressar falando, né? Só sei pegar o texto de alguém, as palavras de alguém, e falar: é isso que eu gostaria de dizer. Eu tenho muita vergonha de formular coisas, sabe, de assinar embaixo. Sei lá, eu sou cagona mesmo. Sou um pouco medrosa pra essa coisa, mas aí então como eu canto, então isso já facilita a minha vida, é a minha terapia. Eu resolvo muitos problemas meus escolhendo esses tipos de letras, fazendo shows e tudo. 

PLANOS: MAIS PRESENTE NO LANCE DO SOCIAL 

UOO- E a carreira internacional? 
Cássia Eller- O Leo (Leonardo Netto, empresário) conhece muita gente. Já fez toda essa parte para a Marisa (Monte) várias vezes. Então, ele tá mandando material meu pra lá. É capaz que role alguma coisa ainda pra esse ano. Tá tocando uma música no rádio lá em Amsterdã, e parece que já tem um público grande. Tá tocando bem lá na Holanda. Na Espanha, também já me disseram que ouvem. Uma amiga minha morou lá no ano passado e falou que rolava muito três discos meus lá. Sabe, eu sempre disse que quero primeiro conhecer o Brasil, quero que o Brasil saiba assim das coisas que eu to falando porque eu falo é pra eles aqui. E o lugar onde eu nasci, onde eu fui criada. Meus problemas todos são daqui. Então, eu queria falar essas coisas pra essas pessoas ouvirem, e tá acontecendo isso, aos pouquinhos, mas tá acontecendo, e tá com uma consistência bastante legal, né? Mas agora eu acho que eu to sentindo vontade de cascar fora daqui um pouquinho, fazer show na Argentina... 

UOO- E essa sua vontade de ser mais popular, estar mais com o público? 
Cássia Eller- Bom. eu não sou uma grande campeã de discos. Os meus discos beiram assim a cem mil cópias e com muito sacrifício. Tipo assim, demora um ano pra isso acontecer, mas. mesmo quando não vendo muitos discos, todo show que eu faço enche. E eu to notando ultimamente que as pessoas sabem as letras. Antigamente não era assim. E não é só de tanto escutar, sabe? Não é isso, é porque bate legal neles, eles acreditam naquilo que eu to cantando, têm identificação com aquilo que eu to cantando. 

UOO- E a grana, Cássia, dá para ganhar grana? 
Cássia Eller- (Gargalhadas) Quando eu renovei o contrato da PolyGram dois anos e meio atrás, eu ganhei uma grana e comprei esse apartamento que eu moro, mas eu vivo realmente é de fazer shows e de vendagem de disco que é aquela escravidão, né? Tem não sei quantos por centos de "royalties". É uma merda, não dá, não dá. E eu to achando cada vez mais que a tendência dos artistas é abrir sua própria gravadora, ter seu próprio escritório. Eu estou pensando seriamente nisso. Eu achava que era muito difícil de se fazer isso, e não é tão difícil assim. Eu conheço outros produtores, empresários, nesse esquema. Tem agora o Lobão, tem muita gente fazendo isso, e tá dando certo. Sabe, porque você vende e não ganha nada do que você vende. Eu não entendo essa matemática. Eu to me afastando disso e espero em breve abrir a minha própria gravadora. Eu não vou vender mais de cem mil discos, fazendo isso, tendo meu próprio escritório, mas os trinta ou cinquenta mil discos que eu for vender, a grana vem toda pra mim. 

UOO- Falando de planos, você não tinha ideia de fazer uma escola? 
Cássia Eller- Pó, tá difícil pra caramba isso, mas eu conversei, com uma amiga minha que mora no Espírito Santo que é terapeuta, sobre as minhas vontades de tá mais presente assim no lance do social, de interferir mais nisso. E a gente tá a fim de fazer o seguinte, com um lance na Internet: cada vez que você acessar o meu site. você vai tá contribuindo pra, sei lá, pró hospital do câncer, pra AIDS, pra bolsas escolares prós meninos lá do Nordeste, meninos dos canaviais, dos carvoeiros. Para tirar esses meninos do trabalho escravo, né?. pra botar eles na escola. Cada um que chegar no meu site contribui tipo assim com um real. Isso a gente deve colocar em prática em pouco tempo.


IMAGEM: "-EU SOU MEIO ZELIG, SABE?" 

UOO- Num pequeno espaço de tempo, você mudou inúmeras vezes por exemplo o corte de cabelo. Quem define seu visual? 
Cássia Eller- Esse negócio de cabelo é... Sabe, quando eu to andando muito com umas pessoas, eu fico igual a elas. Eu sou meio Zelig, sabe, daquele filme do Woody Allen, que ia mudando com cada turma que ele fazia parte. Por exemplo, quando ele foi tocar com a galera de jazz, só com crioulo, aí ele foi ficando preto, a pele dele foi ficando escura também, e ele é judeu, né? (risos). Aí então muda tudo, ele muda, o nariz cresce, o cabelo encaracola, dependendo das pessoas com quem ele anda. Eu sou meio assim também. Eu to igual baiano agora. Baiano é espalhafatoso, colorido, festeiro e gosta de pintar cabelo e gosta de fazer negócio diferente. Aí eu entro na dança também. 

UOO- O tipo de roupa que hoje em dia você usa tem alguma relação com a que seu pai usava, uma coisa assim mais despojada? 
Cássia Eller- É a gente é simples, cara, de origem humilde pra caramba. A gente nunca teve essa coisa de usar roupa bacana e mais transada mesmo porque eu tenho um jeito bem esculachado. Não gosto de roupa, adoro andar pelada. E as minhas roupas quanto mais velhas melhor. Eu desde pequenininha só me visto como menino. Nunca gostei de usar vestido, biquini, saia. Sempre me vesti como menino, e meus pais nunca ligaram pra isso, não. Eles achavam divertido isso, não achavam ruim não. 

UOO- E essa história das pessoas falarem que a Cássia é agressiva porque põe a mão na chana, porque se ela não pusesse ela vendia mais... Isso a gente escuta a toda hora. Mas essa agressividade, essa postura sua no palco não tem uma coisa de atriz e, acima de tudo, de pôr os bofes, seus diabos, pra fora? 
Cássia Eller- Fazem muita repressão da vida inteira. E uma coisa religiosa da educação da gente, de ser mulher, de ser pobre. Quando eu passei por cima de tudo, quando eu comecei a me resolver, comecei a ser feliz, sabe? Saí da casa da minha mãe... Não que eu fosse infeliz na casa da minha mãe, não é isso, mas quando eu descobri tudo, a coisa das repressões, do mal que faziam pra mim, foi cantando que eu me resolvi. Aí, sei lá, virou um tratamento longo, sem fim (risos). Agora, a minha agressividade eu acho que é mais pra chamar a atenção da hipocrisia, do falso moralismo, entendeu? A minha mão vai sozinha... Como eu disse na Bundas, eu sou uma pessoa que não liga muito pra ser mulher nem pra ser homem não. Eu esqueço às vezes dessa separação homem/mulher, sabe? A gente é os dois, uai! Não tenho pinto e saco, mas a gente é as duas coisas, o cérebro é igual, tudo funciona da mesma maneira, a gente sente a mesmas coisas.

AMOR E FAMÍLIA: "-ELE APRESENTA A GENTE ASSIM: MINHAS MÃES." 

UOO- Como é ser Cássia Eller? Como é ser feliz assim? 
Cássia Eller- Pó, ser feliz é difícil, hein! É muito difícil. Eu to ficando mais velha, eu vou fazer trinta e oito anos no final do ano, daí tá batendo umas coisas engraçadas. Sei lá, a vida vai ficando mais difícil, e eu achava que ia ficando mais fácil (risos), mas vai ficando mais difícil, cara.

UOO-  Em que sentido? 
Cássia Eller- Sentido de viver. To achando muito difícil viver, muita responsa, sabe? Essa coisa de eu tá ficando mais conhecida, a responsabilidade aumenta ainda mais. Eu não achava que fosse assim não, eu achava que era mais sossegado. É muita gente em torno, entendeu? Trabalhando, eu me preocupo demais. Tem meus pais. Eu sou a única pessoa da minha família que ganha grana. Eu ajudo muito o pessoal da minha família e fico me sentindo muito responsável. Tem a educação do Chicão, meu casamento com a Eugenia. A gente tá com doze anos que tá juntas. Aí de vez em quando rola histórias de uma namorar com outra, de outra namorar com uma, mas a gente não quer se separar de jeito nenhum. A gente sabe que a gente se ama loucamente e que eu nunca mais eu vou achar isso com ninguém, essa cumplicidade que eu tenho com a Eugenia. Eu não vou encontrar isso com ninguém por mais apaixonada que eu fique. E eu sinto uma falta danada dela, quando eu não to com ela. Tava namorando aí com uma menina, tava completamente apaixonada, mas aí quando eu chegava em casa, e a Eugenia não tava, também tava namorando outra menina, eu sentia uma falta da porra dela. Aí ela chegava, c ficava tudo lindo. Não é ciúmes nem nada, é uma faaalta. E a gente conversa muito, eu e a Eugenia. A gente além de... pô... acima de tudo é amiga pra caralho. Ela é especialíssima, ela não existe, ela é muito legal, a porra, ela é foda.

UOO- E a Eugenia com o Chicão? Como é a relação entre vocês? 
Cássia Eller-  Mamãe, mamãe. Você pergunta pra ele, se ele é feliz assim, se ele gosta do fato de ter duas mães. Ele ama, ele enche a boca pra falar, quando a gente sai com ele, assim, nós três, ou vai pra uma festa dos amigos dele, ou então lá na escola, ele apresenta a gente assim: "-Minhas mães". Ele apresenta pras professoras, prós pais dos colegas dele, fala assim com a boca cheia de orgulho. Sabe, eu quase choro quando eu vejo um trem desses. O menino não tem o menor problema, sabe?, porque a gente é feliz, a gente passa a verdade nossa pra ele, entendeu? O que a gente vive, a gente passa pra ele. A gente não esconde as coisas dele, a gente explica que rola um preconceito e tal, que isso não é comum, mas que isso não vai prejudicar em nada na vida dele porque a gente ama muito ele e tal. A Eugenia fala muito com ele também. E ' ótimo, a gente tem uma vida muito legal, a família é do caralho (risos).

ALÉM DAS DROGAS

UOO- Cássia, e o lance das drogas? Quer falar disso? 
Cássia Eller- Bom, eu fiz um tratamento e larguei a cocaína e tudo. Passei seis meses sem beber também. Agora que eu to voltando a beber um pouquinho, mas assim, tem nada a ver com o que eu bebia antes. Eu bebo uma cervejinha, um vinhozinho assim de leve. Sabe, não fico enchendo a cara. Tem mais de um ano que eu não fico bêbada. E assim, eu to muito feliz com isso e eu recomendo pra todo mundo que a vida melhora pra caralho. Eu só funcionava cheirada, e a gente vai ficando mais agressiva, mais intolerante, mais escrota, sabe? Eu achei que não dava conta de fazer mais nada, mas tá sendo super, muito melhor, eu nunca mais fiquei rouca. Agora eu durmo a noite inteira, eu to me sentindo muito bem, muito bem...


"- Ó QUE GATINHA, MÃE!" 

UOO-  Você sofreu quando assumiu a homossexualidade? E a reação da sua família, dos seus pais? 
Cássia Eller- Eu só sofri porque meus pais descobriram e começaram a me amarrar. Agora de eu ter conflito quanto a isso, nem um pouco. E hoje a gente brinca muito com isso, hoje em dia tá tranquilo demais. Hoje eu já aponto pra minha mãe assim na rua, "- Ó que gatinha, mãe!", e ela morre de rir, sabe? Eu já to normal, graças a Deus, eu já ajo normal com a minha família, com meus irmãos...Agora na hora do baque, eles falaram "o que é isso cara (risos)?" Mas depois passou. Foi muita conversa com meu pai, muita choradeira, mamãe chorou muito, mas deu tudo certo. Ela sabe que isso não modifica em nada a alma da gente, né?, o jeito de ver a vida. Eu não faço mal a ninguém, não prejudico ninguém. O fato de eu ser homossexual não interfere em nada, não me torna uma pessoa ruim. 

UOO- É legal você passar alguma coisa assim pras pessoas porque muitas se conflituam com isso, têm medo de não se sentirem aceitas. 
Cássia Eller- Na maioria da vezes, é a pessoa mesma que não se aceita. Não são os outros que não aceitam ela, esse negócio de preconceito, é a gente que não se aceita. 

UOO- Bom, também a gente pode falar um pouco da violência que tem acontecido, que você deve ter ouvido falar dessa morte de um cara chamado Edson Néris que passeava com o namorado, na praça da República, e foi morto pêlos skinheads, pêlos carecas. Você ouviu falar nisso?
Cássia Eller- Eu sei. eu sei, mas aí o lance desses carecas é que eles matam muçulmanos também, preto, não é só os gays. É tudo que amedronta eles, todas as raças, as classes sociais, as ideias também, porque a coisa do gay é mais a ideia do que a coisa sexual mesmo, é a coisa da ideia, da liberdade. Eles não querem dar liberdade pra ninguém. 

UOO- E como você se sente fazendo esse papel de representar, de expor a homossexualidade, e como você vê sua possível participação na Parada do Orgulho aqui em Sampa este ano? 
Cássia Eller- Não me sinto representante de uma coisa. É mais assim: eu gosto de estar participando das coisas que fazem os outros felizes, de estar contribuindo com a alegria das pessoas, com a felicidade do estado gay das pessoas. Então, por causa de eu falar abertamente disso, é positivo porque já liberta um pouquinho os pensamentos negativos de muita gente. Agora participar da festa ia ser o bicho, ia ser tipo assim o auge do negócio de uma coisa que eu já faço há muito tempo. 

UOO- Ah, que legal! E a Eugenia viria? 
Cássia Eller- Viria, é lógico, pra subir no caminhão e a porra. Iria fazer tudo comigo (risos).

Nota: As perguntas desta entrevista foram elaboradas por Angela Gonçalves e Fátima Tassinari, e a edição é de Míriam Martinho, com colaboração de Fátima Tassinari.

Entrevista publicada na revista Um Outro Olhar de junho de 2000, páginas 13 a 16

3 comentários:

  1. Coisa mais linda, mais rica e mais pura...
    Linda a matéria e o o trabalhod do site também.

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  2. Obrigada, Carla. Sempre bem-vinda. Abs, Míriam

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