Um Outro Olhar
quinta-feira, 5 de maio de 2016
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Obama disposto a aprovar primeiro monumento aos LGBT
Obama aprovará primeiro monumento pelos direitos dos homossexuais
Washington, 3 mai (EFE).- O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, está disposto a aprovar o primeiro monumento nacional em reconhecimento dos direitos e contribuições sociais dos homossexuais, lésbicas, bissexuais e transexuais, informou nesta terça-feira o jornal "The Washington Post".
Delimitado pelos espaços do histórico bairro nova-iorquino de Greenwich Village, berço da liberação e do movimento homossexual americano, o monumento ressaltará uma área urbana moderna, ao contrário da maioria dos monumentos nacionais do país, dedicados a paisagens selvagens icônicas ou locais históricos.
As autoridades federais, entre elas a secretária de Interior, Sally Jewell; o diretor do Serviço de Parques Nacionais, Jonathan B. Jarvis, e o congressista democrata por Nova York, Jerrold Nadler, participarão da próxima semana de um encontro no qual a proposta será detalhada.
Se tudo correr como esperado, segundo o jornal, Obama designará parte do bairro de Greenwich Village como Parque Nacional no próximo mês, quando se lembra o orgulho gay.
Os protestos nessa área de Nova York, que duraram vários dias, começaram na madrugada de 28 de junho de 1969, depois que a polícia fez uma batida no bar Stonewall Inn, que era frequentado pela população LGBT (em particular homens homossexuais).
A designação pode coincidir com o primeiro aniversário da decisão do Supremo Tribunal americano, de 26 de junho do ano passado, que legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo no país, um marco histórico nos direitos dos homossexuais.
Um Outro Olhar
sexta-feira, 1 de maio de 2015
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Chanacomchana foi uma publicação dos coletivos que formaram os grupos Lésbico-Feminista - LF (1979-1981) e Ação Lésbica-Feminista - GALF (1981-1989). A única edição tablóide do título foi publicada no início de 1981, pelo primeiro coletivo (LF). As demais, a partir de 1982, como boletim, pelo GALF, com minha edição.
Os boletins Chanacomchana eram verdadeiros fanzines, datilografados e feitos com colagens, muito dentro do espírito contracultural ainda vivo na década de 80 e da pobreza estrutural do período. Abordavam sempre temas ligados às questões da mulher, em particular das lesbianas, dos homossexuais e de outras "minorias".
Na edição abaixo (n. 11, Out./Jan., 1986/87), as integrantes do grupo, Rosely Roth, Luiza Granado e Célia Miliauskas entrevistaram, em setembro de 1986, as então candidatas a deputadas estadual e federal Cassandra Rios (a célebre escritora maldita do período militar), Irede Cardoso (jornalista e parlamentar pioneira no apoio aos movimentos LGBT e feministas) e Dulce Cardoso, feminista e militante do movimento negro da época.
A entrevista foi realizada às vésperas das eleições de novembro de 1986 e da Assembleia Nacional Constituinte que se iniciaria a 1º de fevereiro de 1987 para elaborar a nova Constituição Brasileira (1988) que vigora até hoje. Vale observar que as candidatas já falavam na descriminação do aborto (que ainda não aconteceu), na criminalização da discriminação aos homossexuais (que atualmente chamamos de homofobia e que também ainda não aconteceu) e do casamento entre pessoas do mesmo sexo que, embora já exista, não conta com legislação correspondente (uma temeridade em tempos de onda conservadora). E isso foi há 29 anos.
Um Outro Olhar
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
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Conheci Vange Leonel, aos 18 anos, quando ingressou no Grupo Lésbico-Feminista (LF, 1979-1981), o primeiro grupo de ativistas lesbianas brasileiro, no primeiro semestre de 1981, em São Paulo. A organização tinha um subgrupo chamado LF Artes que reunia as integrantes do LF que gostavam de poesia, música, artes plásticas, fotografia. As garotas animavam as festas do grupo com boa cantoria ao som de violões. Desse subgrupo, três integrantes partiram para uma carreira profissional como musicistas, compositoras. Uma delas foi exatamente a Vange Leonel.
Após a diáspora promovida pelo fim do Grupo Lésbico-Feminista, em meados de 1981, apenas algumas de suas remanescentes permaneceram como ativistas lesbianas e formaram outro coletivo, o Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF, 1981-1989), para dar continuidade ao trabalho iniciado pelo LF. A maioria das integrantes da entidade, contudo, dispersou-se ou no movimento feminista ou no que a gente chamava na época de clandestinidade, ou seja, deixou de militar e foi seguir suas vidas particulares simplesmente.
No caso de Vange, ainda na década de 1980, ela integrou a banda Nau, formada também por Beto Birger (baixo), Zique (guitarra) e Mauro Sanches (bateria). Com essa banda, gravou o disco Nau, em 1987. Depois seguiu carreira individual, com os discos Vange Leonel, de 1991, que tem o hit Noite preta, e Vermelho, de 1996. Teve participação também em discos de outras bandas e coletâneas.
A partir de 1995, assume-se como lesbiana e começa a desenvolver uma espécie de ativismo individual, com a manutenção do blog Cio, no site do Mix Brasil, e a publicação de livros e peças que tematizavam a questão lesbiana e da mulher. Por exemplo, Lésbicas, Grrrls: garotas iradas, As sereias de Rive gauche e Balada para as meninas perdidas.
Em 1996, Vange concedeu uma entrevista para a revista Um Outro Olhar, (edição de número 25), publicação que editei de 1987 a 2002. Nessa entrevista, ela falava um pouco de sua carreira, suas influências musicais, do mercado de música no Brasil, do lançamento do seu CD Vermelho, do seu coming out como lesbiana e do machismo das bandas de rock brasileiras.
Resgato a entrevista como uma homenagem à Vange, uma das artistas que primeiramente se assumiu como lesbiana no Brasil. Abaixo da entrevista, posto também alguns vídeos de sua época na banda Nau, do hit A Noite Preta e do CD Vermelho. Fiquei tristemente surpresa com sua partida precoce. Que descanse em paz na ilha de Lesbos de seus sonhos.
Míriam Martinho, 16 de julho de 2014
A gata da Noite Preta
Um Outro Olhar:Vange,
primeiro, para esquentar, qual sua idade e signo?
Vange: Tenho 33 anos e
sou do signo de Touro com ascendente e Lua em Libra.
UOO: Depois, quando você começou a compor
músicas? Mais detalhadamente, quando passou da poesia para a música? Ou
simplesmente não houve passagem, mas um simples continuum?
Vange: Comecei a compor bem cedo. Na verdade,
me lembro de uma vez quando tinha 5 anos mais ou menos e comecei a cantarolar
uma melodia inventada na minha cabeça. Virei para minha mãe e perguntei:
"Mãe, se são só 7 notas como que as pessoas podem fazer tantas músicas
diferentes?" Foi aí que começou minha curiosidade com relação à música.
Tinha mais ou menos uns nove anos quando minha prima Quilha me levou para
assistir ao show Gal A Todo Vapor. Foi determinante para mim ter
visto esse show da Gal. Foi aí que eu decidi ser cantora e comecei a aprender
violão, depois piano, e nunca mais larguei a música.
Ao mesmo tempo sempre adorei escrever. Uma coisa sempre esteve
muito ligada a outra. Eu inventava umas melodias e já ia pondo letras nas
minhas músicas. Para mim, poesia e música sempre estiveram juntas. A única
coisa que eu sempre senti falta ao escrever, era ver a reação da pessoa que
iria ler depois meus poemas. Por isso cantar acabou se tornando minha atividade
principal. Adoro estar no palco e sentir a troca com o público in loco, ao
vivo. Escrever é algo muito solitário.
UOO: Se ainda faz também poesia, qual foi o
último livro que publicou? Cite também os primeiros.
Vange: Nunca publiquei um livro. Quando era
adolescente fazia umas edições limitadas, em xerox, e as vendia pessoalmente.
Agora estou com um livro de poemas pronto para ser publicado, mas esse ano que
passou (1995) acabei não tendo tempo para me dedicar ao projeto. O livro se chama
Virtual Bilitis, e é inspirado no Canções de Bilitis, de Pierre Louis, que por
sua vez se inspirou na vida da poeta grega Safo. Ou seja, são poemas lésbicos,
poemas que falam do amor entre mulheres. Gosto muito do livro e estou louca
para publicá-lo logo.
UOO: E suas preferências musicais? Quem você
ouve? Quais as bandas, os artistas de que gosta? Quem lhe influencia na hora
de compor?
Vange: Nossa, são tantos... Eu procuro não me
fechar para nenhum tipo de música. Mas com relação ao meu trabalho,
especificamente, quem mais me marcou foi Gal, como inspiração primeira, pelo
jeito de cantar, a sensualidade e principalmente a atitude dela no palco. No
começo dos 70, ela era uma das grandes vozes da contracultura brasileira. Me
lembro do show Índia, ela dançando descalça, rodando a saia, uma verdadeira
baiana em transe, e o batuque comendo solto no palco. Cantava compositores
novos como Macalé, Melodia, Caetano, caras que aprendi a gostar na voz dela.
Vozes femininas sempre me seduziram. Outro dia um amigo meu disse que acabamos
gostando mais de cantoras porque suas vozes talvez lembrem o canto de nossas
mães quando nos faziam dormir... O mais curioso: Gal foi uma influência forte
tanto para mim como para a minha parceira nas músicas, a Cilmara Bedaque.
Comecei a trabalhar com a Cilmara tipo em 89, quando ainda estava com o Nau, e
foi uma surpresa maravilhosa saber que tínhamos muitos gostos musicais em
comum. Outra pessoa que de certa maneira influenciou bastante o meu trabalho de
compositora foi a Marina. Quando escutei suas músicas, fiquei absolutamente
identificada. A batida do violão dela é única e cheia de feeling e o que ela
diz nas músicas tão pessoal, vai fundo, um mergulho corajoso. Eu gosto e me
identifico com isso. Fora que ela também tem esse negócio de trabalhar em dupla
com o Cícero, que é irmão dela, meio como que a minha parceria com a Cilmara,
já que a Cil faz mais as letras e a gente discute bastante os temas, o
que vai dizer na música, e acabamos sempre por escolher temas ligados à
nossa experiência. Tudo o que dizemos em nossas canções é fruto de um olhar
para dentro. Gosto do jeito como Clarice Lispector escrevia, a experiência
pessoal e íntima, uma fonte enorme e inesgotável de matéria prima para canções.
UOO: Sua carreira se iniciou com a banda Nau
e, depois, estourou para o sucesso com o hit Noite Preta. Fale um pouco dessa
trajetória e de sua relação com a fama.
Vange: Tento fazer minha fama em cima do meu
trabalho. O grande problema que hoje em dia você primeiro precisa ser famoso
para depois poder mostrar o seu trabalho. Não pode, tá errado! Nego só
consegue lotar um teatro se já for famoso. Sabe aquele negócio de só contratar
se tiver experiência?? A mesma coisa. Um saco!!
UOO: Do hit Noite Preta até o CDVermelho,
houve uma grande distância. Por que isso aconteceu? Desacordo com as gravadoras
ou um processo de gestação demorado? Fale um pouco sobre o novo álbum.
Vange: As minhas gestações são um pouco mais
lentas sim, mas o que aconteceu foi que teve todo um tempo para eu sair da Sony
e abrir minha própria gravadora. Trabalhar num esquema independente e sem
grana significa ter que desenvolver uma paciência oriental. As coisas levam
tempo, você faz shows que não são divulgados e, para o grande público, fica a
sensação que você desapareceu. As pessoas estão cada vez mais ficando dentro
de casa e tornando-se dependentes da noticia que chega até elas. Aí é o poder econômico que fala mais alto. Vermelho é um álbum corajoso, uma produção
independente minha e da Cilmara. Temos muito orgulho desse disco, as canções
falam de temas super-atuais e sensíveis, e recuperei uma coisa que tinha com o
Nau. um lance mais rocker. A faixa Vermelho fala sobre menstruação. Meninas
sobre meninas prostitutas. To Fora é uma balada de cortar os pulsos. O disco é
super-visceral e o show que eu to fazendo agora também. Dionísio puro.
UOO: Você já gravou um vídeo-clipe ou pensa
em gravar um vídeo-clipe para divulgar alguma música do CD?
Vange: Fizemos o clipe da canção Vermelho. Deve
ser lançado no final de janeiro, começo de fevereiro. O clipe foi dirigido pela
Cilmara Bedaque, minha parceira, pela Ana Sardinha e pela Maria de Oliveira,
todas muito amigas minhas. A Cilmara já tinha dirigido o clipe da Noite Preta,
junto com o Luis Ferr. Super tranquilo para mim que ela dirija os clipes,
porque ela é autora da música e de uma certa maneira já faz a letra pensando
na imagem que virá depois. A adesão da Maria e da Ana, que trabalham em
publicidade e cinema, completou o que já era ótimo. Foi muito bacana
trabalhar com esse trio de diretoras. Hoje em dia, fazer vídeo-clipe no Brasil
não é fácil, já que fizemos em l6 mm, e cinema é uma coisa muito cara. Fizemos,
graças à ajuda e colaboração de muitas pessoas, um clipe a custo super-baixo.
Adorei fazer o clipe. Principalmente uma cena em que eu estou numa banheira.
As cenas que minhas três diretoras bolaram para mim são surpreendentes. Mal
posso esperar para ver esse clipe no ar! E garotas, o clipe só vai pró TOP 20
se vocês pedirem!
Eu nunca achei que ser lésbica fosse algo ruim. Daí eu nunca escondi nada. Apenas no começo da minha trajetória como figura pública, eu silenciava a esse respeito. Até que numa determinada hora, achei ridículo não tocar no assunto. Não levanto nenhuma bandeira e nem chego me apresentando: "Prazer, Vange, cantora e lésbica". Mas com certeza o fato de existirem pessoas públicas revelando sua homossexualidade só ajuda. Mostra que não tem nada de mais. Normal.
UOO: E, nas rádios, considerando toda a
pressão que as gravadoras fazem para determinar a programação, hoje voltada
para o gênero nordestino ou as misturas de rock com baião, você vê alguma
forma de furar o cerco pra divulgar um trabalho comoVermelho, independente,
ousado, com muito rock e temas ligados diretamente às mulheres?
Vange: Essa questão das rádios é tão espinhosa
quanto enigmática. Lógico que existem rádios mais comerciais e outras menos. A
grande questão para mim é que vivemos uma época onde as pessoas saem pouco de
casa, pelo menos nas grandes cidades. Proporcionalmente descobre-se menos
coisas. Assim como não existe mais aquela figura do caçador de talentos, que vai
descobrir o artista, o jornalista também está acostumado que as coisas cheguem
até ele e o telespectador comum só compra o disco de quem aparece na
televisão. Assim o poder econômico leva uma vantagem muito grande sobre outros
fatores, como talento, e mais ainda, merecimento.
UOO: O bom humor, as grandes sacadas
estão presentes em suas letras, além da liberdade como você trata os assuntos.
Esta é a vantagem de gravar um disco independente?
Vange: Não. Essa é a vantagem de ter
descoberto que a melhor coisa do mundo é ser o que se é, e não procurar
corresponder ao que esperam que você seja.
UOO: Mas, considerando as críticas positivas
que Vermelho vem recebendo, se pintar algum convite de uma grande gravadora
para fazer um trabalho mais comercial, você topa?
Vange: Claro! Nunca tive nada contra trabalhar
associada a grandes gravadoras. Já lancei pela CBS e pela Sony e aprendi
muito. Só não posso ficar parada enquanto espero que uma das 5 grandes resolva
me contratar.
UOO: No exterior, mais e mais cantoras vêm
assumindo suas relações com mulheres, tais como kd.lang, Melissa Etheridge,
etc... Aqui no Brasil, você é uma das poucas que fala da questão abertamente,
participando até de programas de TV sobre o assunto. Esta sua postura tem a ver
com o fato de você ter participado, no passado, de grupos organizados, como o
grupo lésbico-feminista (LF-79/81), ou simplesmente porque não vê razão para
esconder e acha que, como artista, pode ajudar a combater o preconceito?
Vange: O fato de eu ter participado do LF já
era resultado da minha completa descomplicação com relação a esse assunto.
Quando percebi que gostava de mulheres foi uma das descobertas mais
maravilhosas da minha vida. Não foi nada traumático. Era tão lindo descobrir o
que era amar, se apaixonar. A minha sorte é que meus amigos também achavam
lindo eu me apaixonar por garotas. Meus ídolos, tipo Janis Joplin, Gal,
Caetano, todos achavam lindo ser gay, aceitavam a homossexualidade própria ou
dos outros numa boa. Então eu nunca achei que ser lésbica fosse algo ruim. Daí
eu nunca escondi nada. Apenas no começo da minha trajetória como figura
pública, eu silenciava a esse respeito. Até que numa determinada hora, achei
ridículo não tocar no assunto. Não levanto nenhuma bandeira e nem chego me
apresentando: "Prazer, Vange, cantora
e lésbica". Isso é um rótulo. Minha sexualidade é bastante flexível e
inaprisionável, se é que existe essa palavra. Agora, faz outing quem quer! Essa
é uma questão muito pessoal. Primeiro porque suas preferências sexuais são
coisas muito íntimas e dizem respeito só a você. Tem pessoas que têm facilidade
em se expor assim. Outras não. Mas com certeza o fato de existirem pessoas
públicas revelando sua homossexualidade só ajuda. Mostra que não tem nada de
mais. Normal.
UOO: No cenário internacional, na área
musical, as mulheres estão acabando com a supremacia masculina via trabalhos
fortes e pessoais, como as já citadas k.d.lang, Melissa Etheridge e Courtney
Love, Sheryl Crow, Alanis Morissette e mesmo Patti Smith que voltou a gravar.
Aqui, no Brasil, como você vê a situação das cantoras e compositoras em geral?
Existe muito machismo no meio artístico?
Vange: Atualmente, no cenário Rock'n Roll do
Brasil, o que existe é um sexismo enorme. Só dar uma olhada nos video-clipes
para ver que, quando aparece mulher, é aquela gostosona que rodeia os cantores
da banda. Uma gostosona não! Um monte delas fazendo papel decorativo com
bundas maravilhosas em primeiro plano. Lindo! Quem não gosta de um corpinho
bonito? Mas ando meio cheia desse discurso onanista cheio de testosterona de
alguns moleques do rock. Mas o Brasil sempre foi muito bem dotado de mulheres
cantoras e compositoras. Se você pensar em Maysa, por exemplo, ela era muito
mais porrada que Courtney Love. O que precisa acontecer é o Brasil descobrir as
mulheres do Brasil! As mulheres do Brasil precisam descobrir as mulheres do
Brasil. Fui no show da Alanis, em São Paulo, e o público era 70% formado por
garotas! Todas cantando as letras e entendendo o que estavam cantando. Eu
sinto mais ou menos a mesma coisa com relação ao meu público. As garotas
gostam de ver uma mulher que compõe e canta suas próprias músicas e pode
liderar uma banda. Porque isso se parece com elas. No fundo ninguém tá
querendo exemplos para seguir. Elas querem ouvir alguém que tem os mesmos
problemas que elas e que falem coisas que elas vivem e sentem.
Fonte: revista Um Outro OLhar, nº 25, Ano 10, Dez 96/Abril 97, por Luiza Granado e Angela Gonçalves
Um Outro Olhar
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
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Em homenagem à Cássia Eller, que nos deixou no dia 29 de dezembro, há 10 anos, reproduzo entrevista concedida pela cantora à revista Um Outro Olhar, nº 14, de junho de 2000. Ao fim da entrevista, para quem não viu, o vídeo do programa Arquivo N, da Globo (para interrompê-lo, basta clicar no >), com entrevistas e trechos de apresentações de Cássia.
Ainda lembrando que hoje a MTV estará apresentando, a partir das 7h, uma programação de 24 horas também em homenagem à Cássia, o Especial MTV – 10 Anos sem Cássia Eller, com reprises do Acústivo MTV e o Luau MTV, com a cantora, além de shows, programas especiais, entrevistas exclusivas e exibição dos melhores clipes da grande sapa. Míriam Martinho
Cássia Eller: antídoto contra a hipocrisia
Cássia Eller com a revista Um Outro Olhar e fã
Cássia Eller, com exclusividade para a UM OUTRO OLHAR, conversou com Fátima Tassinari sobre sua carreira, sua relação de doze anos com Eugenia, seu filho Chicão, seu processo de assumir-se para a família e seus planos futuros. Aos 37 anos, 8 CD lançados, com vários sucessos nas paradas, a mais "sapata" entre as inúmeras sapatas cantoras deste país, revela-se preocupada com questões sociais e com a responsabilidade de ser cada vez mais conhecida.
UOO- Fale um pouco do começo da sua carreira, Cássia, quando você tocava em trio elétrico, cantava ópera...
Cássia Eller- Eu dava tiro pra todo lado porque eu não sabia o que eu queria fazer. Na verdade, eu queria ser guitarrista, acompanhar os outros, ter uma banda e tocar, mas aí falaram pra eu ser cantora, que a minha voz era legal, bacana... Vai cantar, rapaz, me falaram, vai cantar (risos)! Aí eu saí fazendo tudo o que aparecia de cantora. Fiz um teste para o Oswaldo Montenegro (foi a primeira coisa que eu fiz, tá?) e trabalhei um ano com ele lá em Brasília e Belo Horizonte, fazendo um espetáculo. Também fiz um teste para o primeiro trio elétrico de Brasília, o Massa Real, e fui cantar no trio. Logo depois me escrevi também na escola de música e fui ser cantora de ópera porque os professores falavam que a minha voz era bonita, que era contralto, que aqui no Brasil é difícil ter um contralto, entendeu? Que precisava (desse tipo de voz) abaixo do Equador porque a mulher nasce com a voz mais aguda, a maioria das mulheres, pelo menos, nasce com a voz mais aguda, e que essa coisa, essa característica da voz grave, é mais lá pró lado da Europa, pró outro lado do mundo. Aí eu falei,"- Opa, se eu sou diferente, vou ser cantora de ópera!" (risos). Mas não dei conta. A disciplina deles era incompatível com a minha. Mas foi bom pra mim também porque eu aprendi coisa pra caramba. E essa coisa de dar tiro pra todo lado foi me ajudando a não ter preconceito com música, com todos os géneros de música, porque na verdade eu nem sabia direito qual era o gênero que eu gostava mais (risos). Eu tava sem saber o que eu queria, depois é que eu fui ver que eu gosto de tudo. Eu gosto da música brasileira porque a música brasileira é um caldeirão, uma mistura de tudo quanto é música do mundo. Aqui tem África, tem Europa, tem índio, tem de tudo aqui, né?
UOO- Nessa época, você tinha como ídolos e influências pessoas como Cazuza e Renato Russo entre outros. E hoje?
Cássia Eller- Por causa dessa coisa de percussão, de eu tá aprendendo percussão, eu to escutando muito discos de músicos indianos, do Triloc, que é indiano. Muita coisa assim folclórica, de tudo que é lugar do mundo: da Venezuela, da África. Tudo que tem a ver com percussão. E tem muito Marco Suzano, Lenine, que eles fazem um trabalho muito legal de percussão. To estudando o trabalho deles. Todos os discos em que o Marco Suzano toca eu tenho aqui. Ney Matogrosso, Aquarela, todas as coisas que tem o Marco Suzano tocando eu compro pra ouvir. E muito Nirvana também. Eu to louca, to apaixonada pelo trabalho do Nirvana e toco o Nirvana porque o Chicão (filho de Cássia) pediu e porque eu gosto também.
UOO- E como é essa história de percussão, Cássia? Você está trabalhando com isso ou foi só uma apresentação para o PercPan (Panorama Percussivo Mundial, realizado em São Paulo)?
Cássia Eller- Foi pró PercPan que eu tomei coragem pra me apresentar tocando, mas eu to tocando bateria, pandeiro, berimbau, já faz uns três anos. Eu também to com uma conga e três pandeiros legais assim. Eu to estudando aqui em casa umas duas, três horas por dia. É uma coisa antiga minha. Desde criança, eu adorava bater, batucar. Eu sempre gostei muito. E agora eu to querendo levar a sério. Por enquanto, to só aprendendo, mas eu ainda quero tocar direito. Essa apresentação que a gente fez lá no PercPan foi diferente. É diferente a sensação de tá na frente cantando e de tá atrás fazendo parte do todo, entendeu? Dá pra você ver de fora, você não fica tão "agulhada". A responsabilidade é outra, não porque diminua não, mas a responsabilidade é outra. Foi muito legal. Parece que foi a primeira vez que eu fiz.
UOO- Já há algum tempo você vem tocando praticamente com a mesma banda. Isso cria uma certa intimidade, facilita o trabalho ou, pelo contrário, obriga cada um a se cobrar mais para não fazer o mesmo tipo de som e cair no trivial?
Cássia Eller- As duas coisas. Eu gosto da coisa da convivência que eu acho muito importante. Eu não sou muito de conversar, de ficar explicando, nem de ficar ouvindo umas coisas muito não: Então, essa identificação rápida assim, só no olhar, só no gesto, fica mais fácil trabalhar. Você pega o violão assim, cê toca um negócio, o outro já entendeu o que tá acontecendo, e a música é feita assim até o fim. E tem a coisa do astral também que tem que combinar, entendeu? A gente tem que ser da mesma turma porque eu acho isso, poxa, essencial pra mim. Várias vezes já aconteceu de eu tocar com outras pessoas, mas não rola, não consigo me soltar, não consigo cantar direito, não consigo me emocionar.
Fátima Tassinari/Flávio Colker
UOO- Cássia, quando você vai fazer um CD, como é que você seleciona as músicas, as letras? Cássia Eller- Ah! E puramente intuitivo, eu nem sei explicar bem isso. Eu não consigo me expressar falando, né? Só sei pegar o texto de alguém, as palavras de alguém, e falar: é isso que eu gostaria de dizer. Eu tenho muita vergonha de formular coisas, sabe, de assinar embaixo. Sei lá, eu sou cagona mesmo. Sou um pouco medrosa pra essa coisa, mas aí então como eu canto, então isso já facilita a minha vida, é a minha terapia. Eu resolvo muitos problemas meus escolhendo esses tipos de letras, fazendo shows e tudo.
PLANOS: MAIS PRESENTE NO LANCE DO SOCIAL
UOO- E a carreira internacional?
Cássia Eller- O Leo (Leonardo Netto, empresário) conhece muita gente. Já fez toda essa parte para a Marisa (Monte) várias vezes. Então, ele tá mandando material meu pra lá. É capaz que role alguma coisa ainda pra esse ano. Tá tocando uma música no rádio lá em Amsterdã, e parece que já tem um público grande. Tá tocando bem lá na Holanda. Na Espanha, também já me disseram que ouvem. Uma amiga minha morou lá no ano passado e falou que rolava muito três discos meus lá. Sabe, eu sempre disse que quero primeiro conhecer o Brasil, quero que o Brasil saiba assim das coisas que eu to falando porque eu falo é pra eles aqui. E o lugar onde eu nasci, onde eu fui criada. Meus problemas todos são daqui. Então, eu queria falar essas coisas pra essas pessoas ouvirem, e tá acontecendo isso, aos pouquinhos, mas tá acontecendo, e tá com uma consistência bastante legal, né? Mas agora eu acho que eu to sentindo vontade de cascar fora daqui um pouquinho, fazer show na Argentina...
UOO- E essa sua vontade de ser mais popular, estar mais com o público?
Cássia Eller- Bom. eu não sou uma grande campeã de discos. Os meus discos beiram assim a cem mil cópias e com muito sacrifício. Tipo assim, demora um ano pra isso acontecer, mas. mesmo quando não vendo muitos discos, todo show que eu faço enche. E eu to notando ultimamente que as pessoas sabem as letras. Antigamente não era assim. E não é só de tanto escutar, sabe? Não é isso, é porque bate legal neles, eles acreditam naquilo que eu to cantando, têm identificação com aquilo que eu to cantando.
UOO- E a grana, Cássia, dá para ganhar grana?
Cássia Eller- (Gargalhadas) Quando eu renovei o contrato da PolyGram dois anos e meio atrás, eu ganhei uma grana e comprei esse apartamento que eu moro, mas eu vivo realmente é de fazer shows e de vendagem de disco que é aquela escravidão, né? Tem não sei quantos por centos de "royalties". É uma merda, não dá, não dá. E eu to achando cada vez mais que a tendência dos artistas é abrir sua própria gravadora, ter seu próprio escritório. Eu estou pensando seriamente nisso. Eu achava que era muito difícil de se fazer isso, e não é tão difícil assim. Eu conheço outros produtores, empresários, nesse esquema. Tem agora o Lobão, tem muita gente fazendo isso, e tá dando certo. Sabe, porque você vende e não ganha nada do que você vende. Eu não entendo essa matemática. Eu to me afastando disso e espero em breve abrir a minha própria gravadora. Eu não vou vender mais de cem mil discos, fazendo isso, tendo meu próprio escritório, mas os trinta ou cinquenta mil discos que eu for vender, a grana vem toda pra mim.
UOO- Falando de planos, você não tinha ideia de fazer uma escola?
Cássia Eller- Pó, tá difícil pra caramba isso, mas eu conversei, com uma amiga minha que mora no Espírito Santo que é terapeuta, sobre as minhas vontades de tá mais presente assim no lance do social, de interferir mais nisso. E a gente tá a fim de fazer o seguinte, com um lance na Internet: cada vez que você acessar o meu site. você vai tá contribuindo pra, sei lá, pró hospital do câncer, pra AIDS, pra bolsas escolares prós meninos lá do Nordeste, meninos dos canaviais, dos carvoeiros. Para tirar esses meninos do trabalho escravo, né?. pra botar eles na escola. Cada um que chegar no meu site contribui tipo assim com um real. Isso a gente deve colocar em prática em pouco tempo.
IMAGEM: "-EU SOU MEIO ZELIG, SABE?"
UOO- Num pequeno espaço de tempo, você mudou inúmeras vezes por exemplo o corte de cabelo. Quem define seu visual?
Cássia Eller- Esse negócio de cabelo é... Sabe, quando eu to andando muito com umas pessoas, eu fico igual a elas. Eu sou meio Zelig, sabe, daquele filme do Woody Allen, que ia mudando com cada turma que ele fazia parte. Por exemplo, quando ele foi tocar com a galera de jazz, só com crioulo, aí ele foi ficando preto, a pele dele foi ficando escura também, e ele é judeu, né? (risos). Aí então muda tudo, ele muda, o nariz cresce, o cabelo encaracola, dependendo das pessoas com quem ele anda. Eu sou meio assim também. Eu to igual baiano agora. Baiano é espalhafatoso, colorido, festeiro e gosta de pintar cabelo e gosta de fazer negócio diferente. Aí eu entro na dança também.
UOO- O tipo de roupa que hoje em dia você usa tem alguma relação com a que seu pai usava, uma coisa assim mais despojada?
Cássia Eller- É a gente é simples, cara, de origem humilde pra caramba. A gente nunca teve essa coisa de usar roupa bacana e mais transada mesmo porque eu tenho um jeito bem esculachado. Não gosto de roupa, adoro andar pelada. E as minhas roupas quanto mais velhas melhor. Eu desde pequenininha só me visto como menino. Nunca gostei de usar vestido, biquini, saia. Sempre me vesti como menino, e meus pais nunca ligaram pra isso, não. Eles achavam divertido isso, não achavam ruim não.
UOO- E essa história das pessoas falarem que a Cássia é agressiva porque põe a mão na chana, porque se ela não pusesse ela vendia mais... Isso a gente escuta a toda hora. Mas essa agressividade, essa postura sua no palco não tem uma coisa de atriz e, acima de tudo, de pôr os bofes, seus diabos, pra fora?
Cássia Eller- Fazem muita repressão da vida inteira. E uma coisa religiosa da educação da gente, de ser mulher, de ser pobre. Quando eu passei por cima de tudo, quando eu comecei a me resolver, comecei a ser feliz, sabe? Saí da casa da minha mãe... Não que eu fosse infeliz na casa da minha mãe, não é isso, mas quando eu descobri tudo, a coisa das repressões, do mal que faziam pra mim, foi cantando que eu me resolvi. Aí, sei lá, virou um tratamento longo, sem fim (risos). Agora, a minha agressividade eu acho que é mais pra chamar a atenção da hipocrisia, do falso moralismo, entendeu? A minha mão vai sozinha... Como eu disse na Bundas, eu sou uma pessoa que não liga muito pra ser mulher nem pra ser homem não. Eu esqueço às vezes dessa separação homem/mulher, sabe? A gente é os dois, uai! Não tenho pinto e saco, mas a gente é as duas coisas, o cérebro é igual, tudo funciona da mesma maneira, a gente sente a mesmas coisas.
AMOR E FAMÍLIA: "-ELE APRESENTA A GENTE ASSIM: MINHAS MÃES."
UOO- Como é ser Cássia Eller? Como é ser feliz assim?
Cássia Eller- Pó, ser feliz é difícil, hein! É muito difícil. Eu to ficando mais velha, eu vou fazer trinta e oito anos no final do ano, daí tá batendo umas coisas engraçadas. Sei lá, a vida vai ficando mais difícil, e eu achava que ia ficando mais fácil (risos), mas vai ficando mais difícil, cara.
UOO- Em que sentido?
Cássia Eller- Sentido de viver. To achando muito difícil viver, muita responsa, sabe? Essa coisa de eu tá ficando mais conhecida, a responsabilidade aumenta ainda mais. Eu não achava que fosse assim não, eu achava que era mais sossegado. É muita gente em torno, entendeu? Trabalhando, eu me preocupo demais. Tem meus pais. Eu sou a única pessoa da minha família que ganha grana. Eu ajudo muito o pessoal da minha família e fico me sentindo muito responsável. Tem a educação do Chicão, meu casamento com a Eugenia. A gente tá com doze anos que tá juntas. Aí de vez em quando rola histórias de uma namorar com outra, de outra namorar com uma, mas a gente não quer se separar de jeito nenhum. A gente sabe que a gente se ama loucamente e que eu nunca mais eu vou achar isso com ninguém, essa cumplicidade que eu tenho com a Eugenia. Eu não vou encontrar isso com ninguém por mais apaixonada que eu fique. E eu sinto uma falta danada dela, quando eu não to com ela. Tava namorando aí com uma menina, tava completamente apaixonada, mas aí quando eu chegava em casa, e a Eugenia não tava, também tava namorando outra menina, eu sentia uma falta da porra dela. Aí ela chegava, c ficava tudo lindo. Não é ciúmes nem nada, é uma faaalta. E a gente conversa muito, eu e a Eugenia. A gente além de... pô... acima de tudo é amiga pra caralho. Ela é especialíssima, ela não existe, ela é muito legal, a porra, ela é foda.
UOO- E a Eugenia com o Chicão? Como é a relação entre vocês?
Cássia Eller- Mamãe, mamãe. Você pergunta pra ele, se ele é feliz assim, se ele gosta do fato de ter duas mães. Ele ama, ele enche a boca pra falar, quando a gente sai com ele, assim, nós três, ou vai pra uma festa dos amigos dele, ou então lá na escola, ele apresenta a gente assim: "-Minhas mães". Ele apresenta pras professoras, prós pais dos colegas dele, fala assim com a boca cheia de orgulho. Sabe, eu quase choro quando eu vejo um trem desses. O menino não tem o menor problema, sabe?, porque a gente é feliz, a gente passa a verdade nossa pra ele, entendeu? O que a gente vive, a gente passa pra ele. A gente não esconde as coisas dele, a gente explica que rola um preconceito e tal, que isso não é comum, mas que isso não vai prejudicar em nada na vida dele porque a gente ama muito ele e tal. A Eugenia fala muito com ele também. E ' ótimo, a gente tem uma vida muito legal, a família é do caralho (risos).
ALÉM DAS DROGAS
UOO- Cássia, e o lance das drogas? Quer falar disso?
Cássia Eller- Bom, eu fiz um tratamento e larguei a cocaína e tudo. Passei seis meses sem beber também. Agora que eu to voltando a beber um pouquinho, mas assim, tem nada a ver com o que eu bebia antes. Eu bebo uma cervejinha, um vinhozinho assim de leve. Sabe, não fico enchendo a cara. Tem mais de um ano que eu não fico bêbada. E assim, eu to muito feliz com isso e eu recomendo pra todo mundo que a vida melhora pra caralho. Eu só funcionava cheirada, e a gente vai ficando mais agressiva, mais intolerante, mais escrota, sabe? Eu achei que não dava conta de fazer mais nada, mas tá sendo super, muito melhor, eu nunca mais fiquei rouca. Agora eu durmo a noite inteira, eu to me sentindo muito bem, muito bem...
"- Ó QUE GATINHA, MÃE!"
UOO- Você sofreu quando assumiu a homossexualidade? E a reação da sua família, dos seus pais?
Cássia Eller- Eu só sofri porque meus pais descobriram e começaram a me amarrar. Agora de eu ter conflito quanto a isso, nem um pouco. E hoje a gente brinca muito com isso, hoje em dia tá tranquilo demais. Hoje eu já aponto pra minha mãe assim na rua, "- Ó que gatinha, mãe!", e ela morre de rir, sabe? Eu já to normal, graças a Deus, eu já ajo normal com a minha família, com meus irmãos...Agora na hora do baque, eles falaram "o que é isso cara (risos)?" Mas depois passou. Foi muita conversa com meu pai, muita choradeira, mamãe chorou muito, mas deu tudo certo. Ela sabe que isso não modifica em nada a alma da gente, né?, o jeito de ver a vida. Eu não faço mal a ninguém, não prejudico ninguém. O fato de eu ser homossexual não interfere em nada, não me torna uma pessoa ruim.
UOO- É legal você passar alguma coisa assim pras pessoas porque muitas se conflituam com isso, têm medo de não se sentirem aceitas.
Cássia Eller- Na maioria da vezes, é a pessoa mesma que não se aceita. Não são os outros que não aceitam ela, esse negócio de preconceito, é a gente que não se aceita.
UOO- Bom, também a gente pode falar um pouco da violência que tem acontecido, que você deve ter ouvido falar dessa morte de um cara chamado Edson Néris que passeava com o namorado, na praça da República, e foi morto pêlos skinheads, pêlos carecas. Você ouviu falar nisso?
Cássia Eller- Eu sei. eu sei, mas aí o lance desses carecas é que eles matam muçulmanos também, preto, não é só os gays. É tudo que amedronta eles, todas as raças, as classes sociais, as ideias também, porque a coisa do gay é mais a ideia do que a coisa sexual mesmo, é a coisa da ideia, da liberdade. Eles não querem dar liberdade pra ninguém.
UOO- E como você se sente fazendo esse papel de representar, de expor a homossexualidade, e como você vê sua possível participação na Parada do Orgulho aqui em Sampa este ano?
Cássia Eller- Não me sinto representante de uma coisa. É mais assim: eu gosto de estar participando das coisas que fazem os outros felizes, de estar contribuindo com a alegria das pessoas, com a felicidade do estado gay das pessoas. Então, por causa de eu falar abertamente disso, é positivo porque já liberta um pouquinho os pensamentos negativos de muita gente. Agora participar da festa ia ser o bicho, ia ser tipo assim o auge do negócio de uma coisa que eu já faço há muito tempo.
UOO- Ah, que legal! E a Eugenia viria?
Cássia Eller- Viria, é lógico, pra subir no caminhão e a porra. Iria fazer tudo comigo (risos).
Nota: As perguntas desta entrevista foram elaboradas por Angela Gonçalves e Fátima Tassinari, e a edição é de Míriam Martinho, com colaboração de Fátima Tassinari.
Entrevista publicada na revista Um Outro Olhar de junho de 2000, páginas 13 a 16