Mostrando postagens com marcador sexualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sexualidade. Mostrar todas as postagens

Nadia Bochi e Silvia Henz sempre se reapaixonando

sexta-feira, 29 de março de 2019 0 comentários

Nadia Bochi e Silvia Henz (Foto: Reprodução/Instagram)

Nadia Bochi ganha beijo da namorada e se declara: "Repaixão"
Repórter do Mais Você namora Silvia Henz
Nadia Bochi, repórter do Mais Você, se derreteu toda pela namorada, Silvia Henz, na noite desta sexta-feira (15). Em suas redes, a jornalista compartilhou um clique recebendo um beijo da amada e se declarou.
É repaixão mesmo a palavra @silviahenz ?! Quando a gente ama alguém faz tempo e se apaixona de novo!", escreveu na legenda da foto.
Em junho de 2018 a jornalista fez um grande desabafo falando sobre sua homossexualidade, machismo e assédio, relembrando a época em se descobriu e assumiu lésbica.
Me reconheci lésbica numa época em que ser homossexual não tinha nenhum glamour. Não existia beijo gay nas novelas, pelo contrário as lésbicas explodiam junto com os prédios. Aliás, até no cinema era difícil demais encontrar algum tipo de casal que me representasse. Tive que inventar o imaginário que não existia fora da ficção, bem lá na realidade crua onde a palavra homossexualismo ainda era nome de doença, segundo a Organização Mundial de Saúde. Parece distante, mas isso tudo foi ontem, nos anos 90. Década em que comecei a trabalhar como jornalista em um dos canais de TV a cabo mais importantes do mundo (a HBO) e tive o a oportunidade de descobrir que era possível ser gay e viver fora do armário", dizia parte do relato.
Nadia Bochi, repórter do Mais Você, se assume lésbica (Foto: Reprodução/Facebook)

Livro para conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais

quarta-feira, 13 de março de 2019 0 comentários

Larissa Darc é autora do “Vem cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais”
 | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

O que nasceu para ser um trabalho de conclusão de curso de jornalismo, se tornou um projeto de vida. A autora do livro ‘Vem cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais’, Larissa Darc, 21 anos, conta como foi o processo de pesquisa investigativa sobre o tratamento do atendimento ginecológico para mulheres que amam mulheres.

Quando começou a pensar no livro, Larissa ficou dividida entre três temas: educação, periferia e sexualidade.
Na hora de decidir, eu pensei em fazer algo sobre sexualidade. Quando peguei o recorte LGBT, percebi que mesmo dentro do meio as mulheres lésbicas e bissexuais ainda são marginalizadas. Como Angela Davis, que eu usei como fundamentação teórica, diz: a gente precisa compreender que existem diversos tipos de opressão. Um homem gay vai sofrer opressão por ser um homem gay e uma mulher lésbica vai sofrer opressão tanto por ser lésbica quanto por ser mulher”, defende a jornalista.
A ideia inicial do livro era falar sobre mulheres que amam mulheres, abordando temáticas como saúde, educação e diversos outros temas que permeiam a vida de mulheres lésbicas e bissexuais. Mas, quando começou a pesquisar sobre o campo da saúde, Darc reparou que sua visão precisava mudar um pouco.
Encontrei tanta coisa, encontrei tanto relato e a falta de informação prévia pra fundamentar o capítulo, que eu percebi que era aquele o meu tema. Eu tinha muito medo de ir a fundo nesse tema, mas era aquele tema”, assegura.
Esse medo, explica a autora, vem do tabu que é falar sobre sexo entre mulheres na sociedade. “Sou uma mulher, jovem, queria falar sobre sexo e era sobre sexo entre vaginas. Tive muito medo de entrar nesse assunto e atrelar meu nome a esse assunto porque eu venho de uma família que não conversa abertamente sobre sexo. Sexo lésbico é um tabu ainda maior e falar sobre esse tema é um assunto muito pessoal porque eu sou uma mulher bissexual. Então, eu não escreveria só sobre outras pessoas, tanto que no livro eu me coloco muito em primeira pessoa, pois é um tema pessoal. O livro começa com um relato meu de uma situação que eu passei em um consultório médico em 2015”, conta.

Como um convite para um diálogo, o nome do livro é uma referência ao “ponto G” da mulher. “Esse movimento é quando a gente introduz um dedo no canal vaginal e faz o movimento do ‘vem cá’, com isso a gente consegue alcançar o ponto G”, explica a autora. As cores da capa são inspiradas na composição da bandeira lésbica.

Depois de definir o recorte, Larissa se deparou com um problema: a falta de especialistas sobre o assunto.
Como o principal ponto do livro é o despreparo dos profissionais em lidar com mulheres que não transam com caras, ou que transam com caras e com meninas, foi muito difícil achar profissionais. No meio do processo, eu dei um recorte e decidi falar só com mulheres, então todas as entrevistas são com mulheres. Por isso, quando eu comecei a procurar médicas que atendiam meninas lésbicas e tinham propriedade pra falar sobre o assunto, não queria alguém que não entendesse do assunto, pois li algumas reportagens e tinha entrevistas com médicas que não faziam ideia do que estavam falando, elas falavam para as meninas usarem plástico filme durante o sexo, sendo que não foi feito para isso”, explica.
Quando começou a conversar com médicas especialistas na saúde sexual de mulheres que se relacionam com mulheres, a autora descobriu que a falha no atendimento começa na faculdade.
As faculdades de medicina não formam os médicos para nada que não é heteronormativo [relacionamentos pessoas heterossexuais como padrão social], isso exclui tanto gays quanto lésbicas. Uma das médicas me falou que em algum momento da faculdade deram uma cartilha para ela sobre sexo gay e ponto. Então eles não falam nada do que foge do heteronormativo. Quando elas vão fazer a residência médica em ginecologia, as boas residências são em obstetrícia, que é pra cuidar de mulheres grávidas, então não existe preparo nenhum”, explica.
De contrapartida, encontrar histórias de descaso e despreparo médico foi fácil. Um dos casos contados é o de Cris Cavalcante, sobrevivente de um câncer descoberto em estágio avançado, quando já estava do tamanho de uma bola de futebol americano. O motivo da demora do diagnóstico foi a negligência médica: os médicos que atenderam Cris não quiserem realizar os exames por ela ser lésbica e não ter tido relações com homens.
Foi a primeira vez eu fiz uma apuração e não tive desafio. Eu postava em qualquer grupo de mulheres lésbicas perguntando se alguma delas já tinha tido algum problema com atendimento ginecológico e vinha uma enxurrada de relatos. Eu tive que escolher os relatos que mais me impactaram”, relembra Larissa.
Uma das descobertas da autora, durante o processo de produção do livro, são as ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) que mulheres lésbicas e bissexuais estão vulneráveis a contrair por não existir um método de prevenção ou proteção durante o sexo.
Depois do livro, eu fiquei pensando bastante sobre ações que já podem ser feitas, já que não existe nenhum dispositivo de proteção de IST entre lésbicas. Existe a camisinha, que serve para relação com pênis, tanto a masculina quanto a feminina, e só. E nenhuma das duas se adapta perfeitamente à relação sexual entre mulheres. Seria legal fazer alguns estudos, mas isso leva tempo”.
Mesmo com diferença no atendimento particular e público, como explica Larissa, o sistema ginecológico de modo geral não está preparado para atender mulheres lésbicas e bissexuais.
No SUS, além do exame ser bem mais curto, você não sabe quem é o médico que vai te atender, se ele é bom ou não, e tem a questão da demora. Na primeira vez que eu fui ao médico, que é a primeira vez que eu conto no livro, demorou muito para me atenderem, eu estava com um corrimento e não sabia o que era, precisei ir num farmacêutico que minha mãe confiava, falar os sintomas, ele presumir que era uma determinada infecção, me passar o antibiótico e eu dei sorte de ter dado certo, mas podia ser uma infecção que me desse alguma consequência. Depois eu fui em uma médica particular, que me atendeu super bem, mas até hoje eu tenho dúvidas se ela me atendeu bem porque eu já tinha tido relações com homem ou por que ela era particular”, detalha a autora.
Apesar disso, Larissa assegura que a melhor alternativa para a saúde dessas mulheres ainda é o atendimento ginecológico.
Eu sei que a violência que elas sofrem é uma realidade comum e constante, mas tem algumas coisas que podem aliviar boa parte do sofrimento. Pessoas que já fizeram papanicolau sabem que é bem incômodo quando se coloca o espéculo, que é aquele instrumento que se usa para dilatar a entrada da vagina para poder coletar o material, mas ninguém fala que existem tamanhos diferentes – então há tamanhos menores que podem ser usados por mulheres lésbicas, que tem tamanho de um dedo”, explica.
O livro, feito por mulheres para mulheres, será lançado em São Paulo em março. A autora garante que o objetivo é trazer à tona a discussão para, assim, estimular mulheres lésbicas e bissexuais de se atentarem à saúde sexual. “Eu espero que esse livro chegue nas pessoas para que elas comecem a pensar nisso e conversar sobre isso. O livro não traz nenhuma resposta definitiva pois é uma reportagem. Se a gente não estiver pela gente mesmo não vai ser eles que vão estar. Se a gente não pensar em formas de melhorar o atendimento médico, em formas de criar dispositivos de proteção, em formas da gente cuidar da gente mesmo, eu tenho certeza de que não vai ser o governo que vai fazer isso”, defende Larissa.

Data: 19 de março; Horário: 19h30
Local: Livraria Tapera Taperá – Av. São Luís, 187 – República, 2º andar, loja 29 – SP

Fonte: Ponte (direitos humanos, saúde, segurança pública), por Paloma Vasconcelos, 03/03/2019

Ver também Cartilha Prazer Sem Medo (saúde e sexualidade para lesbianas) 

Mulher negra sai do armário aos 40 e diz que foi a coisa mais libertadora de sua vida

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019 0 comentários

Nicole Gilley relata seu calvário até se assumir lésbica

Por que esperei até ter 40 anos para dizer que sou lésbica?
Sou uma mulher negra, criada por mãe solo e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos.

Eu nunca quis ser lésbica. Fui criada por minha mãe solo, que me ensinou que a homossexualidade é a única abominação que Deus não perdoa. Durante minhas três primeiras décadas de vida, tentei de tudo para expulsar minha natureza. Eu passava noites incontáveis chorando de joelhos, suplicando para Deus tirar isso de mim, sem entender por que ele teria me feito carregar essa cruz se ser homossexual era realmente pecado. As noites que eu não passava rezando eram passadas embaixo de inúmeros homens cujos nomes eu nem me dava ao trabalho de descobrir. Eu pensava realmente que, se transasse com homens suficientes, isso faria minha heterossexualidade pegar no tranco. Não funcionou, é claro.

Quando eu tinha 23 anos e estava morando em Los Angeles, comecei a trabalhar num call center, recebendo ligações para um serviço de encaminhamento a dentistas. Foi ali que me apaixonei para valer pela primeira vez, por uma colega de trabalho. Quando ela percebeu o que eu estava sentindo, graças à minha falta de sutileza, me denunciou para o call center inteiro.

A humilhação me obrigou a sair da empresa e começar a trabalhar com vendas, onde continuei a evitar minha sexualidade e a transar com homens. Com 31 anos, me matriculei numa faculdade pública e continuei a fazer de tudo para fugir da minha sexualidade – trabalho, estudos, álcool, noitadas. Mas aos 32 anos fui internada às pressas, com diagnóstico de gastrite e duas úlceras. Entendi então que não conseguiria expulsar minha homossexualidade com orações. Finalmente admiti para mim mesma que eu era lésbica. Ali mesmo no leito do hospital, resolvi que em vez de ficar onde eu estava e evitar minha sexualidade, eu iria embora.
Passei noites incontáveis chorando de joelhos, suplicando a Deus para tirar isso de mim, sem entender por que ele me fez carregar essa cruz de ser homossexual se isso era realmente pecado.
Comecei a me candidatar a cursos universitários de quatro anos para onde pudesse pedir transferência, e pouco tempo depois de completar 33 anos, larguei meu emprego na Califórnia e me mudei para Nova York, onde fui morar no Harlem e estudar na NYU. Eu tinha uma meta na cabeça: ser verdadeira comigo mesma e abraçar minha sexualidade. Nova York me pareceu que seria o melhor lugar para fazer isso. Depois de me mudar para lá, entendi que não era a vergonha de minha mãe que me estava impedindo de ser quem eu era: era minha própria vergonha. Em Nova York, eu falava com minha mãe com frequência e pensava honestamente que poderia abraçar ser lésbica e conservar um relacionamento com ela. Nunca parei para refletir sobre os efeitos que manter segredo teriam sobre mim, minha vida amorosa e meu relacionamento com minha mãe.

Mesmo estando a milhares de quilômetros de minha família, eu não conseguia simplesmente pressionar um interruptor e virar abertamente gay. Dois meses depois de me mudar para Nova York, finalmente criei coragem de ir ao meu primeiro bar de lésbicas. No frio, embarquei no metrô da linha D e fui para o centro. Quando cheguei perto do bar, vi algumas mulheres – imaginei que fossem lésbicas – do lado de fora, fumando cigarros, sorrindo e dando risada. Dominada pelo medo e a vergonha, passei reto e, em vez de ir àquele bar, fui a outro bar nas proximidades e bebi até afogar meu sentimento de vergonha. Tentei imaginar como aquelas mulheres podiam amar a si mesmas, sendo como eram. Como eu faria para chegar a isso? Voltando para casa, tomei a decisão de nunca mais tentar aquilo. Tinha me provocado ansiedade demais.

Só consegui me sustentar em Nova York, vivendo na cidade e estudando na NYU, por um ano. Depois desisti. Eu não podia voltar para casa, então em janeiro de 2012 resolvi me mudar para Las Vegas e estudar na Universidade de Nevada. Seria a mesma ideia: eu seria lésbica em outro estado e conseguiria meu diploma de faculdade. Percebi que ir a um bar representava pressão demais para me relacionar com outras lésbicas, então em 2015 me aventurei no namoro online e conheci uma mulher. Estar com ela foi o início de meu processo de me compreender. Eu estava apaixonada e queria que o mundo inteiro soubesse, mas ela estava no armário. Foi uma coisa arrasadora, porque, além de meus próprios problemas de sentir vergonha de mim mesma, agora eu estava lidando com os dela também. No final, não consegui mais encarar, e nos separamos. Tudo o que eu queria era poder ligar para um serviço de terapia familiar pelo telefone e me abrir com quem atendesse, mas eu não podia.

No final de 2015 eu estava com 38 anos, tinha me formado na faculdade e estava mais do que pronta para voltar para casa, para Los Angeles, mas ainda não pretendia me assumir como lésbica diante da minha família. Levei mais seis meses para decidir que eu precisava fazer terapia. Foi assim que me vi sentada diante de uma mulher branca de 30 e poucos anos, chorando loucamente e contando a ela que eu não queria ser gay. Tentei imaginar se ela teria condições de compreender realmente como é ser uma lésbica negra. Será que ela sabia que a comunidade negra é notoriamente homofóbica? Sou uma mulher negra, criada por mãe solteira e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos. O fato de ter crescido em conflito entre quem eu era e quem ela queria que eu fosse me provocava muita dor, confusão e depressão.
Sou uma mulher negra, criada por mãe solteira e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos.
Me perguntei se a terapeuta teria como me ajudar a encarar o fato de que sair do armário implicaria perder o amor e a aceitação de minha mãe. Ela poderia me ajudar a ganhar força suficiente para realizar o que eu me propunha a fazer? Uma vez por semana eu passava 90 minutos sentada num consultório bege com decoração discreta, aprendendo a dizer "sou lésbica". Fiz cinco meses de terapia até começar a contar às pessoas.

Pouco antes de completar 40 anos, resolvi contar primeiro a uma prima minha, e ela me deu todo o apoio. Outros amigos também me apoiaram, mas eu tinha medo de me assumir diante de minha melhor amiga. Ela nunca tinha mostrado apoio aberto à homossexualidade. Na realidade, os gays muitas vezes eram os alvos de suas piadas. Quatro meses depois de me abrir com minha prima, procurei minha amiga, e, para surpresa minha, ela me deu apoio total. Meu medo todo tinha sido desnecessário. Minha amiga passou os últimos 20 anos tentando servir de casamenteira para mim; acho que esse papel dela não mudou, só que agora ela me apresenta para mulheres, em vez de homens.

Foi um alívio mostrar a minhas melhores amigas quem eu sou de verdade, mas eu ainda estava nervosa, sem saber como reagiriam meus familiares religiosos. Eles me rejeitariam? Depois de pouco a pouco começar a contar outros primos e parentes, percebi que essas pessoas todas gostavam de mim de verdade e não se importavam com quem eu namorasse. Só queriam que eu fosse feliz. Mas ainda faltava eu falar com minha mãe.

Era uma noite de sábado. Minha mãe e eu estávamos sentadas num restaurante Roscoe's Chicken. Inicialmente tentei dizer que eu era bissexual, na esperança de acostumá-la à ideia aos poucos. É claro que isso não funcionou – apenas lhe deu a falsa esperança de que eu ainda poderia namorar um homem. Ela disse terminantemente que nunca aceitaria que eu fosse lésbica, mas não chegou a dizer que isso era nojento ou que eu era nojenta.

Desde então, tenho tido uma conversa contínua com ela. Quando a Tchetchênia promoveu um expurgo dos gays, minha mãe falou que é melhor que o governo os pegue antes que Jesus o faça.
Dizer que aos 40 anos eu não anseio pela aceitação e aprovação de minha mãe seria mentira.
Minha mãe me disse que, se eu me casar algum dia, ela não vai ao casamento. Embora seja isso que mais me doa, fui obrigada a entender que esse é um problema dela, não meu. Mereço ser feliz na vida, e não devo ter vergonha de ser quem eu sou. Minha mãe e eu ainda nos falamos, mas agora falta intimidade no nosso relacionamento. Ela não sabe nada da minha vida nem das mulheres com quem saio. E não quer perguntar sobre isso. Nosso relacionamento se limita a falar generalidades sobre política ou as coisas que estão acontecendo na vida dela. A posição dela sobre minha sexualidade não mudou, e, como ela tem 75 anos, não imagino que vá mudar.

Dizer que aos 40 anos eu não anseio pela aceitação e aprovação da minha mãe seria mentira. Eu quero muito, mas percebi que não preciso disso para ser feliz. Alguns dias são melhores que outros, mas na maioria dos dias eu me vejo caminhando com uma nova visão de quem sou e com nova confiança, pelo fato de ser lésbica assumida.

Sair do armário aos 40 anos foi a coisa mais libertadora que pude fazer por mim mesma, e a única coisa que lamento é não ter feito isso antes. Não passo mais minhas noites chorando, e, com o encorajamento de minha terapeuta, minhas amigas e mentoras, olho com confiança e prazer para o futuro, querendo aproveitar minha nova vida como lésbica e me libertar de qualquer resquício de sentimento de vergonha.

Fonte: Huff Post BR, 14/05/2018

Cartas de amor entre duas freiras lésbicas no século 12

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019 0 comentários


2019 está começando e ainda tem gente que precisa ter receio de viver o amor por causa do preconceito alheio. Se hoje em dia ainda é difícil, ainda que com muitos avanços, imagine no século 12, e quando as apaixonadas são um casal de freiras.

O achado foi compartilhado por Erik Wade, professor e pesquisador de História da Sexualidade na Universidade de Bonn, na Alemanha. Ele encontrou o documento em um artigo da professora Jacqueline Murray.

Wade disse ter achado a carta “muito bonita e poderosa, mesmo centenas de anos depois”, e que acredita “ser importante ver exemplos positivos de desejo entre o mesmo sexo de períodos históricos antigos”, inclusive na Idade Média, que ele diz ser um período muito mais complexo do que se pensa ao enquadra-lo como ‘idade das trevas’.

Confira a carta – já traduzida do latim medieval pata o inglês – e sua tradução para português:
“Para C-, mais doce que mel ou favo de mel, B – envia todo o amor que existe para o seu amor. Você que é única e especial, por que você demora tanto tempo, tão longe? Por que você quer que sua única morra, alguém que, como você sabe, te ama com alma e corpo, que suspira por você a cada hora, a todo o momento, como um passarinho faminto.

Desde que eu tive que ficar sem sua doce presença, eu não quis ouvir ou ver qualquer outro ser humano, mas como as rolinhas, tendo perdido sua companheira, empoleira-se para sempre em seu pequeno ramo seco, então eu lamento sem fim até que eu aproveite sua confiança de novo.

Eu olho e não encontro minha amante – ela não me conforta nem com uma única palavra. De fato, quando reflito sobre a beleza de sua fala e aspecto mais alegre, fico completamente deprimida, pois não encontro nada que eu possa comparar com seu amor, mais doce que o mel ou o favo, comparável com o brilho do outro e da prata.

O que mais? Tudo em você é gentileza, perfeição, então meu espírito definha perpetuamente por sua ausência. Você é desprovida da ousadia de qualquer falta de fé, você é mais doce do que leite e mel, você é inigualável entre milhares, eu te amo mais do que qualquer outra.

Você é o meu amor e desejo, você é o doce resfriamento da minha mente, não há alegria para mim em qualquer lugar sem você. Tudo o que foi delicioso com você é cansativo e pesado sem você.

Então eu realmente quero te dizer, se eu pudesse comprar a sua vida pelo preço da minha, [eu faria] instantaneamente, pois você é a única mulher que eu escolhi de acordo com o meu coração.

Por isso, rogo a Deus que a morte amarga não venha a mim antes que eu desfrute da visão desejada de você novamente. Adeus. Tens de mim toda a fé e amor que existem. Aceite a escrita que envio e, com ela, meu constante pensamento.”
Fonte:  Hypeness, 12/2018 ," A correspondência amorosa entre duas freiras lésbicas no século 12"

Estreante Carol Fazu comenta papel como lésbica em Segundo Sol

sexta-feira, 28 de setembro de 2018 0 comentários

Carol Fazu, a Selma de Segundo Sol (Foto: Isabella Pinheiro/Gshow)
Carol Fazu, a Selma de Segundo Sol (Foto: Isabella Pinheiro/Gshow)

Interpretando lésbica em núcleo polêmico, estreante Carol Fazu comenta papel em Segundo Sol

Um dos núcleos que vêm causando mais polêmica na novela Segundo Sol é o que envolve Selma – Carol Fazu -, Doralice (Robertha Rodrigues), Maura (Nanda Costa) e Ionan (Armando Babaioff). O autor João Emanuel Carneiro surpreendeu o público e promoveu um triângulo amoroso, o que foi criticado por algumas pessoas, que o acusaram de confundir a cabeça das pessoas sobre o tema LGBT.

Estreante na TV, a interprete de Selma concedeu entrevista ao site Gshow e ignorou a polêmica. Para ela, o papel é de grande importância para o público sobre o assunto e afirmou que as pessoas estão torcendo pelas duas lésbicas da trama.
As pessoas estão vibrando com o tema da novela, torcem pelo amor das personagens e falam da importância do debate sobre o assunto para combater o preconceito, que ainda existe, infelizmente. É uma delícia o reconhecimento do trabalho”, disse ela, que comemorou o trabalho ao lado de medalhões da TV brasileira, como Giovanna Antonelli.
Sempre fui fã dela, que é uma atriz completa e talentosa. Outro dia contracenei com o Francisco Cuoco, que faz parte da história da TV. Olha que honra, só tenho a aprender. Fico muito admirada e me emociono em estar perto de ótimos profissionais”, destacou.
Diferente de Selma, Carol revelou que a maternidade não é prioridade em sua vida. 
Tem mulheres que têm o instinto de ser mãe, independentemente de estar em uma relação. Sempre que pensei em ter um filho, pensei em formar uma família”, revelou.
Ela destacou que hoje em dia esperar não é um empecilho.
Hoje, a idade não é uma questão. Há a ciência e tecnologia de congelar os óvulos. É bom prolongar o prazo. Acabei priorizando a minha carreira. A maturidade me ensinou que tudo tem seu momento”, contou.
Fonte: TV Foco, por 09/09/2018 

A vida de gays e lésbicas na velhice

quinta-feira, 20 de setembro de 2018 2 comentários

Naiara (E): "As pessoas se torcem para olhar. 'Onde já se viu
 duas velhas sapatonas no meio da rua?'"Andréa Graiz / Agencia RBS

A velhice entre iguais: como é a vida de gays e lésbicas depois dos 60 anos
A rotina na terceira idade inclui a paixão e, também, o sexo. Mas, para os homossexuais, pode haver particularidades. GaúchaZH ouviu idosos sobre seus afetos e suas relações

Elas simulam o primeiro beijo até hoje: se há algum desentendimento, um selinho que depois passa para um toque de lábios mais demorado, quando uma não deixa a outra se afastar, tem o poder de lembrá-las da fortaleza do relacionamento de mais de três décadas e, ao mesmo tempo, do frescor de que esse amor ainda desfruta. 

A comerciária aposentada Mary Saupe Malavolta, 66 anos, com os cabelos grisalhos que nunca quis pintar, já está plenamente instalada na terceira idade, grupo formado pelos indivíduos a partir dos 60. Falar de envelhecimento é comum para uma população que está se tornando cada vez mais longeva, mas a velhice dos homossexuais ainda é tabu até mesmo entre o público LGBT. Desafios como a deterioração da forma física e da saúde, a necessidade de amparo, a solidão e a falta de políticas públicas específicas podem dar tons mais dramáticos às vivências desse grupo, nativo de um tempo em que as relações entre pessoas do mesmo sexo eram reprovadas com muito mais veemência.

Mary e a companheira, a servidora pública federal aposentada Ana Naiara Malavolta Saupe – uma adotou o sobrenome da outra –, 51, estão juntas há 33 anos. Enfrentaram caras feias e grosserias no começo, namoraram escondidas, tiveram suas próprias barreiras a superar, como qualquer par, mas jamais passaram por uma situação que provocasse um rompimento. São reconhecidas como um casal não apenas nas rodas por onde circulam e pelos vizinhos, mas também quando são somente duas anônimas na multidão: andam de mãos dadas, abraçam-se na parada de ônibus, afagam-se quando sentadas lado a lado. A tolerância com a diversidade deveria ter aumentado muito em todo esse período, mas elas ainda chocam.
Sai comigo e com a Mary na rua um dia. As pessoas se torcem para olhar. "Onde já se viu duas velhas sapatonas no meio da rua?" — relata Naiara.
Alguns querem tirar a prova e as questionam se são mãe e filha, dando abertura para a resposta natural:
Não, ela é minha esposa. 
Andréa Graiz / Agencia RBS

A sensibilidade do tema e o forte preconceito ainda vigente ficaram evidentes nas dezenas de tentativas de Zero Hora para convencer idosos homossexuais a contarem suas histórias. A reportagem carecia de voluntários dispostos a falar abertamente, sem se proteger por trás de nomes fictícios ou letras iniciais, e a se deixarem fotografar. Possíveis entrevistados, quando contatados, sentiram-se até ofendidos. Alguns toparam conversar, narrar suas rotinas – a prática de frequentar saunas para socializar e se satisfazer sexualmente, os encontros clandestinos, a dificuldade de arranjar parceiros devido à idade –, mas apenas como desabafo, sem cogitar jamais que as confidências viessem a público. Muitos saudaram a ideia de ver o tema no jornal como um meio de conscientizar os leitores e dissolver preconceitos, mas se desculparam por não terem interesse ou coragem de encarar a repercussão. Um conhecido senhor de mais de 80 anos alegou que uma tia sabia de sua orientação, mas jamais suportaria passar pela exposição do sobrinho.
Se já é difícil ser gay no dia a dia, imagine quando todos os vizinhos e parentes enxergarem minha foto estampada no jornal falando sobre minha homossexualidade — alegou outro dos personagens sondados para dar um depoimento.
Não é questão de se esconder, de ser enrustido, o que não sou, mas expor minha vida em jornal não faz minha cabeça — desculpou-se um terceiro, de 68 anos. — Somos pessoas que pertencem a uma geração muito reprimida. Na época de juventude, éramos vistos como coisa demoníaca, um pecado, um insulto a Deus, uma aberração. Fomos achatados por uma cultura religiosa, educacional e familiar, o que é bem diferente da gurizada de hoje, muito mais livre, solta, natural nos seus gestos e atitudes, que teve pais que não a sufocou com conceitos retrógrados e pobres.
Mary, 66 anos, e Naiara, 51, moradoras de Viamão, estão juntas
há mais de três décadas Andréa Graiz / Agencia RBS

Quando pequena, como quase toda menina, Mary brincava com bonecas. Com uma diferença fundamental nos papéis atribuídos a ela e aos brinquedos: o contexto não era de mamãe e filhinhas, mas de namoradas que se beijavam. As duras reprimendas da mãe eram acompanhadas de palmadas na bunda e beliscões nos braços. Mary se sabia diferente, mas levou muito tempo até descobrir o que era. Seguiram-se amores platônicos pela professora e por uma menina da escola, além de tentativas de casinhos com meninos – por pressão de familiares e amigos –, cujos beijos lhe provocavam repulsa. 
Eu não tinha a quem recorrer, organizações que pudessem acolher ou tirar dúvidas. A homossexualidade era considerada anormal. Eu nem conhecia a palavra lésbica. Conhecia a palavra que a minha mãe usava: machorra — recorda a comerciária, durante uma manhã de agosto em que conversou com a reportagem, na companhia de Naiara, diante do fogão a lenha de casa, em Viamão. 
A primeira relação com uma mulher aconteceria apenas por volta dos 30 anos. Mary virou motivo de chacota e, ao mesmo tempo, um troféu a ser conquistado: naquela idade, ainda era uma "princesinha", virgem, disputada por garotas que queriam lhe ensinar as artimanhas da transa entre iguais. Em um período de muito sofrimento, Mary era cobrada para que se assumisse. À época, os termos "coturno" ou "sapatilha" designavam os papéis masculino e feminino na relação. 

Um episódio traumático traria uma certeza. Lateral-direita de boa técnica e condicionamento físico, Mary disputava um campeonato feminino de futebol no Litoral quando deu um chute forte que atingiu em cheio a coxa de uma jogadora. A atleta se queixou, começaram as reclamações, um burburinho, "manda embora essa sapatão!", "não pode!", "é homem!". De repente, a fúria da quadra incendiou a plateia ao redor.
Sapatão! Machorra! — urrava quase uma centena de torcedores. 
As crianças olhavam para Mary como se mirassem um ET. Ela segurou o choro. Amigos a incentivaram a "ficar surda" para a balbúrdia. O jogo recomeçou, a lateral marcou incríveis 10 gols e deu mais quatro ou cinco boladas nas adversárias. Seu time ganhou. 
Aquilo me fortaleceu em algumas convicções. Saí arrasada, cara, mas sem nenhuma dúvida do que eu era — recorda.
Naiara estava na turma que deu força a Mary na partida. Apesar do fracasso da abordagem inicial, anos antes, na boate Vitreaux, quando Mary aproveitou a trilha sonora para revelar suas intenções em relação à jovem atraente, bem mais moça do que ela, cantando Deixa Eu te Amar, de Wando ("Quero te pegar no colo/ Te deitar no solo e te fazer mulher"), ambas já haviam entrado uma na vida da outra para não mais sair.

Duplo estigma

Envelhecer, para a população homossexual, pode ser mais pesado devido a um duplo estigma: além dos muitos enfrentamentos que homens e mulheres têm no espaço social, eles ainda sofrem com a rejeição dentro do grupo. Ou seja, gays e lésbicas idosos, frequentemente, são desprezados ou ignorados por seus pares mais jovens. O sociólogo Murilo Peixoto da Mota, do Núcleo de Estudos em Políticas Públicas de Direitos Humanos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), descreve um movimento comum de recuo, protetivo, na idade avançada. 
 O homem que, ao longo da vida, lutou para se autoafirmar como homossexual, quando consegue tornar isso público, depara com o seu envelhecimento. Então, muitos voltam para o armário depois de terem lutado para sair do armário — explica o autor de Ao Sair do Armário, Entrei na Velhice... Homossexualidade Masculina e o Curso da Vida.
Mota percebeu resistência ao assunto inclusive em suas pesquisas:
 É um tema do gueto na academia. A academia olha de lado: que importância tem estudar gay velho?
Outros marcadores podem tornar a experiência do envelhecimento ainda mais dolorosa. Carlos Eduardo Henning, antropólogo, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador na área da gerontologia LGBT, cita, além da homossexualidade e da velhice como geradores de preconceito, a raça e a classe social. A experiência varia em graus de dificuldade para gays e lésbicas idosos de classes altas ou baixas e para os negros, por exemplo. 

Henning encontrou as primeiras publicações sobre o envelhecimento LGBT datadas da década de 1960, apresentando um cenário sombrio, sobretudo para os homens, solitários e excluídos dos espaços de socialização, tomados pela mocidade. Era como se os gays idosos não existissem. Decorrido mais de meio século, houve avanços. Hoje, relata o pesquisador, a representatividade é um pouco mais ampla, graças à atuação de militantes e à inserção do tema no enredo de filmes, séries e novelas – Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg provocaram polêmica ao se beijarem no primeiro capítulo de Babilônia, trama exibida em 2015 pela Globo (RBS TV). Para Henning, agora é possível, graças a exemplos positivos, vislumbrar um futuro para os homossexuais. 
Algumas pesquisas mostram que, para você se conceber como velho, não teria como se conceber como gay. Quando as pessoas não veem modelos bem-sucedidos de velhice, não conseguem conceber o que é isso, vira um vácuo de representação. Esse traço de imediatismo era muito presente há 10 anos. Muitos diziam: "Estou vivendo o momento, não vou chegar à velhice, não quero envelhecer". Agora a gente está vendo que a velhice é um projeto possível. A juventude de hoje começa a pensar que um futuro como velho LGBT é algo bem distinto de antigamente. Muitos entrevistados me disseram: "Eu nunca me imaginei chegando até aqui" — conta Henning, também pesquisador do Ser-Tão – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero e Sexualidade, ligado à UFG.
Apesar da militância pelas causas lésbica e feminista, Mary tinha até anos atrás uma trava que a levou a buscar apoio psicológico: fugia das demonstrações públicas de carinho. Naiara, também ativista, cobrava:
 Estou aí falando de liberdade e a gente não consegue sair de mãos dadas. Como assim?
As sessões, durante um ano e meio, provaram-se libertadoras.
 Me reafirmei como lésbica. Não tenho que ter medo de expressar a minha sexualidade, e é um direito que tenho o de ser respeitada por isso. Comecei a dar entrevista, sair de mão dada com ela, abraçá-la... Chamo ela de "mor" em qualquer lugar agora — orgulha-se Mary.
A visibilidade, garantem as duas, é protetora, empodera. A vergonha e o medo, por outro lado, dão brecha para agressões e chacotas. Se ouve algum comentário depreciativo ou piada de mau gosto, Mary encara: 
Qual é o problema que o senhor tem com isso? No que posso ajudá-lo? Tem alguma dúvida? Quer saber alguma coisa? Porque eu sou lésbica!
Tanta segurança também impulsiona Mary a intervir em defesa de outras mulheres. Em mais de uma ocasião, flagrou homens forçando proximidade com jovens em ônibus lotados. Furiosa, chamou a atenção das vítimas, que, muitas vezes, entretidas com os celulares, nem perceberam o que estava se passando.
 Por favor, senta aqui no meu lugar, menina — pediu Mary certa vez. — Senta aqui que eu quero ver se vão se esfregar em mim como estão se esfregando em ti! — falou, alto, atraindo a atenção dos demais passageiros.
Ao trocar de posição, encarou o abusador, indicando com as mãos o seu próprio corpo:
Tá, meu querido, vai ou não vai? Não gostou do material? Vamo lá!
Começou uma movimentação no coletivo, outros usuários se oferecendo para atirar o sujeito pela janela, Mary dispensando a ajuda e alegando estar no comando da situação. Na parada seguinte, o agressor desembarcou.
 Não aguento mais esse tipo de coisa — revolta-se ela.
No exercício de uma intimidade tão duradoura, Mary e Naiara observam em detalhes as mudanças em seus corpos. Mary sentiu a diminuição da libido na menopausa. No toque e no beijo, sua falta de vontade para o sexo já era percebida pela parceira, o que nunca foi motivo de atrito, graças a muita conversa. A comerciária diz não se constranger por estar 15 anos à frente. Questionada sobre o que a incomoda defronte ao espelho, tem dificuldade em encontrar a resposta. Pensa e responde: as varizes. No geral, a diminuição da força e do vigor. Para Naiara, a atração continua intacta. 
Adoro o barrigão dela! — diverte-se a servidora pública aposentada, provocando uma gargalhada geral. — (O envelhecimento dela) não afeta minha libido, de jeito nenhum. As pessoas são condicionadas a achar que tem a ver com a estética. Não tem! Tem a ver com o cheiro, a química, a intimidade. Adoro o cheiro dela. A cumplicidade que a gente tem... Somos duas mulheres, não há entendimento melhor do que esse. Ela sabe que sou apaixonada por ela.
Mary retribui:
 Nós tiramos na loteria quando nos encontramos.
A residência do bairro São Lucas está à venda. O plano, antigo, é uma mudança para a Bahia – o pai de Mary, de 87 anos, vai junto. É hora de aproveitar a vida, justificam elas. Pretendem também organizar uma espécie de comunidade, cercando-se de pessoas que possam cuidar umas das outras conforme a idade aumenta.
Morrer é da vida, né? A probabilidade é de que eu vá antes — comenta Mary, explicando que esse tema não é proibido nas conversas. 
Quero mais 33 anos do ladinho dela — deseja Naiara.
Fonte: GauchaZH, 07/09/2018

Segundo estudo da Public Health England, lésbicas têm vida sexual mais feliz do que mulheres héteros

terça-feira, 24 de julho de 2018 0 comentários


Lésbicas têm vida sexual mais feliz do que mulheres héteros, diz estudo

Mulheres que se relacionam com mulheres têm vida sexual mais satisfatória do que as heterossexuais. De acordo com estudo da Public Health England deste ano, apenas metade das mulheres entrevistadas está feliz com a vida sexual, mas entre as lésbicas o índice é muito maior: pode superar os 70%. 

Segundo estudos publicados em 2014 no "Journal of Sexual Medicine", enquanto as mulheres que transam com mulheres gozam 75% do tempo do sexo, as heterossexuais "chegam lá" em apenas 61% do tempo.  (Entre os homens, por outro lado, a diferença entre o prazer dos gays e dos héteros é mínima: 85% e 86%, respectivamente. )

O motivo?
É simples: as mulheres lésbicas sabem onde é o seu clitóris e sabem o que fazer para conseguir um orgasmo. Elas não precisam mostrar à parceira o que fazer, o que significa que sua satisfação sexual é maior", explicou Matty Silver, terapeuta de saúde sexual, em entrevista ao "The Guardian".
Sue Mann, consultora de saúde pública responsável pela pesquisa da Public Health England, acrescenta que muitos homens deixam as preliminares de lado e acreditam que a parceira vai gozar apenas com a penetração, mas apenas 20% das das mulheres, segundo a pesquisa, "chegam lá" sem estimulação clitoriana.
É uma das razões pelas quais muitas mulheres heterossexuais falsificam seu orgasmo", diz Mann. 
Idade

Um dado interessante da pesquisa é que, de acordo com as 7 mil entrevistadas, o sexo melhora com o passar do tempo. Enquanto 50% das mulheres de 25 a 34 anos se dizem satisfeitas com a vida sexual, o número cresce para 71% na faixa etária de 55 a 64 anos.

Fonte: Universa, 13/07/2018

Homofobia pode ser atração pelo mesmo sexo

sexta-feira, 20 de abril de 2018 0 comentários

Homofobia está relacionada à homossexualidade reprimida pela família e desejo de se "defender" (AFP/)

Homofobia pode ser indício de atração pelo mesmo sexo, diz pesquisa
Segundo estudo, pessoas criadas em famílias repressoras podem não aceitar sua própria orientação sexual, tornando-se preconceituosas

São Paulo – A ideia muito propagada de que os homofóbicos são, na verdade, “gays enrustidos” ganha apoio da ciência com um estudo realizado por integrantes das universidades de Rochester e da Califórnia, nos Estados Unidos, e de Essex, na Inglaterra.

A pesquisa aponta que pessoas que crescem em ambientes familiares repressores podem se privar de seus desejos internos. Para evitar o estigma, elas suprimem a atração que sentem pelo mesmo sexo e se tornam preconceituosas, como forma de se defender.

Esse resultado foi publicado na edição mais recente do periódico Journal of Personality and Social Psychology. A conclusão veio a partir de quatro experimentos que testaram, de acordo com o tempo de resposta, a relação entre o apoio à autonomia dado pelos pais e a diferença entre a sexualidade declarada e a implícita.

Cada teste foi feito com cerca de 160 universitários. Nos dois primeiros, eles tiveram que classificar palavras e imagens como “gays” ou “heterossexuais” e, depois, procurar fotos de pessoas de gêneros diferentes. Isso foi feito para que os pesquisadores pudessem analisar a orientação sexual implícita de cada um.

Os experimentos seguintes tiveram foco direcionado à situação familiar, valores, opiniões, crenças e preconceitos presentes na criação dos pesquisados. Após os testes, foi percebido que houve uma maior discrepância entre a orientação sexual implícita e explícita nos participantes cuja família (principalmente a figura paterna) era homofóbica e não dava apoio à autonomia do filho.

Quem se dizia heterossexual, mas demonstrava não ser “internamente”, tinha mais propensão a agir com agressividade contra pessoas gays. Os conflitos revelados e a repressão da própria sexualidade decorrem, segundo os cientistas, do medo de contrariar e decepcionar os pais. Por isso, ao disfarçar sua homossexualidade, elas acabariam se tornando homofóbicas.

Fonte: Exame, por Luciana Carvalho, 12/04/2018

Emmanuelle Seigner e Eva Green vivem romance tormentoso em 'Baseado em Fatos Reais'

segunda-feira, 16 de abril de 2018 0 comentários

Emmanuelle Seigner e Eva Green vivem romance "entre a loucura e a realidade'" em 'Baseado em Fatos Reais'. Divulgação

'Baseado em Fatos Reais', o novo e perturbador filme de Roman Polanski
Longa aborda relação de fúria e amor entre uma mulher e sua escritora favorita.

Consagrado por trabalhar a fundo o lado psicológico de seus personagens em filmes clássicos como O Pianista e O Bebê de Rosemary, o diretor francês Roman Polanski aposta alto em seu mais novo filme para se destacar novamente em 2018.

Baseado em Fatos Reais chegou aos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira (12) credenciado por ter sido escolhido para ser o filme de encerramento da seleção oficial extracompetição do Festival de Cannes de 2017.

A história retrata o romance da escritora Delphine Dayrieux, interpretada por Emmanuelle Seigner (esposa de Roman Polanski), e sua fã número 1, Elle, vivida nas telas por Eva Green.

Elle (Eva Green) vampiriza Delphine (Emmanuelle Seigner )

Na trama, Delphine passa muito tempo sozinha após perder seus filhos e, após relatar seu drama em um livro de muito sucesso, passa por uma crise de criatividade.

É nesse cenário que Elle surge em sua vida e desencadeia um lado criativo da escritora, não apenas como profissional, mas como mulher.

Em entrevista ao site Adoro Cinema, Eva Green revelou que o filme explora algo "próximo à fobia, entre a loucura e a realidade", marca registrada nas obras do diretor francês.

A relação de amor entre a escritora e sua fã parece perfeita no início, mas, com o passar do tempo, ganha contornos dramáticos com a crescente violência física e psicológica de Elle sobre Delphine.

"Elle é como uma vampira. Ela se muda para a casa de Delphine, que está passando por um momento difícil, então decide que vai ajudá-la, responder suas mensagens, usar suas roupas... acaba possuindo-a", comentou uma das protagonistas.

Baseado em Fatos Reais é uma adaptação do livro de mesmo nome da romancista francesa Delphine de Vigan, lançado no Brasil pela editora Intrínseca e traduzido por Carolina Selvatici em 2016.

Assista ao trailer oficial do novo filme de Roman Polanski no vídeo abaixo:



Fonte: HuffPost Brasil, por Paulo Amaral, 13/04/2018

Início do namoro das garotas Lica e Samantha da novela Malhação

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017 0 comentários

Atual temporada do folhetim juvenil foi marcada por alguns beijos entre pessoas do mesmo sexo.
Foto: Globo/Reprodução

Lica (Manoela Aliperti) e Samantha (Giovanna Grigio) começarão a namorar nos próximos capítulos de Malhação Viva a Diferença. O selinho foi na quinta (21), e o início do namoro será nesta sexta (29/12)

A novela promete tratar o assunto com muito cuidado e delicadeza para não chocar o público. Primeiro, elas se aproximaram e flertaram, igual qualquer casal. Quem tomou a iniciativa e deu um beijão na outra foi Samantha.
Eu andei pensando no que a gente conversou e… Acabei de descobrir que sou mais corajosa do que eu pensava. Não sei onde isso vai dar, mas não tô nem aí!”, dirá Samantha, antes de dar um beijo na boca de Lica.
Garota! Você é louca mesmo!”, declarará ela, sorrindo.
Após o beijo, Lica dialogou com Tina (Ana Hikari), que questionou o que a amiga achou da atitude de Samantha.
Eu? Eu adorei! Achei bem louco e bem sexy!”, ela disparou.
Cês duas são bem doidinhas mesmo, né?”, falará Tina.
Pode ser, mas acho que isso é bom, sabia? A gente se entende”, responderá Lica.
Tô vendo que essa história tá só começando. Eu tenho que desligar agora, mas depois eu quero saber todos os detalhes!”, comentará Tina.

Só não demora muito porque aqui o ritmo é acelerado, os capítulos voam… Depois vai ficar difícil te atualizar”, brincará Lica.
O início da paquera entre as meninas começou na quinta-feira (21), quando trocaram um selinho. Mas o beijo e o início do namoro entre elas acontece nesta sexta (29).

Fonte: Diário de Pernambuco, 22/12/2017

Prisioneiras: 80% das detentas têm comportamento homossexual nos presídios brasileiros

terça-feira, 11 de julho de 2017 0 comentários

Drauzio Varella em seu consultório em São Paulo. 

Drauzio Varella: “O único lugar em que a mulher tem liberdade sexual é na cadeia”
Em novo livro sobre uma penitenciária feminina, oncologista discute as marcas do machismo na trajetória das presas

"A prisão é um experimento sádico da nossa sociedade”, afirma o oncologista e escritor Drauzio Varella. Mas sem ignorar a dor provocada pelo confinamento, abandono e distanciamento dos filhos e familiares, o médico vislumbra no cárcere um espaço onde mulheres conseguem se livrar, ao menos temporariamente, da repressão machista que impera do outro lado do muro. “As mulheres são reprimidas desde que nascem, não existe nenhum outro local na sociedade onde ela é livre assim como na cadeia”, afirma Varella em entrevista ao EL PAÍS. Atrás das grades da Penitenciária Feminina da Capital, no Carandiru, convivem em harmonia diversos tipos de sapatões (homossexuais que assumem aparência masculina), entendidas (homossexuais que mantêm aparência feminina) e mulheríssimas (heterossexuais que ocasionalmente tem relações com mulheres) - os termos foram criados pelas próprias presas. A exceção são as aborteiras, que precisam ficar em celas isoladas.

O escritor relata suas experiências tratando de detentas no livro Prisioneiras(Companhia das Letras). A obra fecha uma trilogia – os outros são Carandiru e Carcereiros ambos publicados pela mesma editora - sobre sua vivência de décadas atendendo de forma voluntária presos e presas paulistas. "Cadeia é um lugar muito sensível de uma sociedade. Se você visitar uma cadeia, um pronto socorro e um estádio de futebol lotado, você consegue fazer uma ideia de como é uma sociedade", afirma.

Pergunta. Existe comportamento homossexual nos presídios femininos?

Resposta. O comportamento homossexual entre as presas é muito mais abrangente do que aparenta no início. Isso leva tempo para perceber. Porque essas relações femininas são mais sutis. Na cadeia de homens você percebe que alguns presos são notadamente homossexuais. Mesmo que não sejam travestis, são homossexuais, andam com outro homem que você sabe que é o marido dele. Na cadeia feminina não. Entre elas as relações adquirem uma outra dinâmica. Um número muito grande de presas tem comportamento homossexual, é a maioria esmagadora! Gira em torno de 80%, talvez até mais.

P. No livro você fala sobre os diferentes perfis de homossexualidade no presídio feminino. O que lhe chamou a atenção?

R. O contato com essas diferenças de sexualidade é imediato. Quando você entra numa cadeia feminina tem uns 15% de mulheres que você olha e são homens. Estas mulheres usam o cabelo bem curto, com aquelas riscas que jogador de futebol faz, elas têm trejeitos de homem. Se você faz uma observação mais cuidadosa percebe que elas não se depilam. Quando eu fui examiná-las, percebi que elas não usam calcinha, usam cueca, e tops bem apertados para esconder o seio.

Essas mulheres que têm aparência masculina são sapatões. Na rua é uma palavra pejorativa. Na cadeia não. Elas falam assim: “Sou casada com um sapatão”, com o maior respeito. As que têm o estereótipo feminino não são sapatões, já entram na categoria das entendidas. E com o tempo percebi que não se pode dividir em duas categorias, porque existem vários subtipos: o sapatão original, que já era lésbica do lado de fora, sapatão sacola, que é hetero nas ruas, mas na cadeia assume outra identidade de gênero, sapatão badarosca, sustentada pela parceira, e a chinelinho, que elas dizem que sai da cadeia e abandona o homossexualismo, calça o chinelinho de cristal e vai atrás do príncipe encantado.

P. Por que você acha que o comportamento homossexual predomina nos presídios femininos?

R. O único lugar em que a mulher tem liberdade sexual é na cadeia. Não existe nenhum outro local na sociedade onde ela é livre assim. As mulheres são reprimidas desde que nascem: a menina de dois anos de idade senta com a perna aberta e a mãe diz “fecha a perna”. Essa repressão ocorre o tempo inteiro. Comportamentos que são aceitos e naturalizados para um homem são execrados para mulheres. E no presídio, sem os homens, não existe essa repressão social. Isso faz com que elas tenham o comportamento social que desejarem ter. A homossexualidade está muito mais próxima do universo feminino do que do masculino, e o que a cadeia faz é criar condições que dão liberdade para que a mulher se comporte do jeito que ela achar melhor, sem repressão. E do outro lado você tem a solidão. Essa mulher vive praticamente sozinha, pouquíssimas recebem visitas íntimas, apenas umas 120 de um total de 2.200.

P. Nenhum comportamento sexual é malvisto na cadeia feminina?

R. Existem comportamentos sexuais que não são bem vistos, mas não são reprimidos. Elas não se diminuem de jeito nenhum por ter essa ou aquela conduta sexual. Uma sapatão original, por exemplo, não pode ficar com outra sapatão original. Elas dizem que é “pederastia”. A lógica interna delas é: se você é sapatão original você é um homem, está vendendo a imagem de um homem. Não pode “rebolar”, como elas dizem. O sapatão original nem se deixa tocar e não tira a roupa de jeito nenhum. Na hora do exame você percebe que tem um certo constrangimento, eu tenho sempre muito cuidado. Eu examino uma mulher com muito mais liberdade do que um sapatão. Eu digo “olha, vou ter que levantar a camiseta para poder te auscultar”. É algo que fui aprendendo na prática.

P. A sexualidade então é muito diferente de um presídio masculino...

R. O homossexual ou a travesti no presídio masculino não pode nada. Não pode distribuir comida, não pode brigar com outro, não pode gritar com malandro... Não pode enfrentar jamais. Na detenção morria gente quando acontecia isso. Já no feminino tudo é visto com naturalidade. “Minha mulher”, elas falam. “Sou casada com fulana”, “meu amor foi para o regime semiaberto, estou sozinha, estou triste”. E as guardas, a diretoria, todo mundo respeita, ninguém cria caso.

P. Que outras diferenças você observa entre um presídio masculino e um feminino?

R. A diferença fundamental é que essas mulheres todas têm filhos. É muito raro encontrar alguma sem filhos. O homem quando está preso pode até estar preocupado com os filhos dele - alguns nem aí, né? Mas ele sabe que tem uma mulher cuidando das crianças: uma irmã, uma tia, a mãe... Mas gravidez indesejada é problema para a mulher, não para os homens, porque eles simplesmente abandonam. A mulher vai pra cadeia e perde o controle da família. Ela sabe que as crianças vão ficar desprotegidas: as pessoas abusam de criança com a mãe presa. E os filhos muitas vezes são espalhados. Imagina três irmãos, acostumados a ficarem juntos, e quando a mãe é presa vai cada um para um lado. Imagina a dor dessas crianças. E a mulher sabe disso, sabe que quem está causando isso é ela, ela foi a responsável pela separação. Ainda que de forma involuntária, foi algo provocado pelo crime que ela cometeu.

Quer machismo mais evidente do que um cara ser preso e condenado a mais de 25 anos de cadeia, e a mulher não pode abandonar ele, tem que fazer visita íntima todo final de semana? E quando a mulher vai presa o cara simplesmente desaparece.

P. Um número grande de mulheres foi presa por tráfico de drogas. Como se aproximam desse universo?

R. Muitas vezes o crime foi a forma de sobrevivência que ela encontrou. Não quer dizer que ela tenha a mentalidade perversa. Ela começou a traficar droga, usava um pouco, conhecia os traficantes... Na periferia o traficante muitas vezes é o seu colega de classe, você brincava com ele no recreio. E de repente ele está no crime. Aí num aperto ou até por vontade de melhorar de vida, a mulher tem ali a pessoa que oferece uma oportunidade de trabalho que ela não teria de outra forma. Sem ter que passar por aquela condição sofrida, com um esforço enorme de deslocamento para ir trabalhar, horas e horas todo dia por um salário ruim. E uma vez que elas começam a ganhar dinheiro traficando, esquece.

P. A população carcerária no Brasil não para de crescer. Estamos enxugando gelo?

R. Como a sociedade age? É preciso ter alguma repressão ao crime. Senão vira uma tragédia social, ninguém sai de casa. Só que precisamos estar conscientes de que a repressão não reduz a criminalidade. É uma guerra perdida. Nos anos 90 tínhamos 90.000 presos no Brasil. Agora temos 675.000. Aumentou 700%. E a criminalidade não caiu, a insegurança é cada vez maior. Então aprisionar não reduz a criminalidade.

É preciso que a sociedade reflita: estamos prendendo pessoas que têm que ser presas? Crimes que não são violentos devem ser punidos com prisão? Isso custa caro, não só a manutenção de um preso lá dentro, mas o fato de que ele vai sair pior. Não é à toa que eles chamam cadeia de faculdade do crime. O cara sai de lá articulado, conhecendo muita gente. A cadeia congrega.

P. Se prender não é a solução, como se resolve esse problema?

R. Quer atacar o problema da violência? Tem que ir lá atrás. Três condições aumentam o risco de violência. Por que ela se dissemina nas classes mais pobres? Porque lá estão os fatores de risco. São as crianças que sofreram abuso na infância ou tiveram uma infância abandonada. Que na adolescência não tiveram imposição de limites ou conviveram com outros mais violentos. É a condição de milhões de brasileiros. É de estranhar que não tenhamos mais gente ainda envolvida com o crime.

P. Por que aumentou o número de mulheres presas?

R. São muitos fatores. Primeiro há uma liberdade maior para a mulher. Antes ela ficava trancada em casa. Só que esses direitos que as mulheres conquistaram não foram distribuídos igualmente. Nas classes mais pobres a situação melhorou, mas elas não se beneficiaram tanto dessa evolução econômica e social. Elas ainda vivem numa sociedade profundamente machista. E isso se reflete na iniciação sexual precoce e na gravidez na adolescência. A menina que tem filho aos 14 anos faz o que? Para de estudar. 75% delas param, porque não tem com quem deixar a criança. E ao parar de estudar ela comprometeu o futuro dela e da criança também.

P. Como as presas lidam com quem fez aborto?

R. Elas reprimem as que fazem aborto. Não podem conviver, são expulsas, vão para o seguro [ala da prisão destinada a estupradores e jurados de morte]. É malvisto quase como um estuprador no presídio masculino, mas com um pouco mais de tolerância, porque elas não matam a que fez aborto. Elas dizem que quem pratica aborto “mata criancinhas”.

P. Quais os maiores problemas de saúde das presas?

R. O problema básico delas é a obesidade. Porque lá elas são sedentárias e tem uma dieta rica em carboidratos. Elas ganham peso e ficam hipertensas e diabéticas. Isso é muito comum, assim como a dor nas costas e problemas ortopédicos provocados pelo excesso de peso.

E elas também têm doenças pulmonares relacionadas ao cigarro. Muitas começaram a fumar com 10 anos. Essas têm os lábios azulados e os olhos cheios de vasinhos de sangue. Quando elas entram para o exame eu tenho uma técnica de aterrorizar mesmo. Eu digo “olha, morte por enfisema não desejo pro meu pior inimigo. Olha bem nos meus olhos. Sou médico, não tenho interesse nenhum em você morrer ou ficar viva, não faz diferença nenhuma na minha vida, mas eu tenho obrigação de dizer o que vai acontecer”. Elas ficam muito assustadas, mas nem todas param.

P. Qual a vantagem para um preso de ser do Primeiro Comando da Capital(PCC)?

R. O PCC é uma ideologia. Muito mais do que uma organização criminosa. Eles se impuseram primeiro com a violência, mas só isso não basta, então desenvolveram uma ideologia. Qual a justificativa? Primeiro, acabar com a repressão no sistema. E segundo, vingar a morte dos 111 do Massacre do Carandiru. O PCC é consequência direta do massacre, isso está no estatuto deles. Extorsão das famílias e roubos das coisas que elas traziam para os presos eram comuns. Aí o PCC fala: “nosso problema é se defender do sistema”. Qual a vantagem de ser do PCC? Você tem a segurança dos irmãos[nome dado aos integrantes] em todo o país. No presídio e na rua. E ninguém mais morre na cadeia. Todo mundo diz que o maior sonho de quem está preso é a liberdade. Não é. É se manter vivo. E o PCC garante isso. As famílias do preso recebem cesta básica todo mês... Em compensação, você obedece ordens. Se mandarem matar, você mata.

P. E o papel das mulheres no PCC?

R. Elas não pagam mensalidade sob a justificativa de que elas são mães, que têm criança para cuidar. Os homens do PCC pagam 600 reais. Quando elas são presas, as famílias têm o mesmo direito a uma cesta básica. Se elas são casadas com alguém do PCC, são chamadas de cunhadas. As do PCC são as irmãs. Cunhadas e irmãs são respeitadíssimas. Elas têm autoridade no presídio, mas recebem ordens de fora, da torre geral [apelido dado à cúpula da organização]. As mulheres ocupam o degrau inferior, a base do PCC. Uma ou outra que se destaca pode fazer parte da torre. Mas o comando é dos homens, é uma organização totalmente machista.

P. É possível que surja uma facção só das mulheres?

R. Não, acho difícil. Porque se existisse iria competir com o PCC, e isso é impossível. Eles são muito violentos com concorrentes e com quem vai contra eles.

P. Quem é mais cruel no presídio, homens ou mulheres?

R. Acho que os homens são mais violentos do que as mulheres. A violência da mulher é de outro tipo, não é tanto física, é mais uma tortura psicológica. As histórias que eu escuto das presas antigas são assustadoras. Chegava uma menina bonitinha na cadeia, a sapatão olha e a mulher dela ficava com ciúmes. Aí metia uma gilete na cara da novata. Eu conheço várias mulheres mais velhas, com 50 anos, com cicatriz no rosto. O diretor da cadeia, Maurício Guarnieri, diz que “o homem quando tem um problema com o outro vai lá e mata. A mulher quer ver sofrer”.

P. O estupro é aceito na cadeia feminina?

R. Hoje não existe mais. Tinha estupro antigamente, uma mulher mais forte obrigava a outra a fazer sexo com ela, apesar do estupro sempre ter sido reprimido na cadeia feminina. É curioso. O homem não aceita o estupro, muito embora o faça. [...] O cara mata um pai de família, comete um latrocínio, e é bem visto na prisão. Estuprador morre. As maiores barbaridades que eu vi na cadeia foram contra estupradores. É inesquecível, nos momentos mais inesperados, volta a imagem daqueles corpos mutilados.

P. A situação dos presídios de São Paulo é péssima. Porque não temos mais rebeliões?

R. Existem dois lados desta questão. São Paulo desenvolveu um sistema de administração penitenciária muito competente, que envolve os funcionários, carcereiros e a administração. Existe um setor de inteligência que fica interceptando chamadas telefônicas, juntando pedaços de um quebra cabeça. E tentam se antecipar: “esse cara está levando informação pra lá, vamos transferir”. É um jogo de gato e rato.

Por outro lado, rebelião atrapalha muito os negócios do crime. Existe um interesse do PCC. Já ouviu falar de fuga em São Paulo? Há muito tempo não se fala de fuga. Em nenhuma cadeia do mundo você tem isso. O próprio PCC sabe que não pode bater de frente, já fizeram isso no passado. Mas ir para o enfrentamento causa problemas que repercutem aqui fora. O PCC amadureceu muito com os anos, surgiu com uma violência absurda, mas foi se moderando.

P. O PCC tirou o pé da luta contra o Estado que apregoavam no estatuto?

R. Eles viram que não dava certo para eles, né? Veja quantos morreram em maio de 2006 [naquele mês a facção desencadeou ataques contra agentes de segurança pública, seguidos por uma retaliação de grupos de extermínio]. Você acha que mataram filho de investigador e não morreu ninguém da família de membros do PCC? Fizeram esse tipo de ação em outros Estados, em São Paulo de jeito nenhum. Existe um interesse econômico muito grande. Eles faturam 500 milhões por ano. Imagina. Sem imposto. Que empresa fatura isso?

P. Como retratar as presas de forma a não vitimizá-las nem retratá-las como monstros?

R. É uma coisa meio natural, que eu faço desde o Carandiru. Pensei muito nisso ao escrever o Carandiru. Não gosto de ler livros quando percebo uma intenção oculta do autor. É lógico que toda história passa pelo filtro de quem escreve, mas não posso tomar partido enquanto estou escrevendo. Eu tento contar a história como um narrador que está vendo de fora. Ninguém é vítima. Elas entraram por esse caminho do crime por alguma lógica delas. E independentemente do que fizeram, elas não perdem sua condição humana.

P. O que mais te comoveu em todos esses anos de trabalhos nos presídios?

R. Acho que as cenas que mais me tocam são as cenas de estupro. No Brasil 100% das mulheres sofreram algum tipo de abuso sexual. É um cara que põe a mão na perna, fala um absurdo, aproveita o aperto do ônibus... E isso independe de classe social. Mas é lógico que é pior nas classes sociais mais baixas. E grande parte dos estupros são cometidos por familiares. É o avô, padrasto, vizinho, namorado da mãe... Estupram crianças de seis anos. Imagina que futuro, o que pode acontecer com uma criança que passou por uma coisa dessas... Essas histórias são tão comuns...

P. Toda essa convivência com presos fez de você alguém melhor?

R. Melhor não sei, acho que mais interessante (risos). Porque você não passa por uma experiência dessas incólume. Isso te molda. Penso que se eu não tivesse essa experiência toda eu não teria a visão social que eu tenho. Cadeia é um lugar muito sensível de uma sociedade. Se você visitar uma cadeia, um pronto socorro e um estádio de futebol lotado, você consegue fazer uma ideia de como é uma sociedade. Confinar pessoas em cadeias é um experimento sádico. Como as pessoas se comportam nessa situação? Que regras se estabelecem? Os primatas se organizam.
Fonte: El País, Gil Alessi, Marina Ross, 09/07/2017

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 
Um Outro Olhar © 2025 | Designed by RumahDijual, in collaboration with Online Casino, Uncharted 3 and MW3 Forum