Do lado do Mappin, mesmo com chuva

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

São Paulo,13 de junho de 1980, primeira passeata homossexual no Brasil

No dia 13 de junho de 1980, ocorreu a primeira passeata de bichas, lésbicas e travestis (também com feministas e negros) contra o delegado Wilson Richetti (junho/1980) que fazia arrastões nos bares gays, lésbicos, prendia prostitutas e travestis. Abaixo, Rose Mancini, participante do Grupo Lésbico Feminista à época, relata sua experiência do evento (Rose aparece no círculo mais claro).
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Do lado do Mappin, mesmo com chuva

por Rose Mancini 

Cheguei no lugar do encontro antes da hora. Na frente do Teatro Municipal, do lado do Mappin. Nos encontramos com os olhos. Sem abraços e sem contatos. Não tínhamos dúvidas sobre a importância da manifestação. Só os nossos olhares mostravam o medo e as esperanças que moravam em nós. Nada podia dar errado. Era como tirar fotografia de um casamento. A ocasião era quase única e talvez irrepetível. Naquele tempo o lema era: "segurar a barra', "não deixar cair", "não sujar" "ir à luta”, em síntese, deixar do melhor modo possível o dia 13 de junho. Não estávamos ali para festejar Santo Antonio nem o dia dos namorados. 

Contagiadas pelo medo, cada gesto era medido. Tínhamos que colher o momento crucial e estar no lugar certo para não só seguir um movimento, porém - mais do que isso - criar o evento. Existia uma fórmula? Não sabíamos. O importante e necessário era compreender como se mexer dentro da cena. Inventávamos. Com panfletos tentávamos explicar porque estávamos ali provocando desconforto e incomodando os passos cansados e inseguros das pessoas.

Nós estávamos ali contra a polícia e a favor das vítimas. Contra o abuso dos policiais, que ofendiam nossos sentimentos íntimos, feriam os corpos e nos turbavam moralmente. Estávamos ali para agir contra um modo criminoso que frustrava o desejo e tentava nos paralisar com o terror, com a violência, transformando-nos em vítimas do medo. Porque as ofendidas eram as mulheres e as trans que do sexo viviam. E que ninguém defendia porque iam contra as regras do pai branco que queria dominar sem contrastes, eliminando fisicamente as diferenças e desigualdades. Nós estávamos ali para ir contra a marginalização, a misoginia e a morte. Contra as cicatrizes e a infecção do medo. 

Decididamente tínhamos que estar prontas. Colocando-nos na frente, para poder enquadrar a praça ou a rua. Enquadrar tudo. Víamos a praça lotada, a rua com os carros que passavam, e o Mappin que descarregava na calçada um monte de gente com saquinhos brancos e verdes e sacolinhas. No bolso da minha calça larga, eu também tinha uma para guardar nosso estandarte. 

Lá em cima nas escadas, com os nervos à flor de pele, ofegantes, eu e a Rosana. Ela me ajudava a desembrulhar a faixa que íamos usar dali a pouco e que por horas estava me enfaixando todo o tórax como a conter uma grande explosão. Cuidadosa, desenrolava do meu corpo a faixa e meio sorrateiramente a fazia escorregar até o chão molhado. Cheirava a tinta fresca e grudava um pouco também. Era feita de algodão e escrita com tinta esmalte e pincel (ainda não se usava o spray e por isso demorava muito para secar). Teca, Míriam e Conceição tinham trabalhado durante a noite na confecção. Ficou muito bonita, saiu um ótimo trabalho. Era longa, mas se lia muito bem. 

Me enrolavam e desenrolavam a faixa na barriga sempre quando tinha uma manifestação. E no final da passeata também era eu que levava a faixa para casa, na barriga ou toda amassada em uma sacola. "Sem dar bandeira" e nem mostrar o meu pânico, aproveitando do meu corpo redondo e que disfarçava bem. Fazia o meu papel de "bala embrulhada'.

Quase desmaiando pelo cheiro que emanava da faixa e pela preocupação de ser descoberta, ia pela cidade como uma nova Kamikaze, lutando contra a vontade de abrir as vestes, na rua ou dentro do ônibus lotado, para mostrar que não tinha medo de nada e nem de ninguém. Não era verdade. O cheiro da tinta entrava no meu cérebro. E claro que eu estava morrendo de medo. Estava carregando um símbolo proibido. Vivíamos traumatizadas pela antecipação de um trauma. 

Chegando antes:
-Vai, sobe lá e fala!. - Quem vai ler? - Lê rápido! 

Nesse jogo, sem diretor, nós que tínhamos chegado cedo tomamos o lugar: - Quem lê? – Quem toma conta?- Quem avisa se eles chegarem?- Quem dá o sinal?- O que se faz se...? 

A polícia estava espreitando, e os infiltrados se viam pelos óculos escuros e o ar de vazio em volta deles. A visão era boa das escadarias. Um milhar, nós estávamos ali em mil. Poucos? Tantos? Esperamos ainda? O que? Quem? Partimos? Começamos? A notícia tinha circulado.
Era um milhar com um objetivo. Sim, nossos corações jovens, cheios de paixão e esperança nos impeliam a partir. As motivações eram claras, a complicação estava em pô-las em prática, agir, dirigir. Faltava um maior conhecimento de ações públicas. Só a sensibilidade, nessas ocasiões, não ajuda, não basta. Não tinha nada de codificado ou de habitual. Quando começar?
Mas de repente - como telecomandadas - começamos a marcha e entramos no meio da multidão que, saindo das lojas e escritórios com os guarda-chuvas abertos, avançava decidida, na certeza de ter que enfrentar uma longa estrada. Pegar o primeiro ônibus ou o metrô para chegar em casa o mais cedo possível, antes da novela das oito, e finalmente esquecer o mundo. Entramos aí, nesse meio. Como um cordão trançado, simples e sem dar na vista. Depois das dezoito. Entramos nesse meio para aumentar a impressão de que éramos muitos. Aumentar a pressão. Dar uma impressão! 

Tínhamos que conquistar gente para engrossar nossas fileiras, para mostrar que éramos muitos mais e ainda mais. As pessoas indo embora no tradicional e seguro rush, e nós ali para frear, bloquear, estancar, mas sem querer ser invasivas. Queríamos demonstrar que muita gente estava mobilizada, fazer parecer que éramos mais do que éramos, que tinha chegado a hora de reagir ao abuso de poder, que finalmente todos tinham acordado do pesadelo.

Abrimos a faixa e começamos a dar os braços para fazer as pessoas andarem mais devagar, como se disséssemos: "Assumimos esse risco para que reflitam". Abraçadas seguíamos fechando a rua. Bloqueando os passos rápidos e desesperados de cansaço. Assustando os que, conformados, nos seguiam até lerem distraídos sob a própria cabeça: "Contra a Violência policial. Ação Lésbica Feminista". Algumas tentavam passar por baixo ou romper a nossa barreira natural de corpos. Outras nos empurravam para mostrar que não tinham nada a ver com aquilo. ”Não sou sapatão". Empurrão e resignação. Sabiam que logo lá na frente subiriam no ônibus, e tudo teria terminado. Era uma barreira, e a barreira no começo era muito sólida.
Estávamos na Avenida São João, e fomos subindo e parando o trânsito. A adrenalina cadenciava os nossos passos e dava um novo ritmo aos nossos corações. Improvisando para fazer coincidir os eventos com os deslocamentos e prever o fluxo. Tínhamos que segurar com discrição a multidão por um tempo antes de ela chegar aos pontos dos ônibus. O objetivo valia a intervenção. Estávamos ali para exigir que parassem de perseguir, torturar e matar pessoas que tinham cometido só o crime de amar de forma não convencional. Não tinham culpa de não fazer coincidir corpo, coração, sexo e a cor da pele com as regras morais, sociais e religiosas. Não tinham culpa de existir. 

E foi assim que, no trajeto, uma mulher quase nua se debruçou sobre o peitoril da janela de um prédio e, em peignoir transparente, começou a dançar para nós. Rir com a gente que comovidas começamos a gritar: “-Vem, desce, vem com a gente, vem aqui pra dançar". Ela nos mandou um beijo, primeiro beijando as pontas dos dedos da mão direita, depois colocando-as sobre o coração, e o lançou sobre nossas cabeças. A emoção e o rumor invadiram a rua e fizeram todas as janelas da Rua Julio de Mesquita se abrirem. Seguimos em frente com mais força e menos medo, e as janelas se povoaram de pessoas alegres e muito pobres. “Vem com a gente... estamos aqui por vocês. Para que vocês vivam na liberdade da sexualidade que quiserem". E elas responderam algo como: -"Temos medo, não podemos descer, eles nos matam, somos putas!” ao que nós respondemos: -"Somos todas Putas!". 

Camisolas transparentes. Corpos abraçados que subiam nos parapeitos das janelas e esvoaçantes corpos nus que se acariciavam, se despiam, se mostravam como a pedir e desejar uma homologação: o direito de existir. Foi um momento fundamental dessa passeata, da história. Eu nunca tinha visto nada parecido. A emoção irradiava em ondas e aos poucos chegava até o fundo e voltava com palavras de encorajamento e com slogans que respondiam à nossa emoção e inventavam outras. No Largo do Arouche, a policia que lá já estava começou a ser mais evidente e a nos espremer, diminuindo a largura da nossa manifestação. Começamos a encolher, a juntar os panfletos e nos separar das emoções. 

Eu tentei embrulhar a faixa comprida, molhada e muito visível, mas a sacola que tinha no bolso não se desdobrava. Preocupada com a possível repressão, saí do aglomerado, comecei a procurar uma saída, despistei e entrei em uma travessa, uma ruazinha muito escura onde larguei sem dó a faixa da nossa passeata. Corri de volta e esbarrei de relance num policial que estava entrando na rua. Nossos destinos se cruzaram de passagem, mas superei esse obstáculo. Parei de tremer e voltei a respirar. Aí sim corri com gosto e medo, mas com o coração livre como a prostituta nua da janela. 

Nada de chá de cadeira na delegacia ou coisa pior. Dessa vez para mim, tinha dado tudo certo. Continuei correndo e fiquei mais tranquila só no Largo do Anhangabaú. Rezando agnosticamente para a "nossa senhora das lésbicas” fazer a policia nos esquecer, para que ninguém tivesse tido tempo de tirar fotos da gente que poderiam servir como provas no caso de sermos presas. Enquanto entrava no metrô, molhada, continuava a pedir a essa nossa senhora que nos protegesse contra os policiais para continuarmos a ser espontâneas e inesquecíveis.

Milão. 09/05/2009

Publicado originalmente em Um Outro Olhar em maio de 2009

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