Vampirismo lésbico: loucas por sangue menstrual

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O texto abaixo foi publicado na revista Um Outro Olhar em 2002 quando a vampiromania estava se iniciando. Dez anos depois,  os adolescentes fizeram da saga Crepúsculo um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema enquanto os adultos se amarraram no sangue e no sexo dos luxuriosos vampiros da série True Blood.   Em Vampirismo lésbico: loucas por sangue menstrual, a autora faz um resgate da ligação entre o vampirismo e a lesbianidade, com destaque para a história de Fome de Viver (The Hunger), onde a vampira Míriam seduz a geneticista Sarah. Acompanha dois vídeos com a cena de sedução e link para baixar o filmaço (NE). 

Autor(a):
Paola Patassini

"Vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas e mergulhar no poço escuro de nósduas vamos viver agonizando uma paixão vadia, maravilhosa e transbordante feito uma hemorragia/'... ("Bárbara" de Chico Buarque de Holanda e Rui Guerra)

Vampiro continua mais do que nunca na moda. Assunto de revistas, filmes, Livros, de seriados como Buffy, a caça-vampiros, de sites, de Halloweens... e, recentemente, até de uma novela da Rede Globo. Mas o que costuma prevalecer em grande parte da literatura que cerca o tema é uma ótica unilateral heterossexual. Sabemos que sempre existe um outro olhar... No contexto homoerótico do vampirismo feminino, esse olhar é aquele da vampira predadora sobre sua "presa", feita objeto de seu desejo, em um clima denso e sexual que evoca muito do estilo de vida sadomasoquista, misturando dor e prazer na mesma receita sensual de entrega e posse...

Falar do vampirismo lésbico significa também falar do papel do sangue na afetividade entre as mulheres. Fundamentalmente do sangue como alimento e desejo. O desejo de se alimentar da mesma, do manancial fluido da fonte feminina: a seiva da flor e suas metáforas. A alimentação vampiresca é cíclica e sanguínea, afinada com as simbologias do ciclo menstrual, principalmente porque ocorre sempre à noite no domínio lunar, lembrando que a palavra menstruação significa "mudança de lua".

Cenas famosas de vampirismo no cinema, inspiradas em romances, onde o vampiro ou a vampira penetra um belo pescoço de mulher com suas pontiagudas presas, fazendo-o sangrar numa densa hemorragia, são reconhecidas por seu forte apelo erótico, remontando à equação vulva-garganta/menstruação-sangue... Sangue e garganta evocam claramente simbologias sanguíneo-uterinas. A garganta corresponde simbolicamente ora à vulva ora à vagina ou ao útero em inúmeras culturas e na própria história da psicanálise e da medicina na relação com a histeria.

A fome da vampira, que se sacia sor­vendo voluptuosamente o sangue de outra mulher, talvez oculte outra fome comandada pelo ritmo lunar e os ci­clos menstruais do universo feminino. O apetite erótico ou o desejo da mulher pela mulher consiste no núcleo do "vampirismo lésbico" que carrega uma fome gulosa da mulher: seu sexo, ová­rios, útero e sangue, inclusive menstrual, como uma metáfora da potencialização do feminino na soma dos duplos do mesmo sexo, multiplicando a mulher para a mulher, pela via simbó­lica do sangue.

Bram Stoker teria se inspirado, para a criação literária do seu Drácula, na vampira Carmilla, que o fascinou, de um conto de seu conterrâneo e contemporâneo Sheridan Lê Fanu, publicado em 1872 na antologia In a Glass Darkly. Uma história clássica de vampirismo com conotações lesbianas. Na literatura, que contextualiza o vampirismo lésbico, encontramos esse jogo dos duplos femininos potencializados no intramundo mítico da (homo)sexualidade feminina. Outro exemplo é o clássico poema Crístabell, de Coleridge, em que a vampira Geraldine seduz e se apossa da jovem Cristabell.

Por sua vez, atraente para homens e mulheres, Vampirella, personagem de histórias em quadrinho criada por Forrest J. Ackerman, em 1969, é uma versão vampiresca de Barbarella, na qual o autor se inspirou. Teve seu auge nos anos 70 e voltou a ser redescoberta nos anos 90, inclusive no Brasil e na Internet, espaço de Vampirellas virtuais que aparecem com esse nome em e-mails e chats. As histórias de Vampirella com parcerias femininas foram as que mais venderam nas décadas de 80 e 90, segundo inúmeros endereços na Web com páginas sobre a sexy predadora. Alguns exemplos:  Vampirella.com  Omelete

Uma das mais importantes versões do vampirismo lésbico pode ser anali­sada em Fome de Viver (The Hunger, 1983), de Tony Scott, baseado no romance homônimo de Whitley Strieber. Trata-se de um dos mais belos filmes de vampiro já feitos, locado no cenário punk nova-iorquino dos anos oiten­ta e interpretado por Catherine Deneuve, como a vampira bissexual Míriam Blaylock, David Bowie, como seu marido John Blaylock, e Susan Sarandon como a médica geneticista Sarah Roberts. O filme e o livro original de certa forma reforçam o imaginário da lésbica como extirpadora da vida, geradora de antifetos.

Míriam seduz Sarah, tocando uma música ao piano que fala de duas mulheres: uma princesa indiana, Lakmé, e sua escrava Mallika. Princesa e escrava cantam num jardim mágico, seguindo o curso de um rio de águas brilhantes. Trata-se de uma cena da ópera Lakmé, de Léo Delibes (1836-1891). Sarah percebe a conotação amorosa e sensual da imagem traduzida por Míriam e se deixa seduzir pelas águas fluidas e poéticas da bela e elegante vampira. Encanta-se com a fluidez aquática que é invocada de suas profundezas míticas e cíclicas enquanto Míriam a seduz como uma sereia, imperando sob o Eros de sua feminilidade. O desejo se traduz na umidade líquida feminina, na qual as águas são espelhos lunares que se projetam nas marés, em ondas de prazer. Míriam oferece a Sarah uma bebida vermelha: um cherry brand que mancha a blusa branca de sua seduzida, na altura de um dos seios... O vermelho e o branco, a inocência e o desejo...

Quando se relaciona sexualmente com Sarah, leva-a a sorver seu sangue e se apossa dela inteiramente, escravizando-a, tornando-a dependente de um alimento incomum. Elas passam a se pertencer, numa simbiose sanguínea. Eroticamente, somam seus femininos rios vermelhos. Trata-se do rio menstrual-lunar que as irmana numa mesma corrente sanguínea, em que trafegam representando a rainha egípcia e sua escrava Mallika. Afinal, que sangue é esse, sob o ponto de vista simbólico, que circula em comum, no corpo das duas mulheres, alternando seus ciclos alimentares e gerando tanta fome de vida? Qual o significado do sangue em comum entre as mulheres, capaz de conferir-lhes a proximidade com a morte e com a perpetuação da espécie, que não o mens­trual? Míriam brinda a iniciação de Sarah, quando esta faz sua primeira vítima para se alimentar de seu sangue, mais uma vez com uma bebida vermelha, provavelmente o cherry brand. Promete amor eterno e as duas se acariciam. O amuleto que Míriam usa, pendurado no pescoço, é fálico e, enquanto elas se abraçam e se beijam, Sarah o finca na própria garganta, gerando uma hemorragia que transborda em suas bocas... Conforme já se observou, a garganta, a "goela" onde Sarah finca o amuleto, tem afinidades simbólicas com a vulva.

No vampirismo lésbico, encontramos uma comunhão menstrual entre as mulheres, energizada pela paixão, mais um dos significados do sangue. Tal comunhão é uma aliança circular, útero-ovariana, em que a mulher se reconhece pela mesma. No domínio da sexualidade, a simbologia do vampirismo lésbico adquire outras significações quando deparamos com a Grande Mãe - enquanto manancial fluido feminino - como fonte inesgotável de alimento e de vida, cercada pelas filhas de Lesbos em seus rituais de amores sáficos. E a mulher de vivência lesbiana, na linguagem simbólica da literatura sobre o vampirismo lésbico, parece buscar na própria mulher o encontro energizante da vida, ainda que carregue em sua forma de amar os estigmas da diferença, dos seres malditos e postos à margem da vida por um sistema dominante, alheio às suas necessidades afetivas.

Para saber mais:

Dark Angels, Lesbian Vampire Stories, de Pam Keesey (dá para encomendar pela www.amazon.com)
Fome de Viver, nas locadoras.Também foi publicado no Brasil o romance que deu origem ao livro.
Também ainda dá para fazer download do filme no FileServe. Acesse aqui.
Carmilla, Sheridan Lê Fanu. Consultar nas livrarias, pois a primeira edição brasileira é bem antiga.

Fonte: Revista Um Outro Olhar, Edição 38, 2002, p. 26. Edição para o UOO online, 17/04/2008

Abaixo a cena do filme The Hunger (Fome de Viver) com Catherine Deneuve e Susan Sarandon em que as duas personagens que interpretam fazem amor. O filme é um clássico do gênero e a cena entre as protagonistas, antológica. Vale (re)ver.

1 comentários:

  1. Filmaço mesmo. Continua super-atual! E o texto bem legal. Abraço!

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