Gozai muitíssimo!! Entrevista com uma butch descolada

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Em junho de 2008, a Butch F, do saudoso site Uva na Vulva, concedeu a entrevista abaixo para o nosso site, falando de um tema que sempre rendeu e continua rendendo muito entre lésbicas: os papéis de butch e femme, ou bofinho e femme, ou, como antigamente na gíria brasileira, fanchas e ladies.

E a ideia da entrevista surgiu em decorrência do preconceito que se nota, no meio lésbico, contra os pares de mulheres onde uma é mais masculinizada e a outra mais feminina. Sobretudo, o preconceito que se dirige contra as lésbicas mais masculinizadas. Resolvemos dar então a palavra a  Butch F. para que explicasse o que é que as butches têm que os homens não tem.

Míriam Martinho
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Qual seu nome (pode ser o nick), idade, formação e profissão?
R: Butch F., 49 anos, superior incompleto, atualmente trabalhando com informática. Natural do Estado Rio de Janeiro /Rio de Janeiro. 


Quando e como surgiu o Uva na Vulva? Qual a proposta de trabalho?
R: O Uva Na Vulva é o resultado de um encaixe perfeito, de corpos, sentimentos e idéias, entre uma butch e uma femme, Butch F. e Femme C. Nossa proposta era a de gerar informação a partir de nossos conhecimentos e, também, de nossa própria experiência, pessoal e de vida. 

Por que uma página específica sobre sexo entre mulheres? Existem outras?
R: Justamente para poder passar e multiplicar essas informações. Também para discutir, desmistificar, valorizar, dar visibilidade e até mesmo glamourizar, o amor, o sexo, a sexualidade e o erotismo, nos relacionamentos entre mulheres e no universo lésbico como um todo.

Que eu saiba, na época em que começamos, há uns dois anos e meio mais ou menos, não existiam outras páginas dentro desse formato. Mesmo hoje, ainda acho que somos muito carentes em comparação com o que já existe por aí, infelizmente quase tudo em sites de língua estrangeira - nesse caso refiro-me a sites lésbicos de um modo geral, mas também, e, principalmente, aos voltados para o universo do sexo e sexualidade lésbica. Exemplos: Susie Brigth  e Fairy Butch , duas experts, americanas, e muito famosas em assuntos desse gênero. Também faço uma ressalva aos sites e blogs portugueses, maiores em número, eu acho, e muitas vezes mais antenados e arrojados que os nossos -nesse caso refiro-me a sites e blogs GLBT de modo geral e não só específicos sobre sexo/erotismo ou sexualidade lésbica. Neles, o que chama a atenção é a visão, geralmente mais ampla, e o conteúdo bem mais rico e menos “cute, cute”, que eles trazem do universo GLBT. Aqui as opções também são muitas, mas nada que uma busca rápida, no Google ou mesmo no Sapo,  por “blogs lésbicos” ou qualquer coisa do gênero não aponte. Exemplos: Blogayesfera, a mais completa e atualizada listagem de blogs gays, lésbicos, bissexuais e transgenders em Portugal. 

O que é ser uma butch e ser uma femme?
R: Ser butch é ser mulher antes de qualquer coisa. É mesclar o melhor da energia feminina ao melhor da energia masculina criando um gênero de essência impar, apesar e além de aparências ou comportamentos normalmente MAL-conceituados como sendo exclusivos do SEXO masculino. "Femmes, são mulheres que se sentem atraídas por mulheres, mas que gostam e não abrem mão do papel tradicionalmente feminino criado pela sociedade. Muitas vezes, femmes se sentem atraídas por butches e vice-versa, mas simplesmente porque esta parece ser uma boa combinação de energias, e não porque desejem imitar modelos heterossexuais. “ (Susie Bright)

Qual a diferença entre uma butch e um homem?
R: Pra mim, TODAS. Butches não são e nem querem ser ou parecer homens. Não são transexuais /transgêneros, transgressoras sim. É preciso entender que essa energia que convencionamos chamar de masculina não é exclusividade só de homens.

Você não acha que as butches e femmes reproduzem os velhos papéis sexuais de homem e mulher, ativa e passiva?
R: Claro que não. Sexo, SEXUALIDADE e gênero são coisas completamente distintas. Quem disse que toda butch é ativa ou que toda femme é passiva? Essa obrigatoriedade não existe. Na cama cada uma procura sua identidade, que nem precisa ser fixa e nem ter necessariamente nada a ver com o gênero nem mesmo com o sexo genético de ninguém. Conheço homens completamente passivos na cama e mulheres que são ativíssimas. Quem pensa que na cama devem existir padrões e papéis fixos está engessado, e fazer sexo engessado ou com alguém assim deve ser um horror.

Até que ponto o que se faz na cama não se reflete no cotidiano das pessoas? Você falou, por exemplo, que as femmes adotam o papel tradicionalmente feminino criado pela sociedade. Esse papel determina que a mulher seja passiva na cama e no dia-a-dia, que seja sustentada por outra mulher a quem deve obediência em menor ou maior grau. Tenho uma colega chegada num SM básico que diz que o problema é que algumas mulheres confundem a horizontal com a vertical, ou seja, se são subs (submissas) na cena SM querem ser no cotidiano também. Você acha que no caso butch e femme se corre esse risco? Antigamente, na época das fanchonas e ladies, isso acontecia mesmo. E hoje como rola isso?
R: Mas as cabeças mudaram, evoluíram graças a deus! E esse papel, esse comportamento também mudou muito de lá pra cá. Mulheres não são mais submissas, nem no sexo nem em seus elacionamentos, sejam homo ou hetero. Quem não acompanha isso é retrógrado, está desatualizado, e isso não pode ser bom. Sobre como as coisas funcionam dentro de uma relação SM, posso falar pouco ou quase nada. Sei apenas que nesse caso a submissão faz parte do jogo erótico/sexual, mas não que necessariamente tenha que refletir na vida cotidiana dessas pessoas.

Respondendo a pergunta: Bem, eu diria que não. O que se faz na cama, em regra, não precisa refletir no cotidiano de ninguém. Tanto que não é raro ouvirmos queixas do tipo, “Que decepção! A butch era tão machona e na hora da cama se revelou uma “ladie”, totalmente passiva.” (risos) Reflexo de cama no cotidiano, pra mim, só se for no estado de humor. Sexo bom, bom humor. Sexo ruim, mau humor. Ou na pele, dizem que sexo bom deixa a pele ótima! (risos)

Existe muito preconceito contra mulheres masculinizadas no meio lésbico. O que acha disso e como resolver? 
R: É, infelizmente existe sim. E esbarramos com ele toda hora. E eu acho péssimo. E acho também que na maioria das vezes esse preconceito é fruto principalmente da falta de esclarecimento, da desinformação. Pré-conceituar, estigmatizar e principalmente generalizar as lésbicas masculinas todas dentro desses estereótipos de caminhoneira, barraqueira, feia, cafona, vulgar, encrenqueira, agressiva e outros adjetivos do gênero, é burro, ultrapassado e extremamente preconceituoso. As Cássias (Eller), Vanges (Leonel), Ellens (DeGeneres) e muitas outras, todas butches, todas lindas, maravilhosas e bem-sucedidas, estão aí para desmistificar isso. Imagino que a melhor maneira de lidar com isso é como estamos fazendo aqui, levantando e discutindo o assunto. Informando e esclarecendo.

Você acha que as lésbicas brasileiras são conservadoras quando se trata de falar de sexo? E de fazer? Como você avalia a cama das lésbicas brasileiras?
R: Sim, muito, e as duas coisas. E não só as lésbicas, mas principalmente elas. Mas já melhorou bastante, muitos tabus estão se dissolvendo. Acho que o primeiro passo é sempre falar, muito e sobre. Buscar e trocar informação também. Abrir a mente e, claro, praticar. Mais coragem, meninas! Prazer não é pecado é um direito. E que pertence e está ao alcance de todas. 


Como você vê as relações sadomasoquistas (dominadoras e submissas) entre mulheres? Existem grupos de lésbicas SM no Brasil?
R: Normal. Vejo como vejo qualquer outra prática, sendo consensual e dando prazer... E aí caímos no velho e bom clichê do "qualquer maneira de amor-e de amar-vale a pena". Quanto a grupos de lésbicas SM, não tenho essa informação. Sei que existem muitas lésbicas praticantes do SM, mas nunca ouvi falar de algum grupo que fosse especialmente delas. 

O que você acha do uso de brinquedos sexuais nas relações entre mulheres?
R: Acho que é um plus e tanto. Sou uma adepta! Pode não ser essencial, mas com certeza é especial.

Você acha que deve existir um padrão de relações sexuais entre mulheres ou na cama o que deve prevalecer é a fantasia que leve ao gozo mútuo?
R: Nada, absolutamente nada, deve estar engessado a padrões. Fantasia é tudo. Gozar é o máximo. E tudo deve ser experimentado, saboreado e plenamente compartilhado.

Por fim, deixe um recado para nossas leitoras e obrigada pela entrevista.
R: Beijos pra todas, ou, como dizia a Femme C., gozai muitíssimo!

Acesse também http://bit.ly/yiiIYo e leia sobre BDSM entre lésbicas.

Entrevista concedida ao site Um Outro Olhar em junho de 2008

16 comentários:

  1. Adooorei....parabéns gurias!

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  2. Bom, eu AAAAAAAAAAMO uma butch!!! Me choca o alto grau de preconceito que existe contra elas no próprio meio lésbico. É o preconceito dentro do preconceito, e agora?? O que importa mesmo é o que somos por dentro, mas, me sinto MUUUUUUITO atraída pela imagem da butch. Cada um tem o direito de ter a imagem que desejar e não acho que a imagem da butch prejudique as lésbicas. Qual é, agora existe um padrão a seguir para ser uma lésbica (ou um ser humano) ideal?????

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  3. Gostei da entrevista. Falta, para muita gente, muito esclarecimento!

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  4. adorei o artigo ,muitissimo legal,sou butch e sou feliz, assim adoro uma femme .essa entrevista e muito boa mesmo parabens.

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  5. Barbara lima dos santos8 de janeiro de 2012 20:48

    pois é sexo é muito bom e prazer e melhor ainda. A sociedade tem que parar com esse preconceito e parar de identificar mulher masculinizada como homem. Eu adoro roupas masculinas mais sou muito mulher e odeio ser comparada com homem. Nao quero e nao sou nenhum dessa especie....

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  6. patricia cristina lima da costa10 de janeiro de 2012 16:31

    O artigo é ótimo apesar de que não posso lê-lo na integra por que não tenho pc em casa e com essas fotos...não que eu condene acho até bom mais estou acessando da faetec e não é permitido ver essas fotos.Mais a passada rápida que fiz com olhos me parece bom...

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  7. Amo butches e sou femme, o artigo é maravilhoso e vcs estão de parabéns!! Ser butch requer coragem por que essa postura, agredi o preconceito e o " status quo". Acredito que o ser humano não pode ser rotulado há de existir espaço para todos sob o Sol, então que essa coragem se propague .... beijos.Syl

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  8. Não tenho nada contras as masculinizadas, apenas elas não me atraem muito, mas tenho muitas amigas que são assim e o que não falta é mulher atrás delas...

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  9. Olha, é a primeira vez que eu vejo um tema relacionado aos comportamentos sexuais femininos sendo tão bem 'resolvido'. Matéria simples, perguntas inteligentes, respostas idem. Vejo como um bom material de estudo para produzir literatura lésbica de qualidade. E, não posso deixar de fazer uma provocaçãozinha em forma de pergunta: a origem dos preconceitos tem o poder de perpetuá-los? Fico pensando por quais razões seja tão importante salientar as diferenças de comportamentos e papéis. Desconfio que seja coisa de 'desentendidas', peça comum entre as que entendem...

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  10. achei super interessante e concordo com tudo pq eu sou lésbica feminina e só curto as masculinas elas são perfeitas e nos satisfazem mais do q um homem,elas são sexy e charmosas eu adoro as bofinhos

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  11. Só posso dizer que adorei a entrevista e que precisamos analisar mais o que perguntamos ,pois podemos ter respostas maravilhosas e imprevisíveis, como o da entrevistada. Abraços

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  12. Amei , é isso aí.. "Toda maneira de Amar Vale a Pena"

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  13. Ok, façam agora uma materia sobre preconceito de dyke com dyke... eu particularmente ADORO duas dykes lindas e fofas JUNTAS!É tão bonito quanto 2 ladies.

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  14. Eu sou apaixonada pelos bofinhos..Acho muio sex e sinto muito tesão ao ver aquele bofinho decidido que sabe o que quer isso deixa qalquer lady como eu louquinha....

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  15. saudade do site UNV.. foi o primeiro site e me ajudar na aceitação da minha sexualidade.. principalmente na minha identidade butch..
    adora as imagens em preto e branco.. belíssimas...

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  16. Caí aqui no site sem querer procurando dicas pra conquistar uma butch porque no meu trabalho tem uma que olha, me tira dos eixos. O problema é que ela é chinesa e ultimamente venho me esforçando horrores para aprender o idioma dela. Ótima entrevista, espero que tenha aberto mais a mente de pessoas que lutam contra uma sociedade preconceituosa mas cultua o preconceito dentro da comunidade LGBT.

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