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Chanacomchana 7: resgate e edição comentada

quarta-feira, 2 de agosto de 2023 0 comentários


CCC 7 nov., dez., jan. 84/85 © Coleção Chanacomchana. Míriam Martinho


Em dezembro de 1982, era lançado o primeiro número do boletim Chanacomchana seguido de outros 11 números (ver resgate do CCC 1 aqui, CCC2 aqui, CCC 3 aqui, CCC 4 aqui, CCC 5 aqui, CCC6 aqui, CCC 7 aqui, CCC 8 aqui, CCC 9 aqui, CCC 10 aqui, CCC 11 aqui). Neste artigo, abordo o ChanacomChana 12, não sem antes falar do contexto histórico e político de onde o periódico emerge, fundamental para entender sua produção e conteúdo (ver mais informações em Memória Lesbiana: 41 anos de ChanacomChana  aqui).

Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) e sua primeira publicação, o boletim Chanacomchana, nascem durante o primeiro ciclo do MHB (Movimento Homossexual Brasileiro) também chamado de ciclo libertário (78-83/84) porque nele prevaleciam as ideias da Contracultura, aquele grande guarda-chuva de movimentações e movimentos socioculturais e comportamentais que se inicia já nos anos 50, percorre as décadas de 60 e 70, terminando no início dos anos 80. Retomando elementos do anarquismo e do romantismo, a Contracultura vai priorizar a revolução individual, politizando o cotidiano e as inter-relações humanas (o privado é político) e retomando a máxima gandhiana de que as pessoas tinham que se tornar a mudança que queriam ver no mundo. Não havia interesse na tomada de poder do Estado, objetivo dos partidos políticos, mas sim na revolução molecular dos grupos discriminados e oprimidos que unidos superariam a incompetência da América católica e seus ridículos tiranos (Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval - Caetano Veloso).

Na prática, os grupos daquele incipiente movimento se preocupavam com a não reprodução da política tradicional, suas hierarquias, disputas de poder, discursos da boca para fora, e tentavam (com pouco sucesso) não reproduzir suas mazelas. Nesse sentido também, pregavam a autonomia dos movimentos sociais em relação aos partidos políticos, uma das bandeiras de maior bom senso daquela época. O GALF era tributário dessas ideias (vide o texto Autonomia), via esquerda libertária, das ideias do feminismo de segunda onda, com seu questionamento dos papéis sexuais, e das correntes do separatismo lésbico do também incipiente movimento lésbico internacional.

A Revolução DIY
Todo esse amálgama de ideias e inspirações aparecem nas páginas do Chanacomchana do seu período inicial e nele permanecem no período posterior, de 1985 em diante, apesar do afã revolucionário contracultural do MHB ir sendo paulatinamente substituído pelo reformismo pragmático de grupos como o GGB e o Triângulo Rosa.

Também do ponto de vista gráfico, o CCC vai seguir a ética e a estética contracultural do "Do It Yourself - DIY" (Faça você mesmo) matriz, entre outras produções, dos fanzines produzidos artesanalmente, com colagens e mistura de tipos gráficos, e, no conteúdo, com uma miscelânea de textos políticos, tirinhas, desenhos, poesias, depoimentos, notícias e app arcaico de namoro (o Troca-cartas). Nas vendas, o corpo a corpo junto ao público-alvo ou, posteriormente, via correios através do sistema de associação.

Nem o GALF nem o ChanacomChana refletem qualquer luta contra a ditadura militar mesmo porque seu contexto histórico é o do governo da abertura do general Figueiredo, da redemocratização, que se iniciara com a revogação do AI-5 em 13/10/78, ainda sob o governo Geisel. De fato, o governo Figueiredo foi uma democratura, uma convivência de elementos ainda autoritários do regime em decomposição com aumento crescente de características democráticas caminhando a passos largos para o restabelecimento do poder civil. Embora a censura, só revogada com a Constituição de 1988, ainda existisse no período, ela não vitimou o GALF ou o ChanacomChana em momento algum. Tal fato pode ser constatado facilmente pela simples leitura dos Chanas onde não se encontram sequer informes referentes ao regime militar, muito menos registro de qualquer arbitrariedade que tenhamos sofrido dos militares. O GALF e suas publicações foram, de fato, insurgências contra a ditadura da heterossexualidade obrigatória praticamente onipresente do período.

Chanacomchana nº – Edição comentada

Sumário

Editorial e Informes (início) - p. 1
Enrustimento e Solidariedade - p. 2
Poesia - p. 3
Família - p. 5 a 8
Lésbicas e Família - p. 9-15
Informes (final) - p. 16-17
Uma História de Heterror - p. 18 a 21
Troca-Cartas e Anúncios - p.22 


1985 - Um divisor de águas para o GALF e o Chana

Antes de resenhar a edição 7 do Chana, vale salientar que o ano de 1985 foi um divisor de águas para o GALF e o Chana, iniciando um processo de afastamento gradual do movimento feminista (o texto Uma História de Heterror exemplifica um dos porquês disso) e uma depuração da identidade do grupo que, ao final do ano, irá se desvencilhar finalmente da ligação simbólica com o coletivo que o precedeu (Grupo Lésbico-Feminista -05/79-06/81). 

Do ponto de vista visual, a partir deste número 7, já se observa maior homogeneidade dos tipos gráficos e mais espaço dos textos dentro dos blocos do boneco onde eu colava os artigos, mudanças derivadas do advento das máquinas de escrever elétricas. Também a capa deste número terá duas cores, diferenciando-o dos demais.

Em termos de conteúdo, eu passo a denominar a seção de correspondência entre mulheres de Troca-Cartas, seção que manterei nas outras publicações que produzi tanto pelo GALF quanto pela Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar (boletins e revista Um Outro Olhar). Também a partir desse número, um tema em particular passa a ser analisado a partir de uma perspectiva mais geral e depois especificamente lésbica. Nesta edição, o tema central foi a família, sua construção histórica e como ela interferia na vida das lésbicas.

Editorial p.1
Editorial e Informes, p. 1 (Míriam Martinho)

Neste editorial, eu falo dos 4 anos do título ChanacomChana, já separando a produção do tabloide de 1981, como do grupo lésbico-feminista (coletivo anterior ao do GALF) e a do boletim como do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) a partir de 1982, embora ainda incorporando o histórico do LF ao do GALF.

Também observo a importância do boletim para o grupo, aliás, mais do que importante, seu esteio, sem o qual não teria conseguido sobreviver durante 8 anos e meio numa época em que grupos lésbicos não duravam nem 8 meses. De fato, o Chana inclusive norteou algumas das atividades mais conhecidas do grupo como a manifestação do Ferro's ocorrida exatamente com o objetivo de poder voltar a vendê-lo no referido bar.

O pequeno informe que está nesta página eu comento na parte de informes abaixo.

p.2
Enrustimento e solidariedade, p. 2 (Mônica)

O tema do enrustimento (posteriormente rebatizado de ficar no armário) aparece várias vezes no trabalho do GALF e se reflete em seu boletim. Neste texto, assinado por Mônica (colaboradora do boletim), a autora elenca os problemas derivados de sacrificar a integridade por aceitação social. A lésbica que levava vida dupla inclusive discriminava as poucas que se assumiam, particularmente as que fisicamente fugiam do padrão feminino, as fanchonas, pois estas eram uma bandeira ambulante. Neste afã, cavava sua própria solidão, pois de fato não se protegia do preconceito e perdia a possibilidade de se relacionar com suas semelhantes em orientação sexual, ocasião em que podia ser ela mesma. 

A autora então propõe que as lésbicas tentassem superar seus temores da rejeição social por sua homossexualidade através da amizade e solidariedade com outras lésbicas para, no futuro, conseguirem um espaço próprio onde pudessem ser assumidas completamente sem medo da sociedade. 

Poesia, p.3 (edição Míriam Martinho) 

p. 3
Poesia era um espaço que eu definia como "para as lésbicas poderem falar de como era bonito, sensual, gostoso e ótimo amar outra mulher." Nesse sentido, sempre busquei trazer poesias de teor romântico e erótico de autoras conhecidas e desconhecidas que apreciavam escrever poesias, mais ou menos elaboradas, atividade pela qual lésbicas sempre tiveram predileção.

Safo domina a cena nesta edição da seção Poesia. Trouxe uma tradução do poeta Paulo Hecker Filho para o poema de Safo À Braquea, do inglês To the girl Brachea), uma ode de amor a uma jovem bela e inatingível chamada Braquéa.


Evocando a grande poetisa grega, Zulmira vai produzir rimas bonitinhas sobre o amor das Marias em Amor, o artesão:


Em Linda Pequenina, Vânia vai ver na estrela pequenina de um céu de verão, a lembrança da amada que lhe proporcionou uma noite de delícias: "Sinto ainda suas carícias daquela noite de tantas delícias. As estrelas continuam brilhando. / Sempre vejo aquela estrela pequenina que me alegra e me anima e me recordo de você... Tão linda pequenina!"

Em Vara, Vange Leonel declara a necessidade de aprofundar-se no amor erótico com a mulher amada para não perdê-la: "Pra não te perder em furos bolsos de atraso, em rasos derrapes de superfície. Só me resta resgatar o fundo, o mais fundo em que já fomos, e fomentá-la a toda hora."


Família, 5-8 (Rosely Roth)

Quando deus era uma mulher, p.5
Neste tópico sobre a família, Rosely vai traçar o histórico milenar dessa instituição e como ela foi estruturada para garantir a dominação e exploração da mulher pelo homem através da religião, da monogamia para as mulheres, dos papeis sexuais de masculino e feminino. Lembra que a própria palavra "família" remete ao latim famulus, o conjunto de servos e dependentes de um chefe ou senhor. Traça o histórico dessa instituição a partir da bibliografia que lista ao final do texto, bibliografia que aponta como uma das hipóteses para a passagem das sociedades matriarcais para as patriarcais e para a formação da família nuclear monogâmica a descoberta do papel do homem na reprodução e o desenvolvimento da propriedade privada.

p. 5

Rosely aponta o caráter histórico-social dos papéis sexuais de masculino e feminino e de como toda a estrutura patriarcal era um fenômeno social e não natural como sua repetição levava a crer.
p. 5 e 6

E propõe alternativas para o modelo de família nuclear patriarcal:

p. 6

Faço agora um aparte para comentar esses trechos do texto de Rosely. Existem várias hipóteses sobre a passagem do matriarcado (sociedade de predominância feminina) ao patriarcado (sociedade de dominância masculina). A ideia da descoberta do papel do homem na reprodução humana e o advento da propriedade privada é uma delas. No entanto, a observação de sociedades matriarcais ainda existentes nos rincões do planeta questiona essa hipótese. 

p. 4
Na sociedade Mosuo, no sudoeste da China, perto do lago Lugu, as mulheres tomam a maioria das decisões de negócios e gerenciam as famílias completamente. A propriedade é transmitida através da linha feminina e não há nenhum estigma em não saber quem é o pai de uma criança. Sequer existe uma palavra para pai e marido, e as crianças são criadas coletivamente (um pouco como na proposta alternativa de Rosely). Nesta que é conhecida como a última sociedade matriarcal do mundo, os homens têm óbvia consciência de seu papel na reprodução humana e existe propriedade privada que é passada de mãe para filha. No entanto, repetindo, se trata de uma sociedade matriarcal e matrilinear. Abaixo, um vídeo relativamente recente sobre essa sociedade. Ver mais aqui 
     

E as lésbicas nisso tudo? 

No último subtítulo de seu texto, Rosely vai abordar o quanto a família tradicional contribuía para a introjeção da chamada lesbofobia internalizada, com a autoimagem negativa que as lésbicas desenvolviam por desejar outra mulher, pela necessidade de mentir sobre sua vida íntima para não perder o apoio dos familiares e de como acabavam como arrimo de família pois não desenvolviam uma família própria em função do preconceito. 

p. 7
Esta parte do texto de Rosely, precisa ser contextualizada historicamente tendo em vista que hoje casais de lésbicas são publicamente visíveis, casam-se formalmente, criam filhos biológicos ou adotivos, enfim, formam sua própria família. Mas, na década de 80, a maioria das lésbicas estava no armário, levando vidas duplas e sofridas, cheias de culpa e com poucas realizações na esfera íntima. 

p. 5

Lésbicas e Família, p. 9-15 (Bete e Luiza Granado)
p. 9

Lésbicas e Família é uma entrevista feita ainda nas dependências da casa que o GALF tentou dividir com o CIM em 1984 com as integrantes e então colaboradoras do grupo. Cabe salientar que o GALF teve apenas 3 integrantes constantes nos seus 8 anos e meia de existência: eu mesma, Luiza Granado e Rosely Roth. Todas as demais foram circulantes, com mais ou menos tempo de permanência. Em 1984, quando ainda tínhamos sede, reunimos nove dessas integrantes e colaboradoras para a realização desta entrevista cuja produção ficou a cargo de Bete e Luiza (Granado) com edição minha.  As participantes da entrevista responderam às três perguntas abaixo:

Sobre se as respectivas famílias sabiam da lesbianidade das filhas, seis das entrevistadas (Dulce, Leda, Míriam, Mônica, Neide, Rosely) disseram que sim, três que não. Das seis que disseram sim, duas, Dulce e Mônica, não se assumiam para toda a família. Eliza, Luiza e Rute disseram que não se assumiam. Das assumidas, apenas Neide disse que não teve maiores problemas com a família por ter sido sempre abertamente lésbica e ter nascido numa aldeia indígena onde as pessoas eram mais livres. Todas as outras assumidas sofreram algum tipo de rejeição a princípio, a ponto de tentarem o suicídio (Leda) ou serem obrigadas a fazer terapia (eu mesma) além de relatarem problemas de autoestima e repressão sexual pelo preconceito. 

Das que se não se assumiram, uma, Rute, afirmava viver uma situação também muito comum com as famílias de lésbicas no período: a família fingia que não sabia e a filha fingia que não sabia que a família sabia. As outras duas se enquadravam no perfil das lésbicas que viravam arrimo da família porque, enquanto os irmãos hétero partiam para o casamento, elas permaneciam oficialmente solteiras: 

Eliza, p. 9-10

Luiza, p. 10

p. 14

Sobre como viam a família, houve um consenso negativo sobre a instituição: tolhedora da liberdade dos indivíduos (filhos deixando de fazer o que gostam para não desagradar pais e irmãos), produtora de hierarquias de poder entre seus membros (poder do homem sobre a mulher, dos pais sobre os filhos, do irmão sobre a irmã), implementadora dos restritivos papéis sexuais de masculino e feminino, esmagadora da individualidade dos filhos sobre os quais os pais projetam seus desejos, monopolizadora da afetividade das pessoas (pessoas tendo que viver com quem não gostam), castradora do crescimento afetivo, sexual e intelectual das crianças.

Como alternativa à essa instituição tão negativa na opinião das entrevistadas, algumas apontaram como saída uma estrutura comunitária que criasse as crianças com múltiplos afetos:

Luiza, p.13

Míriam, p.13

Rosely, p. 14

Sobre se as relações lésbicas podiam reproduzir a família, a maioria das entrevistadas afirmou que sim, algumas criticando a reprodução dos papéis de feminino e masculino (fancha-lady) nos relacionamentos entre mulheres, outras dizendo que mesmo nos relacionamentos "fancha-lady" não havia uma similaridade integral com as hierarquias opressivas das relações heterossexuais.
Das entrevistadas, quatro afirmaram que era necessário coragem, espírito crítico constante com referência aos próprios mecanismos autoritários e os da companheira, esforço consciente no sentido de romper com a reprodução dos modelos familiares opressivos a fim de criar formas de convivência onde o respeito às fronteiras da companheira prevalecesse.

Em 1985, o modelo de relacionamento tradicional ainda se fazia bem presente, embora o casamento não fosse mais indissolúvel (o divórcio fora aprovado em 1977 durante o governo Geisel). O concubinato passa a ser considerado entidade familiar, com o nome de união estável, pelo art. 226, § 3º da nova constituição de 1988. A revolução sexual da Contracultura que pregava o amor livre, as relações não-monogâmicas, se encerrou com a chegada da AIDS (1980-1982) onde o sexo casual passou a ser visto como vetor da morte. Iniciava-se a época do sexo seguro com a formação das primeiras ONG de prevenção à síndrome. As lésbicas passaram relativamente incólumes por essas mudanças e, embora algumas tenham experimentado as chamadas relações abertas da contracultura, os relacionamentos monogâmicos se mantiveram em alta reproduzindo ou não as relações tradicionais. Hoje diferentes modelos de relacionamento convivem sem os estigmas do passado, mas, a considerar o número de casamentos entre gays e entre lésbicas, resta saber se a reprodução dos papeis hétero ainda se projetam nas relações homossexuais e quanto.
Egon Schiele, A Família, 1918

Informes p.1 - p. 16-17 (Míriam Martinho)


Aborto no Rio

A deputada Lúcia Arruda (PT-RJ) dava conta de que seu projeto de atendimento aos casos de aborto previsto em lei, na rede de saúde pública do RJ, havia sido aprovado. Segundo a deputada, as principais beneficiadas seriam as mulheres de baixa renda que assim teriam assistência médica gratuita e adequada. Mas até hoje o aborto ainda não foi descriminalizado.

Moção contra a discriminação antihomossexual

Informe sobre moção contra a discriminação a gays e lésbicas, de iniciativa do GGB, aprovada no VIII Congresso de Psiquiatria em novembro de 1984. O texto da moção foi o seguinte:

p. 16

Projeto de lei do Deputado França Teixeira contra a discriminação antihomossexual

De fato, o deputado em questão consta no site da Câmara Federal como integrante do PSD (Partido Democrático Social), não como PFL (Partido da Frente Liberal), e não se encontra o projeto em questão na lista dos projetos que propôs. O PSD foi o partido do governo Figueiredo, oriundo da Arena, partido dos militares, durante a maior parte de seu regime. E o PFL foi uma dissidência do PSD. As duas siglas coexistiram durante o mesmo período, razão pela qual pode ter havido alguma confusão quanto ao registro partidário do deputado. O interessante a destacar, mesmo que não tenha apresentado o projeto, é o fato de um deputado da direita conservadora ter elaborado um projeto que previa punição para "os crimes praticados em razão de sexo, orientação sexual ou estilo de vida."

Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a década da Mulher (1975-1985)

Informe sobre a citada conferência que viria a ser realizada no Quênia, em Nairobi, para avaliação da chamada década da mulher, paralelamente ao Fórum das Organizações Não-Governamentais. Nesta ocasião viriam a ser discutidos os avanços no programa elaborado em 1975, para a eliminação das diferenças salariais e de educação e saúde entre mulheres e homens, apoiado por um Fundo de Contribuições Voluntárias.

A situação dos grupos lésbicos (na conferência acima citada)

O ILIS (serviço de informação lésbica internacional), na época sediado na Holanda, pretendia levar ao Fórum das Organizações Não-Governamentais e talvez na própria Conferência as demandas dos grupos lésbicos nas temáticas de saúde, educação, emprego e racismo incluindo-as nas demandas gerais das mulheres holandesas. Embora a questão homossexual fosse assunto a ser ignorado ou rejeitado enfaticamente, o ILIS acreditava poder quebrar ao menos parcialmente esse tabu.

8 de Março Dia Internacional das Mulheres

Notinha sobre o dia com a narrativa que corria à época de que teria sido estabelecido em conferência de 1910, numa Conferência de Mulheres, por socialistas alemãs em homenagem a tecelãs que haviam sido mortas pela polícia, em Nova York, num incêndio criminoso por reivindicar melhores condições de trabalho. Essa narrativa não encontra eco nos fatos como vim a saber muitas décadas depois. Escrevi sobre o tema em 8 de Março: A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher

III Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe

Informe sobre o citado encontro previsto para os dias 1 a 4 de agosto e que foi de fato organizado na cidade de Bertioga. Na versão anterior do evento, no Peru, foi tirada resolução de que a lesbianidade seria discutida como parte das questões das mulheres em geral:

p. 17

No Chanacomchana 9, eu vou fazer um relato até positivo sobre esse encontro que será o outro momento-chave, como citei no início deste resgate, para o processo de afastamento gradual do movimento feminista e para a depuração da identidade do GALF que, ao final do ano, irá se desvencilhar finalmente da ligação simbólica com o coletivo que o precedeu (Grupo Lésbico-Feminista -05/79-06/81).

p. 17
Dicas de livros sobre lesbianismo e homossexualidade

O Chanacomchana possibilitava muita troca de material com grupos e ajudava, com os livros que adquiríamos, a formar a biblioteca do grupo que foi crescendo bastante com o tempo. Passamos a partir deste número do CCC a dar dicas de leitura com base nos livros que líamos e oferecer cópias dos livros que adquiríamos do exterior.


Aliança Lésbica

Informe sobre um grupo lésbico de Iowa City, nos EUA, chamado Lesbian Alliance, com cerca de 200 integrantes, que buscava suprir as necessidades sociais, culturais e políticas das mulheres lésbicas de sua localidade. Para isso, organizava regularmente festas, concertos, piqueniques, grupos de apoio, conferências, debates, assistência jurídica. Hoje, todos esses espaços lésbicos foram destruídos pelo transativismo. E há gente que defenda.

p. 15

Uma História de Heterror, p. 18 a 21 (Míriam Martinho)

Uma História de Heterror, p. 18


Uma história de Heterror é um texto em que relato a situação arbitrária que vivemos com o grupo feminista Centro de Informação Mulher (CIM), em 1984, em função da divisão de uma sede cedida pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo para abrigar os diferentes grupos feministas que ficaram sem espaço em 1983 devido a problemas financeiros. Quando estavam tentando apoio para obter esse espaço, as integrantes do CIM foram à sede que dividíamos com o grupo gay Outra Coisa solicitar que assinássemos uma carta à Secretaria de Cultura para ajudar nessa conquista, o que prontamente fizemos. E o fizemos simplesmente para ajudar na obtenção da casa no bairro da Luz, centro de São Paulo, já que no momento da assinatura estávamos com uma sede e numa relação bastante satisfatória com o grupo Outra Coisa.

Infelizmente, no começo de 1984, o Grupo Outra Coisa se encerrou nos deixando na mesma situação que outros grupos feministas já vinham vivendo desde 1983, ou seja, sem espaço. Sozinhas não conseguíamos levantar recursos suficientes para bancar uma sede e nos vimos, a contragosto, na situação de tentar dividir a casa do bairro da Luz. Como tínhamos apoiado a conquista da casa formalmente em 1983, e o grupo que iria dividir a sede com o CIM, o SOS Mulher, havia se dissolvido, nos pareceu que não haveria problemas na coabitação. Tivemos que nos desfazer de muita mobiliário para caber na tal sede, mudando para lá apenas com uma estante. O restante do espaço foi ocupado pelo CIM. Apesar disso, após receber um financiamento em julho de 1984, o CIM resolveu se expandir um pouco mais e decidiu simplesmente nos expulsar, embora a casa em questão não tivesse sido pensada só para ele.  Entre tentativas de negociação com a dita entidade, gastamos paciência e reuniões até que em 21 de dezembro, as figuras simplesmente despejaram o material do grupo em meu apartamento. Toda a novela foi descrita em detalhes neste relato Uma História de Heterror que vale ler ou reler à página 18 desta edição. 

O que vale destacar aqui são os aspectos históricos e ideológicos da situação que expuseram mais uma vez as contradições do feminismo daquele tempo e a zero preocupação das ditas feministas com a tal sororidade que sempre pregaram da boca para fora. 

Considerações históricas e ideológicas

Esse relato foi escrito há 38 anos, mas eu o endosso integralmente ainda hoje. Suas ponderações políticas são acuradas, porém gostaria de ampliá-las a partir da perspectiva mais abrangente que tenho hoje. A matriz do Movimento Homossexual no Brasil foi a contracultural, da esquerda libertária, preocupada em fazer a revolução sexual e a utópica revolução dos diversos grupos discriminados irmanados na conjugação de uma nova forma de fazer política fora dos canais institucionais. Embora o Movimento Feminista do período também seja tributário desse contexto, no Brasil e na América Latina, a influência da esquerda tradicional em sua formação era bem significativa. Algumas de suas pioneiras foram mulheres que até participaram da brancaleônica luta armada, ainda em voga na década de 60 e 70, contra a ditadura militar, no modelito das revoluções socialistas, comunistas internacionais, que banharam de sangue o solo onde pisaram.

Daí que, além dos temas da igualdade salarial e de direitos, os questionamentos mais tipicamente feministas vigentes no exterior, a violência doméstica e sexual contra as mulheres, a sexualidade feminina, concorriam muito timidamente com os temas da luta contra a ditadura e a luta de classes. Essa esquerda ortodoxa de onde elas proviam considerava o feminismo coisa de burguesa desocupada e o "homossexualismo" degeneração da burguesia. Não por menos vai ser o primeiro coletivo de lésbicas vindo de outra matriz, o subgrupo lésbico-feminista do grupo Somos (depois Grupo Lésbico Feminista) a incrementar no movimento feminista essas discussões tão polêmicas. Segundo dizem, não pesquisei para confirmar, o panfleto que redigi pelo lésbico-feminista contra a violência contra a mulher, distribuído no II Congresso da Mulher Paulista, em março de 1980, é considerado pioneiro no assunto. Também vai ser esse coletivo que, por sua simples existência, trará a questão da sexualidade para o movimento e servirá como incentivo para muitas feministas começarem a namorar outras mulheres.
No entanto, outra das questões importantes da matriz contracultural, como a discussão sobre todas as formas de poder opressivo e sua reprodução, a autonomia em relação aos partidos políticos, nunca foi absorvida pelo MF, que fazia política dentro dos moldes dos partidos, sindicatos, associações de base de onde muitas provinham e com as quais mantinham relações umbilicais. As brigas das partidárias do PT e do então PMDB atravancavam as pautas específicas das mulheres e produziam barracos mil em congressos e encontros. E mesmo a questão da sexualidade das mulheres, da lesbianidade, após o impacto inicial da entrada do lésbico-feminista no movimento, vai ser empurrada para o armário sob a desculpa de que a identidade lésbica deveria se submergir na identidade feminista, pois uma identidade específica cercearia a fluidez da sexualidade humana (sic). O próprio coletivo do lésbico-feminista, em boa parte, vai comprar esse mandamento e se alienar de sua própria condição dentro desse movimento. O GALF foi o coletivo que, embora tendo suas raízes no coletivo lésbico-feminista (eu e Rosely vínhamos dele), nunca aceitou nem a política tradicional realizada pelas feministas nem a invisibilização das lésbicas dentro do feminismo.

Na prática, isso nos garantiu vários aborrecimentos e baixarias vindas dessas mulheres. O episódio do CIM foi um desses exemplos. O fato é que nós falávamos línguas diferentes, algo que pude observar também em outros episódios. Neste texto Uma História de Heterror, em suas considerações ideológicas eu apontei as várias contradições das ditas feministas sobre a situação: omissão do movimento em mediar o conflito entre o CIM e o GALF com a desculpa de que não queriam tomar partido, algo bem análogo à máxima machista do "em briga de marido e mulher não se mete a colher". Crítica ao fato de termos denunciado o despejo arbitrário na imprensa, considerado lavar a roupa suja do movimento em público, algo bem contrário ao mantra feminista de que o "silêncio era cúmplice da violência". Acusações de vitimismo contra nós e até de calúnia contra o CIM, embora o grupo afirmasse publicamente que a razão para sua arbitrariedade era a necessidade de expansão meramente. Justificativas do despejo pelo critério da força, esquecendo-se que o feminismo buscava criar uma práxis política distante da política tradicional masculina e suas tomadas de poder (parece que só nós acreditávamos mesmo nisso). Observei que essa parada de força e expansão ficava melhor na boca de patriarcas imperialistas do que na de um movimento de mulheres. Por último, o fato de haver mulheres homossexuais no CIM supostamente descartando a possibilidade de heterossexismo na situação, como se o fato de o Pelé ter sido aceito nas rodas das elites brancas significasse inexistência do racismo no Brasil.

Uma História de Heterror, p. 19

Lésbicas e Movimento Feminista

Pegando o gancho da desculpa de que não haveria heterossexismo na posição do CIM pelo grupo ter integrantes lésbicas, termino o artigo falando da situação das lésbicas no movimento feminista de então. Afirmo que o nível de consciência das lésbicas no movimento era muito baixo, que elas lutavam pela melhoria de condição de vida das mulheres heterossexuais, mas não das próprias vidas. Que não se tratava da velha história de que lésbicas devessem estar em grupos lésbicos, mas sim de que feministas homossexuais precisariam se posicionar contra o preconceito no próprio movimento.

E levanto duas hipóteses para explicar esse comportamento alienado com base na experiência do GALF e outros grupos lésbicos do exterior: a das feministas homossexuais que mantinham uma fachada heterossexual que temiam ser danificada por uma ligação com um grupo de lésbicas assumidas e das feministas homossexuais, que, apesar de não manter uma fachada heterossexual, temiam perder a aceitação obtida por seu bom comportamento, ou seja, por não tratar da espinhosa questão lésbica no feminismo. Daí hostilizando as que queriam ver o feminismo também abordando nossas demandas. 

Destaco a parte em que afirmo que nós mesmas, do GALF, várias vezes tínhamos sido contraproducentes com nosso trabalho por tentar atuar em base igualitária com outros grupos feministas raramente encontrando reciprocidade. Esse destaque é importante por remeter ao que disse, no começo desta resenha do CCC7, sobre 1985 ter sido um ano-chave para o início do progressivo afastamento do GALF do movimento feminista, processo que se efetiva com o final do grupo em março de 1990. A sucessora do GALF, a Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar, bem mais lesbocentrada, emerge, entre outras coisas, da consciência dessa contraproducência.
Nós mesmas do GALF, muitas vezes, fomos contraproducentes em nosso trabalho por tentarmos atuar conjuntamente com outros grupos feministas numa base igualitária. Raramente, obtivemos reciprocidade.

Em suma, o Movimento Feminista é um movimento heterocentrista, ou seja, é um movimento que trata exclusivamente dos problemas das mulheres de vivência heterossexual e, no máximo admite algumas linhas contra a discriminação das lésbicas em algum documento sobre saúde. Nosse contexto, não dá mesmo para afirmar que o fato do CIM também ter integrantes homossexuais descarta a possibilidade do despejo ter tido uma base forte de preconceito. Provavelmente, os interesses particulares dessas integrantes homossexuais do CIM falaram mais alto que suas consciências enquanto mulheres lésbicas. p. 21
Termino o texto atualizando nossa situação naquele momento e falando de nossa esperança de ainda encontrar apoio a fim de alugarmos um espaço para nossas atividades. Mas a esperança não se concretizou, e o GALF terminou sem voltar a ter uma sede. Somente pela Um Outro Olhar, em 1995, retornei, por meio dos projetos pioneiros que produzi sobre saúde lésbica, a ter um espaço público para atividades de militância.

Em termos práticos, o despejo deixou o GALF sem espaço para receber novas integrantes e sem sequer poder desenvolver atividades básicas (como o crescimento de nossa biblioteca), pois estamos numa residência muito pequena. No momento aguardamos uma verba prometida pelo Secretário da Cultura de São Paulo, a quem denunciamos o despejo para podermos alugar uma sala e retomarmos nossas atuações. p. 21


Troca-Cartas e anúncios - p. 22


Com a maior divulgação do grupo após o protesto do Ferro's Bar, a seção de correspondência foi crescendo e resolvi denominá-la de Troca-Cartas. Me chamou a atenção, ao reler esses anúncios, o fato de algumas mulheres colocarem seus nomes por extenso e inclusive seus endereços e não caixas-postais. Considerando que a maioria de nós assinava os textos apenas com os prenomes, com receio da lesbofobia ainda bem forte do período, como se explica o fato das mulheres não temerem expor seus nomes dessa forma? Será que porque acreditavam que o boletim circulasse só entre lésbicas? Boa questão.

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Após o happening do Ferro's, os donos do bar passaram inclusive a colocar pequenos anúncios no Chana. O mesmo fizeram outros pontos de encontro de lésbicas.



Memória Lesbiana: Míriam Martinho e o processo de produção dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar

terça-feira, 17 de agosto de 2021 0 comentários

Exemplares 1, 4 e 11 do boletim Chanacomchana © Coleção Chanacomchana. Míriam Martinho  

Míriam Martinho*
uoo@umoutroolhar.com.br

Chanacomchana e Um Outro Olhar foram boletins que produzi e editei de dezembro de 1982 até 1994 para dois dos grupos dos quais fui cofundadora (Grupo Ação Lésbica Feminista – GALF) e Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar. O boletim Um Outro Olhar se transformou em revista, que também produzi a partir de maio de 1995, com 16 edições (22-38), até dezembro de 2002.

Chanacomchana: um título debochado por libertárias até sérias

CCC 0

O boletim ChanacomChana teve um precedente, o CCC 0, en formato tabloide, impresso em janeiro de 1981 e lançado pelo Grupo Lésbico-Feminista, coletivo que antecedeu o GALF, em março de 1981, durante o III Congresso da Mulher Paulista. Embora conste um histórico do Lésbico-Feminista de minha autoria nesse trabalho, porque dele também fui uma das cofundadoras, não tive participação em sua produção e edição. Como sempre me pedem referência de quem o produziu, deixo aqui o nome da ex-integrante do Grupo Lésbico-Feminista, Maria Teresa Aarão, mais conhecida como Teca, que deve poder indicar quem o realizou.

Retomando, após a desarticulação do coletivo Lésbico-Feminista, em meados de 1981, duas de suas ex-integrantes, eu mesma e Rosely Roth, com algumas colaboradoras, fundamos o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF), sob o codinome de Grupo Ação de Liberação Feminista, em outubro de 1981 (estatutariamente, 17/10/1981). No período entre a dissolução do coletivo anterior (LF) até o início do GALF (julho a outubro de 81), que apelidei de período de limbo, eu e Rosely tentamos reunir ex-integrantes do LF e lésbicas de outros grupos feministas, para ao menos produzir uma nova edição do tabloide ChanacomChana. Pelos registros da época, foram feitas duas tentativas nesse sentido, ambas fracassadas. Na segunda tentativa, quatro lésbicas apareceram, incluindo uma ex-integrante do LF, mas nada de concreto surgiu desse encontro.

A ideia de retomar o ChanacomChana foi adiada então para outro momento. O primeiro ano do GALF foi de dificuldades, já que só eu e Rosely nos assumíamos publicamente ao menos nos Movimentos Feminista e Homossexual da época. As demais integrantes do grupo desse período apenas colaboravam com pequenas tarefas internas e financeiramente. Fora isso havia o problema da manutenção da sede do GALF, pensada para ter sido do extinto LF, que morreu na praia. Fomos salvas pelo gongo (de perder a sede), quando o grupo gay Outra Coisa veio nos propor dividir o espaço em meados de 1982.


Com essa parceria, a mais frutífera e harmoniosa de toda a minha militância, os dois grupos começaram a realizar várias atividades conjuntas na sede (também externamente) que voltaram a mobilizar mais pessoas para seus objetivos. O GALF, em particular, começou a receber um maior afluxo de mulheres a partir de outubro de 1982. Com mais estabilidade financeira e maior afluxo de pessoas para suas atividades, a ideia de produzir uma publicação para a entidade foi retomada. Considerando que o GALF encampou o histórico do grupo lésbico-feminista como seu (um grande equívoco, aliás), a retomada do título ChanacomChana também pareceu natural.

Como o coletivo do GALF não tinha condições financeiras para publicar outro tabloide como o ChanacomChana 0, decidiu-se partir para a confecção de um fanzine com os parcos recursos gráficos existentes. Assumi então a tarefa hercúlea (ou melhor amazônica) de produzir os fanzines ChanacomChana, confeccionando as matrizes (bonecos) das publicações com textos datilografados, num layout pop-pobre que misturava colagens de fotos, textos, letras adesivas, guache, nanquim, corretivos, etc, aproveitando um pouco de minha experiência com artes plásticas. Apesar do resultado sofrível em particular dos primeiros números, o boletim foi encampado pelas lésbicas de então sem problemas, mais interessadas em ler alguma publicação que falasse de suas vivências do que com questões estéticas. Em termos de conteúdo, os primeiros números do Chana, em especial, trazem fundamentalmente contribuições das próprias integrantes do coletivo do GALF da ocasião, que eu revisava na medida do possível. Na parte de edição, fora a escolha das imagens, desde os primeiros números, passei a definir e produzir as seções do CCC, como as de informes (com traduções de notícias internacionais inclusive), poesias, cartas de grupos e cartas pessoais para correspondência (troca-cartas).

  Após a bem-sucedida invasão do Ferro’s Bar, em 19 de agosto de 1983, para poder romper com o veto do dono do bar à venda do Chana no local, o GALF já se tornou mais conhecido publicamente, processo amplificado pela participação de Rosely Roth em dois programas da Hebe Camargo, de grande audiência nacional, em 1985 e 1986. Como resultado, com nosso incentivo, um número maior de contribuições de lésbicas de todo o país passou a chegar à caixa postal do grupo, me dando maiores possibilidades de escolha de textos para publicação. Concebi o ChanacomChana, em consonância com outras integrantes do grupo, com a perspectiva de, por um lado, torná-lo um veículo de comunicação do GALF e sua militância, e, de outro, como um espaço de reflexão das lésbicas em geral sobre suas vivências e sofrências. Esse segundo objetivo visava também conscientizar as lésbicas sobre a necessidade de se mobilizar por seus direitos.

Para a impressão do Chana, Rosely Roth ficava encarregada de levar as matrizes dos boletins às gráficas dos diretórios acadêmicos de faculdades e da Câmara Municipal de São Paulo, neste último caso para serem impressas nas cotas de parlamentares, como a da sempre solidária vereadora Irede Cardoso, de saudosa memória. A tiragem era de 500 exemplares, tida como cota mínima para impressões em offset, mas seu escoamento, entre vendas e doações, ficava na metade disso. Posteriormente, após a invasão do Ferro’s, Rosely também passou a batalhar anúncios entre os donos e as donas dos bares e boates de lésbicas da época. A venda do boletim, da qual eu também participava, se dava nesses locais e através de assinaturas. 


Um Outro Olhar: homenageando o LesbRadar e buscando um público mais amplo

Após 12 edições, o ChanacomChana foi substituído pelo boletim Um Outro Olhar, em setembro de 1987, ainda no período de vigência do GALF. Esse nome surgiu de forma curiosa, numa conversa, a partir da tradução errada, feita por uma das integrantes do GALF, Luiza Granado, do título de um filme húngaro de temática lésbica chamado “Um Outro Jeito (Another Way)”. Ela lembrou do filme como Um Outro Olhar, eu pensei nas diversas possibilidades semânticas desse ‘um outro olhar”, e ele virou nome do novo boletim e, posteriormente, nome também da Rede de Informação Um Outro Olhar (o terceiro grupo do qual fui cofundadora).

No lançamento do Dia do Orgulho Lésbico, em 2003, a plateia ainda riu do Chanacomchana

No editorial que fiz para o primeiro número do Um Outro Olhar, eu destaco que o GALF queria, com seu novo título, espelhar o jeito especial que as lésbicas tinham de se olhar (LesbRadar) e trazer de fato novas maneiras de ver não só as relações entre mulheres como também o próprio “ser mulher” na muito patriarcal sociedade brasileira, buscando autoimagens mais positivas e perspectivas mais amplas em todas as direções. Embora não citado nesse editorial, buscávamos também com o novo título ampliar nosso público-alvo, já que o debochado título ChanacomChana incomodava parte das lésbicas da época. Prova disso é que, mesmo em 2003, durante o lançamento do dia do orgulho lésbico, quando lembramos do histórico da manifestação no Ferro’s Bar, o nome do Chana ainda provocou risos da plateia  e exclamações de que o título Um Outro Olhar fora uma mudança para bem melhor. Hoje, observo curiosamente uma maior simpatia pelo título Chanacomchana.

No boletim Um Outro Olhar, mantive parte das seções já iniciadas no ChanacomChana como as clássicas “Poesias”, “Troca-cartas”, “Cartas na Mesa“, e as seções “Em Movimento” e “Histórias de Heterror”, e acrescentei a “Deu no Jornal” e a “Publicações Recebidas” (ou material recebido). Como as contribuições das colaboradoras do GALF cresceram bastante, em nível nacional, e a biblioteca do grupo também cresceu expressivamente com publicações recebidas do Brasil e do exterior, o trabalho de edição desse material para publicação se tornou maior e mais complexo, me tomando um bom tempo de trabalho. Nesse sentido, para aliviar a sobrecarga, publiquei, ao longo das edições tanto do Chana quanto do UOO, pedidos de ajuda para a datilografia dos textos e a diagramação dos boletins, obtendo sucesso na diagramação de 9 números dos 21 produzidos (de fato 20, já que os números 19 e 20 vieram numa única edição), apesar de detestar o resultado estético dessa delegação. Nesse sentido, também solicitava que as colaboradoras enviassem o material já datilografado para nos poupar o trabalho de ainda ter que datilografar os textos. Embora em escala bem menor do que no Chanacomchana, tal fato explica a colcha de retalhos de tipos gráficos que ainda se vê em alguns números do Um Outro Olhar.
A venda do boletim Um Outro Olhar passou a se dar pelo sistema de associação do GALF e, posteriormente, a partir do número 11, em meados de 1990, pelo da Rede de Informação Um Outro Olhar, poupando o trabalho de venda em bares e boates. Eram feitas cópias do boletim original, em copiadoras, pagas com antecedência, como uma encomenda, o que explica haver  poucos exemplares remanescentes dessa publicão, com exceção do número 1 que foi feito ainda em offset. Em média eram produzidas 200 cópias dos UOO para as associadas do GALF e da RILUOO, mais conhecida como Rede, embora tenha havido caso de edições com mais cópias. Assim como o CCC, o UOO também era enviado para associações congêneres do Brasil e do exterior na base da permuta com as publicações dessas organizações ou simplesmente como cartão de visitas.


O boletim Um Outro Olhar teve 21 edições, publicadas de setembro de 1987 a janeiro de 1994 (edição verão-outono), evoluindo para o formato de revista a partir de 1995 (exemplo acima). Neste período  a Rede de Informação Um Outro Olhar passou a receber financiamento governamental para seus projetos sobre saúde da mulher lésbica e da mulher em geral, originando outro boletim, Ousar Viver, que foi encartado na revista Um Outro OLhar. Mas a revista e o encarte serão temas de outra radiografia.

Digitalizações dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar

Iniciei as digitalizações das publicações que produzi, para os grupos dos quais fui cofundadora, no final de 2017, atendendo inclusive a demanda de pesquisadores e pesquisadoras por acesso a esses materiais. Até então, fazia cópias dessas publicações e vendia os números da revista Um Outro Olhar para os interessados. Nesse período, contudo, tive uma série de questões pessoais a resolver que interromperam essa atividade. Deixei então apenas as revistas para digitalizar numa copiadora, já que não exigiam qualquer trabalho de reedição gráfica e as disponibilizei no Google Drive da Um Outro Olhar no início de 2018. No caso dos boletins, porém, havia vários problemas a solucionar nos originais derivados do desgaste do tempo, como perda das letras adesivas e das colagens de imagens que ilustravam as matérias, muitas manchas, páginas totalmente amareladas, algumas com vários apagamentos, etc.. Neste ano, enfim, tive condições de encarar esse trabalho e começar, enfim, a reeditar graficamente parte dos boletins, em particular algumas capas do CCC, as mais lesadas pelo tempo. Embora se trate de trabalho ainda em andamento, já disponibilizei o material para consulta.

Linha do tempo dos dispositivos de escrita com que foram  feitos o CCC e o UOO

Reeditar graficamente os boletins foi como tomar o túnel do tempo para a época em que os produzia daquela forma tão precária dos anos 80 e 90 que descrevi neste texto. Só que, desta vez, tive como auxiliar o mui famoso e poderoso Photoshop que transforma em beldades até as mais feias das criaturas. Aliás, a evolução gráfica do CCC, UOO e da revista Um Outro Olhar bem poderia servir também para traçar uma linha do tempo dos avanços tecnológicos da grande revolução da informação que, nas últimas décadas, permitiu a qualquer pessoa ter um veículo individual ou coletivo de comunicação quase sem custo na vastidão da Internet. Não pude deixar de pensar no que teria feito com os recursos técnicos de hoje para a produção dos CCC e UOO. Os primeiros CCC eram feitos ainda com máquinas de escrever antigas, depois com máquinas de escrever elétricas, assim como o Um Outro Olhar, depois com os editores de texto dos primeiros PC (baseados em DOS), com saída via impressoras matriciais, depois, já, na era Windows,  com os aplicativos de editoração de páginas, como o Page Maker, até chegar, na editoração e layout feitos pelas próprias gráficas onde a revista Um Outro Olhar e outros materiais da Rede foram impressos.

Conclusão

Hoje existe um esforço no sentido de individualizar as pessoas que atuaram nos grupos de gays e lésbicas na década de 80 e início da década de 90 ou colaboraram com eles, na base do quem era quem e fazia o quê. Segundo me disse um historiador, para “homenagear todas vocês que lutaram tanto por nossos direitos que estão novamente ameaçados”. No caso dos grupos de lésbicas, mais do que dos gays, o anonimato ou anonimato parcial se devia fundamentalmente à ditadura da heterossexualidade obrigatória quase hegemônica. Trocando em miúdos, 99% das lésbicas viviam no armário, incluindo feministas homossexuais e até as que migraram do lésbico-feminista para outros grupos feministas. No caso específico do GALF, em menor caso da Rede, além do armário prevalente, para a indistinção do que fazia cada ativista, colaborava ainda a tola visão meio anarquista e coletivista reinante no grupo que secundarizava as atuações individuais, forçando plurais de modéstia em prol de um coletivo amorfo, pois transeunte ou intermitente, encarnado numa sigla.

Espero, portanto, com esta radiografia dos CCC e UOO, ter contribuído um pouco para esse esforço de individualização. Ainda que meu nome apareça como editora, em boa parte dos números dessas publicações, faz-se necessário sem dúvida esse esclarecimento para coibir usurpações. Em termos legais, significa que detenho exclusivamente  a titularidade dos direitos autorais sobre as coleções ChanacomChana e Um Outro Olhar (Lei  nº 9.610/98, artigos 24, 17, parágrafo segundo). 

E boa leitura!

O material abaixo é estritamente para leitura e consulta. Para quaisquer outras finalidades, entre em contato direto comigo pelo e-mail uoo@umoutroolhar.com.br 
Os créditos das coleções ChanacomChana e Um Outro Olhar boletins e revistas devem ser dados a Míriam Martinho com link para esta página. 

Sumário ChanascomChanas
ChanacomChana: do 1 ao 12
© Coleção Chanacomchana. Míriam Martinho 

Boletim Um Outro Olhar: do 1 ao 21 (acompanha complemento desta edição)

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*Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes. 

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a 8ª Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Cuernavaca, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

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