Dia Nacional de Combate ao Fumo: mulheres lesbianas fumam duas vezes mais do que as heterossexuais

sexta-feira, 29 de agosto de 2014


O dia 29 de agosto foi escolhido como o dia nacional de combate ao fumo (ver histórico), data em que são desenvolvidas campanhas alertando as pessoas dos males que o cigarro causa. Informações dão conta que o Brasil reduziu o tabagismo, mas 11% da população ainda é fumante (ouça áudio aqui e aqui)

Abordando a questão específica, segue abaixo o texto Lésbicas e Fumo, tradução de pesquisa do Projeto Mautner que reúne dados, do início da década passada, sobre o tabagismo entre lesbianas nos EUA. Também a cartilha Questões de Saúde Lésbica, do grupo australiano QAHC - Grupo de Ação em Saúde Lesbiana, com dados mais recentes sobre a questão do tabagismo entre mulheres homossexuais (2009).

O quadro retratado sobre lésbicas e fumo, nesses documentos, embora internacionais, são bem pertinentes à realidade brasileira. À guisa de atualização, podemos apenas lembrar que, devido à proibição do fumo em lugares fechados, nos últimos anos, as lésbicas baladeiras deixaram de fumar dentro de bares e casas noturnas para fumar nas calçadas dos bares e casas noturnas. No mais, tudo continua como antes no quartel de Abrantes, com as sapatas fumando mesmo mais do que suas contrapartes hétero, com todos os problemas concernentes ao hábito.

Mais informações:

Gays, lesbians face certain healthchallenges, u.s. report says: they're more likely to smoke, binge drink, but also more likely to get regularexercise
National LGBT Tobbaco Control Network
LGBT* Smoking Rates Double The General Population

Lésbicas e Fumo

Introdução

Por Míriam Martinho

Tenha orgulho de
 conseguir largar o cigarro
Entre os hábitos perniciosos que causam problemas de saúde entre a população lésbica, o hábito de fumar ocupa lastimavelmente posição privilegiada. No texto que traduzimos ao fim desta introdução, da Mautner Project, organização que trabalha pela saúde das lésbicas americanas, com base em pesquisas recentes realizadas nos EUA, observa-se que, entre as mulheres que fumam, o número de lésbicas é praticamente o dobro das demais fumantes.

Observa-se também que as mulheres lésbicas têm mais facilidade para adquirir o vício do tabagismo, devido às tensões adicionais causadas pelo preconceito, e mais dificuldade para deixá-lo, tendo em vista que seus locais de socialização são fundamentalmente bares e boates, onde o consumo de cigarros é muito alto.

Vale lembrar que o tabagismo é diretamente responsável por 30% das mortes por câncer em geral; 90% das mortes por câncer de pulmão; 25% das mortes por doença coronariana; 85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica e 25% das mortes por doença cerebrovascular. Além dessas enfermidades, o consumo de cigarro está relacionado a uma maior incidência de aneurisma arterial, trombose vascular, úlcera do aparelho digestivo, infecções respiratórias e impotência sexual no homem.

De acordo com dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer), cerca de um terço da população mundial adulta, isto é, 1 bilhão e 200 milhões de pessoas (entre as quais 200 milhões de mulheres), sejam fumantes. Pesquisas comprovam que aproximadamente 47% de toda a população masculina e 12% da população feminina no mundo fumam. Enquanto nos países em desenvolvimento os fumantes constituem 48% da população masculina e 7% da população feminina, nos países desenvolvidos a participação das mulheres mais do que triplica: 42% dos homens e 24% das mulheres têm o comportamento de fumar.

O total de mortes devido ao uso do tabaco atingiu a cifra de 4,9 milhões de mortes anuais, o que corresponde a mais de 10 mil mortes por dia. Caso as atuais tendências de expansão do seu consumo sejam mantidas, esses números aumentarão para 10 milhões de mortes anuais por volta do ano 2030, sendo metade delas em indivíduos em idade produtiva (entre 35 e 69 anos) (WHO, 2003).

Embora não existam pesquisas sobre o tabagismo entre mulheres lésbicas no Brasil, seguramente, pela simples observação, acreditamos que a situação dessa população não seja diferente da americana. Ao contrário, levando em conta os dados do INCA, que apontam um consumo maior de cigarros entre mulheres nos países em desenvolvimento, a situação das lésbicas brasileiras em relação ao fumo deve ser pior. Basta ir a qualquer balada lésbica de qualquer cidade brasileira para ter essa intoxicante certeza. O mais incrível: muitas ativistas lésbicas fumam (sic), embora desenvolvam inclusive atividades ligadas à área de saúde junto aos governos (?!).

Portanto, dar início a uma discussão mais aprofundada e permanente sobre esse tema se constitui numa prioridade não só pela população lésbica que já fuma como pela população lésbica que não fuma mas também é atingida pelo fumo passivo, encontrando inclusive mais dificuldades para se socializar.

Saúde: Lésbicas e Fumo
The Mautner Project

Não deixe seu arco-íris virar fumaça
Fumar é uma das principais causas de morte entre mulheres, sendo as lésbicas as mulheres que apresentam maiores dificuldades para largar o hábito.

De acordo com a American Cancer Society – 2003 (Sociedade Americana de Câncer), cerca de 30.000 mulheres morrem mais de câncer de pulmão do que de câncer de mama. Mulheres que fumam correm maior risco de desenvolver diferentes tipos de câncer assim como maior risco de doenças cardíacas e ataques do coração.

De acordo com pesquisa conduzida pela Professora Doutora Michele Elias, do Lesbian Health Research Center (Centro de Pesquisa em Saúde Lésbica) e da Universidade de Iowa, mulheres são mais propensas a fumar do que homens como forma de aliviar as tensões, lembrando que mulheres que pertencem a minorias sexuais encaram mais estresse em suas vidas cotidianas.

Lésbicas e bissexuais com menos de 50 anos estão mais propensas do que mulheres heterossexuais a adquirir o hábito de fumar e de beber com freqüência (Valanis, et al., 2000).

Dados da Women's Health Initiative (Iniciativa para Saúde das Mulheres) indicam que mulheres lésbicas fumam quase duas vezes mais do que heterossexuais (6,8-7,4% das lésbicas e 3,5% das heterossexuais). Embora quase 50% das mulheres heterossexuais tenham afirmado nunca ter fumado, somente 25-33% das lésbicas afirmou o mesmo (Valanis, et al., 2000).

De acordo com o American Journal of Preventive Medicine (Jornal Americano de Medicina Preventiva) as lésbicas são mais propensas a consumir maior quantidade de cigarros do que as mulheres heterossexuais (Ryan et al., 2001).

As taxas de consumo de cigarros entre adolescentes e mulheres adultas lésbicas são mais altas do que entre a população em geral (U.S. Department of Health and Human Services, 2000).

De acordo com a National Lesbian Survey (Pesquisa Nacional sobre Lésbicas), o hábito de fumar entre lésbicas aumenta com a idade enquanto diminui entre as outras mulheres (Bradford, et al., 1994). Em um estudo do Mautner Project (Projeto Mautner), lésbicas mais velhas relataram sofrer forte estigmatização social por fumar e pressão para largar o vício tanto de parte de familiares quanto de amigos (2003). Infelizmente, essa pressão tende a aumentar o desejo de fumar como resposta compensatória ao estresse de abandonar o hábito de fumar.

Ambientes Livres de Fumo

Os bares, comumente associados com o hábito de fumar, são os principais espaços de socialização de gays e lésbicas já que, em outros locais, essa população costuma enfrentar discriminação.

De acordo com um estudo LGBT encaminhado pelo Mautner Project, 2004 (Projeto Mautner), 49% dos bares LGBT já patrocinou noites livres de fumo nos últimos 12 meses. Entretanto, o receio de perda de receita tem impedido muitos outros estabelecimentos LGBT de considerar eventos similares.

70% dos LGBTês que responderam à pesquisa do estudo afirmara que preferem bares e boates livres de fumo e que se sentiam predispostos a pagar mais por esses espaços em comparação com 50% dos heterossexuais que responderam à mesma pergunta (Harris Interactive/Witeck-Combs Communications, 2003).

Bibliografia

American Cancer Society. (2003). Cancer Facts and Figures: 2003. Atlanta, GA: American Cancer Society.

Bradford, J., Ryan, C., & Rothblum, E. D. (1994). National lesbian health care survey: Implications for mental health care. Journal of Consulting Clinical Psychology, 62, 228-242.

Valanis, B.C., Bowen, D.J., Bassford, T., Whitlock, E., Charney, P., & Carter, R (2000). Sexual orientation and health. Archives of Family Medicine, 9, 843-853.

Ryan, H., Wortley, P. M., Easton, A., Penderson, L, Greenwood, G. (2001). Smoking among lesbians, gays, and bisexuals: A review of the literature. American Journal of Preventative Medicine, 21, 142-149.

Stevens, P., Carlson, L. M., Himman, J. M. (2004). An analysis of tobacco industry marketing to lesbian, gay, bisexual, and transgender (LGBT) populations: Strategies for mainstream tobacco control and prevention. Health Promotion Practice, 5, 129S-134S.

U.S. Department of Health and Human Services. (2000). Healthy People 2010: Understanding and Improving health (2 ed.). Washington, DC: US Government Printing Office.

* Original: Lesbians and Smoking. In: Facts about Lesbians and Smoking - The Mautner Project - The National Lesbian Health Organization, Washington, DC, EUA.


2 comentários:

  1. Miriam, além de ter gostado muito da matéria, achei importantíssimo você levantar essa questão. Nunca havia lido nada a respeito, parece mesmo que as lésbicas fogem desse assunto. Parabéns.

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  2. Eu tenho uma amiga de trabalho e de sala de aula, ela é professora de orientação sobre meio ambiente e reciclagem, o incrível é que ela diz para os alunos não poluírem o meio ambiente, mas, ela alem de poluir o meio ambiente também polui os pulmões de quem a ama, gostaria muito de faze- la enxergar o quanto ela está se matando e matando quem a admira quanto profissional e amiga.

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