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Bela crônica sobre o casamento LGBT: Cartas de Seattle: Fazendo história ao dizer 'sim'

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012 0 comentários

Recém-casadas - Foto: Matt Stopera/ BuzzFeed

Por Melissa de Andrade

Domingo passado foi um dia histórico em Seattle. Centenas de casais puderam se olhar nos olhos e dizer “sim”. Sim, eu aceito me casar com a pessoa que eu amo.

Eles vão poder contar que se casaram no primeiro dia em que o casamento igualitário foi permitido no estado de Washington, onde fica Seattle. A prefeitura ficou lotada de gente que está junto há 50 anos, 42 anos, 35 anos, 28 anos, 13 anos... e só pôde se casar agora. Felicidade transbordando no ar.

Muitos curiosos foram prestar o seu apoio e ofereceram mimos, flores, aplausos e parabéns. O prefeito Mike McGinn engrossou o coro: "Ei, resto do país: juntem-se a nós. Não há nada além de amor e felicidade acontecendo por aqui”.

A celebração tomou conta da cidade, com casais comemorando nas ruas e aproveitando descontos oferecidos por restaurantes a quem mostrasse a Certidão de Casamento novinha em folha.

Num dos teatros imponentes da cidade, o Paramount, teve festa de casamento conjunta de graça com direito a valsa e bolo. Nome do evento, bem apropriado: O Amor Triunfa – Recepção de Casamento para todos.

Terry Gilbert, à esquerda, e Paul Beppler depois do casamento 
Tá bom, admito, é um pouco brega, embora soe melhor em inglês. Mas amor tem dessas coisas.

O dia oficial foi domingo, mas a festa se iniciou na frente da Prefeitura no fim da tarde da quarta-feira, quando uma fila começou a ser formada. É que na quinta, dia 6, entrou em vigor a lei que permite que casais do mesmo sexo possam se casar. E as licenças começaram a ser emitidas à 0h da quinta.

Por que a pressa? “Esses casais já esperaram demais por este momento”, disse o representante do Condado de King, de que Seattle faz parte, Dow Constantine. Quando o expediente se encerrou, às 18h, mais de 800 casais tinham em mãos a tão esperada autorização para se casar.

As licenças foram emitidas na quinta, mas como o estado exige o prazo de três dias a partir da emissão, os casamentos mesmo só aconteceram no domingo. Mais horário especial, voluntários para atender tanta gente, sorrisos de sobra, lágrimas e muitos aplausos.

Para os que aceitam tudo menos o casamento entre casais homossexuais, houve uma abundância de depoimentos sobre como este dia foi significativo e como eles se sentem mais cidadãos agora (e não cidadãos de segunda classe, como definiu um deles). Esse reconhecimento atraiu até casais do estado vizinho do Oregon.

Poder dizer “sim” pode fazer de um dia um dos mais felizes da sua vida.

Melissa de Andrade é jornalista com mestrado em Negócios Digitais no Reino Unido. Ama teatro, gérberas cor de laranja e seus três gatinhos.

Atua como estrategista de Conteúdo e de Mídias Sociais em Seattle, de onde mantém o blog Preview e, às sextas, escreve para o Blog do Noblat.

Fonte: Blog do Noblat

F comme Femme - M de Mulher

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012 1 comentários


Por Míriam Martinho

F comme Femme foi um sucesso do cantor e compositor belga-italiano Salvatore Adamo no fim dos anos 60, em 1968 mais precisamente. Eu estava entrando na adolescência e não entendia nada de francês nem de mulher, mas já achava ambos lindos.

Continuo não entendendo nada de francês, só o instrumental, e embora meu conhecimento de mulheres tenha melhorado bastante com o tempo, não saberia dizer o quanto entendo destes meus inesgotáveis objetos de desejo. Quem sabe não sempre fui um homem preso no corpo de uma mulher... rsss

De qualquer forma, continuo achando ambos lindos: o idioma francês e a mulher. Por isso, num momento sessão nostalgia, postei um vídeo com a música (com cenas do Adamo), a letra original e uma tradução que parece apropriada.

Como também femme para nós, por um empréstimo via inglês, é aquela senhorita que faz par com a butch, quem quiser encarar uma dupla leitura da chanson que fique à vontade. Bon appetit!

F comme Femme

Elle est éclose un beau matin
Au jardin triste de mon coeur
Elle avait les yeux du destin
Ressemblait-elle à mon bonheur ?
Oh, ressemblait-elle à mon âme ?
Je l'ai cueillie, elle était femme
Femme avec un F rose, F comme fleur

Elle a changé mon univers
Ma vie en fut toute enchantée
La poésie chantait dans l'air
J'avais une maison de poupée
Et dans mon coeur brûlait ma flamme
Tout était beau, tout était femme
Femme avec un F magique, F comme fée

Elle m'enchaînait cent fois par jour
Au doux poteau de sa tendresse
Mes chaînes étaient tressées d'amour
J'étais martyre de ses caresses
J'étais heureux, étais-je infâme ?
Mais je l'aimais, elle était femme

Un jour l'oiseau timide et frêle
Vint me parler de liberté
Elle lui arracha les ailes
L'oiseau mourut avec l'été
Et ce jour-là ce fut le drame
Et malgré tout elle était femme
Femme avec un F tout gris, fatalité

À l'heure de la vérité
Il y avait une femme et un enfant
Cet enfant que j'étais resté
Contre la vie, contre le temps
Je me suis blotti dans mon âme
Et j'ai compris qu'elle était femme
Mais femme avec un F aîlé, foutre le camp

Salvatore Adamo

M de Mulher
Ela desabrochou numa bela manhã
No jardim triste de meu coração.
Trazia os olhos do destino,
Assemelhava-se a minha felicidade?
Oh, ela se parecia com minha alma?
Eu a colhi, ela era mulher,
Femme como "f" rosa, como flor.

Ela transformou meu universo,
Encantou toda a minha vida,
A poesia cantava no ar,
Eu tinha uma casa de bonecas.
E em meu coração ardia minha chama,
Tudo era belo, tudo era mulher," femme" com um "f" mágico,
"f" de fada.

Ela encantava-me cem vezes por dia
Com o doce arrimo de sua ternura.
Minhas cadeias estavam trançadas pelo amor,
Eu era mártir de suas carícias.
Eu era feliz... e seria eu um infame?
Mas eu a amava, ela era mulher.

Um dia, o pássaro tímido e débil
Veio falar-me de liberdade.
Ela arrancou-lhe as asas,
O pássaro morreu com o verão.
Naquele dia fez-se o drama
E, apesar de tudo, ela era mulher,
Femme com um "f" todo cinzento, de fatalidade.

Na hora da verdade
Havia uma mulher e uma criança,
Aquele menino em que eu me convertera
Contra a vida, contra o tempo.
Estou encolhido dentro de minha alma
E compreendi que ela era mulher.

tradução de Marysa Alfaia


Publicado originalmente em Contra o Coro dos Contentes em 24/09/08

Por quê?

quinta-feira, 9 de agosto de 2012 2 comentários

Por Cassiane Chagas

Sabe o que mais me deixa pra baixo, péssima mesmo, em ser lésbica? Poucas pessoas acreditarem na minha união com minha companheira, principalmente minha família. Bom, mas também não é caso aqui de abrir o meu diário e contar as várias peripécias da minha vida, não mesmo.  

O que quero dizer é que poucas pessoas me levam a sério como lésbica. É impressionante como todos os problemas da família são jogados, quase que diariamente, nas mãos da filha caçula e solteira... eu! Peraí, meu bem, solteira o caramba, tenho uma união estável há quase quatro anos. Como se dizer isso adiantasse alguma coisa...  

Creio que isto já aconteceu com quase toda a irmandade lés, dos irmãos mais velhos da gente imaginarem que em um belo dia de sol a gente vai acordar de repente e dizer: “Nossa, a partir de hoje sou hétero”. Pelo amor dos meus coturnos... Eu vivo cercada de incertezas, não sei se até me aposentar vou ganhar a grana que pretendo, se vou fazer uma nova faculdade, se vou tingir o cabelo e de que cor... A única certeza que tenho na vida é que gosto de mulher e ponto! 

Tudo bem, uma união estável por vezes pode não ser assim tão estável, pode haver conflitos, separações, brigas e depois retornos, mas não é por isso que o relacionamento entre mulheres deva ser encarado como algo banal, como uma brincadeirinha de meninas, como se não tivéssemos responsabilidade com nossas companheiras ou, ainda, como se fôssemos lésbicas só porque um dia um homem nos magoou, eca! Desculpem, mas para mim isso soa como ignorância. 

Ok, não devo estar nos meus melhores dias, mas é que realmente sinto falta da porcaria de um documento para assinar, de uma festa para partilhar, de uma família que, querendo ou não, pelo menos assimila que agora você tem uma família, mesmo que ela não passe de duas pessoas e um cachorro. Acho que é isto, almejo a liberdade de poder estar oficialmente presa à pessoa que eu amo, só isso.

Ok, lindinhas, acho melhor eu entrar na fila e pegar a senha, porque afinal de contas quem não quer isso?

Cassiane Chagas, 28, é jornalista e radialista

Publicado originalmente, no site Um Outro Olhar, em 24 de dezembro de 2010

Cláudia Jimenez sofre  de homofobia internalizada?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012 2 comentários

A atriz Cláudia Jimenez, de 52 anos, em entrevista a Folha de São Paulo, em 13/03/10, afirmou que se relacionava com mulheres porque era muito gorda e não se achava com cacife para seduzir um homem. Igualmente afirmou que sua veia comediante surgiu como forma de defesa contra o sentimento de rejeição. Tirando uma de tudo procurava mostrar que não ligava se alguém a chamasse de feia, embora ligasse. Transcrevo sua fala abaixo:

"Não tinha sensualidade, era muito mais gorda do que sou hoje. Não tinha forma nem vaidade. Achava que não tinha cacife para seduzir um homem. Como tinha de ser amada, me joguei nas mulheres", diz.

"Com o humor, foi a mesma coisa: me servia de escudo, de instrumento de defesa. 'Olha como sou 'fodona', como nem ligo se alguém me chamar de feia!' Mentira!" 

A patrulha ideológica do politicamente correto já saiu crucificando a artista, reduzindo uma questão complexa ao mínimo denominador comum da homofobia internalizada e generalizando que ela deu a entender que lésbicas são lésbicas porque não conseguem atrair os homens. Algumas chegaram a afirmar que hoje Jimenez sai com homens jovens porque os banca.

Podemos dizer que Cláudia deve ter tido uma vida miserável já que suas escolhas, em dois departamentos fundamentais da vida, como o amor e o trabalho, foram determinados por sentimentos de rejeição, mas não podemos nos colocar no lugar dela e afirmar que suas declarações sejam fruto de mera homofobia internalizada. De repente, ela descobriu que preferia homens assim como muitas mulheres – como a gente sabe muito bem - passam a vida com homens e, subitamente, tomam coragem para viver com mulheres, seus verdadeiros objetos de desejo. 

Sobretudo, Cláudia falou de sua experiência pessoal e não em nome das lésbicas. Acho que seria mais proveitoso refletir sobre a questão da obesidade no meio lésbico que é por demais condescendente em relação à falta de cuidado de muitas com a boa forma. Agora, além dos aspectos estético e de saúde relacionados à obesidade, vale a pena se perguntar se a gordinha não está com você porque não se acha em condições de arrumar um homem. Chato, né?

Publicada originalmente, no site Um Outro Olhar, em 17 de março de 2010

Diálogo para o entendimento

domingo, 5 de agosto de 2012 0 comentários

Tenha um ouvido amigo para sua amada
Talvez mais difícil do que encontrar a princesa encantada seja nos entender com ela. Depois de um tempo que nos parece infinito percorrendo bares, boates (até aquele som alto e música bate estaca você aturou para encontrar a sua bela), teclando nos chats e frequentando a feirinha da Praça Benedito Calixto aos sábados (se você ainda não foi, e está sem princesa encantada, agarre essa dica), você finalmente encontra sua cara metade para viver com ela felizes para todo o sempre. 

Como já se disse aqui, os romances de amor estampam o the end imediatamente após o happy end por bons motivos. Não vá o happy end espichar demais e por descuido revelar o que vem depois do the end! Porque, então, pode ser tarde demais: o público há de descobrir com horror e espanto que o que vem a seguir não é só lua de mel, tesão e felicidade, mas também uma certa dose de passio (de onde vem palavra paixão) que é sofrimento. 

Não é um sofrimento amargo, infeliz, mas é um sofrimento. Falo aqui da adaptação. Passados os primeiros momentos de enlevo e encantamento, aquelas semanas de paixão acelerada, olhos brilhando, suor nas mãos e muita taquicardia, quando o casal começa a se acomodar enquanto casal, aí sim se inicia o verdadeiro relacionamento, a possibilidade das enamoradas criarem um mundo e uma vida para si mesmas. E é aqui que a porca torce o rabo e a coisa pega. Muitas vezes é aqui, onde começa o relacionamento, que muito namoro vai pro brejo. Conheci uma mulher fascinante que tinha namoros arrebatados, vivia intensamente a paixão e, depois de 3 meses, todo aquele frenesi amoroso se esvaía pelo ar e acabava o namoro. Não raro nem a amizade ficava. 

Por quê? Porque mais difícil do que encontrar a princesa encantada é nos entendermos com ela. Você já deve ter ouvido comentários desse tipo: F. é divertida e engraçada, mas quando está com a namorada muda. Ou este outro comentário que alguém faz da própria namorada: Impossível conversar com ela, não dá. 

A base do entendimento é o diálogo, um princípio da diplomacia que deveria ser estendido a todas as relações, principalmente as amorosas. Infelizmente, há duas coisas que não nos ensinam nos bancos escolares: relacionamento amoroso (só aquelas aulas de biologia com mitose e meiose pelo meio) e parental abilities (habilidades a adquirir para o exercício da paternidade e maternidade), que começa a ser uma disciplina nos Estados Unidos, mas que ainda não chegou por estas bandas. 

Entendimento e diálogo, lamentavelmente, exigem paciência e tolerância. Uma pena que paciência seja uma condição sine qua non, porque pedir paciência já é demais para quem quase a perdeu na busca da amada. Observe. Quantas vezes a namorada traz um problema e sua cara metade mal a ouve e já lhe sapeca uma solução prática, rápida, segura e, mais importante do que nunca, eficaz para fazer com que a outra feche a boca, cale aquele problema e mude para um assunto mais agradável? Se ela volta a tocar naquela tecla, o que fazemos? Repetimos o refrão com ar de mestra cansada: “já não lhe disse que é para fazer isso e aquilo?” E nos admiramos quando ela não segue nossa sugestão. E se a amada cai na asneira de contar suas desventuras a uma terceira pessoa na nossa frente, quantas de nós não dizemos: “já falei como resolver! Ela só se queixa e não faz nada do que eu disse. Não sei porque então me pede ajuda!” 

Onde está o entendimento? Não está, porque ou falta paciência, ou falta amor para ouvir os lamentos, queixas da amada em relação ao trabalho, família etc. O que fazemos é encerrar a sessão de lamúrias e queixumes com uma solução qualquer que tem por objetivo não tanto ajudar a amada, mas nos poupar de ouvir seus problemas. Desafortunadamente, não há soluções prêt-à-porter, prontas como roupas nos cabides. Você diz o seu número e a cor desejada e, záz, eis a solução para seu problema. 

Somos complexas e as soluções também o são. Cada pessoa tem uma cara, um estilo, uma forma de encarar a vida e vivê-la. O que serve para Maria não serve para Zélia. As únicas soluções razoavelmente boas são aquelas sob medida. Assim, quando sua namorada começar a falar de seus problemas, não lhe proponha uma solução que serve para você. Dificilmente servirá para ela, terá a cara dela e o estilo dela. 

Ouça. A maior parte das vezes, o que as pessoas e, namoradas principalmente, querem e precisam é de um ouvido amigo. Alguém que as ouça tantas vezes elas tenham necessidade de falar, queixar-se, reclamar. Geralmente, de tanto falar, começam a entender melhor o problema e sua dinâmica, e hão de descobrir, por si mesmas e a seu modo, a melhor saída. Que é a saída do jeito delas e não do seu ou do meu jeito. 

Saber ouvir é um passo importante para transformar uma grande paixão num grande amor.

Stella C. Ferraz é autora dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense.
Publicado originalmente no site Um Outro Olhar em 18/07/04

Vulvas Flores

quarta-feira, 25 de julho de 2012 3 comentários


Por Míriam Martinho

Resolvi postar essas vulvas-flores ou flores-vulvas após uma espécie de debate que rolou na lista gls, da qual participo, em função de um comentário depreciativo de um gay sobre nossa querida boceta. Comentava o rapaz com outro que era virgem de mulher e que só tinha visto as partes pudendas de uma ao nascer, e que, graças a Jesus, não lembrava desse triste momento.

Fiquei impressionada com a grosseria - para dizer o mínimo - já que a lista também é composta por mulheres e fundamentalmente lésbicas que, além de possuirem uma chana, também em geral são grandes apreciadoras de uma ou de várias.

Pedi ao dito que nos poupasse desses chistes sexistas, e a história virou um zum-zum-zum danado. Imaginasse ele - disse - se as lésbicas dessem para expressar sua opinião sobre os penduricalhos masculinos ali na lista. Ia ficar bem desagradável. O rapaz não gostou, disse que eu não tinha senso de humor e que estava fazendo tempestade em copo d'água. No fim, entre pontos e contrapontos se calou.

Fiquei pensando nessa coisa incrível da misoginia masculina (e aqui cabe se falar em misoginia sim) que afeta tanto alguns gays. Não que não existam lésbicas que também tenham repulsa ao sexo masculino (em ambos os sentidos), mas pelo menos não saem por aí dizendo na cara dos caras o quanto eles lhes parecem indigestos. Quando acontece de alguma querer ressuscitar o manifesto Scum, da Valerie Solanas, aquela que atirou no Andy Warhol, que pregava a destruição do sexo masculino, vozes iradas surgem imediatamente, inclusive de mulheres, contra a ousadia androfóbica. E olhe que as mulheres têm milênios de razões para terem mais bronca dos homens do que o contrário.

Historicamente inclusive essa maneira depreciativa de se referir ao sexo feminino, a que muitos gays chamam de racha, rachada, foi um dos motivos que levou à separação das lésbicas do Somos já nos idos de 1979. Posteriormente, eu mesma já me vi às voltas com essas e outras expressões de aversão às mulheres vindas de alguns gays. E olhe que elas vêm de homens pouco letrados e de outros tantos, como o rapaz em questão, bem letrados e articulados.

Pessoalmente não tenho repulsa ao sexo masculino em nenhum sentido. Apenas não tenho desejo por homens. Quando são bonitos, admiro-os esteticamente, mas não me dão tesão. Naturalmente todos e todas temos nossas idiossincrasias, nossas aversões e simpatias, mas, pelo menos por questão de decoro, devemos mantê-las conosco, pois essas coisas são de natureza por demais subjetiva para serem colocadas em público. Como se sabe gosto não se discute, havendo inclusive quem ame o feio porque bonito lhe parece.

Enfim, mesmo em tom de blague, certas coisas a gente só diz entre íntimos. Hoje mesmo estavam os gays rotulando a marchinha A cabelereira do Zezé, a mais tocada das marchinhas de carnaval, como homofóbica, porque - como bem lembram - ela diz: "Olha a cabeleira do Zezé. será que ele é... será que ele é.... bicha!!!" Não considero a letra ofensiva - talvez porque não seja bicha - mas obviamente não vou ficar entoando suas estrofes na cara dos gays, já que eles não acham graça nelas.

Publicado originalmente no blog Contra o Coro dos Contentes em 10 de fevereiro de 2009

Lésbicas têm cérebro de homem?

sexta-feira, 4 de maio de 2012 2 comentários

Autora: Míriam Martinho

A revista Veja, de junho de 2008, repercutiu um estudo "cientifíco" que afirmava ter os gays o cérebro mais próximo do das mulheres heterossexuais, e as lésbicas, o cérebro mais próximo do dos homens heterossexuais.

Esse estudo me fez lembrar um outro destinado a explicar porque os homens se comportavam de uma determinada forma e as mulheres de outra. Culpa das diferenças cerebrais também. Por esse estudo, entendeu-se finalmente porque os homens não acham as meias em casa, têm mais acuidade espacial do que as mulheres e porque não houve grandes gênias nas artes e nas ciências.

Bobagem questionar se os homens não encontram as meias em casa porque continuam sendo ainda as mulheres fundamentalmente que organizam as tarefas domésticas. Bobagem também argumentar que as mulheres têm mais dificuldade de fazer um bom uso de um mapa porque faz pouco tempo que têm a possibilidade de viver ao ar livre. Enorme besteira  ainda lembrar que não há muitas expressões femininas nas artes e nas ciências porque - até o começo do século passado - mulher não podia sequer estudar. Tudo se explica naturalmente pelas diferenças cerebrais.

Deve ser por ser lésbica, portanto, que, quando aprendi a dirigir (faz tempo), me diziam que eu dirigia como um homem, e hoje, algumas vezes, me dizem que penso como um. Só não entendo porque antes isso era um elogio e hoje, um insulto. Mudamos para pior?

Batom ou Camisa Xadrez?

segunda-feira, 30 de abril de 2012 1 comentários

Da camisa xadrez da butch...
Autora: Stella Ferraz

Uma das razões pela qual Joana D’Arc foi para a fogueira é porque insistia em usar roupas masculinas. Embora houvesse também razões de ordem política, os trajes que a jovem francesa usava escandalizavam e, pior, estavam absolutamente fora das normas prescritas para as mulheres da época. Se o hábito não faz o monge, com certeza lhe dá a aparência de um. Há um dito na comunidade árabe que afirma que eles recebem as pessoas como elas se apresentam, mas se despedem de acordo como elas são. 

A verdade é que o vestuário tem muito a ver com a mensagem que queremos dar de nós mesmas. Até recentemente o traje discriminava as pessoas por idade (crianças, jovens, adultos e idosos) e classe social (realeza, nobreza, burguesia, povo): a menina devia vestir-se de uma determinada forma, a mulher casada de outra e a viúva ainda de um terceiro modo. O mesmo com os rapazes; usavam calças curtas em pequenos, e o uso de calças compridas, marcava para eles a passagem a um estágio mais maduro de vida.

No decorrer do tempo, a roupa tem sido um sinal exterior de classe social e status na sociedade. Os escravos brasileiros eram obrigados a usar roupas brancas, e não lhes permitiam outra cor senão essa, para dificultar-lhes a fuga. Basta conferir as célebres pinturas de Debret e Rugendas com nossos negros, todos devidamente uniformizados em branco. Da mesma forma os presos usavam roupas listradas, para discriminá-los e tornar-lhes complicada a evasão do presídio.

Na Idade Média, certos tipos de tecidos e cores eram privilégios da nobreza. A burguesia também se distinguia das demais classes por roupas que lhes eram próprias e não se confundiam com as da realeza. Em nosso passado recente, a palavra da ordem da esquerda era o uso da roupa o mais próxima possível do padrão operário, num esforço para identificar-se e vestir seus ideais, enquanto que a pequena burguesia corre sempre atrás das etiquetas e grifes para aparentar um status e um poder aquisitivo que está longe de ter.

... pela liberação de Coco Chanel....
A virada de Coco Chanel

 Este final de século e de milênio marca a transição entre as imposições da veste e a liberação dessas imposições. Para essa virada, houve uma mulher que desempenhou um papel preponderante: Coco Chanel, que desenhou trajes práticos para as mulheres e inventou o prêt-à-porter, o pronto para vestir, que dispensava a costureira particular, era produzido em série e muito mais barato. A partir dela, a moda passou a ser algo ao alcance do proletariado e da pequena burguesia.

 Hoje é comum vermos mulheres de meia idade em trajes de juventude sem com isso criar escândalo. Já não se impõe uma veste que discrimine ou que privilegie. Cadeias de lojas como C&A e Marisa oferecerem modelos da moda a custo popular. Não somos mais obrigadas a nos vestir dentro de um determinado modelo. Hoje, mais do que nunca, quem dita a moda e a forma de se vestir somos nós mesmas.

Já podemos vestir o que sentimos que somos. Não há mais imposições externas, salvo, claro, uns poucos, por exemplo, quando você é advogada e deve ir ao Fórum. Ali, você em que usar uma saia, quer queira quer não.

O importante é que cada uma pode vestir o que é. Ou o que sente que é. Aí entra a tipologia: as que fazem o gênero butch ou caminhoneira, porque se sentem mais masculinas e querem ser vistas e compreendidas desse modo, e outras que se entendem por chics e já ganharam o preconceituoso apelido de lesbian chic.

.... às lesbian chics
Muitas butches, menos providas de idéias, procuram no guarda-roupa básico masculino a sua melhor expressão: camisa xadrez larga que lhe disfarce o busto, jeans (com a carteira no bolso de trás) e mocassino. As mais inspiradas atacam de camiseta pólo e outros modelitos menos batidos com a mesma calça jeans e o mesmo mocassino.

Meu primeiro romance GLS, Preciso Te Ver, foi considerado por muita gente um cenário de lesbian chics. As personagens principais usavam lenços Hermes (que nem a própria autora pode comprar e modelitos Chanel. Não que só houvesse lesbian chics na estória, havia jornalistas que usavam camisetas com slogans e veterinárias de botina. Mas o que marcou foram as heroínas, que andavam mesmo com todos os signos de poder aquisitivo. Nesse romance eu me guiei pela máxima de Joãozinho Trinta: pobre gosta de luxo; intelectual é que gosta de pobreza.

Vestida para ser a gente mesma
Em meu segundo romance, A vila das meninas, absorvi as críticas, deixei o conselho do Carnavalesco de lado, e situei a cena num ambiente em que as pessoas pegavam o ônibus, usavam camiseta Hering e comiam pastel. Enfim, as personagens tinham um estilo de vida inclusive ao alcance de sua autora. A roupa ajudou a situar quem eram as personagens.

E aí chegamos ao que interessa: lesbian chic ou butch, ou, simplesmente, mulheres que amam mulheres e amam se vestir cada qual de seu jeito, o importante é que nos conheçamos para saber o que melhor nos cai bem, o que melhor nos favorece dentro de um estilo nosso, que faz a nossa cabeça.

O autoconhecimento vai nos ajudar a selecionar o que queremos vestir. Mesmo aquelas que parecem não ligar para roupa e para moda, muitas vezes, na verdade, estão sinalizando: eu me visto assim porque não me preocupa a roupa, mas o conteúdo. Pode estar sinalizando sem querer, no entanto, que é uma pessoa que cabe no ditado: quem se enjeita se rejeita... E dar a ideia de que se não é capaz de cuidar de si, muito menos dos outros e de uma namorada.

Outras que capricham demais, podem estar passando a sensação de vácuo, vazio interior. O que pode resultar num primeiro movimento de rejeição, da mesma forma como se dá com as desmazeladas. Muitas vezes nos sentimos muitas, várias em uma. Pelo menos é como eu me sinto: num dia, executiva, no outro butch, no seguinte chic ou feminina. E acabo compondo um visual para cada momento: hoje é  jeans, amanhã uma calça com pregas, depois de amanhã um vestido e salto alto. Mas em todas essas variações há uma constância que sou eu e meu estilo.

Sejamos uma ou várias, o importante é vestirmos o que realmente somos. Joana D’Arc foi condenada por vestir-se de homem e nós seremos se nos vestirmos de outra coisa que não nós mesmas.

Stella C. Ferraz é autora dos romances lésbicos Preciso te Ver e A Vila das Meninas, publicados pela ed. Brasiliense. Artigo originalmente produzido para a Revista Um Outro Olhar n. 34

Procura-se mulher feminina. Para quê?

sábado, 21 de abril de 2012 4 comentários

amizade entre lésbicas
Autora: Míriam Martinho

De vez em quando aceito um daqueles convites tipo “Fulana de Tal quer ser sua amiga no ...”, ou “beltrana convidou você para participar da comunidade ou grupo X no ....” ou ainda eu mesma ponho um anúncio nos sites que tem classificados a fim de fazer amizade e trocar umas palavras. Nessas, no pouco tempo que tenho para tais coisas, até consegui bater uns bons e divertidos papos furados com algumas mulheres dos 4 cantos desse nosso Brasil cor de anil.

No geral, contudo, a experiência é meio frustrante porque a maioria das lésbicas vive em estado permanente de caça, caça para ficar, caça para casar, e amizade simplesmente - que é bom – nada. Aliás, a palavra amizade, para a maioria das lésbicas, parece ser uma espécie de código que significa na verdade que você está em temporada... de caça.

Se não, me digam, por que haveria alguém que está apenas em busca de amizade querer saber se você é feminina, masculina ou andrógina? Nas primeiras tecladas com uma dessas caçadoiras enrustidas, pois dizia que estava em busca de amizade, um bom tempo da conversa girou em torno de saber a minha aparência física, não se eu era gorda ou magra, alta ou baixa, mas sim se eu pintava os cabelos e as unhas, fazia a sobrancelha, usava batom, saia e sapato de salto porque ela fazia tudo isso e assim é que apreciava uma outra mulher.

Convenhamos que, quando nossa busca é por uma parceira sexual ou amorosa, para ficar ou casar, até que requisitos como os citados acima podem fazer uma boa diferença. Eu mesma não tenho tesão pelo masculino seja em homens seja em mulheres. O masculino me evoca várias coisas, a maioria delas positivas, mas não me atrai sexualmente. Meu lugar do desejo é mesmo o feminino naturalmente nas mulheres mas até em homens (certa vez me peguei impressionada por uma travesti super-feminina...rsss). Não falo do feminino tipo perua, pois não me agrada muito a estética over, mas o feminino light, discreto e charmoso.

Agora, quando o assunto é amizade, o que me interessa é se a mulher em questão é boa pessoa, se tenho afinidades com ela, de gostos, de humor. Nesse sentido, tanto faz sua aparência, se a figura é feminina, masculina, andrógina, se é negra, branca, oriental, alta, baixa, destra ou ambidestra, subaquática....

Na verdade, essa busca de mulheres femininas, até para simples amizade, tem muito a ver com o preconceito contra a visibilidade das mulheres masculinizadas, visibilidade lésbica, que fique claro, e também com a necessidade de se encaixar num papel mais palatável aos olhos heterossexuais. Para as enrustidas, que ainda há aos montes, uma butch é uma saída do armário a ser evitada. Para as normalizadoras, uma butch incomoda porque não se encaixa no modelito feminista da igualdade entre os pares que, transportado do terreno da cidadania para o da sexualidade, resulta simplesmente desastroso, pois preconiza que as parceiras têm que ser iguais na cama e no visual, em outras palavras, ambas femininas.

Tive uma colega butchezinha que tinha uma namorada bem femme e que, na cama, adorava os papéis assim bem divididos, mas que, no social, morria de vergonha do caso. Daí que na rua elas fingiam que não se conheciam, pois a moça não queria ser vista com aquela bandeira ambulante que era sua amante butch. O mais tristemente engraçado é que essa minha colega butch aceitava essa situação humilhante. Tá certo que a menina era uma gatinha, mas gatinhas existem muitas e com uma cabeça bem melhor.

Então, tanto nos discriminaram e não aprendemos nada com isso? Na hora do vamos ver, também discriminamos? Que maus! Deixemos disso e retomemos o aprendizado do respeito a todas as identidades lésbicas existentes, das sapatilhas às sapatonas, das entendidas às lésbicas politizadas, lembrando que, como diz o ditado, principalmente quando o assunto é amizade, quem vê cara não vê coração.

Famosos estereótipos lésbicos!

quarta-feira, 4 de abril de 2012 8 comentários

Autora: Míriam Martinho

Passeando pelo orkut, li em uma comunidade uma descrição do que seria a lésbica típica. Segue abaixo:

-Gostar de Cássia Eller e morrer pela Ana Carolina
- Dar a vida por um copo de cerveja no botecão da esquina
- Cheirar cocaína na balada
- Pegar as amigas para não sentir solidão
- Ter cabelo curto ou as unhas horrorosas
- Ser muito masculinizada, bofinho
- Sair de qualquer jeito e não ter um pingo de vaidade
- Adorar forró, sertanejo e afins
- Saber jogar sinuca como ninguém

Bem, faço parte das lésbicas totalmente atípicas, pois não me encaixo em nenhuma das características acima. Entretanto, tendo me aproximado da chamada população lésbica recentemente, após mais de uma década de afastamento, me deparei com um modelo de lésbica bem próximo desses estereótipos. Aliás, a bem da verdade, em 30 anos de trabalho com a população lésbica, acho que esses estereótipos variaram pouco.

Hoje o visual é mais andrógino (o modelito bofinho é minoritário e discriminado) ou mais feminino, todas usam celular e a Web facilitou muito os contatos, mas, fora isso, o que mudou? O grande passatempo da maioria parece continuar sendo as baladas etílicas-tabagísticas de bar em bar, com a diferença de que as tabagísticas têm que ocorrer na rua (graças ao bom Serra). Fora o consumo de outras substâncias ilícitas, como citado na comunidade que mencionei. Dependendo do bar, olhares sequiosos perseguem seus passos, tal e qual nos tempos do Ferro's Bar. Os papos são tudo menos cabeça, e nem precisava tanto. Poderiam girar apenas um pouco em torno de qualquer coisa mais densa que o ar.

Preocupação com direitos, saúde (imagine!), política, os rumos do país...?! Nada! Somente questões de ordem erótico-amorosa parecem integrar o repertório das conversas e outros tantos papos da esfera privada. Não que eu também não aprecie jogar conversa fora, dizer umas bobagens, brincar, mas a recorrência dos mesmos assuntos, sempre superficiais, incomoda.

Pior, embora reclame do isolamento, que o gueto paradoxalmente ameniza e agudiza, e até reflita sobre as razões para o mesmo, quando estimulada, a maioria das lésbicas parece buscar apenas companhia para transcorrer o périplo das baladas e outros programas que reproduzam o modelito lésbica-cerveja-cigarro-samba-forró-mesa-de-sinuca em qualquer lugar. Tentativas de criar alternativas a esse quadro ainda são incipientes e encontram pouca receptividade, prejudicando quem busca mais qualidade de vida também entre as sapas amantes de outros recreios, que ficam sem espaço de socialização. Eu que o diga!

De dia Maria, de noite João...

sábado, 17 de março de 2012 8 comentários

Max, personagem da The LWord
Autor(a): Míriam Martinho
Tempos atrás falar das diferenças eróticas entre as lésbicas era coisa meio interdita. A influência do feminismo radical nos fazia acreditar que, entre quatro paredes, tinha que ser tudo também igualitário. Ambas tinham que ser “mulheres (femininas)”, e o que ela fazia com você, você também tinha que fazer com ela para que o casal não fosse acusado de reproduzir os papéis sexistas das relações heterossexuais baseadas na opressão da mulher pelo homem. Até hoje encontramos representantes dessa corrente um tanto xiita do feminismo que confunde alhos com bugalhos e que quis/quer tirar da sexualidade humana aquilo que melhor a define: o lúdico, a brincadeira, o teatro erótico.

Felizmente, sapatas valentes souberam contestar essa camisa-de-força, e sua coragem, expressa em textos que atravessaram o tempo e os continentes, nos libertaram desses equívocos ideológicos. Em termos de sexualidade, e não só, como diria a belíssima O que será? (A flor da Pele) que posto abaixo, as coisas são na base do “que não tem medida nem nunca terá; o que não tem remédio, nem nunca terá, porque não tem receita....; o que não tem vergonha nem nunca terá, o que não tem governo nem nunca terá porque não tem juízo.”

Carmen, personagem
da The LWord 
Daí que hoje se fala mais abertamente da sexualidade lésbica, de nossas fantasias eróticas, sem tantos pudores. Em mesas de bar, comunidades virtuais na Web, blogs lésbicos, o assunto retorna de forma recorrente seja pela via de manuais de primeiros passos, para adentrar na vida amorosa sem muitos percalços, seja pela discussão do que se espera de uma parceira, seja reivindicando menos moralismo no meio lésbico, enfim, o que não falta é papo sobre o assunto.

Entre os temas levantados, um dos mais divertidos é a história das moças que sinalizam pelo look e atitudes um determinado papel sexual mas que na hora do bem bom se revelam de outra natureza (rsss). Então, é aquela moça toda fino trato, emplumada, empetecada e maquiada que, na hora do amor, se revela um tremendo João ou, ao contrário, aquela moça de pisada firme, de ombros jogados, cheia de atitude e visual entre a Shane e o Max da The L Word que nos finalmentes aparece toda Maria, lânguida e faceira.

Como ainda não é muito costume se perguntar das preferências sexuais das potenciais parceiras, muita gente quebra a cara logo de cara. É a famosa roubada lésbica. Para tal problema, existem várias soluções, dependendo de cada uma. Depois do susto, você se recupera e segue no embalo, procurando aceitar a realidade como ela é e tirando máximo proveito da situação, pois você é versátil. Você não consegue rebobinar o DVD da sua fantasia tão acalentada com a moça e tenta levar a situação para onde você queria (com jeitinho claro). Você literalmente broxa e faz um meia boca, desmarcando qualquer outra possível interação futura.

Ou então, você faz o quê?

fotos: personagens Carmem e Max de The L Word
Música: O que será (A Flor da Pele)?
Na voz de Nana Caymmi



O Que Será? (À Flor da Pele)
 Chico Buarque

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
O que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
O que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Publicado originalmente, no blog Contra o Coro dos Contentes, em 10/10/2008

A Mudança (I Will Survive)

segunda-feira, 12 de março de 2012 2 comentários

Autor(a): Cassiane Chagas

Caixa dos livros, mais à direita a das roupas bem em cima da caixa onde estão as fotos, as cartas, os poemas, o meu passado. Não, minhas lindinhas, não são minhas coisas, eu ainda permaneço da “casa grande” que outrora era minha e dela. Na minha cabeça completamente “fora do prumo”, imaginava que nosso relacionamento era eterno e que tínhamos planos juntas e ....blá, blá, blá.

Ok, meu anjos não rolou, não deu, paciência. Mas cá para nós foi bom enquanto durou, sem a crise dos 10 anos, sem rasgar fotos. Com uma discreta lágrima percorrendo olho esquerdo (que péssimo, esse olho sempre me denuncia) enfim, como diria um grande amigo meu, que uma vez por semana coloca seu salto agulha e se joga, “I Will Survive” (veja música e letra abaixo).

Motivo pelo qual estou cá, com minhas botas de couro, calça agarrada e cabelos ao vento (ok, viajei um pouco nos episódios de Nikita... adoroo...). Sem mágoas, ressentimentos. Já comi os mais variados tipos de chocolates, afoguei mágoas em colos que “serão eternos” para mim.

E sabe como me sinto agora? Viva. Sim, amores, entendi que não há acontecimentos específicos para um fim. No meu caso, por exemplo, ele já existia, estava ali, esperando um “motivo”, pelo qual, acarretaria no fim oficial. É! Aquele fim Mexicano, com alianças jogadas na escrivaninha e comparações pífias de “fulana” com “sicrana”.

Falando assim parece fácil uma separação de um relacionamento de pouco mais de 4 anos. Fácil é dizer que Zélia Ducan é muito gostosa (as palavras saem suaves da boca). Foi difícil para “burro”. Mas percebi que ela e eu já não tínhamos mais identidades próprias e (por mais piegas que seja) não olhávamos para o mesmo caminho. Assim, com as feridas por cicatrizar, seguimos agora caminhos diferentes.

Talvez, pelos motivos os quais já não me dizem respeito, eu tenha superado isso com mais facilidade que ela. Sinceramente! Quero o sucesso dela, foi uma pessoa muito, extremamente importante para mim. Aprendi muito com aquela “figura” que fazia brincadeiras de tudo. É que realmente acabou. Acho que relações são feitas para isso. Você ama, vive plenamente a cada dia, não imagina a vida sem a pessoa, se perde, se encontra e quando menos se espera nada mais existe.

Agora pelo amor das calças de tergal! Desilusões acontecem, fazem parte do dia-a-dia. Isso não pode trazer conseqüências como “fobias matrimoniais”. Se apaixonem, se joguem na relação. Não deu? Vale sofrer, chorar e efetivamente superar. Vale e muito, contrariando Tião Marmiteiro, dançar homem com homem e mulher com mulher.



First I was afraid
I was petrified
Kept thinking I could never live
without you by my side
But I spent so many nights
thinking how you did me wrong
I grew strong
I learned how to carry on
and so you're back
from outer space
I just walked in to find you here
with that sad look upon your face
I should have changed my stupid lock
I should have made you leave your key
If I had known for just one second
you'd be back to bother me

Go on now go walk out the door
just turn around now
'cause you're not welcome anymore
weren't you the one who tried to hurt me with goodbye
you think I'd crumble
you think I'd lay down and die
Oh no, not I
I will survive
as long as i know how to love
I know I will stay alive
I've got all my life to live
I've got all my love to give
and I'll survive
I will survive

It took all the strength I had
not to fall apart
kept trying hard to mend
the pieces of my broken heart
and I spent oh so many nights
just feeling sorry for myself
I used to cry
Now I hold my head up high
and you see me
somebody new
I'm not that chained up little person
still in love with you
and so you felt like dropping in
and just expect me to be free
now I'm saving all my loving
for someone who's loving me

Publicado originalmente em 24 de dezembro de 2010

O café na cama nosso de cada dia

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012 8 comentários

Por Beth Andrade

Sim. Eu levo café na cama todos os dias para a minha namorida. Pode parecer a coisa mais besta do mundo, e talvez seja. Aliás, nossas amigas tentam entender isso até hoje. “Como, depois de três anos morando na mesma casa, dividindo obrigações e contas, ela ainda te leva café na cama?”, perguntam, atônitas, quando minha garota, toda orgulhosa e com um tom quase de desdém, diz numa mesa de bar que é acordada com beijinhos e café na cama todo santo dia. 

É claro que por algum tempo o café na cama vira o assunto da mesa. Umas olham com ar angelical e dizem “Ai, que fofo!”, outras são mais práticas e começam a discorrer sobre o tempo que se perde na produção de uma refeição matinal. E, naturalmente, uma onda de lembranças vem à mente de muita gente. “Ah, bons tempos em que a Fulana trazia meu café na cama” é a frase mais recorrente. Diante dos inúmeros questionamentos que ouço sobre os motivos que me levam a ainda fazer isso todos os dias, em geral respondo apenas que faço porque gosto. Mas hoje me peguei pensando sobre esse meu café na cama e os motivos que me fazem, todos os dias, acordar, levantar, preparar o café-da-manhã e levar numa bandeja tudo o que imagino que minha garota vá querer comer naquele dia. E depois de muito pensar, amigas, vou finalmente dar a verdadeira resposta sobre essa questão. 

Longe de ser a boa moça ou a mulherzinha submissa que talvez possam imaginar, levo café na cama todos os dias para a minha garota por necessidade. Isso mesmo, pela mais pura e absoluta necessidade. É claro que no início o café na cama ajudava a conquistar, demonstrava carinho (especialmente em se tratando de alguém que não possui nenhum outro talento na cozinha, como eu). Mas, com o passar do tempo, levar o café na cama para a minha garota também assumiu as vezes de hábito. Notem que eu disse hábito e não obrigação. Para mim, tornou-se algo como vestir uma roupa ou tomar banho. E aí vocês devem estar se perguntando: e onde está a necessidade nisso? Porque qualquer um enxerga a necessidade de se vestir e tomar banho, mas levar café na cama...? Que necessidade é essa? 

Vou explicar melhor. Trabalho aproximadamente doze horas por dia. E levo cerca de três horas para ir e voltar do trabalho. Em média, fico longas quinze horas fora de casa. Isso sem contar os outros tantos eventos que ocorrem à noite e nos fins de semana. A partir de agora as coisas vão começar a fazer sentido. Tenho necessidade de ter um tempinho só meu com a minha namorida. Tenho necessidade de dividir minha vida com ela, de dar exclusividade por pelo menos uma hora à mulher que atura minhas esquisitices faça chuva ou faça sol. 

Vocês podem não acreditar, mas é aquele beijo sonolento, aquela corrida pra fazer o xixi que ficou guardado a noite toda, aquela preguiça dela em levantar que me fazem acreditar que terei um bom dia. São aqueles olhos semi-abertos e ainda inchados de uma noite bem dormida e o abraço do corpo dela ainda quente do edredom que me fazem renovar as energias para mais um dia. 

Tudo bem, vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com o fato de eu levar o café na cama para a minha garota. E eu digo o seguinte: encontrei no café-da-manhã um jeito de dizer à minha mulher, todos os dias, o quanto a amo. Certamente existem milhões de outras maneiras de fazê-lo e todas, claro, são sempre muito bem-vindas. O que não dá é pra deixar o tempo passar, esquecer os carinhos diários e esperar que a pessoa que vive ao seu lado mantenha a mesma paixão. Por isso, longe de querer dar aulas de como manter sua mulher, quero apenas que vocês, minhas amigas queridas, parem e reflitam um pouco sobre o que estão fazendo para garantir o amor de seus pares. Porque eu e a minha garotona já estabelecemos para nós o café na cama nosso de cada dia. 

Publicado originalmente em dezembro de 2007

Depois daquela noite, será que ela me liga?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012 1 comentários

E eis que, quando você menos espera, - tchantchantchan! - você topa, tropeça, é atropelada por sua princesa encantada, a mulher de seus sonhos, tudo o que você havia pedido à Deusa ou a Deus.

Você finalmente encontrou a sua cara metade. E agora? Agora dependendo de seu temperamento, signo, atividades e projetos de vida, você há de viver por algum tempo horas de maior ou menor ansiedade e angústia. Não sem razão corre a anedota de que, no segundo encontro, as mulheres já vão com o caminhão de mudanças. Infelizmente para as mais ansiosas, a fase da Lusitana demora um pouco mais para acontecer. Antes que o caminhão de mudanças estacione à frente da casa de uma delas, muita água tem de rolar por debaixo da ponte. 

É a fase de as candidatas a namorada se conhecerem e procurarem conhecer quais são as intenções uma da outra. Ainda mais nesses tempos de ficar, o one night stand como dizem as americanas, esse padrão de comportamento de passar apenas uma noite juntas e nunca mais se ver ou se falar. Muita gente já saiu de coração partido, porque foi para a cama sonhando uma vida em comum, enquanto que a outra parte não queria mais do que algumas horas juntas, quanto muito, uma noite.

Eis a angústia que assalta as enamoradas: por que ela não me telefona? Puxa, queria sair com ela hoje também! Será que ela gosta de mim? A gente vai voltar a se ver? Ficou de telefonar e ainda não telefonou! Ou será que quem ficou de telefonar sou eu? Telefono ou não telefono? O que faço?

As mais objetivas ou ansiosas costumam declarar peremptoriamente que não gostam de jogo e não querem participar deste delicado game amoroso que são os primeiros encontros. E será que se trata mesmo de jogo ou apenas de uma dança, leve e sutil, de sedução e descobrimento que acontece com os animais e conosco também, não menos animais que eles, e bem mais complexas? Afinal no reino da Femina Sapiens, existem os complexos de Édipo, de Electra, de inferioridade e de superioridade para citar os mais conhecidos.

Esse jogo, ou momento é difícil mesmo. As mãos suam, perde-se a fome, vive-se à espera de um telefonema ou sente-se palpitar forte o coração quando é a nossa vez de chamar o celular da amada ou da amada-a-vir-a-ser. 

Amada-a-vir-a-ser? Isso mesmo. Quem diz que a princesa encantada que você acabou de topar ou de cruzar seu caminho é a sua amada mesmo e não a de outra pessoa? Princesas encantadas também se enganam, se atrapalham, pensam de um jeito e depois despensam... Por isso, nada melhor do que um período de conhecimento, de fazer a corte, de observar com quem estamos saindo, de quem se trata. É o momento de ouvir. E mais importante de que ouvir, observar. Afinal, falar é fácil. E não são só os portenhos que podem ser comprados pelo que valem e vendidos pelo que pensam que valem. Por isso, aproveite este tempo para verificar se o que ela faz confere com o que ela diz que faz. Depois de juntas, não adianta muito alegar, como nos divórcios, erro de pessoa. Até aí, já se sofreu muito, já se amargou muita tristeza. Use esse tempo de sedução e de jogo para conhecer as intenções de sua amada, para saber se ela é a pessoa que você está procurando para partilhar sua cama e sua vida. Se ela tem a ver com você.

O jogo da sedução é sofrido para ambas as partes. Mas reflita: o Amor, antes de ser um contrato de vida, é emoção. As pessoas ficam juntas porque se querem bem, química, física e sentimentalmente. Não adianta querer colocar o carro na frente dos bois, sentar diante dela e falar e falar, ouvir e ouvir e acreditar que está tudo resolvido. Que tudo foi dito e ouvido. Relacionamentos amorosos acontecem ao longo do tempo e não num instante. Pedem convivência. O love at first sight acontece ao primeiro olhar, mas o relacionamento, o bom entendimento e a alegria de estar juntas, acontece com o passar dos dias. Por isso, administre sua ansiedade e angústia. E lembre: “Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”, como cantava Elis Regina. O jogo amoroso requer tranqüilidade, tudo o que nós, que amamos, não conseguimos ter. 

Stella C. Ferraz é autora dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense. 
Originalmente publicado no site Um OUtro Olhar em 20/10/04

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