Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

Perdas, Danos e Afins

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012 3 comentários

Autor(a): Diedra Roriz

Era um lindo fim de tarde ensolarado, ou só parecia? Michelle não sabia. Talvez, comparado aquela sensação de vazio - como se um vácuo a separasse do resto do mundo, como se o peito estivesse repleto de uma presença amputada, sufocada, com gosto escuro, sombrio - fosse realmente um lindo fim de dia.
          Estacionou o carro, soltou e ajeitou os cabelos, se olhando no retrovisor. Era uma mulher bonita, acostumada a chamar atenção. Em dias que não fossem aquele, onde um leve tremor nas mãos e pequenos e incontroláveis calafrios subiam por sua espinha.
          Ficou sentada dentro do carro, esperando. A espera... Era uma coisa que a irritava, enervava mesmo... Mas, em dois anos de casamento e uma semana de separação, já se tornara um hábito esperar por ela...
          Abriu a agenda. Tentou fazer algumas anotações. Impossível. As mãos pareciam incapazes de responder ao simples comando do cérebro. Tinha passado a semana inteira queimando nessa ansiedade febril, incapaz de qualquer coisa produtiva.
           De vez em quando olhava o relógio, tentando disfarçar a inquietude evidente. Viu quando Amanda apareceu. Ela se aproximou calmamente do carro, abriu a porta do carona e se sentou no banco ao lado de Michelle.
 - Oi. – disse simplesmente.
 - Oi. – respondeu Michelle, a voz um pouco falha, evitando se perder nos olhos dela.
 - Tudo bem?
 - Tudo. - falou quase num sussurro, numa última tentativa de não olhar para ela.
 - Eu... queria... eu... Me desculpa, Mi...
          A mão de Amanda pousou suavemente na perna de Michelle, e os lábios se aproximaram perigosamente da orelha dela, trazendo recordações que a fizeram ter um pequeno arrepio. Exatamente o tipo de reação que Michelle esperava conter.
          A última coisa que Amanda queria era ferir Michelle. A amava. Realmente. Se importava, se preocupava com ela. Mas... não tinha jeito. Estava feito. Impossível voltar atrás. E também era impossível prometer que não faria novamente, porque... era algo incontrolável, mais forte do que ela. Algo do qual ela precisava para viver.
          Uma dor enorme a atingiu. Impressa na voz de Michelle, na forma como ela se afastou bruscamente e perguntou:
 - Desculpas? Pelo que?
          Michelle queria ser firme. Precisava esquecer que a boca da outra podia fazer com que ela perdesse a respiração, que até o mais simples contato de pele provocava nela um ardor estranhamente fascinante. Não podia olhar para Amanda. Precisava manter os olhos longe dos dela, ou então.... Seria novamente sugada para o irresistível e incontrolável redemoinho de paixão...
          Amanda abaixou os olhos. Sem conseguir fitar a mulher na frente dela. Arrependida por ter sido pega, mas não pelo que tinha feito. Por quê? Por que não se arrependia? Não sabia... Apenas parecia que para ela era impossível se conter, se negar aos apelos  passageiros da auto-afirmação que encontrava na sedução e no prazer... O efeito estava na frente dela, nos olhos da mulher que amava, e que estavam... enevoados, nublados, esmaecidos...
 - Você sabe.
          Sim, Michelle sabia. Da forma mais dolorosa, humilhante e deprimente possível. Sentiu o rosto ser erguido delicadamente até os olhos encontrarem os de Amanda. Não ofereceu resistência. Na verdade, não conseguiu. Reação inerente à presença inebriante, sedutora, magnetizante da ruiva. Hipnotizada, enfeitiçada pelos olhos profundamente sedutores, que mergulharam, vasculharam, dominaram os dela com uma facilidade inquietante.
          Foi Amanda quem desviou os olhos. Michelle jamais conseguiria.
 - Eu sei que você já sabe, Mi... Mas, eu queria... Te dar uma explicação...
 - Não quero falar sobre isso.
          Amanda suspirou profundamente. No fundo, bastante aliviada. Não tinha realmente o que dizer. Nem como se justificar. Como explicar que com Michelle, se sentia fraca, sufocada, impotente? Tudo era muito sério, pesado, cheio de responsabilidades, expectativas, cobranças, que a faziam se sentir prisioneira. Enquanto que com as outras era tudo fácil, leve, inconseqüente... E por isso mesmo gerava uma satisfação irresponsável que precisava renovar sempre...
          Passou a mão nos cabelos, jogando-os para trás. Da forma que Michelle amava. O charme de Amanda era tão natural quanto respirar. E causava em Michelle arrepios impossíveis de evitar. 
          Percebendo o efeito que uma simples jogada de cabelos causava, Amanda sorriu.  Com a doçura suave, carinhosa e apaixonada que só Michelle conseguia despertar. Mordeu o lábio inferior quando estranhamente, ela não sorriu de volta. Pelo contrário, os olhos de Michelle se tornaram... cubos de gelo. Amanda reparou bem nisso, e teve medo de perguntar:
 - Mi... O que você quer?
 - Quero me separar de você.
          O sorriso de Amanda se distorceu, virando uma espécie de careta que deixava entrever dolorosamente os dentes.
          Dentes ou presas? Amanda já era uma predadora voraz quando a tinha conhecido. Nenhuma dúvida com relação a isso. Mas Michelle inocentemente pensava que ela poderia mudar, poderia... amadurecer?
          Como julgar, como saber quem na verdade era infantil? Amanda, com suas escapadas furtivas? Ou Michelle, que voluntariamente escolhera fingir que nada via? Até o momento em que o odor putrefato das não verdades tinha se tornado insuportável  - como qualquer corpo em decomposição seria. Impossível continuar fingindo que não existia.
          Principalmente depois do telefonema que tinha recebido na véspera. A menina – pela voz, parecia ser muito novinha – tinha ligado para confirmar o que Michelle já sabia. As infidelidades que Amanda – com o apoio tácito de Michelle – escondia.
          Michelle tinha escutado calada. Cada palavra. Cada suspiro. Se afogando. Puxada pelo redemoinho, o buraco negro que se formava e que a fazia perder até a noção de quem era. Precisava de ar. Precisava voltar à tona. A menina parecia apaixonada. Michelle não a culpava. Pelo contrário. Sentia por ela uma óbvia empatia. Amanda, como sempre, fazendo vítimas sem sutilezas nem remorsos,  com maestria.
           Foi Amanda quem finalmente falou. Devagar, cada uma das palavras machucando, doendo, um enorme esforço, porque... estava mentindo. Na tentativa desesperada de evitar o fim:
 - Mi, me perdoa... Foi só uma vez... Tô arrependida... Acredita em mim... Eu errei, eu sei que... É imperdoável... Mas dois anos de casamento pra você não valem nada? Mi, eu  amo você... Como nunca amei ninguém... Você é a mulher da minha vida... Sou sua, só sua, de corpo e alma... Só que nos últimos meses, você ficou tão fria... tão... inalcançável... Sei que não justifica... Mas eu sou humana... Me sentia carente, magoada, sozinha...
          Michelle riu. Uma gargalhada estrondosa, raivosa, agressiva. Jogando a cabeça para trás e fechando os olhos. E foi com os olhos ainda fechados que disse:
 - A culpa é minha então?
          De repente as duas estavam tão próximas que podiam quase sentir os lábios se tocando. Michelle fechou os olhos, querendo que Amanda a beijasse, que as bocas se colassem numa incoerente mistura de salivas, hálitos e almas. Mas o beijo não veio. Amanda não teve coragem. Michelle tinha fechado a alma para ela, parecia inatingível, distante, inalcançável...
          Michelle voltou a abrir os olhos, tentando disfarçar o estranho desapontamento que sentia.
          Impulsionada por um simples e terrível desespero, Amanda deu sua última cartada. Com um sorriso absurdamente sedutor, falou a frase que tinha conquistado Michelle anos atrás:
 - Eu desisto, se você disser que não sente nada por mim...
 Exatamente como da primeira vez. No aniversário de uma amiga em comum. Amanda tinha se aproximado, iniciando uma conversa que na verdade, não passava de um flerte nem um pouco velado. Michelle já conhecia a fama de Amanda, por isso, e só por isso – desde o primeiro momento tinha ficado de quatro – ficou evitando, resistindo ao máximo, apenas para – depois da frase irresistível, bombástica - ceder, derreter, e... se entregar. Completa e absolutamente.
 Lembranças em flash pipocaram vertiginosamente. Uma montanha russa,  um looping de emoções a atingindo como um soco no estômago só de lembrar da doçura dos beijos, das mãos, dos suspiros e gemidos, da forma intoxicante de Amanda fazer amor.
           Recordações que fizeram a resposta de Michelle sair fraca, trêmula. Nem um pouco convincente:
 - Não sinto mais.
          Propositalmente, Amanda ajeitou uma mecha dos cabelos de Michelle, prendendo-a atrás da orelha. Uma pontinha de esperança surgiu quando Michelle estremeceu com o leve toque. Amanda a olhou bem nos olhos ao dizer:
 - Acho que você tá chateada, mas... Ainda me ama, Mi... Não adianta fingir.
          Amarrada numa camisa de força como o grande Houdini. Poderia, como ele, se libertar? Mas Michelle não era a mestra das ilusões, era a paciente sem alta do manicômio mais cruel do mundo: o amor...
           Juntou todas as forças que tinha para gaguejar:
 - Eu... eu não quero mais.
          Os olhos de Amanda cintilaram. Farejando, vislumbrando, intuindo o que Michelle estava sentindo. A voz soou visceral, ardente, intensa, quando olhou Michelle profundamente nos olhos, e disse:
 - Mentira. Você me ama. Me adora. É louca por mim. E eu por você, Mi...
          Vendada e sozinha com um pé levantado na beira de um precipício. Apenas um passo a separava da queda. Um passo, ou o desequilíbrio. Fosse o que fosse, Michelle gostaria de poder se entregar deliberadamente ao abismo. Mas não podia.
 - Eu quero apagar você da minha vida, Amanda... Esquecer que você existe.
          Michelle nunca tinha visto os olhos de Amanda daquele jeito. Absolutamente secos, como se a dor fosse tão grande quanto muralhas que represassem toda e qualquer forma de lágrima.
 - Não fala assim... Por causa de um erro, de um único erro...
          Michelle nunca conseguiria se lembrar do nome de todas as garotas com quem sabia que Amanda tinha saído. Milhares, um monte delas, mesmo sendo casada com ela. E o tempo todo Michelle fingia que nada estava acontecendo... Sofria em silêncio. Sem nada transparecer. No fundo talvez já soubesse o que tinha que fazer a muito tempo. Apenas protelava porque... tinha medo. De ficar sozinha? Não... De que Amanda mudasse, se arrependesse, deixasse de ser daquele jeito com alguém que não fosse ela...
           Michelle riu balançando negativamente a cabeça. Um riso amargo, sarcástico, doído, como Amanda nunca a tinha visto fazer. Um riso que pareceu abrir uma comporta de palavras, que  jorraram furiosamente:
 - Uma única vez? Uma única vez? Tem coragem de dizer que foi uma única vez? Há meses você tava de caso com aquela menina... Fora as outras, Amanda... Muitas, tantas que pra dizer todos os nomes levaria horas... A lista é imensa! Aliás, mais fácil dizer as pessoas com quem você não dormiu nesses dois anos... Essas, minha querida, dá pra contar nos dedos...
          Fechou os olhos, as lágrimas escorrendo dolorosamente. A lembrança que teve a atravessou como um punhal. Rasgou toda e qualquer razão que ainda pudesse ter...
         Uma noite no quarto delas, em que a pouca luz do abajur deitava nos cabelos ruivos de Amanda um efeito etéreo. Ela estava de olhos fechados, e quando Michelle sentou na cama, abriu os olhos e sorriu um sorriso manhoso, meio adormecido. Quando as bocas se tocaram, o efeito de sempre -  como se o mundo, a vida, o universo mudassem, passassem a ter sentido...
          Como se pudesse ler os pensamentos de Michelle, Amanda se aproximou lentamente. Os olhos fixos nos dela. Segurou o rosto de Michelle entre as mãos, e encostou os lábios nos dela apaixonadamente. Por um instante esqueceram de tudo e apenas se entregaram aquele beijo. Desejado, incendiário, intenso... Mas que durou pouco tempo.
           Fazendo um esforço enorme para se controlar, Michelle colocou as mãos nos ombros de Amanda e a afastou. Na mesma hora em que os lábios se separaram teve vontade de puxar Amanda de volta. Segurou o volante com força, como se tivesse medo que as mãos não a obedecessem. Evitou olhar para Amanda, sabendo que se os olhos voltassem a se encontrar, a beijaria novamente.
 - Amanda, eu não tô brincando, muito menos jogando com você.
 - Nem eu.
          Aquela era a terceira vez que Amanda se sentia daquele jeito, como se uma névoa lhe impedisse de enxergar direito. A primeira vez 11 anos atrás, no enterro da mãe. A segunda vez há apenas 4 anos, no enterro do pai. Ambos pareciam pertencer a uma vida passada. E realmente pertenciam, a uma vida antes de Michelle.
          Michelle tinha entrado na vida de Amanda com a fúria de um anjo salvador, afastando todos os demônios do passado. E criando novos demônios, perigosos e desconhecidos. Mais especificamente, a certeza de que nunca mais poderia dar um salto mortal, passar de um trapézio para outro sem nenhuma proteção.
          Mas aceitava, porque toda e qualquer noção de falta de controle parecia pertencer a uma vida passada. E realmente pertencia, a uma vida antes de casar com Michelle. A única válvula de escape que tinha, era sair com outras mulheres.
 - Michelle... Por favor, me perdoa... – a voz de Amanda era sempre daquele jeito insistente, firme, exigindo respostas imediatas. Não como uma britadeira. Mais como uma goteira, que de tanto bater acabava sempre amolecendo a vontade de Michelle.
          Só que naquele momento, o celular de Amanda tocou. Insistentemente. Michelle suspirou profundamente. Antes de dizer:
 - Não vai atender? Por quê?
          Os olhos duelaram, os de Michelle esperando uma resposta. Os de Amanda tentando negar o evidente. Tão absolutamente sem graça, que não precisou de palavras para Michelle saber:
 - Porque é uma das muitas com quem você me trai.
          Se estivesse no lugar de Amanda, Michelle ficaria sem ter o que dizer. Mas não era o caso:
 - Por favor, Mi... Eu amo tanto você... Eu vou mudar, prometo...
          Amanda usou toda a usual sedução que dela emanava. Verdadeiro campo magnético, que sempre dava a Michelle a impressão de que Terra, Sol, Lua, e estrelas giravam única e exclusivamente em torno de Amanda...
 - Tarde demais... Não quero mais você.
          O olhar dela... Quase fez Michelle voltar atrás... Como um animal ferido, perdido, abandonado... E talvez fosse, na verdade. Mas Michelle não agüentava mais.
          Amanda percebeu, mas não conseguia aceitar. Ainda tentou perguntar mais uma vez:
 - É sua decisão final?
          A resposta de Michelle foi assentir com a cabeça. Sem forças para mais nada. Um sentimento de ausência, de morte, de vácuo, a corroendo por dentro.
          Viu quando Amanda abriu a porta e saiu do carro, batendo a porta com força. Viu quando Amanda se afastou em direção à praia, e ficou ali parada observando o sol que aos poucos descia no horizonte. Mas não a chamou de volta, contrariando o desejo mais verdadeiro e profundo que sentia.
          Correr com o vento se deitando na boca, a respiração intensa. O coração martelando acordes, as mãos bailando músicas inteiras. Desejos rasgados da alma arrancados com o fórceps da desilusão, traição, ressentimento...
          Perdas... Amanda as colecionava... Assim como as culpas... E medos... Eram como morcegos que a rodeavam. A arranhando no rosto, a puxando pelos cabelos... Precisava se livrar, espantar todos eles... Pisou na areia sem tirar os sapatos, caminhou até o mar num transe entorpecente. As ondas molharam os sapatos. Atirou a bolsa na areia, entrou na água até os joelhos. O sol foi sumindo, a escuridão tomando conta dela enquanto Amanda avançava, entrando mar adentro.
          Michelle ligou o carro, pisando no acelerador como se pisasse em si mesma. Ainda olhou para trás, tentando vislumbrar Amanda entre as árvores. Mas só conseguiu enxergar a total ausência de luz. Anoitecera. Uma longa noite sem estrelas.

O conto acima ganhou o segundo lugar no Concurso Nacional de Contos Lésbicos em 2008 realizado pelo Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher

Outros contos: O Dia Seguinte  Aquários 

 O Dia Seguinte

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012 3 comentários

O Dia Seguinte
autor(a): Diedra Roriz


Acordou suada e esbaforida. O coração acelerado, dando pulos dentro do peito.

Passou a mão nos cabelos, tentando inutilmente retirar a lembrança que ainda parecia pregada às retinas.

Um pênis enorme, vindo em direção a ela, duro e erguido.

O mais horrível pesadelo que já havia tido.

Pior... E mais inquietante por que... Sequer despertava uma sensação inteiramente ruim.

Mas deveria.

Era preciso!

Ergueu as cobertas, descobrindo que estava completamente nua. E sem saber como havia se despido ou sido despida.

Seria possível?

Forçou a mente, apertando as têmporas com os dedos...

Nada.

Nem um mísero resquício.

Como se a memória houvesse sido apagada, qual filme de ficção científica.

Pegou o travesseiro para esmagá-lo entre as duas mãos - numa tentativa infantil, mas bastante eficaz de extravasar a frustração que sentia – e deu um grito.

Debaixo dele a prova concreta: uma cueca. Supostamente esquecida.

Pulou para fora da cama com as mãos cobrindo a boca, a surpresa mantendo os olhos ampliados e a respiração desesperada e arredia.

Vestiu uma camiseta, um short e uma calcinha.

Colocou a cabeça para fora da porta do quarto, tentando descobrir se Bia - a amiga com quem dividia o apê - estava ou havia saído.

Um alívio incomensurável ao perceber que se encontrava sozinha.

Precisava agir rápido. Eliminar a prova do crime.

Correu descalça, tropeçando até a cozinha.

Vasculhou as gavetas até finalmente encontrar o que queria.

Brandindo o garfo imenso de churrasco nas mãos, como um tridente de Netuno enfurecido, caminhou resolutamente até a cama, repetindo para si mesma:

- Calma... Respira... Devagar... … só uma cue...

Parou por aí.

Para conter a muito custo a ânsia de vômito que subia.

Precisou de uma concentração incrível para conseguir pescar a peça de roupa na pontinha do garfo - a repulsa mantendo o braço esticado para manter a maior distância possível – e jogá-la na privada pensando:

- Preciso me livrar disso!

Deu a descarga.

A peça infame desceu, mas a água subiu, regurgitada pelo cano entupido.

Imaginou o encanador tirando a causa do entupimento dali, com um sorriso lascivo... Bia ao lado dele com um esgar de decepção no rosto, recriminando:

- Nunca esperaria isso de você. Tudo, menos isso.

Enquanto ela própria dizia:

- Juro que não sei o que aconteceu... Não sei o que houve! Eu nunca faria isso!

Quando deu por si, estava ajoelhada no chão frio do banheiro, as mãos unidas em súplica:

- Me perdoa! Não sei o que fiz!

Levou alguns minutos para entender que estava sozinha.

Correu de volta para o quarto, pegou o celular na mesinha de cabeceira e fez a única coisa que poderia: ligou para a analista. Com uma ansiedade extrema, esperou o toque cessar na secretária eletrônica.

Venceu sem esforço a repulsa que sentia da frieza da maquininha. A urgência era muito maior do que qualquer tipo de pudor ideológico, ou como a irmã definia:

- Frescura, Maurinha!

Deixou um recado sucinto:

- Alô? Ana Cecília? … Maura. Preciso que você me atenda hoje. … um caso de vida ou morte. Estou surtando aqui.

Desligou ainda incessantemente intranquila.

Ficou andando de um lado para o outro na cozinha.

Implorou mentalmente, numa prece que se repetia:

- Que ninguém fique sabendo! Que ninguém tenha visto!

Caso contrário, o que diria? Como explicaria?

Não havia desculpa para aquilo.

Seria execrada, afastada, banida.

Para sempre taxada, apontada como:

- Aquela que dormiu com um carinha!

Estava assim, imaginando as caras de reprovação, as amigas lhes dando as costas, toda uma vida perdida, quando viu a porta abrir para dar passagem a Bia.

Jogou-se aos pés da amiga. Agarrada às pernas dela, aos prantos, gritou numa mea culpa arrependida:

- Perdão! Eu juro que não queria! Não sei o que deu em mim!

Bia ficou parada, absolutamente fria.

Olhou para Maura exatamente como esta havia imaginado: decepcionadíssima.

E disse:

- Tudo bem. Mas da próxima vez que você chegar bêbada em casa, como uma gata no cio, não conte comigo, nem com a minha cueca, muito menos com o meu brinquedinho.

Aquários

sábado, 28 de janeiro de 2012 5 comentários


Autor: Marina Porteclis

“Aluga-se”, era esta a mensagem estampada numa placa branca, em letras vermelhas e de fôrma, pendurada no portão baixo de madeira polida da casa vizinha, diante da qual Raquel teve dezenas de lembranças e uma premonição desagradável, ao chegar em casa, no final de uma tarde de quinta-feira.

Dentre as lembranças lhe veio a do casal de cubanos que resolveram veranear bem ali, ao seu lado, e que escutavam rumba, salsa, merengue, xangô e sabe-se lá mais o quê o dia inteiro, fazendo os ouvidos e miolos de Raquel tremerem, chacoalharem, ferverem dentro de sua cabeça que tanto necessitava de paz e silêncio. Sua audição, desde então, restou perturbada, tamanho o barulho que causaram. Às vezes, durante a noite, ela ainda acordava aturdida com o som de “ehh, makarena!”

Logo em seguida, lembrou-se dos hippies, o cara e as duas mulheres, amigos de Nayara, que viviam em trio, um “amável” trio que fumava maconha o dia inteiro, deixando as narinas de Raquel vermelhas, irritadas, entupidas daquele cheiro forte e enjoado, fazendo-a desejar que eles realmente “viajassem”, mas para o “quinto dos infernos”, de onde, provavelmente, vieram.

Depois se lembrou da família de Rottweilers que trouxe seu próprio “bichinho de estimação”, Augusto, aquele almofadinha, dono dos cachorros, que dava em cima de Raquel o tempo todo e ainda teve a capacidade de presenteá-la com fotos e fotos de tartarugas marinhas, peixes, corais e tudo o mais que viesse do mar, até uma latinha de cerveja! Fotos estas, diga-se de passagem, amadoras e mal-feitas, tiradas pelo próprio galanteador. Até hoje, Raquel lembrava delas, coladas naquele cartaz ridículo que ele lhe deu com a seguinte declaração: “Tu és muito mais bela do que todas estas fotos juntas. Aliás, és o resumo estudado de todas, minha querida bióloga marinha! Deixe-me ser o seu novo projeto de pesquisa. Não se arrependerás...Um beijo molhado de Augusto, seu Netuno.” Raquel sentia asco só de lembrar. Aquele idiota, além de poluir sua visão com aquela mensagem e imagens medonhas, tratou ainda de conturbar sua audição, já prejudicada, e seu olfato, já poluído, graças àqueles cães chatos, que latiam o tempo todo e fediam como se estivessem sempre molhados. Além de tudo, implicaram com Merlim, seu cachorro, o que a deixou ainda mais nervosa, afinal todos os cães passaram a “discutir” o dia inteiro, através do muro e em forma estridente de latidos múltiplos.

Por fim, não houve como esquecer do casal de alemães que se mudou, a princípio, definitivamente, para o seu lado e que havia morado na Bahia, anteriormente, durante dois anos. Aquela idéia cultivada por ambos, sem dúvida, não poderia ser pior: montar, como de fato fizeram, um restaurante de comida baiana, com tempero alemão e húngaro – afinal, também já tinha morado por aquelas bandas –, naquela singela casinha, ao lado da de Raquel! Mas o sufoco não terminou por ali! Na inauguração, a convidaram como “cliente especial”, para provar, em primeira mão, o vatapá com chucrute, prato principal da casa. Mesmo a contragosto, Raquel não quis ser indelicada e caiu na besteira de prestigiar os vizinhos para, por fim, prejudicar seu paladar com a pior gororoba que já havia provado na vida! Por sorte, ela não foi a única a detestar a receita e ter indigestão no dia seguinte. O restaurante não durou uma semana e o casal partiu para mais um destino, o que lhes renderia, sem dúvidas, mais um novo tempero para as próximas receitas.

Pronto! Depois das lembranças tristes que lhe afetaram os quatro sentidos, audição, olfato, visão e paladar, lhe veio a premonição: os novos vizinhos, com certeza, agrediriam seu tato. Era só o que faltava, literalmente! Esperava ela que não fosse com o primeiro aperto de mãos...

Pensando nisso, Raquel não teve como rir de seu mau-humor e exagero. Com esse sorriso, bateu os pés sujos de areia da praia no carpete, em frente à soleira de sua porta, e entrou. Dentro de seu pequeno e aconchegante mundo, a bióloga não teve como evitar o remorso que sentiu por praguejar tanto contra os vizinhos que tivera. Afinal, graças a eles, ela, naquele momento, valorizava muito mais a paz que sentia ao chegar em casa e poder deitar em sua rede, na varanda, diante daquela visão maravilhosa que tinha do mar azul, emoldurado pela areia branca e pelo verde calmo dos coqueiros. Era imenso o prazer de ficar ali, ouvindo apenas o som das ondas, às vezes, acompanhado de uma canção suave do Pink Floyd ou Led Zeppelin, tomando sua água de coco, esperando dar coragem para levantar-se e ir preparar o seu jantar, enquanto a fome era atiçada pelo balanço da rede e pelo cheiro bom da maresia, que lhe lembrava a infância e os dias de sol.

E foi exatamente isso que ela fez ao chegar em casa naquele dia. Deitou-se na rede e pôde perceber que seus sentidos não foram, deveras, prejudicados, mas, ao contrário, aguçados, preparados para reconhecerem e aproveitarem o que era realmente bom. E sua vida era boa.

Raquel, aos vinte e sete anos, fazia o que realmente gostava: era bióloga marinha e, depois de muitas economias e trabalho, havia conseguido comprar aquela casinha na qual morava, bem em frente à praia, para aliar seu trabalho de pesquisas com sua paz interna.

Sua aparência física denunciava toda a saúde e firmeza que havia adquirido ao longo daqueles vinte e sete anos de praia, literalmente. Ela era uma mulher que realmente chamava a atenção. Tinha os cabelos castanhos claros e longos, com alguns fios dourados pelo sol que tomava todas as manhãs. A pele era bronzeada, os ombros, costas, abdome e pernas, torneados, o que lhe resgatava um pouco do ar de surfista que possuía na adolescência. Os olhos claros, esverdeados, combinavam com perfeição em seu rosto de traços fortes e angulares, entre o rústico e o agressivo, entre o belo e o “diferente”. Ela era assim, sui generis, como sui generis era seu estilo de vida. Ela morava só desde os 17 anos, quando saíra de casa em virtude de discussões intermináveis com os pais, por causa de sua orientação sexual. Desde então jurara para si mesma que somente faria o que queria, fosse o que fosse, custasse o que custasse. E, diante desse lema, escolhera a profissão que mais lhe agradara, pois queria trabalhar com o mar, com a natureza, mesmo que jamais se tornasse uma pessoa rica e famosa. O que ela queria mesmo era ser feliz.

Naquele instante, deitada na rede, em sua varanda, com Merlim deitado logo abaixo, abanando seu rabo, ela pode constatar que realmente havia conseguido. Ela era feliz sim, do seu jeito, com pouco dinheiro, muito trabalho, mas, sobretudo, muita tranqüilidade, sol, praia e amigos.

Levantou-se, preparou uma salada leve, sentou-se na mesa de madeira que havia do lado esquerdo de sua varanda, em oposição à sua rede, e começou a comê-la. Já eram sete da noite e a lua despontava enorme no céu. Enquanto encarava as folhas verdes a sua frente, lembrava-se das algas marinhas que tinha que colher no dia seguinte, para sua mais recente pesquisa. Seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Nayara. Lá do portão, era sua amiga que a chamava, com suas insubstituíveis saias estilo “hipponga”, seus balangandãs pendurados no pescoço e suas pulseiras de couro e búzios chacoalhando nos pulsos, enquanto ela acenava para Raquel, chamando-a com seu sotaque carioca inconfundível:

- Ei, Quel, não tá vendo a lua não?

Raquel caminhou para abrir o portão, com Merlin já latindo e acompanhando-a, para saudar com alegria Nayara:

- Claro que tô! Ela está linda e daí?
- E daí? – Nayara deu um abraço na amiga, beijando-a com carinho no rosto – e daí, minha amiga, que tá todo mundo lá no bar, tocando violão e cantando! Tá rolando o maior luau e eu vim aqui só pra te chamar! Olha que prestígio, hein?! Vâmo?

A anfitriã puxou a visitante pela mão e as duas sentaram na varanda. Raquel na rede, Nayara na cadeira de balanço que ela tanto gostava. No segundo seguinte, já estava com os pés livres das sandálias de dedo, coçando a barriga de Merlin, que sempre se deitava escancarado a seus pés.

- Pôxa, teu cachorro tá sempre carente, Quel! Você não dá carinho nem pra ele? – disse Nayara fazendo cara de carente também.

- O que você quer dizer com isso? – Raquel perguntou sorrindo, já entendendo o recado da amiga, que tinha a capacidade de enxergá-la nitidamente, intimamente, por trás dos olhos escuros e franjados que tinha, parecidos com os de uma cigana ou feiticeira.

- Que todos nós estamos sentindo sua falta, ué! Você nunca mais apareceu! Agora só quer saber de seus sargaços e peixinhos dourados!

- Mas falta pouco, Nayara, falta pouco...logo, logo encerro esse projeto e teremos nossas manhãs de sol e banhos de mar de volta. E nossas noites de luau também, é claro...avisa ao pessoal que hoje não vai dar. Estou cansada demais!

- Eu posso te dar uma daquelas massagens orientais que eu aprendi com aquela japonesa maravilhosa, lembra? – e Nayara riu antecipadamente, sabendo da cara que Raquel faria de reprovação, também misturada com riso.

- Sei aonde a Srta. quer chegar e eu também estou cansada para isso!

- Nossa Quel, na época daquele nosso lance você tinha mais saúde, lembra!? – Nayara fechou os olhos e suspirou, tirando onda, como se lembrasse de cada detalhe – humm...era tão bom! – fez uma pausa, olhou pro rosto corado de Raquel e continuou – Bem, se cuide direito, meu amor...descanse, veja a lua e dê um pouco mais de carinho a Merlin. A rejeitada aqui vai partir...de volta ao luau! Led Zeppelin me espera... – dizendo isso, Nayara alisou os cabelos longos da amiga, deu um beijo na testa de Raquel e partiu, com sua saia varrendo suavemente a areia do caminho.

Raquel realmente se sentia cansada. Passara os últimos dias no sol, colhendo algas e dissecando-as com toda a paciência do mundo. Nem o protetor com fator 50 que usava deu resultado. Estava com as costas todas queimadas e os olhos ardendo de sono.

Por instantes, teve vontade de ir ao barzinho. Ele ficava a menos de quinhentos metros de sua casa. Era um lugar simples, mas aconchegante. Erguido com pilastras de troncos dos coqueiros e coberto com as folhas dos mesmos. O piso era a própria areia do mar e as mesas foram feitas de fibra, no formato de pranchas, multicoloridas, pintadas pela própria dona, Nayara. A luz que iluminava o ambiente, naquelas noites, era apenas a da lua e o som – a voz, as percussões, violão – vinha de Nayara, que cantava muito bem, e dos demais amigos que formavam a “Ex-galera do Mau”, nome dado por Raquel para a banda dos surfistas já veteranos, que, em outros tempos, faziam rock pesado nos “bares da vida” e hoje só queriam saber de paz e rock suave. Os pesados eram só para as noites de festa, quanto a galera se juntava para fazer barulho de verdade e impressionar os jovens que vinham de fora, diretamente da vida urbana, ou os próprios estrangeiros, que passavam o verão naquela praia. Nessas noites, Nayara relembrava com saudade dos tempos antigos e gritava como ninguém, em homenagem aos “Primeiros Berros”, sua primeira banda, enquanto os violões e percussões cediam espaço para as guitarras distorcidas de Gerônimo e Marçal e para a bateria bem batida de Fandangos. De quebra, ainda entrava uma grana para patrocinar o projeto de viagem da “Ex-galera do Mau” ao Havaí. Iriam todos juntos, como juntos sempre estavam. Raquel até prometeu ir também, mas do jeito que as coisas iam, era provável que eles conseguissem o dinheiro antes dela...foi o que ela pensou, quando desistiu de ir ao bar, optando por dormir cedo e concluir o projeto amanhã mesmo. Afinal, tempo era dinheiro, até na biologia marinha.

Depois de concluída a salada, Raquel lavou os pratos, colocou comida para Merlin e deitou-se mais um pouco na rede, com sua prancheta e anotações do dia. Era a hora de sua revisão e programação para o dia que viria. O som continuava ligado e tocava baixinho “Wish you were here”, do Pink Floyd, uma das músicas preferida de Raquel.

Ela fechou os olhos por alguns minutos e pensou na letra, que fala de duas pessoas que se desejam a distância e permanecem por anos, sem se encontrar. Uma delas propõe a outra “trocar o confortável paraíso pelo inferno”, “o céu azul pelo sofrimento”, “seus heróis por fantasmas”, enfim, a paz e a comodidade em que a outra pessoa vive por um encontro, por uma vida em comum, apesar das dificuldades, deixando de lado os zelos e receios. A parte que Raquel mais gostava tocava naquele instante e dizia que “ambos, separados, eram como duas almas perdidas, nadando em dois aquários, separados por dois vidros espessos, paralelos, anos após anos, sempre fugindo, sempre correndo” e, finalmente, “o que encontravam?” Essa é a pergunta e a resposta vem em seguida: “os mesmos velhos medos e o antigo desejo de que um estivesse ali, ao lado do outro” ... e era o que continuam desejando.

Raquel, desde a adolescência, se comovia com essa música e não sabia exatamente o porquê. Devido ao seu amor por peixes e pela liberdade, em sua ingenuidade adolescente, ela atribuiu, naquela época, a emoção que sentia ao ouvir aquela música, ao fato de imaginar o quanto deveria ser doloroso para eles – os peixes – serem afastados de seu mundo e “trancafiados” num montinho mesquinho de água, cercado de vidro por todos os lados. A ilha dos Peixes: o aquário.


Wish you were here

So, so you think you can tell Heaven from Hell,
blue skies from pain.
Can you tell a green field from a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?
And did they get you to trade your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange a walk on part in the war for a lead role in a cage?
How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year,
Running over the same old ground.
What have you found? The same old fears.
Wish you were here.  

Mas, apenas com a maturidade, ela veio a perceber que a dor que a música lhe causava não vinha da metáfora dos peixes, separados em aquários distintos, mas da sensação que ela própria sentia de solidão e de espera, “presa” que estava em seu próprio mundo, em sua própria “ilha”, em seu próprio “aquário”, cercada, não por terra, nem por vidros, mas por uma proteção especial, mais forte e densa, que ela mesma criara, para cultivar sua felicidade, para impedir que outros a magoassem, a entristecessem. E, de fato, ela conseguira. Ela era feliz, mas isto já não parecia o bastante, naqueles momentos de reflexão. De tanto se proteger, de tanto evitar a tristeza, ironicamente, ela, por vezes, se sentia só e triste. Queria compartilhar o que havia conseguido, o que havia construído, seus planos, aquela planilha à sua frente. Desejava que alguém chegasse e a libertasse, que entrasse no seu mundo e a resgatasse, a levasse para o mar aberto, que a fizesse deixar de temer as ondas, o caos, o próprio medo, só não sabia quem seria ou quando seria. Enquanto isso, ela, intimamente seguia, vivendo em seu ”aquário”, deitada em sua rede, guardada em sua casa, apenas desejando que esta pessoa estivesse ali...”whish you were here”.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 
Um Outro Olhar © 2025 | Designed by RumahDijual, in collaboration with Online Casino, Uncharted 3 and MW3 Forum