Em dezembro de 1982, era lançado o primeiro número do boletim Chanacomchana seguido de outros 11 números (ver resgate do CCC 1 aqui, CCC2 aqui, CCC 3 aqui, CCC 4 aqui, CCC 5 aqui, CCC6 aqui, CCC 7 aqui, CCC 8 aqui, CCC 9 aqui, CCC 10 aqui, CCC 11 aqui). Neste artigo, abordo o ChanacomChana 12, não sem antes falar do contexto histórico e político de onde o periódico emerge, fundamental para entender sua produção e conteúdo (ver mais informações em Memória Lesbiana: 41 anos de ChanacomChana e aqui).
O Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) e sua primeira publicação, o boletim Chanacomchana, nascem durante o primeiro ciclo do MHB (Movimento Homossexual Brasileiro) também chamado de ciclo libertário (78-83/84) porque nele prevaleciam as ideias da Contracultura, aquele grande guarda-chuva de movimentações e movimentos socioculturais e comportamentais que se inicia já nos anos 50, percorre as décadas de 60 e 70, terminando no início dos anos 80. Retomando elementos do anarquismo e do romantismo, a Contracultura vai priorizar a revolução individual, politizando o cotidiano e as inter-relações humanas (o privado é político) e retomando a máxima gandhiana de que as pessoas tinham que se tornar a mudança que queriam ver no mundo. Não havia interesse na tomada de poder do Estado, objetivo dos partidos políticos, mas sim na revolução molecular dos grupos discriminados e oprimidos que unidos superariam a incompetência da América católica e seus ridículos tiranos (Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval - Caetano Veloso).
Na prática, os grupos daquele incipiente movimento se preocupavam com a não reprodução da política tradicional, suas hierarquias, disputas de poder, discursos da boca para fora, e tentavam (com pouco sucesso) não reproduzir suas mazelas. Nesse sentido também, pregavam a autonomia dos movimentos sociais em relação aos partidos políticos, uma das bandeiras de maior bom senso daquela época. O GALF era tributário dessas ideias (vide o texto Autonomia), via esquerda libertária, das ideias do feminismo de segunda onda, com seu questionamento dos papéis sexuais, e das correntes do separatismo lésbico do também incipiente movimento lésbico internacional.
A Revolução DIY
Todo esse amálgama de ideias e inspirações aparecem nas páginas do Chanacomchana do seu período inicial e nele permanecem no período posterior, de 1985 em diante, apesar do afã revolucionário contracultural do MHB ir sendo paulatinamente substituído pelo reformismo pragmático de grupos como o GGB e o Triângulo Rosa.
Também do ponto de vista gráfico, o CCC vai seguir a ética e a estética contracultural do "Do It Yourself - DIY" (Faça você mesmo) matriz, entre outras produções, dos fanzines produzidos artesanalmente, com colagens e mistura de tipos gráficos, e, no conteúdo, com uma miscelânea de textos políticos, tirinhas, desenhos, poesias, depoimentos, notícias e app arcaico de namoro (o Troca-cartas). Nas vendas, o corpo a corpo junto ao público-alvo ou, posteriormente, via correios através do sistema de associação.
Nem o GALF nem o ChanacomChana refletem qualquer luta contra a ditadura militar mesmo porque seu contexto histórico é o do governo da abertura do general Figueiredo, da redemocratização, que se iniciara com a revogação do AI-5 em 13/10/78, ainda sob o governo Geisel. De fato, o governo Figueiredo foi uma democratura, uma convivência de elementos ainda autoritários do regime em decomposição com aumento crescente de características democráticas caminhando a passos largos para o restabelecimento do poder civil. Embora a censura, só revogada com a Constituição de 1988, ainda existisse no período, ela não vitimou o GALF ou o ChanacomChana em momento algum. Tal fato pode ser constatado facilmente pela simples leitura dos Chanas onde não se encontram sequer informes referentes ao regime militar, muito menos registro de qualquer arbitrariedade que tenhamos sofrido dos militares. O GALF e suas publicações foram, de fato, insurgências contra a ditadura da heterossexualidade obrigatória praticamente onipresente do período.
Editorial e Informes (início) - p. 1 Enrustimento e Solidariedade - p. 2 Poesia - p. 3 Família - p. 5 a 8 Lésbicas e Família - p. 9-15 Informes (final) - p. 16-17 Uma História de Heterror - p. 18 a 21 Troca-Cartas e Anúncios - p.22
1985 - Um divisor de águas para o GALF e o Chana
Antes de resenhar a edição 7 do Chana, vale salientar que o ano de 1985 foi um divisor de águas para o GALF e o Chana, iniciando um processo de afastamento gradual do movimento feminista (o texto Uma História de Heterror exemplifica um dos porquês disso) e uma depuração da identidade do grupo que, ao final do ano, irá se desvencilhar finalmente da ligação simbólica com o coletivo que o precedeu (Grupo Lésbico-Feminista -05/79-06/81).
Do ponto de vista visual, a partir deste número 7, já se observa maior homogeneidade dos tipos gráficos e mais espaço dos textos dentro dos blocos do boneco onde eu colava os artigos, mudanças derivadas do advento das máquinas de escrever elétricas. Também a capa deste número terá duas cores, diferenciando-o dos demais.
Em termos de conteúdo, eu passo a denominar a seção de correspondência entre mulheres de Troca-Cartas, seção que manterei nas outras publicações que produzi tanto pelo GALF quanto pela Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar (boletins e revista Um Outro Olhar). Também a partir desse número, um tema em particular passa a ser analisado a partir de uma perspectiva mais geral e depois especificamente lésbica. Nesta edição, o tema central foi a família, sua construção histórica e como ela interferia na vida das lésbicas.
Editorial p.1
Editorial e Informes, p. 1 (Míriam Martinho)
Neste editorial, eu falo dos 4 anos do título ChanacomChana, já separando a produção do tabloide de 1981, como do grupo lésbico-feminista (coletivo anterior ao do GALF) e a do boletim como do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) a partir de 1982, embora ainda incorporando o histórico do LF ao do GALF.
Também observo a importância do boletim para o grupo, aliás, mais do que importante, seu esteio, sem o qual não teria conseguido sobreviver durante 8 anos e meio numa época em que grupos lésbicos não duravam nem 8 meses. De fato, o Chana inclusive norteou algumas das atividades mais conhecidas do grupo como a manifestação do Ferro's ocorrida exatamente com o objetivo de poder voltar a vendê-lo no referido bar.
O pequeno informe que está nesta página eu comento na parte de informes abaixo.
p.2
Enrustimento e solidariedade, p. 2 (Mônica)
O tema do enrustimento (posteriormente rebatizado de ficar no armário) aparece várias vezes no trabalho do GALF e se reflete em seu boletim. Neste texto, assinado por Mônica (colaboradora do boletim), a autora elenca os problemas derivados de sacrificar a integridade por aceitação social. A lésbica que levava vida dupla inclusive discriminava as poucas que se assumiam, particularmente as que fisicamente fugiam do padrão feminino, as fanchonas, pois estas eram uma bandeira ambulante. Neste afã, cavava sua própria solidão, pois de fato não se protegia do preconceito e perdia a possibilidade de se relacionar com suas semelhantes em orientação sexual, ocasião em que podia ser ela mesma.
A autora então propõe que as lésbicas tentassem superar seus temores da rejeição social por sua homossexualidade através da amizade e solidariedade com outras lésbicas para, no futuro, conseguirem um espaço próprio onde pudessem ser assumidas completamente sem medo da sociedade.
Poesia, p.3 (edição Míriam Martinho)
p. 3
Poesia era um espaço que eu definia como "para as lésbicas poderem falar de como era bonito, sensual, gostoso e ótimo amar outra mulher." Nesse sentido, sempre busquei trazer poesias de teor romântico e erótico de autoras conhecidas e desconhecidas que apreciavam escrever poesias, mais ou menos elaboradas, atividade pela qual lésbicas sempre tiveram predileção.
Safo domina a cena nesta edição da seção Poesia. Trouxe uma tradução do poeta Paulo Hecker Filho para o poema de Safo À Braquea, do inglês To the girl Brachea), uma ode de amor a uma jovem bela e inatingível chamada Braquéa.
Evocando a grande poetisa grega, Zulmira vai produzir rimas bonitinhas sobre o amor das Marias em Amor, o artesão:
Em Linda Pequenina, Vânia vai ver na estrela pequenina de um céu de verão, a lembrança da amada que lhe proporcionou uma noite de delícias: "Sinto ainda suas carícias daquela noite de tantas delícias. As estrelas continuam brilhando. / Sempre vejo aquela estrela pequenina que me alegra e me anima e me recordo de você... Tão linda pequenina!"
Em Vara, Vange Leonel declara a necessidade de aprofundar-se no amor erótico com a mulher amada para não perdê-la: "Pra não te perder em furos bolsos de atraso, em rasos derrapes de superfície. Só me resta resgatar o fundo, o mais fundo em que já fomos, e fomentá-la a toda hora."
Família, 5-8 (Rosely Roth)
Quando deus era uma mulher, p.5
Neste tópico sobre a família, Rosely vai traçar o histórico milenar dessa instituição e como ela foi estruturada para garantir a dominação e exploração da mulher pelo homem através da religião, da monogamia para as mulheres, dos papeis sexuais de masculino e feminino. Lembra que a própria palavra "família" remete ao latim famulus, o conjunto de servos e dependentes de um chefe ou senhor. Traça o histórico dessa instituição a partir da bibliografia que lista ao final do texto, bibliografia que aponta como uma das hipóteses para a passagem das sociedades matriarcais para as patriarcais e para a formação da família nuclear monogâmica a descoberta do papel do homem na reprodução e o desenvolvimento da propriedade privada.
p. 5
Rosely aponta o caráter histórico-social dos papéis sexuais de masculino e feminino e de como toda a estrutura patriarcal era um fenômeno social e não natural como sua repetição levava a crer.
p. 5 e 6
E propõe alternativas para o modelo de família nuclear patriarcal:
p. 6
Faço agora um aparte para comentar esses trechos do texto de Rosely. Existem várias hipóteses sobre a passagem do matriarcado (sociedade de predominância feminina) ao patriarcado (sociedade de dominância masculina). A ideia da descoberta do papel do homem na reprodução humana e o advento da propriedade privada é uma delas. No entanto, a observação de sociedades matriarcais ainda existentes nos rincões do planeta questiona essa hipótese.
p. 4
Na sociedade Mosuo, no sudoeste da China, perto do lago Lugu, as mulheres tomam a maioria das decisões de negócios e gerenciam as famílias completamente. A propriedade é transmitida através da linha feminina e não há nenhum estigma em não saber quem é o pai de uma criança. Sequer existe uma palavra para pai e marido, e as crianças são criadas coletivamente (um pouco como na proposta alternativa de Rosely). Nesta que é conhecida como a última sociedade matriarcal do mundo, os homens têm óbvia consciência de seu papel na reprodução humana e existe propriedade privada que é passada de mãe para filha. No entanto, repetindo, se trata de uma sociedade matriarcal e matrilinear. Abaixo, um vídeo relativamente recente sobre essa sociedade. Ver mais aqui
E as lésbicas nisso tudo?
No último subtítulo de seu texto, Rosely vai abordar o quanto a família tradicional contribuía para a introjeção da chamada lesbofobia internalizada, com a autoimagem negativa que as lésbicas desenvolviam por desejar outra mulher, pela necessidade de mentir sobre sua vida íntima para não perder o apoio dos familiares e de como acabavam como arrimo de família pois não desenvolviam uma família própria em função do preconceito.
p. 7
Esta parte do texto de Rosely, precisa ser contextualizada historicamente tendo em vista que hoje casais de lésbicas são publicamente visíveis, casam-se formalmente, criam filhos biológicos ou adotivos, enfim, formam sua própria família. Mas, na década de 80, a maioria das lésbicas estava no armário, levando vidas duplas e sofridas, cheias de culpa e com poucas realizações na esfera íntima.
p. 5
Lésbicas e Família, p. 9-15 (Bete e Luiza Granado)
p. 9
Lésbicas e Família é uma entrevista feita ainda nas dependências da casa que o GALF tentou dividir com o CIM em 1984 com as integrantes e então colaboradoras do grupo. Cabe salientar que o GALF teve apenas 3 integrantes constantes nos seus 8 anos e meia de existência: eu mesma, Luiza Granado e Rosely Roth. Todas as demais foram circulantes, com mais ou menos tempo de permanência. Em 1984, quando ainda tínhamos sede, reunimos nove dessas integrantes e colaboradoras para a realização desta entrevista cuja produção ficou a cargo de Bete e Luiza (Granado) com edição minha. As participantes da entrevista responderam às três perguntas abaixo:
Sobre se as respectivas famílias sabiam da lesbianidade das filhas, seis das entrevistadas (Dulce, Leda, Míriam, Mônica, Neide, Rosely) disseram que sim, três que não. Das seis que disseram sim, duas, Dulce e Mônica, não se assumiam para toda a família. Eliza, Luiza e Rute disseram que não se assumiam. Das assumidas, apenas Neide disse que não teve maiores problemas com a família por ter sido sempre abertamente lésbica e ter nascido numa aldeia indígena onde as pessoas eram mais livres. Todas as outras assumidas sofreram algum tipo de rejeição a princípio, a ponto de tentarem o suicídio (Leda) ou serem obrigadas a fazer terapia (eu mesma) além de relatarem problemas de autoestima e repressão sexual pelo preconceito.
Das que se não se assumiram, uma, Rute, afirmava viver uma situação também muito comum com as famílias de lésbicas no período: a família fingia que não sabia e a filha fingia que não sabia que a família sabia. As outras duas se enquadravam no perfil das lésbicas que viravam arrimo da família porque, enquanto os irmãos hétero partiam para o casamento, elas permaneciam oficialmente solteiras:
Eliza, p. 9-10
Luiza, p. 10
p. 14
Sobre como viam a família, houve um consenso negativo sobre a instituição: tolhedora da liberdade dos indivíduos (filhos deixando de fazer o que gostam para não desagradar pais e irmãos), produtora de hierarquias de poder entre seus membros (poder do homem sobre a mulher, dos pais sobre os filhos, do irmão sobre a irmã), implementadora dos restritivos papéis sexuais de masculino e feminino, esmagadora da individualidade dos filhos sobre os quais os pais projetam seus desejos, monopolizadora da afetividade das pessoas (pessoas tendo que viver com quem não gostam), castradora do crescimento afetivo, sexual e intelectual das crianças.
Como alternativa à essa instituição tão negativa na opinião das entrevistadas, algumas apontaram como saída uma estrutura comunitária que criasse as crianças com múltiplos afetos:
Luiza, p.13
Míriam, p.13
Rosely, p. 14
Sobre se as relações lésbicas podiam reproduzir a família, a maioria das entrevistadas afirmou que sim, algumas criticando a reprodução dos papéis de feminino e masculino (fancha-lady) nos relacionamentos entre mulheres, outras dizendo que mesmo nos relacionamentos "fancha-lady" não havia uma similaridade integral com as hierarquias opressivas das relações heterossexuais.
Das entrevistadas, quatro afirmaram que era necessário coragem, espírito crítico constante com referência aos próprios mecanismos autoritários e os da companheira, esforço consciente no sentido de romper com a reprodução dos modelos familiares opressivos a fim de criar formas de convivência onde o respeito às fronteiras da companheira prevalecesse.
Em 1985, o modelo de relacionamento tradicional ainda se fazia bem presente, embora o casamento não fosse mais indissolúvel (o divórcio fora aprovado em 1977 durante o governo Geisel). O concubinato passa a ser considerado entidade familiar, com o nome de união estável, pelo art. 226, § 3º da nova constituição de 1988. A revolução sexual da Contracultura que pregava o amor livre, as relações não-monogâmicas, se encerrou com a chegada da AIDS (1980-1982) onde o sexo casual passou a ser visto como vetor da morte. Iniciava-se a época do sexo seguro com a formação das primeiras ONG de prevenção à síndrome. As lésbicas passaram relativamente incólumes por essas mudanças e, embora algumas tenham experimentado as chamadas relações abertas da contracultura, os relacionamentos monogâmicos se mantiveram em alta reproduzindo ou não as relações tradicionais. Hoje diferentes modelos de relacionamento convivem sem os estigmas do passado, mas, a considerar o número de casamentos entre gays e entre lésbicas, resta saber se a reprodução dos papeis hétero ainda se projetam nas relações homossexuais e quanto.
Egon Schiele, A Família, 1918
Informes p.1 - p. 16-17 (Míriam Martinho)
Aborto no Rio
A deputada Lúcia Arruda (PT-RJ) dava conta de que seu projeto de atendimento aos casos de aborto previsto em lei, na rede de saúde pública do RJ, havia sido aprovado. Segundo a deputada, as principais beneficiadas seriam as mulheres de baixa renda que assim teriam assistência médica gratuita e adequada. Mas até hoje o aborto ainda não foi descriminalizado.
Moção contra a discriminação antihomossexual
Informe sobre moção contra a discriminação a gays e lésbicas, de iniciativa do GGB, aprovada no VIII Congresso de Psiquiatria em novembro de 1984. O texto da moção foi o seguinte:
p. 16
Projeto de lei do Deputado França Teixeira contra a discriminação antihomossexual
De fato, o deputado em questão consta no site da Câmara Federal como integrante do PSD (Partido Democrático Social), não como PFL (Partido da Frente Liberal), e não se encontra o projeto em questão na lista dos projetos que propôs. O PSD foi o partido do governo Figueiredo, oriundo da Arena, partido dos militares, durante a maior parte de seu regime. E o PFL foi uma dissidência do PSD. As duas siglas coexistiram durante o mesmo período, razão pela qual pode ter havido alguma confusão quanto ao registro partidário do deputado. O interessante a destacar, mesmo que não tenha apresentado o projeto, é o fato de um deputado da direita conservadora ter elaborado um projeto que previa punição para "os crimes praticados em razão de sexo, orientação sexual ou estilo de vida."
Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a década da Mulher (1975-1985)
Informe sobre a citada conferência que viria a ser realizada no Quênia, em Nairobi, para avaliação da chamada década da mulher, paralelamente ao Fórum das Organizações Não-Governamentais. Nesta ocasião viriam a ser discutidos os avanços no programa elaborado em 1975, para a eliminação das diferenças salariais e de educação e saúde entre mulheres e homens, apoiado por um Fundo de Contribuições Voluntárias.
p. 16
A situação dos grupos lésbicos (na conferência acima citada)
O ILIS (serviço de informação lésbica internacional), na época sediado na Holanda, pretendia levar ao Fórum das Organizações Não-Governamentais e talvez na própria Conferência as demandas dos grupos lésbicos nas temáticas de saúde, educação, emprego e racismo incluindo-as nas demandas gerais das mulheres holandesas. Embora a questão homossexual fosse assunto a ser ignorado ou rejeitado enfaticamente, o ILIS acreditava poder quebrar ao menos parcialmente esse tabu.
8 de Março Dia Internacional das Mulheres
Notinha sobre o dia com a narrativa que corria à época de que teria sido estabelecido em conferência de 1910, numa Conferência de Mulheres, por socialistas alemãs em homenagem a tecelãs que haviam sido mortas pela polícia, em Nova York, num incêndio criminoso por reivindicar melhores condições de trabalho. Essa narrativa não encontra eco nos fatos como vim a saber muitas décadas depois. Escrevi sobre o tema em 8 de Março: A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher
III Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe
Informe sobre o citado encontro previsto para os dias 1 a 4 de agosto e que foi de fato organizado na cidade de Bertioga. Na versão anterior do evento, no Peru, foi tirada resolução de que a lesbianidade seria discutida como parte das questões das mulheres em geral:
p. 17
No Chanacomchana 9, eu vou fazer um relato até positivo sobre esse encontro que será o outro momento-chave, como citei no início deste resgate, para o processo de afastamento gradual do movimento feminista e para a depuração da identidade do GALF que, ao final do ano, irá se desvencilhar finalmente da ligação simbólica com o coletivo que o precedeu (Grupo Lésbico-Feminista -05/79-06/81).
p. 17
Dicas de livros sobre lesbianismo e homossexualidade
O Chanacomchana possibilitava muita troca de material com grupos e ajudava, com os livros que adquiríamos, a formar a biblioteca do grupo que foi crescendo bastante com o tempo. Passamos a partir deste número do CCC a dar dicas de leitura com base nos livros que líamos e oferecer cópias dos livros que adquiríamos do exterior.
Aliança Lésbica
Informe sobre um grupo lésbico de Iowa City, nos EUA, chamado Lesbian Alliance, com cerca de 200 integrantes, que buscava suprir as necessidades sociais, culturais e políticas das mulheres lésbicas de sua localidade. Para isso, organizava regularmente festas, concertos, piqueniques, grupos de apoio, conferências, debates, assistência jurídica. Hoje, todos esses espaços lésbicos foram destruídos pelo transativismo. E há gente que defenda.
p. 15
Uma História de Heterror, p. 18 a 21 (Míriam Martinho)
Uma História de Heterror, p. 18
Uma história de Heterror é um texto em que relato a situação arbitrária que vivemos com o grupo feminista Centro de Informação Mulher (CIM), em 1984, em função da divisão de uma sede cedida pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo para abrigar os diferentes grupos feministas que ficaram sem espaço em 1983 devido a problemas financeiros. Quando estavam tentando apoio para obter esse espaço, as integrantes do CIM foram à sede que dividíamos com o grupo gay Outra Coisa solicitar que assinássemos uma carta à Secretaria de Cultura para ajudar nessa conquista, o que prontamente fizemos. E o fizemos simplesmente para ajudar na obtenção da casa no bairro da Luz, centro de São Paulo, já que no momento da assinatura estávamos com uma sede e numa relação bastante satisfatória com o grupo Outra Coisa.
Infelizmente, no começo de 1984, o Grupo Outra Coisa se encerrou nos deixando na mesma situação que outros grupos feministas já vinham vivendo desde 1983, ou seja, sem espaço. Sozinhas não conseguíamos levantar recursos suficientes para bancar uma sede e nos vimos, a contragosto, na situação de tentar dividir a casa do bairro da Luz. Como tínhamos apoiado a conquista da casa formalmente em 1983, e o grupo que iria dividir a sede com o CIM, o SOS Mulher, havia se dissolvido, nos pareceu que não haveria problemas na coabitação. Tivemos que nos desfazer de muita mobiliário para caber na tal sede, mudando para lá apenas com uma estante. O restante do espaço foi ocupado pelo CIM. Apesar disso, após receber um financiamento em julho de 1984, o CIM resolveu se expandir um pouco mais e decidiu simplesmente nos expulsar, embora a casa em questão não tivesse sido pensada só para ele. Entre tentativas de negociação com a dita entidade, gastamos paciência e reuniões até que em 21 de dezembro, as figuras simplesmente despejaram o material do grupo em meu apartamento. Toda a novela foi descrita em detalhes neste relato Uma História de Heterror que vale ler ou reler à página 18 desta edição.
O que vale destacar aqui são os aspectos históricos e ideológicos da situação que expuseram mais uma vez as contradições do feminismo daquele tempo e a zero preocupação das ditas feministas com a tal sororidade que sempre pregaram da boca para fora.
Considerações históricas e ideológicas
Esse relato foi escrito há 38 anos, mas eu o endosso integralmente ainda hoje. Suas ponderações políticas são acuradas, porém gostaria de ampliá-las a partir da perspectiva mais abrangente que tenho hoje. A matriz do Movimento Homossexual no Brasil foi a contracultural, da esquerda libertária, preocupada em fazer a revolução sexual e a utópica revolução dos diversos grupos discriminados irmanados na conjugação de uma nova forma de fazer política fora dos canais institucionais. Embora o Movimento Feminista do período também seja tributário desse contexto, no Brasil e na América Latina, a influência da esquerda tradicional em sua formação era bem significativa. Algumas de suas pioneiras foram mulheres que até participaram da brancaleônica luta armada, ainda em voga na década de 60 e 70, contra a ditadura militar, no modelito das revoluções socialistas, comunistas internacionais, que banharam de sangue o solo onde pisaram.
Daí que, além dos temas da igualdade salarial e de direitos, os questionamentos mais tipicamente feministas vigentes no exterior, a violência doméstica e sexual contra as mulheres, a sexualidade feminina, concorriam muito timidamente com os temas da luta contra a ditadura e a luta de classes. Essa esquerda ortodoxa de onde elas proviam considerava o feminismo coisa de burguesa desocupada e o "homossexualismo" degeneração da burguesia. Não por menos vai ser o primeiro coletivo de lésbicas vindo de outra matriz, o subgrupo lésbico-feminista do grupo Somos (depois Grupo Lésbico Feminista) a incrementar no movimento feminista essas discussões tão polêmicas. Segundo dizem, não pesquisei para confirmar, o panfleto que redigi pelo lésbico-feminista contra a violência contra a mulher, distribuído no II Congresso da Mulher Paulista, em março de 1980, é considerado pioneiro no assunto. Também vai ser esse coletivo que, por sua simples existência, trará a questão da sexualidade para o movimento e servirá como incentivo para muitas feministas começarem a namorar outras mulheres.
No entanto, outra das questões importantes da matriz contracultural, como a discussão sobre todas as formas de poder opressivo e sua reprodução, a autonomia em relação aos partidos políticos, nunca foi absorvida pelo MF, que fazia política dentro dos moldes dos partidos, sindicatos, associações de base de onde muitas provinham e com as quais mantinham relações umbilicais. As brigas das partidárias do PT e do então PMDB atravancavam as pautas específicas das mulheres e produziam barracos mil em congressos e encontros. E mesmo a questão da sexualidade das mulheres, da lesbianidade, após o impacto inicial da entrada do lésbico-feminista no movimento, vai ser empurrada para o armário sob a desculpa de que a identidade lésbica deveria se submergir na identidade feminista, pois uma identidade específica cercearia a fluidez da sexualidade humana (sic). O próprio coletivo do lésbico-feminista, em boa parte, vai comprar esse mandamento e se alienar de sua própria condição dentro desse movimento. O GALF foi o coletivo que, embora tendo suas raízes no coletivo lésbico-feminista (eu e Rosely vínhamos dele), nunca aceitou nem a política tradicional realizada pelas feministas nem a invisibilização das lésbicas dentro do feminismo.
Na prática, isso nos garantiu vários aborrecimentos e baixarias vindas dessas mulheres. O episódio do CIM foi um desses exemplos. O fato é que nós falávamos línguas diferentes, algo que pude observar também em outros episódios. Neste texto Uma História de Heterror, em suas considerações ideológicas eu apontei as várias contradições das ditas feministas sobre a situação: omissão do movimento em mediar o conflito entre o CIM e o GALF com a desculpa de que não queriam tomar partido, algo bem análogo à máxima machista do "em briga de marido e mulher não se mete a colher". Crítica ao fato de termos denunciado o despejo arbitrário na imprensa, considerado lavar a roupa suja do movimento em público, algo bem contrário ao mantra feminista de que o "silêncio era cúmplice da violência". Acusações de vitimismo contra nós e até de calúnia contra o CIM, embora o grupo afirmasse publicamente que a razão para sua arbitrariedade era a necessidade de expansão meramente. Justificativas do despejo pelo critério da força, esquecendo-se que o feminismo buscava criar uma práxis política distante da política tradicional masculina e suas tomadas de poder (parece que só nós acreditávamos mesmo nisso). Observei que essa parada de força e expansão ficava melhor na boca de patriarcas imperialistas do que na de um movimento de mulheres. Por último, o fato de haver mulheres homossexuais no CIM supostamente descartando a possibilidade de heterossexismo na situação, como se o fato de o Pelé ter sido aceito nas rodas das elites brancas significasse inexistência do racismo no Brasil.
Uma História de Heterror, p. 19
Lésbicas e Movimento Feminista
Pegando o gancho da desculpa de que não haveria heterossexismo na posição do CIM pelo grupo ter integrantes lésbicas, termino o artigo falando da situação das lésbicas no movimento feminista de então. Afirmo que o nível de consciência das lésbicas no movimento era muito baixo, que elas lutavam pela melhoria de condição de vida das mulheres heterossexuais, mas não das próprias vidas. Que não se tratava da velha história de que lésbicas devessem estar em grupos lésbicos, mas sim de que feministas homossexuais precisariam se posicionar contra o preconceito no próprio movimento.
E levanto duas hipóteses para explicar esse comportamento alienado com base na experiência do GALF e outros grupos lésbicos do exterior: a das feministas homossexuais que mantinham uma fachada heterossexual que temiam ser danificada por uma ligação com um grupo de lésbicas assumidas e das feministas homossexuais, que, apesar de não manter uma fachada heterossexual, temiam perder a aceitação obtida por seu bom comportamento, ou seja, por não tratar da espinhosa questão lésbica no feminismo. Daí hostilizando as que queriam ver o feminismo também abordando nossas demandas.
Destaco a parte em que afirmo que nós mesmas, do GALF, várias vezes tínhamos sido contraproducentes com nosso trabalho por tentar atuar em base igualitária com outros grupos feministas raramente encontrando reciprocidade. Esse destaque é importante por remeter ao que disse, no começo desta resenha do CCC7, sobre 1985 ter sido um ano-chave para o início do progressivo afastamento do GALF do movimento feminista, processo que se efetiva com o final do grupo em março de 1990. A sucessora do GALF, a Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar, bem mais lesbocentrada, emerge, entre outras coisas, da consciência dessa contraproducência.
Nós mesmas do GALF, muitas vezes, fomos contraproducentes em nosso trabalho por tentarmos atuar conjuntamente com outros grupos feministas numa base igualitária. Raramente, obtivemos reciprocidade.
Em suma, o Movimento Feminista é um movimento heterocentrista, ou seja, é um movimento que trata exclusivamente dos problemas das mulheres de vivência heterossexual e, no máximo admite algumas linhas contra a discriminação das lésbicas em algum documento sobre saúde. Nosse contexto, não dá mesmo para afirmar que o fato do CIM também ter integrantes homossexuais descarta a possibilidade do despejo ter tido uma base forte de preconceito. Provavelmente, os interesses particulares dessas integrantes homossexuais do CIM falaram mais alto que suas consciências enquanto mulheres lésbicas. p. 21
Termino o texto atualizando nossa situação naquele momento e falando de nossa esperança de ainda encontrar apoio a fim de alugarmos um espaço para nossas atividades. Mas a esperança não se concretizou, e o GALF terminou sem voltar a ter uma sede. Somente pela Um Outro Olhar, em 1995, retornei, por meio dos projetos pioneiros que produzi sobre saúde lésbica, a ter um espaço público para atividades de militância.
Em termos práticos, o despejo deixou o GALF sem espaço para
receber novas integrantes e sem sequer poder desenvolver atividades básicas (como
o crescimento de nossa biblioteca), pois estamos numa residência muito pequena.
No momento aguardamos uma verba prometida pelo Secretário da Cultura de São Paulo,
a quem denunciamos o despejo para podermos alugar uma sala e retomarmos nossas
atuações. p. 21
Troca-Cartas e anúncios - p. 22
Com a maior divulgação do grupo após o protesto do Ferro's Bar, a seção de correspondência foi crescendo e resolvi denominá-la de Troca-Cartas. Me chamou a atenção, ao reler esses anúncios, o fato de algumas mulheres colocarem seus nomes por extenso e inclusive seus endereços e não caixas-postais. Considerando que a maioria de nós assinava os textos apenas com os prenomes, com receio da lesbofobia ainda bem forte do período, como se explica o fato das mulheres não temerem expor seus nomes dessa forma? Será que porque acreditavam que o boletim circulasse só entre lésbicas? Boa questão.
Anúncios
Após o happening do Ferro's, os donos do bar passaram inclusive a colocar pequenos anúncios no Chana. O mesmo fizeram outros pontos de encontro de lésbicas.
Condições de compartilhamento deste texto: Você deve dar o crédito apropriado a autora Míriam Martinho, prover link para este texto e para as fotos que o ilustram, se for utilizá-los. Você não pode usar o material para fins comerciais. Você não pode remixar, transformar ou criar a partir deste material.
Em dezembro de 1982, era lançado o primeiro número do boletim Chanacomchana seguido de outros 11 números (ver resgate do CCC 1 aqui, CCC2 aqui, CCC 3 aqui, CCC 4 aqui, CCC 5 aqui, CCC6 aqui, CCC 7 aqui, CCC 8 aqui, CCC 9aqui, CCC 10aqui, CCC 11aqui, CCC 12 aqui). Neste artigo, abordo oChanacomChana 6, não sem antes falar do contexto histórico e político de onde o periódico emerge, fundamental para entender sua produção e conteúdo (ver mais informações emMemória Lesbiana: 41 anos de ChanacomChana e aqui).
O Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) e sua primeira publicação, o boletim Chanacomchana, nascem durante o primeiro ciclo do MHB (Movimento Homossexual Brasileiro) também chamado de ciclo libertário (78-83/84) porque nele prevaleciam as ideias da Contracultura, aquele grande guarda-chuva de movimentações e movimentos socioculturais e comportamentais que se inicia já nos anos 50, percorre as décadas de 60 e 70, terminando no início dos anos 80. Retomando elementos do anarquismo e do romantismo, a Contracultura vai priorizar a revolução individual, politizando o cotidiano e as inter-relações humanas (o privado é político) e retomando a máxima gandhiana de que as pessoas tinham que se tornar a mudança que queriam ver no mundo. Não havia interesse na tomada de poder do Estado, objetivo dos partidos políticos, mas sim na revolução molecular dos grupos discriminados e oprimidos que unidos superariam a incompetência da América católica e seus ridículos tiranos (Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval - Caetano Veloso).
Na prática, os grupos daquele incipiente movimento se preocupavam com a não reprodução da política tradicional, suas hierarquias, disputas de poder, discursos da boca para fora, e tentavam (com pouco sucesso) não reproduzir suas mazelas. Nesse sentido também, pregavam a autonomia dos movimentos sociais em relação aos partidos políticos, uma das bandeiras de maior bom senso daquela época. O GALF era tributário dessas ideias (vide o texto Autonomia), via esquerda libertária, das ideias do feminismo de segunda onda, com seu questionamento dos papéis sexuais, e das correntes do separatismo lésbico do também incipiente movimento lésbico internacional.
A Revolução DIY
Todo esse amálgama de ideias e inspirações aparecem nas páginas do Chanacomchana do seu período inicial e nele permanecem no período posterior, de 1985 em diante, apesar do afã revolucionário contracultural do MHB ir sendo paulatinamente substituído pelo reformismo pragmático de grupos como o GGB e o Triângulo Rosa.
Também do ponto de vista gráfico, o CCC vai seguir a ética e a estética contracultural do "Do It Yourself - DIY" (Faça você mesmo) matriz, entre outras produções, dos fanzines produzidos artesanalmente, com colagens e mistura de tipos gráficos, e, no conteúdo, com uma miscelânea de textos políticos, tirinhas, desenhos, poesias, depoimentos, notícias e app arcaico de namoro (o Troca-cartas). Nas vendas, o corpo a corpo junto ao público-alvo ou, posteriormente, via correios através do sistema de associação.
Nem o GALF nem o ChanacomChana refletem qualquer luta contra a ditadura militar mesmo porque seu contexto histórico é o do governo da abertura do general Figueiredo, da redemocratização, que se iniciara com a revogação do AI-5 em 13/10/78, ainda sob o governo Geisel. De fato, o governo Figueiredo foi uma democratura, uma convivência de elementos ainda autoritários do regime em decomposição com aumento crescente de características democráticas caminhando a passos largos para o restabelecimento do poder civil. Embora a censura, só revogada com a Constituição de 1988, ainda existisse no período, ela não vitimou o GALF ou o ChanacomChana em momento algum. Tal fato pode ser constatado facilmente pela simples leitura dos Chanas onde não se encontram sequer informes referentes ao regime militar, muito menos registro de qualquer arbitrariedade que tenhamos sofrido dos militares. O GALF e suas publicações foram, de fato, insurgências contra a ditadura da heterossexualidade obrigatória praticamente onipresente do período.
Informes (início) - p. 1 Roberta Close: homem ou mulher - p. 2-5 Poesia - p. 6 Lésbicas: o difícil direito de ser mãe- p. 7-10 Informes (final) - p. 11-12 Cartas e Correspondência - p. 13
Informes início p.1 (Míriam Martinho)
CCC 6, p.1
Informes era a seção, posteriormente denominada de Em Movimento, que eu produzia a partir das notícias nacionais e internacionais que nos chegavam via cartas, jornais, publicações do exterior.
Contra o código 302.0
Nesse número 6, registrei mais uma vez o andamento das articulações para a retirada do código 302.0 da CID, seguido pelo então INAMPS, que rotulava a homossexualidade como desvio e transtorno sexual. O objetivo da campanha, protagonizada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) era que, a exemplo dos países escandinavos (Dinamarca, Finlândia, Suécia e Noruega), o governo não observasse o código em território nacional. Nesse informe, eu relatava a participação do GALF na campanha e lamentava o fato da deputada Ruth Escobar não nos ter dado uma entrevista sobre sua moção contrária ao código aprovada na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Mulheres na Índia
Informe sobre a utilização da aminiocentese na Índia para identificar o sexo do feto e provocar o aborto de futuras meninas. A amniocentese é um procedimento médico para testar a presença de quaisquer distúrbios genéticos como síndrome de Down, síndrome de Klinefelter, anemia falciforme, etc. Foi, contudo, amplamente utilizado para a eliminação de fetos do sexo feminino até 1994, mas banido desde então para impedir o feticídio feminino e impedir o declínio da proporção entre os sexos na Índia.
Wavelength (comprimento de onda)
Nota sobre o jornal lésbico-feminista americano Wavelength, de Seattle, que o GALF recebera, cujo objetivo era criar conexões políticas com outras lésbicas-feministas locais e de outros países, através de uma rede de comunicação, para ir além das divisões históricas e outras tantas criadas pelos homens. O GALF trocava o CCC com publicações lésbicas de várias partes do mundo.
Amazonas
Amazonas foi outra publicação lésbica recebida pelo GALF em 84, desta vez brasileira, feita pelo Grupo Libertário Homossexual, grupo de Salvador de duração efêmera como todos os grupos lésbicos do período, com exceção do GALF. O boletim tinha depoimento de uma das integrantes do grupo, as linhas de ação do mesmo e informes gerais.
Informes continuação p. 11-12 (Míriam Martinho)
Marcha e Conferência Internacionais
Baseadas numa declaração da Associação Gay Internacional (que posteriormente se tornaria a ILGA) que considerava o ano de 1984 como Ano Internacional de Ação Lésbica e Gay, foi realizada uma conferência e uma marcha pelos direitos homossexuais na cidade de Nova York. Reproduzo a lista dos direitos reivindicados porque são um retrato daquela época quando só se falava em direitos de gays e lésbicas. Como até fotos vêm sendo adulteradas para inserir suposta participação de transgêneros inclusive em Stonewall (1969), vale deixar o passado falar e mostrar que semelhante identidade não existia na década de 80. Aqui, no Brasil, o movimento foi chamado de homossexual até 1993 quando propus que fosse alterado para incluir a letra L, proposta acatada pelo movimento do período. Dois anos depois, em 1995, ocorreu a inserção da letra T no nome dos encontros do movimento e do movimento, mas esse T era somente de travestis (que eram gays). Seguem as reivindicações:
Destaque para a retirada da homossexualidade como doença da Classificação Internacional de Doenças. "Em 17 de maio de 1990, a Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde aprovou a retirada do código 302.0 (Homossexualidade) da Classificação Internacional de Doenças, declarando que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. A nova classificação entrou em vigor entre os países-membros das Nações Unidas em 1993. Em 2003, em homenagem a esse evento significativo para os direitos da população LGBT, a Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA) estabeleceu a data como Dia Internacional contra a Homofobia."
O Julgamento de Lindomar, 1981 ⓒ Míriam Martinho
Lindomar Castilho era um cantor de música brega, conhecido como o Rei do Bolero (fez sucesso com o hit Você é doida Demais) que matou a ex-mulher com 3 tiros à queima roupa em 30 de março de 1981. Neste informe, eu dava conta de que, inusitadamente, ele fora condenado a 12 anos de reclusão em 25 de agosto de 1984, pondo fim também ao argumento da "legítima defesa da honra" muito usado no período para livrar a cara de machistas que matavam suas ex. Castilho cumpriu a pena e foi libertado em 1996. Por incrível que pareça, só neste ano de 2023, o uso da tese da “legítima defesa da honra” em julgamentos de crimes passionais deixará de ser válido.
De Última Hora Notinhas sobre grupos SM
Miscelânea de pequenos informes, incluindo nota sobre grupos lésbicos sadomasoquistas, nos EUA e Europa, que iniciaram uma polêmica discussão sobre sexualidade lésbica no meio lésbico-feminista americano dos anos 80. As discussões foram tão acirradas e prolongadas (toda a década de 80) que ficaram conhecidas como “Sex Wars” (Guerras Sexuais).
Nós, do GALF, praticamente não tínhamos interlocutores no Brasil seja porque o Movimento Homossexual já estava reduzido a poucos grupos que eram dados a ações pragmáticas, não a grandes discussões, seja porque o movimento feminista local era refratário a discussões sobre a lesbianidade em geral. Nossas referências acabavam sendo então os grupos do exterior com quem trocávamos correspondência e materiais. Assim ficamos conhecendo e acompanhando as tais guerras sexuais e toda a polêmica envolvida. Os textos das SM e outras dissidentes tiveram o mérito de questionar uma certa receita de relacionamentos entre mulheres e foram importantes para mudar minha visão sobre a reprodução dos papeis sexuais. No meu texto sobre o Orgulho Lésbico: o happening político do Ferro's Bar, eu explicava:
Entretanto, excessos críticos dessas correntes (lésbicas-feministas) quanto ao heterossexo e ao sexo lésbico que incluísse uma suposta reprodução das relações heteropatriarcais levou ao surgimento de acirrado debate nos EUA sobre a sexualidade feminina, durante a década de 80, que ficou conhecido como “Sex Wars” (Guerras Sexuais). Reclamando que essas correntes faziam um patrulhamento da própria sexualidade lésbica, sobre a qual recaísse suspeitas de reproduzir as relações heteropatriarcais, lésbicas que vieram a ser chamadas de “pró-sexo” (feministas hétero e bissexuais também fizeram parte dessa turma), como as sadomasoquistas e as butch-femme(par bofinho-lady), passaram a reivindicar que era possível ser feminista e gostar de sexo, entendendo que a sexualidade era o terreno do lúdico, da fantasia, não cabendo projeções literais da realidade da dominação homem-mulher no território das brincadeiras sexuais. No fim dessas guerras sexuais, quem as observava com mais distanciamento, porém, percebeu que os supostos lados opostos estavam usando argumentos muito parecidos um contra o outro e, no fundo, ambos desejavam estabelecer receitas de como as mulheres deveriam se relacionar erótica e afetivamente."
Notinhas sobre lesbianidade e saúde da mulher
Matéria a respeito de mães lésbicas na tradicional publicação feminista americana da época, a Off Our Backs, publicada em junho de 1984. Outra sobre um programa quinzenal de rádio de temática lésbica, em Zurique, na Suíça, com músicas, entrevistas, debates, que buscava informações de todo o mundo sobre mulheres homossexuais. E outra a respeito do Encontro Nacional Sobre Saúde da Mulher que iria se realizar em Itapecerica da Serra, em São Paulo, em novembro, com exposições de filmes e trabalhos de mulheres nas áreas de Saúde e Sexualidade.
Informe sobre o não apoio da Anistia Internacional a pessoas presas ou perseguidas por serem homossexuais.
Interessante observar que a Anistia Internacional que hoje comparece até a marchas do orgulho (ver foto), na década de 80, decidira não apoiar pessoas presas ou perseguidas por causa de sua homossexualidade. Tal atitude se devia ao fato de a orientação sexual ainda não estar expressa na declaração dos Direitos Humanos e da Organização Mundial de Saúde ainda considerar a homossexualidade como doença.
Roberta Close: Homem ou Mulher? p. 2-5 (Míriam Martinho)
Roberta Close: um homem, uma mulher, um transsexual, uma roberta close
Roberta Close: Homem ou Mulher? é um texto que escrevi, para esta edição do CCC, aproveitando o enorme sucesso da transsexual Roberta Close no imaginário sexual da década de 80, a fim de questionar o estereótipo feminino como definidor do "ser mulher". No Brasil, ainda bem conservador da década de 80, um homem que se fazia passar por mulher frequentava as revistas masculinas e inclusive programas de TV impressionando a todos com sua feminilidade (ver o vídeo abaixo onde ela aparece no 'Almoço com as Estrelas' do SBT em 1983 e de sua aceitação. A entrevistadora era a Lolita Rodrigues).
Inspirada pela famosa frase dos comics “É um pássaro? É um avião? Não, é o super-homem!” estruturei o texto em subtítulos onde afirmava cubisticamente que Roberta Close era um homem, depois que era uma mulher, depois que era um transexual, depois que era uma Roberta Close. A própria Close se definia como um transexual no período.
Roberta Close é um homem
Neste trecho do texto, eu apresentava a realidade material da personagem Roberta Close, o símbolo sexual do momento que era um homem. Apesar de figura delicada e tipo ingênua-sexy à la Marilyn Monroe, Roberta era um homem, um travesti quase perfeito, sendo esse "quase", o garantidor de seu sucesso, pois se mulher de fato, seria apenas mais uma padronizada e produzida como todas as que frequentavam as páginas da imprensa erótica-pornográfica da época.
Enquanto sexólogos e psicanalistas apontavam que Close provocava a fantasia da mulher fálica, criando ansiedade nos homens e revolta nas mulheres, eu dizia que a bronca de certas moças com La Close era porque ela roubava o único lugar aparentemente privilegiado das mulheres: o lugar de objeto incondicional do desejo sexual dos homens. Aparentemente porque de fato todo o mundo já sabia que homens também desejavam outros homens e transavam entre si, embora tal desejo ainda fosse maldito. Advertia, porém, que Close não era homossexual porque não parecia com um homem e sim com uma mulher por ser tão feminina. Terminava perguntando se, afinal, ela não era uma mulher.
Roberta Close é uma mulher
Neste subtítulo, eu argumentava que Close era mulher porque representava o papel sexual feminino, hoje chamado de papel de gênero. Que ela era a prova mais contundente de que ninguém nascia mulher, tornava-se, como dizia Simone de Beauvoir, pois para ser mulher nunca bastou alguém nascer do sexo feminino. Para receber o diploma de mulher, as mulheres também tinham (têm) que se encaixar no estereótipo de gênero feminino, em outras palavras, no modelo de mulher da sociedade patriarcal. Aliás, o feminino como sinônimo de mulher tem cada vez mais voltado a superar a mulher de carne e osso, prova de que regredimos no tempo.
Mas vale aqui salientar que Beauvoir se referia especificamente à fêmea humana que "o conjunto da civilização elaborava como um produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificava o feminino." Na verdade, a célebre escritora apontava o processo de socialização imposto à fêmea humana para se tornar feminina equacionado com o se tornar mulher. A citação integral é: Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.” (A Experiência Vivida, Primeira Parte Formação, Capítulo 1, Infância, p. 9 in BEAUVOIR, S. O segundo sexo, vol. 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980).
Eu também dizia que La Close podia ser considerada mulher porque representava com perfeição o modelo de mulher, o feminino, desejado pela sociedade, mas não no sentido de endossar uma suposta identidade dela como mulher e sim para usá-la como prova de que o feminino não era natural da mulher tanto que um homem podia representá-lo. Nos anos 80, aliás, ninguém falava de identidade de gênero, e a própria Close se definia como um transexual:
No vídeo abaixo, ela se assim se define:
Eu não me considero nem um pouco um travesti. Eu me considero um transexual que é a cabeça de mulher no corpo de um homem. Seria isso a melhor colocação no momento para me distinguir a vocês.
Interessante observar que a apresentadora Lolita Rodrigues trata Close muito bem em seu programa vespertino "Almoço com as estrelas" e termina dizendo que muita mulher gostaria de ter o corpo, o cabelo e o rosto bonito da transexual. Close não se ofendeu por não ser considerada mulher, mesmo porque se definia como um transexual, nem quis processar a apresentadora por transfobia pois não existia a concepção de identidade de gênero na época e as pessoas sabiam distinguir fantasia de realidade.
Continuando com a desconstrução da definição de mulher como o feminino, eu questiono a suposta naturalidade dos estereótipos de gênero, demonstrando que eles de fato são uma construção social, um monte de convenções sociais impostas às pessoas, desde o pós-nascimento, pela chamada educação diferenciada que adestra meninas e meninos de formas completamente distintas. No texto, vou exemplificar esse adestramento com algumas características dos dois estereótipos e compará-los com as visões do que é ser mulher e homem em sociedades, pesquisadas por antropólogos, onde os critérios de gênero são até invertidos em relação aos nossos. Mais informações sobre essas sociedades podem ser lidas aqui: Matriarcados: quando as mulheres é que mandam.
E termino esse subtítulo afirmando que Roberta Close poderia ser considerada mulher se adotássemos a perspectiva patriarcal e equivocada de mulher como sinônimo de feminino. No caso de Close, uma aparente mulher bem esculpida com auxílio de hormônios cruzados e bisturis. Vale salientar que muitos transexuais até hoje não chegam a uma imitação de mulher que tenha dado tão certo como Roberta Close (aqui parodio uma das manchetes da época que definiam a modelo como a imitação que havia dado certo).
Roberta Close é um transsexual
Neste subtítulo, começo apontando a definição médica de transsexual à época: transsexuais se diferenciariam de homossexuais e travestis por terem uma conformação cerebral feminina, no caso dos homens, o que os levaria já aos 4 anos de idade a preferir "brincadeiras de menina". Por outro lado, os especialistas vão afirmar não haver aparente conflito dos trans com suas características físicas genitais, algo um pouco estranho para os dias atuais, onde a definição de transsexual passa em geral pela pessoa tão disconforme com sua natureza que parte para a cirurgia de redesignação sexual.
De qualquer forma, no texto, vou contestar a tal "conformação cerebral feminina" dos transsexuais questionando como algo cultural poderia ser considerado inato. Os exemplos dados pela antropóloga Margaret Mead, já citada, mostraram que nas diferentes tribos que pesquisou até o que nós chamamos ainda hoje de "coisa de menina ou de mulher" era considerada coisa de homem e as "coisas de menino e homem" consideradas coisas de mulher. Se essas tribos e nós pertencemos a mesma espécie humana, a diferença na concepção de homem e mulher só poderia ser cultural, não natural. Na verdade, no afã de manter inquestionados os estereótipos sexuais, hoje de gênero, nossa sociedade patriarcal estabeleceu uma falsa relação intrínseca entre sexo e gênero. Aliás, nunca saiu de moda apelar para uma suposta natureza feminina a fim de pretextar que as mulheres não teriam capacidade para estudar, trabalhar, votar, praticar esportes, etc., arjumentos que o vento levou.
Em seguida, eu passo a apontar as razões para a permanência dos papéis sexuais:
E passo a refletir que as mulheres que fugiam da equação de mulher patriarcal (nascer do sexo feminino + representar o estereótipo feminino + ser heterossexual = mulher) eram tidas como lésbicas, mesmo que não fossem. "Fulana parece um homem, deve ser sapatão". Hoje as mulheres masculinizadas estão sendo rotuladas de "homens trans" tal a necessidade de se manter a equaçãozinha patriarcal acima. Na década de 80, como não existiam "homens trans", as mulheres masculinizadas eram consideradas sapatões simplesmente. E as lésbicas ainda eram vistas como um terceiro sexo a ser mantido longe das "mulheres reais".
Termino esse subtítulo, dizendo que:
Roberta Close é uma Roberta Close
Neste último subtítulo de encerramento do texto, vou dizer que, considerando os padrões vigentes do que era ser mulher (presentes ainda hoje), Roberta Close poderia ser considerada mulher porque havia se construído como imagem da mulher enquanto feminino. Não obstante o estereótipo que representava, porém, havia algo de subversivo em sua construção, pois Close parecia obter dela prazer e independência, não dor ou opressão como no caso das mulheres obrigadas a representar o feminino.
E vou pontuar que, pela questão do prazer, eu achava fundamental implodir os conceitos de masculino e feminino como coisas naturais e sérias, já que eram a base da dominação das mulheres e da marginalização das pessoas homossexuais. E vou questionar a visão essencialista do chamado feminismo da diferença (feminismo cultural) que emergia naquele período e ressignificava positivamente as supostas características do estereótipo feminino como tábua de salvação no mar revolto do patriarcado. Vou concluir dizendo:
Tirando do ChanacomChana vampiros, sacis-pererês, jacarés e lobisomens
Uma das razões por que passei a fazer o resgate comentado do Chanacomchana entre outras, reside no fato de a publicação ter virado uma espécie de cartola de mágico de onde pessoas pouco afeitas à honestidade intelectual vivem tirando vampiros, sacis-pererês, jacarés, lobisomens, etc.. à revelia da realidade histórica, social, cultural e ideológica da publicação. Desde o absurdo sequestro do periódico para ilustrar teses de uma suposta perseguição estatal a gays e lésbicas na ditadura militar, quando ele de fato se inicia às vésperas do fim do regime (no final do processo da redemocratização) e não tinha por ele qualquer interesse, até distorções de minhas tirinhas tiradas fora de contexto e dos meus textos também servindo para endossar até o oposto do pretendido.
Este texto Roberta Close: Homem ou Mulher? que escrevi para essa edição do Chanacomchana do final de 1984 já foi rotulado de queer e até mesmo de marco fundador do transfeminismo (😱). Vamos combater esses anacronismos. A expressão "teoria queer" foi cunhada por Teresa de Lauretis em 1990, para descrever o trabalho e a perspectiva teórica de um grupo de intelectuais do final dos anos 80. Problemas de gênero, de Judith Butler, pedra de toque dessa perspectiva, é lançado em 1990 nos EUA e aqui no Brasil só em 2003. Embora tivesse contato com muita produção do exterior, nem no final da década de 80 tive acesso a textos da teoria queer. De fato, por meu texto usar a personagem Roberta Close como um exemplo da não-naturalidade do estereótipo de gênero feminino, já que um homem podia representá-lo à perfeição, os anacrônicos de plantão resolveram enfiá-lo numa perspectiva que só apareceria 6 anos depois da publicação do artigo. Pela mesma razão, transativistas resolveram chamá-lo, para meu profundo asco, como citei acima, de marco fundador do transfeminismo (sic) a partir do pinçamento de algumas frases fora do conjunto do texto. Eu ironizo que Close deveria ser considerada mulher porque representava a máscara feminina, a camisa de força do feminino que é imposta às mulheres, para que sejam consideradas mulheres, não porque concordasse com a ideia de que fosse mulher de fato. Aliás, eu afirmo cubisticamente que ela era um homem, uma mulher, um transsexual e uma Roberta Close. Vale repetir que nem a própria Close se dizia mulher (como pode se ver no vídeo citado) e sim um transsexual.
Contextualizando historicamente essa discussão
O Movimento Homossexual no Brasil tem como matrix a esquerda libertária da Contracultura, o grande guarda-chuva de movimentos e movimentações sociopolíticas e comportamentais que revolucionou o Ocidente de meados da década de 50 até o início da década de 80. Um de seus trunfos foi a chamada revolução sexual que, entre outras coisas, vai liberar a sexualidade feminina, desestigmatizar a homossexualidade e questionar os chamados papéis sexuais (hoje chamados de gênero) com o advento da androginia. Homens femininos e mulheres masculinas começaram a aparecer na cultura sobretudo via rock e peças de teatro e na indumentária da juventude da época. Os cabelos longos e as roupas coloridas dos homens hippies nas décadas de 60 e 70 são um exemplo disso. A androginia aparece também no glitter rock, em ícones da música pop, como David Bowie, Patti Smith, nos brasileiros Ney Matogrosso e Dzi Croquettes e mesmo na dupla Caetano e Gil. Caetano viveu uma boa fase afeminada nos anos 70. Mesmo adentrando os anos 80, em 1983, vamos ter o Pepeu Gomes, hétero, cantando seu grande hit Masculino e Feminino que ilustra bem o que digo:
Ser um homem feminino/ Não fere o meu lado masculino/ Se Deus é menina e menino/ Sou Masculino e Feminino...
Boy George
No exterior, no mesmo período, o vocalista do Culture Club, o gay Boy George, de maquiagem, tranças, e gestos afemininados cantava:
I'm a man without conviction/I'm a man who doesn't know./How to sell a contradiction,/ You come and go, you come and go./Eu sou um homem sem convicção/Eu sou um homem que não sabe/Como vender uma contradição/
Você vem e vai, você vem e vai.
A lista de artistas que adotaram, em maior ou menor grau, a androginia, fossem gays, lésbicas, bissexuais ou heterossexuais é extensa e não cabe neste artigo. Citei alguns apenas à guisa de exemplificação de que a androginia foi a marca registrada das décadas sobretudo de 70 e 80. Mas essa androginia nada tem a ver com os atuais transgenerismos, non-binarismos e outros 1001 gêneros. Pra começo de conversa, aqui no Brasil, como citei anteriormente, o termo gênero mal começava a circular na década de 80. E, quando começa a ser utilizado de forma mais recorrente, vai ser no sentido de separar o natural (o sexo) do cultural (o gênero). Gênero nada mais é do que um termo emprestado da gramática, já em meados do século passado, para designar aquilo que no comportamento de ambos os sexos é fruto da socialização imposta às pessoas, desde o berço, e não da biologia.
Obviamente, portanto, se pouco se falava em gênero, obviamente não se falava de transgêneros. Fora isso, além da terminologia, existe a diferença fundamental dos conceitos da androginia e dos atuais movimentos de gêneros mil. Os andróginos de ambos os sexos eram revolucionários, rompiam com os estereótipos sexuais usando elementos atribuídos ao sexo oposto ao seu, mas mantendo sua identidade sexual. Nos dois exemplos que citei, Pepeu Gomes vai dizer que ser um HOMEM feminino não feria seu lado masculino. Boy George, todo maquiado e afeminado, vai cantar que é um HOMEM sem convicção, um HOMEM que não sabe vender uma contradição. Nenhum homem andrógino saía dizendo que era mulher porque adotava vestimentas, adereços e gestos femininos. Nenhuma mulher andrógina saía dizendo ser homem porque adotava vestimentas, adereços e modos masculinos. Gays e lésbicas sempre brincaram muito com os estereótipos sexuais, mas ninguém falava a sério que era mulher ou homem porque adotava elementos visuais e gestuais atribuídos ao sexo oposto ao seu.
David Bowie de vestido na capa de seu disco The Man Who Sold the World
Mesmo na fauna T (travestis e transsexuais), a ideia de se dizer do sexo oposto ao seu, por se identificar com os estereótipos atribuídos a ele, só começa a aparecer na década de 90. Antes, travesti se dizer mulher era no sentido mais figurado, numas (algo não para valer). Lembrar que a travesti Rogéria dizia que as travestis tinham que entender que eram travestis, não mulheres. E Roberta que era um transsexual, cabeça de mulher no corpo de um homem. Outro fato curioso da década de 90 é que os transsexuais que conheci não tinham interesse pelo movimento aí já de gays e lésbicas. No começo dos anos 2000, é que de fato começam a aparecer efetivamente os tais transgêneros, que pegaram carona tanto no movimento de gays e lésbicas quanto no feminista, trazendo com eles uma ideologia oposta à revolucionária androginia dos anos contraculturais.
Calcada na renaturalização dos estereótipos sexuais ou de gênero, essa ideologia vai dizer que, se um homem se identifica com o gênero feminino (aquele amontoado de convenções sociais sobre o que é ser mulher), é porque ele é uma "mulher" trans. Se uma mulher se identifica com o gênero masculino (aquele amontoado de convenções sociais sobre o que é ser homem), é porque é um "homem" trans. Em vez de romper com essas convenções, esse pessoal mergulhou de cabeça na crença da naturalidade dos estereótipos de gênero a ponto de partir para cirurgias mutiladoras e uma vida de hormônios do sexo oposto ao seu a fim de simular o "corpo certo" para viver o gênero como qual se identificam. Ao contrário dos andróginos que buscavam a liberdade de ser homens femininos e mulheres masculinas, num ato de libertação dessas camisas de força, os transgêneros buscam encaixar seus corpos nos estereótipos de gênero e ainda demandam que a sociedade seja obrigada não só a ratificar essa delusão como a adotá-la para si própria. Até a Rede Globo, grande divulgadora dessa ideologia, foi processadaporque uma de suas apresentadoras Poliana Abritta se referiu a um transmasculino, vítima de um infarto, como “uma mulher que se passava por homem”. Vamos relembrar o que disse Roberta Close em 1983 (Sintam a diferença de abordagem.):
Eu me considero um transexual que é a cabeça de mulher no corpo de um homem.
Inclusive cada vez mais se vê o termo gênero sendo usado como sinônimo de sexo ou até substituindo a palavra sexo. Se os andróginos eram fruto do movimento orgânico de uma juventude cansada das normas então vigentes, o movimento transgênero é fruto de uma mistura de reacionarismo profundo com os interesses da indústria biomédica farmacêutica. Andróginos eram revolucionários e libertários. TQ + são reacionários e autoritários, mas adoram se dizer progressistas enquanto xingam de reacionários quem não quer se encaixar em estereótipos. Total inversão de valores.
Concluindo, o texto sobre a Roberta Close não é nenhum marco fundador de transfeminismo (que horror!), muito pelo contrário. Toda a base dele é a negação dos estereótipos de gênero em que se baseia o suposto transfeminismo, uma aberração conceitual, na minha opinião. Pinçar frases soltas do artigo, fora de seu contexto integral, fora de seu contexto histórico (vivíamos o questionamento dos estereótipos sexuais tanto no movimento feminista quanto no gay internacional) é puro anacronismo e, consequentemente, desonestidade moral e intelectual. Me poupem.
Se fosse reescrever esse texto, para os dias de hoje, faria algumas alterações para atualizá-lo em relação ao que veio depois da década de 90, mas manteria sua essência que é a negação da naturalidade dos estereótipos de gênero e da concepção de mulher como sinônimo de representação do gênero feminino. Minha opinião sobre o assunto permanece essencialmente a mesma de 39 anos atrás. O mundo é que deu uma volta de 180 graus anti-horários, voltando para antes da década de 50 do século passado quando os estereótipos de gênero ainda eram praticamente sagrados, mas logo seriam defenestrados ao som do rock'n'roll. Precisamos de uma nova revolução sexual. Credo!
Poesia, p. 6 (edição Míriam Martinho)
Poesia era um espaço que eu definia como "para as lésbicas poderem falar de como era bonito, sensual, gostoso e ótimo amar outra mulher." Nesse sentido, sempre busquei trazer poesias de teor romântico e erótico de autoras conhecidas e desconhecidas que apreciavam escrever poesias, mais ou menos elaboradas, atividade pela qual lésbicas sempre tiveram predileção.
Nesta edição, mais algumas poesias onde o erótico predomina sobre o romântico, inclusive com uma levada a la Cassandra Rios:
Em Eu queria (Zulmira): Eu queria ser uma tara para satisfazer seus instintos. Ser pecado capital, seu desejo mais distinto.
Em Aconchegue-se e Sonhe (Denise), com um pouco de melancolia: Seus lábios me queimarão de desejo e seu corpo tremerá de emoção ... Toco em seu corpo com o meu e sinto a vibração de nossos corpos suando e vivendo a emoção presente nesse nosso momento de amor.
Em Mulher (Ieda Mara):
Mulher, na sua boca suguei toda a sensualidade!/ Nos seus seios beijei um sorriso de céu./ Na sua pele sangrei uma eternidade./ E, na sua intimidade, me embriaguei num prazer de mel./ Lembre-se mulher, lembre-se dos sentidos derrotando a mente, do delírio despido em seu ventre, dos segredos jurados em seus ouvidos, dos desejos saboreados de seus gemidos...e dos nossos corpos por amor vencidos.
O romantismo ficou por minha conta, com o Rima Verde:
Lésbicas: o difícil direito de ser mãe, p. 7 -10 (Rosely Roth e Luiza Granado)
Lésbicas: o difícil direito de ser mãe foi basicamente uma entrevista feita por Luiza Granado (então assinando como Maria Luiza) com mulheres que se correspondiam com o GALF e eram mães. Rosely Roth fez a introdução, e eu editei o material, dei o título e os subtítulos.
A maternidade lésbica foi um tema recorrente nas publicações lésbicas internacionais do período, e nós, do GALF resolvemos inaugurar o assunto por aqui. À época, a descoberta da lesbianidade de uma mãe podia acarretar a perda da custódia dos filhos fosse durante o processo de separação do marido fosse depois da custódia já conquistada. Não por menos, além de se manter no armário no trabalho e junto a amigos e familiares, para não perder o emprego e relações que lhes eram caras, as mães lésbicas não podiam se assumir para não perder os filhos. Como disse Rosely na introdução da entrevista,
Tendo em vista essas limitações, as entrevistadas não aparecem com seus nomes verdadeiros e sim com nomes inventados. Uma bem jovem, de 21 anos, que trabalhava no CEASA e em pesquisas de mercado, adotou o nome de Lúcia, e a outra, de 40 anos, professora universitária, adotou o nome de Márcia.
A experiência da maternidade foi positiva para ambas as entrevistadas, ainda que uma delas, Lúcia, tenha tido a criança após uma relação fortuita com um cara numa festa e mantido segredo da gravidez para a família até o parto, e Márcia tenha sido mãe para seguir o papel tradicional de geradora que esperavam dela. Além de terem tido partos descomplicados e sem dor, ambas definiram a experiência da maternidade inclusive como um divisor de águas em suas vidas. Márcia declara:
Ao ser perguntada se a experiência de ser mãe era gratificante, Lúcia respondeu:
Quanto à discriminação por serem lésbicas, o quanto achavam que sua lesbianidade influenciaria na vida dos filhos e, se no caso de Márcia, tinha havido problemas com a custódia das crianças, elas responderam de forma diferenciada. No caso da discriminação, Lúcia afirmou ser discriminada por ser lésbica, não por ser mãe. Que havia perdido muitos empregos por ser lésbica. Por seu lado, Márcia disse que, por não aparentar ser lésbica, isso funcionava como uma proteção. Que não saía falando para todo o mundo: -"Meu negócio é esse..."
No caso de como os filhos encaravam ou podiam encarar suas lesbianidades, Lúcia afirmou acreditar que sua aceitação pela filha Simone se daria se fosse uma mãe presente, dedicada, que fizesse a menina se sentir curtida, amada. Por sua vez, Márcia disse que demorou para conversar com os filhos sobre o assunto porque considerava a discriminação sobre as crianças mais pesada, porém os filhos é que acabaram forçando a conversa ao perguntar se a mãe era lésbica. E que na verdade era algo óbvio porque ela e a companheira estavam convivendo com eles, viajando juntos e que eles encaravam com naturalidade. Entretanto, não dava para eles ficarem falando para os amigos: "-Sabe? Minha mãe está na casa da namorada dela.... Nem pensar, não dá..."
A respeito da influência de sua lesbianidade sobre os filhos, Lúcia afirmou que achava que não fazia diferença ser uma mãe hétero ou lésbica. E sobre a convivência da namorada com sua filha que era ótima.
Márcia também vai afirmar que a convivência dos filhos com sua namorada era boa:
Mas que a influência de sua lesbianidade influenciava o filho mais velho que se ressentia da ausência de uma figura masculina. Ou melhor, sua baixa avaliação da figura masculina sobre seu filho.
Por último, ao ser perguntado se teve problemas com a custódia dos filhos quando se separou do marido, Márcia respondeu:
A ressaltar, o papel do GALF como meio de comunicação entre as lésbicas do período que já começava a crescer além das fronteiras do próprio grupo. Bem como o aumento do número de pedidos de correspondência com 12 nomes inclusive nomes reais por extenso.
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