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Centro de convivência para idosos LGBT em São Paulo em projeto

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020 0 comentários

Rogério Pedro (centro) com Maria Tereza Cebalus Aguilar, 62, Ana Beatriz Ruppelt dos Santos, 64, Márcia Barros, 53, e Ângela Fontes, 67, atendidas pela ONG EternamenteSOU - Karime Xavier/Folhapress

A professora aposentada Dora Cudignola, 67, se assumiu lésbica na década de 1980, época em que, como ela conta, poucas mulheres tinham coragem de sair do armário.

Havia poucos lugares para encontros, para dançar, para beijar. Se eu pegasse na mão de uma namorada, não sabia o que poderia acontecer, diz. Se hoje há violência contra homossexuais, imagine lá atrás.

Cudignola havia acabado de se separar do marido, com quem ficou por dez anos e teve uma filha, que também veio a se assumir lésbica. Mais de três décadas depois, a professora fala abertamente sobre a sua sexualidade, inclusive nas redes sociais. A aceitação da sociedade, contudo, não teria avançado na mesma velocidade. E ela agora tem que lidar com um elemento a mais: já existe um preconceito por ser lésbica. E, de repente, aparece outro, por ser idosa.

É para acolher e criar uma rede de apoio a idosos LGBT como Cudignola e estimular atividades e a troca de experiências entre o grupo que o administrador de empresas Rogério Pedro, 29, quer criar um centro de convivência e referência para o público na região central de São Paulo.
Ele, que é presidente da ONG Eternamente SOU, focada em idosos LGBT, acaba de iniciar uma campanha de financiamento coletivo para tirar a ideia do papel e continuar os trabalhos da organização (lançada em 2017) em uma sede fixa.

A proposta é ser o primeiro centro do tipo no país, inspirada em iniciativas internacionais como a Sage, sediada em Nova York, e a Openhouse, em São Francisco.

Envelhecer já é um desafio, por falta de políticas públicas para idosos. Quando se é LGBT, o desafio vai para outro patamar, diz ele. A ideia é ter um espaço para que possam estar com os seus e ser exatamente o que sempre quiseram ser, diz.

Ou, como ele diz, para deixar de ficar no papel do tio ou da tia que vive no quarto dos fundos e fica encarregado dos cuidados de algum parente.

O preconceito, ainda que em menor grau, é visto mesmo entre pessoas mais jovens da comunidade LGBT e organizações focadas no grupo, segundo Pedro.

Bailes, eventos culturais e artísticos, assistência social, psicológica e jurídica, atendimento médico em domicílio e cursos de formação para profissionais que lidam com o público (como da Área da saúde) são algumas das atividades e trabalhos que planeja oferecer no lugar. Não tem a proposta, por ora, de ser uma instituição de longa permanência.

Nos últimos anos, a ONG realizou atividades semelhantes, como a criação de um grupo de canto coral, a realização de um café da tarde mensal para a troca de experiências entre os idosos e o lançamento do Seminário Velhices LGBT, que já teve como participante a cantora Daniela Mercury. O próximo está previsto para junho deste ano.

Cerca de 300 pessoas a partir de 50 anos já foram atendidos pela ONG desde que foi criada, segundo o presidente. O mais velho tem 87 anos. Já a equipe de voluntários conta com 72 pessoas.

O ator Celso Rabetti, 58, participou de algumas das atividades. Soube da ONG por meio de um panfleto que recebeu enquanto estava em um bar no Largo do Arouche, na região central de São Paulo, com dois amigos.

Quais são os espaços onde posso ser eu mesmo e me sentir seguro, sem medo de sofrer violência, diz. Encontrei lésbicas e gays trocando ideias. Você vê que não está sozinho e tem força para continuar.

As atividades ajudam a enfrentar duas questões que costumam afetar os idosos LGBT, a solidão e o isolamento social, que podem levar à depressão e, em Último caso, ao suicídio, diz o geriatra Milton Crenitte, que trabalha no Hospital das Clinicas da USP (Universidade de São Paulo) e escreve uma tese de doutorado sobre o grupo.

O rompimento com a família biológica, a ausência de filhos e histórico de violência ao longo da vida são alguns dos fatores que podem contribuir para o quadro, diz o médico.

O grupo também sofre com a invisibilidade, afirma o especialista, o que se reflete em poucos dados e políticas públicas voltadas para ele. Mas Crenitte vê progresso, como na Área da gerontologia. Avançou-se muito nos últimos anos em relação ao mito da velhice assexual. Não se falava da sexualidade dos idosos, diz.

Para Dora Cudignola, falta uma barreira pessoal a ser superada. Sabe o que eu tenho vontade? Andar de mãos dadas e dar beijo, como fazem os jovens de agora. Ainda tenho vergonha, diz. Quando os vejo fazendo isso, tenho vontade de dizer: isso mesmo!

Clipping ONG quer criar primeiro centro de convivência para idosos LGBT em SP, por Júlia Zaremba, FSP, 12/01/2020

Prefeita de Bogotá recém-eleita beija sua mulher na festa de comemoração

quarta-feira, 30 de outubro de 2019 0 comentários

O comitê de campanha de Claudia López, nova prefeita de Bogotá, celebra os resultados.

Lésbica, ex-senadora e ex-candidata a vice pela Aliança Verde faz história ao ser eleita prefeita da capital. Eleições locais selam um marco em Bogotá e Medellín e causam um duro golpe ao uribismo


A ex-senadora Claudia López, da Aliança Verde, fez história neste domingo ao ser eleita a primeira prefeita de Bogotá, capital da Colômbia. A prefeita eleita denunciou em meados da última década o conluio entre política, narcotráfico e paramilitares, provavelmente é a representante pública que mais recentemente defendeu a luta contra a corrupção, e agora saiu vitoriosa das urnas ao derrotar Carlos Fernando Galán, filho do candidato presidencial assassinado em 1989. Ex-senadora, assumidamente lésbica, forte defensora do processo de paz com as FARC, López ocupará o segundo lugar em relevância política em um país conservador e principalmente católico. A vitória de Claudia López e os resultados, de modo geral, das eleições locais colombianas confirmaram um duro golpe ao uribismo.

Daniel Quintero, candidato independente, foi eleito com ampla vantagem em Medellín, a segunda cidade da Colômbia. Foi uma das surpresas das eleições locais do país que hoje renovou os governos de mais de 1.100 prefeituras e os 32 departamentos, pela primeira vez em paz. A vitória de Quintero tem uma leitura que vai além do gabinete do prefeito, porque representa uma dura derrota para o Centro Democrático, na terra do ex-presidente Álvaro Uribe. O partido do Governo, que há um ano e meio recorreu ao atual presidente Iván Duque, também não governa o departamento de Antioquia, um dos bastiões do uribismo. "Perdemos, reconheço a derrota com humildade. A luta pela democracia não tem fim", disse o ex-presidente quando soube dos resultados.

Claudia Lopéz beija sua mulher na celebração da vitória nas eleições em Bogotá

O partido nascido do ex-guerrilheiro, a Força Alternativa Revolucionária do Comum, tem uma aceitação social quase nula, mas o ex-combatente Julián Conrado, conhecido como "o cantor das FARC", conquistou a prefeitura de Turbaco, em Bolívar, município de cerca de 70.000 habitantes perto de Cartagena das Índias. As eleições também são as primeiras a serem realizados após a assinatura dos acordos entre o Estado e o grupo insurgente. Isso não significa que a campanha não tenha sido abalada pela violência, que se tornou um fenômeno contra candidatos, representantes de partidos e líderes sociais. Houve "230 registros entre ameaças, homicídios e sequestros", lembra Ariel Ávila, vice-diretor da Fundação de Paz e Reconciliação.
Os primeiros resultados confirmam, em geral, a erosão das formações e lideranças nacionais em favor de plataformas locais, coalizões e famílias políticas locais, como no caso de Barranquilla. Essa luta entre poder nacional e local marcará, em qualquer caso, o primeiro passo na corrida para as eleições presidenciais de 2022. Duque, que chegou à presidência graças ao impulso de Uribe e à alta polarização com seu oponente, o senador Gustavo Petro, garantiu várias vezes e continua afirmando que não pretende revalidar a posição.

19 de agosto: há 38 anos, o GALF realizava a primeira manifestação lésbica contra a discriminação no Brasil

segunda-feira, 19 de agosto de 2019 1 comentários

Míriam Martinho e Rosely Roth barradas na porta do Ferro's Bar

Míriam Martinho

No dia 19 de agosto de 1983, em São Paulo, as ativistas do Grupo Ação Lésbica Feminista – GALF (1981-03/1990) – ver resumo do histórico da organização abaixo - fizeram uma demonstração de protesto em frente ao antológico bar da noite paulistana, o Ferro’s Bar, contra os abusos dos donos do estabelecimento que as impediam de vender seu boletim ChanacomChana, dirigido às lésbicas, num espaço sustentado por lésbicas. Com apoio de ativistas gays, feministas e parlamentares do período, as ativistas do GALF conseguiram entrar no bar que lhes estava vetado e obter a promessa de seus donos de que não seriam mais impedidas de vender seu trabalho naquele famoso recinto, como todos os demais ambulantes, artistas e toda a fauna alternativa do período costumavam fazer. Primeira demonstração do gênero no Brasil, foi chamada por publicações homossexuais da época de nosso “pequeno Stonewall Inn”, em referência à revolta de gays, lésbicas e travestis contra a repressão policial em Nova Iorque (28 de junho de 1969) que daria origem ao Dia Internacional do Orgulho Gay.



Em 2003, o 19 de agosto foi lançado publicamente, pelos grupos Rede de Informação Um Outro Olhar e Associação da Parada LGBT de São Paulo, como Dia do Orgulho das Lésbicas no Brasil com novamente grande repercussão na imprensa, como quando da sua realização. Também, em 19/6/2008, os deputados que integravam a Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa paulista aprovaram o Projeto de Lei 496/2007, do deputado Carlos Giannazi (PSOL), que instituiu o Dia do Orgulho Lésbico no Estado de São Paulo. Para mais informações sobre o 19 de agosto, acesse “19 de Agosto: Primeira Manifestação lesbiana contra a discriminação no Brasil.

Para lembrar um pouco o ambiente do Ferro’s Bar, segue vídeo filmado em dependências do estabelecimento, com música de Gisele Fink e Míriam Martinho, parodiando as relações explosivas dos casais de lésbicas do famoso point.


Fanchitude de Fancha (letra original)
(Gisele Fink/Míriam Martinho)

Brigou comigo
saiu aos berros lá do Ferro’s
chamando a atenção do fancharéu.

Bebeu comigo e meio tonta
deixou a conta na qual bem pronta
eu dei o chapéu.

Saí do boteco atordoada
atrás da descarada
e desmaiei no elevador.

Quando acordei
nem sabia onde estava
pois aquela madrugada
foi demais pra minha dor.

Alucinada entrei no apartamento
e naquele momento a pomba gira me tomou.

Peguei a fancha na garganta dei-lhe um tapa
arranquei-lhe a gravata e a coisa toda começou.

Veio o passado das torturas recordando,
a cabeça esquentando resolvi me separar.

Mas quando olhei pros seus olhos de janela – escancarados -
eu lembrei que depois dela outra fancha vou achar.

Fancha por fancha fico mesmo na esperança
de que um dia esta mude e eu possa só cantar.
Fancha por fancha fico mesmo na esperança
por tão pouco é impossível essa vida abandonar.

Ver também: 

Memória lesbiana: o dia do orgulho lésbico já havia sido pensado em 2000 para homenagear Rosely Roth
Memória Lesbiana: um Raio-X dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar e suas digitalizações
19 de Agosto: Primeira Manifestação lesbiana contra a discriminação no Brasil
Agosto com orgulho: Repercussão do 19 de agosto na Imprensa


Grupo Ação Lésbica Feminista – GALF (17/10/1981- 03/1990): Vanguarda e Resistência

Integrantes do GALF que participaram do 19 de Agosto: Célia Miliauskas, Elisete Ribeiro  Neres, Luiza Granado,
 Míriam Martinho, Rosely Roth e Vanda Frias. Na foto acima: Maria Rita  (ao lado de Rosely) não participou.   
Na foto abaixo: Liete (à direita, sentada, não participou).


Fundação

O Grupo Ação Lésbica Feminista foi fundado, em 17 de outubro de 1981, por duas remanescentes do Grupo Lésbico Feminista (LF), Míriam Martinho e Rosely Roth, mais quatro de suas colaboradoras, que queriam manter um grupo especificamente lésbico, em vez de entrar em algum armário feminista ou qualquer outro. Após tentativas frustradas de reunir ex-integrantes do LF e outras feministas homossexuais em torno ao menos da elaboração da segunda edição do tabloide ChanacomChana ( ed. 02/1981), Míriam e Rosely decidiram seguir adiante com outras pessoas e nova configuração. 

Para o burlar o preconceito da sociedade conservadora de então e o preconceito internalizado das próprias lésbicas, fora evitar problemas com o cartório, as ativistas do GALF adotaram a mesma estratégia criada pelo Grupo Somos, estatutariamente um clube cultural, e registraram seu grupo como um grupo feminista, preservando a sigla “GALF”. O objetivo do estatuto era pragmaticamente atender as necessidades de abrir conta em banco, uma caixa postal, receber dinheiro via vale postal e outras formalidades. O grupo ficaria incomunicável, entre as lésbicas da época, se usasse a palavra lésbica para esses trâmites institucionais.

Publicações: boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar

Foram bem poucas, no entanto, as concessões que o GALF faria à ferrenha heteronormatividade da década de 80. Pelo contrário, o grupo vai se caracterizar como pioneiro da visibilidade lésbica, num período em que inclusive o movimento feminista pregava um armário acolchoado para as lésbicas que o compunham. O mantra era “a necessidade política de se dissolver a identidade lésbica em uma identidade feminista mais geral.” A vivência lésbica devia ser encarada apenas como uma particularidade da vida de algumas mulheres e vivida exclusivamente como opção ou preferência sexual. Politização somente para as vivências heterossexuais.

ChanacomChana n. 12

As ativistas do GALF nunca compraram essa falácia e tinham clareza da importância de as lésbicas politizarem a própria vivência, pois que não faltavam questões específicas a trabalhar e direitos a reivindicar. Assim retomam, entre outras atividades, a publicação do título Chanacomchana, agora em formato de boletim, em dezembro de 1982. Confeccionado e editado por Míriam Martinho como fanzine, a partir de colagens e textos datilografados, o CCC vai reunir produções das integrantes do GALF, sobretudo nos seus três primeiros anos, e posteriormente, com a maior divulgação do grupo, de colaboradoras de todo o país. Foram 12 edições até 1987, abordando questões especificamente lésbicas e da mulher em geral, quando o CCC cede lugar ao título Um Outro Olhar, outro boletim que o GALF publicará até fevereiro de 1990, no total de 10 edições*. Com tiragem média de 500 exemplares, o CCC era rodado em gráficas de universidades e da Câmara Municipal de SP pela cota de parlamentares solidários, como a vereadora Irede Cardoso (então PT), de saudosa memória. Os boletins Um Outro Olhar foram em boa parte xerografados e vendidos fundamentalmente para as associadas do GALF.

Boletim Um Outro Olhar n. 1

*Formalmente, o GALF encerra as portas em março de 1990 com a publicação do número 10 do boletim Um Outro Olhar (fevereiro/abril). Uma de suas últimas atividades foi gestar a Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar, desde os dois últimos meses de 1989, anunciada para abril de 1990 no próprio boletim citado (p. 4).

O Outra Coisa e o GALF em sua sede (maio de 1983) - Acervo Um Outro Olhar

Organização de eventos e participação em encontros e campanhas nacionais do MHB

Na área de militância, a partir de meados de 1982, o GALF começou a dividir sede com o Grupo Outra Coisa de Ação Homossexualista, grupo gay oriundo do racha do Somos, com quem terá uma fecunda parceira até o início de 1984. Em seu espaço comum, conjunta ou separadamente, os dois grupos organizaram reuniões com grupos feministas, candidatos de vários partidos (reivindicando o fim do parágrafo 302.0, que considerava a homossexualidade desvio mental, a custódia dos filhos de casais homossexuais, o fim da repressão policial), mostras de arte como o “Viva a Homossexualidade” e a celebração dos 4 anos do movimento homossexual, além de encontros com intelectuais como Félix Guattari, entre outros. O Outra Coisa também participou ativamente da invasão do Ferro’s Bar, em apoio ao GALF, em particular na pessoa de seu maior articulador, Antonio Carlos Tosta (fundador do Somos, do Outra Coisa, do Movimento Homossexual Autônomo).
O GALF também participou de vários encontros do Movimento Feminista, como, por exemplo, os 8° Encontro Nacional feminista – Petrópolis (7-10/08/1986) e 9° Encontro Nacional feminista - Garanhuns (PE), em 1987, sempre organizando alguma oficina ou debate sobre a questão lésbica nesses eventos, apesar do clima nem sempre acolhedor.

Um evento não tão visível, mas marcante, se deu, em abril de 1982, no Sindicato dos Jornalistas, quando as ativistas do GALF entraram com máscaras em um debate do grupo SOS Mulher, cujo slogan era "o silêncio é cúmplice da violência" e tratava da violência contra a mulher, menos da violência contra as lésbicas, e distribuíram o seguinte folheto, de autoria de Míriam Martinho:


Sobre violência

Estamos aqui para expor a nossa opressão. Olhem para nossos rostos e verão máscaras.
Estamos aqui para mostrar como temos que viver diariamente: temos que viver assim, com máscaras.
Temos que viver mascaradas, nas casas de nossos pais, para não perdermos relações afetivas que nos são caras.
Temos que viver mascaradas nas escolas, para não sermos ridicularizadas, humilhadas, agredidas e, até mesmo, impedidas de conseguir um nível mínimo de educação.
Temos que estar aqui, mascaradas, porque não podemos denunciar nossa opressão sem máscaras, porque corremos o risco de perder nossas famílias, nossos empregos, nosso direito de estudar sem qualquer tipo de pressão.
A sociedade nos impõe a esquizofrenia como estilo de vida e nos deixa num beco sem saída na medida que, praticamente, impossibilita a própria denúncia desta situação.
Precisamos romper esse círculo vicioso.
Queremos tirar a máscara antes que ela nos cole à face e não possamos mais nos distinguir dela. Queremos que cada mulher tire sua máscara.
Queremos propor que o movimento feminista seja um espaço onde as mulheres homossexuais não precisem utilizar nenhum tipo de máscara.
Queremos propor que o movimento feminista não reproduza o discurso politiqueiro machista das lutas gerais contra as lutas específicas e que todas as questões referentes a todas as mulheres sejam igualmente prioritárias.
Igualmente prioritárias mesmo porque a mulher homossexual também é negra, a mulher homossexual também é dona-de-casa, a mulher homossexual também é prostituta, a mulher homossexual também é operária, a mulher homossexual também está na periferia e calar a respeito dessas múltiplas opressões também nos torna cúmplices da violência"
.

Igualmente participou das duas principais campanhas do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB) da década de 80: 
A campanha contra o código 320 da CID, seguido pelo INAMPS no Brasil, que considerava a homossexualidade uma doença mental. Em São Paulo, em 1982, o GALF reivindicou o fim do código junto ao então governador Franco Montoro. Em 1983, articulou-se com as deputada e vereadora Ruth Escobar e Irede Cardoso para promover a exclusão do código do INAMPS e fez palestra na Associação Paulista de Medicina com o mesmo objetivo. Em setembro de 1984, o GALF conseguiu inclusive passar trechos de um texto sobre saúde lésbica, que também propunha a exclusão do código, num documento feminista apresentado durante I Congresso Brasileiro de Proteção Materno-Infantil no Senado Federal.
Em 9 de fevereiro de 1985, o Conselho Federal de Medicina atendeu a reivindicação do MHB retirando a aplicação no Brasil do código 302.0 da classificação internacional de doenças que definia a homossexualidade como desvio e transtorno sexual. A homossexualidade passa a ser enquadrada como outras circunstâncias psicossociais ao lado do desemprego, desajustamento social e tensões psicológicas que podem levar alguém ao consultório médico.
A campanha pela inserção, no inciso IV do artigo 3º na de 1988 (artigo 153 da Constituição de 1969), da frase “contra a discriminação por preferência ou orientação sexual” conjuntamente com os grupos Triângulo Rosa e Grupo Gay da Bahia. Ainda que a campanha não tenha obtido êxito, valeu pela visibilidade dada à questão homossexual na política institucional, sobretudo pela participação do protagonista da ação, João Antônio Mascarenhas (Triângulo Rosa/RJ), em subcomissões da Assembleia Nacional Constituinte (abril/1987). 
Participação em encontros internacionais
Míriam Martinho (ao centro de azul) na 8ª Conferência do ILIS em Genebra (03/1986)

O GALF participou de dois encontros feministas latino-americanos e do Caribe, como sempre levando a questão lésbica para os debates desses eventos. No III Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, realizado em Bertioga em agosto de 1985, o GALF realizou com outro GALF (o Grupo de Autoconsciencia de Lesbianas Feministas – Peru, Lima), uma reunião extraoficial que reuniu várias lésbicas presentes no encontro a fim de discutir a então complicada relação das lésbicas com o movimento feminista regional. Participou também do IV Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe em outubro de 1987 na cidade de Taxco, México.
Míriam Martinho em manifestação do IV Encontro Feminista
Latino-americano e do Caribe (México, 10/1987) -Acervo Um Outro Olhar

Os encontros internacionais mais significativos dos quais o GALF participou, contudo, foram os referentes à articulação do movimento de lésbicas internacional em pleno florescimento naquele período. Em abril de 1980, foi criado durante conferência da IGA (Associação Gay Internacional), o Serviço Internacional de Informação Lésbica (ILIS, em inglês), tornado independente em abril do ano seguinte em Turim, na Itália. Encaminhado por grupos europeus, de forma rotativa, a começar por Amsterdam, o ILIS vai ter papel fundamental na ampliação e fortalecimento dos grupos lésbicos em todo o mundo, particularmente em países em desenvolvimento. O GALF contou com o apoio financeiro e logístico do ILIS para participar de sua oitava conferência, em Genebra, na Suíça, de onde surgiram as redes latino-americana e asiática de lésbicas, e do I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe, na cidade de Cuernavaca, Morelos, no México, em outubro de 1987. Após 18 anos de serviços prestados à organização lésbica mundial, o ILIS publica seu último boletim em 1998.

Linha do tempo da trajetória do ILIS

GALF - Vanguarda e Resistência

Finalizando, neste breve resumo da trajetória do GALF, cujo extenso inventário de produções e atividades será objeto de outro resgate, vale salientar o papel de vanguarda e resistência representado pela organização durante seus oito anos de existência. De resistência por ter sido o único grupo de lésbicas a permanecer ativo durante toda a década de oitenta, num contexto adverso fosse pela carência de recursos, fosse pela desarticulação do Movimento Homossexual fosse pela hostilidade do movimento feminista do período à politização da questão lésbica em seu meio.

De vanguarda porque manteve, a duras penas, a temática lésbica presente não só nos movimentos em que atuou, como – principalmente – na conservadora e heterossexista sociedade brasileira de sua época. Seja pela produção do sugestivo título ChanacomChana, seja pelas atividades públicas que desenvolveu, como a manifestação do Ferro’s Bar e as participações de Rosely Roth na grande mídia, em particular em dois programas da Hebe Camargo, o GALF foi a grande referência dos anos oitenta não só para o ativismo do gênero como para a população lésbica da época.

Rosely Roth (à direita) entrevistando Cassandra Rios
 e Irede Cardoso no Ferro's Bar

Mesmo as reflexões presentes nos escritos da organização se caracterizaram pelo vanguardismo, inclusive porque ironicamente derivadas das situações adversas que o grupo experimentou durante sua trajetória. Com a intensa retração do Movimento Homossexual, a partir de 1984, e a hostilidade quanto à visibilidade lésbica que o GALF insistia em cobrar no Movimento Feminista, o grupo ficou praticamente sem interlocutores no Brasil. Findo o chamado ciclo libertário do MHB (1978-1983), pródigo em debates sobre as diferentes facetas da questão e da identidade homossexual, sobreveio a perspectiva estritamente reformista e legalista dos grupos GGB e Triângulo Rosa que não dava espaço para maiores discussões.

Do lado feminista, prevaleceu, como já dito, a ideia de uma suposta necessidade de dissolução da identidade lésbica em uma identidade feminista mais geral, tratando a lesbianidade como uma questão de ordem privada, embora o movimento pregasse que “o privado era político”. Sobrou para o GALF então, a interlocução com os grupos lésbicos do exterior, de várias correntes, em particular com as teóricas lésbicas-feministas e separatistas daquele período, antecipando discussões  que só veríamos chegar expressivamente ao Brasil muitas décadas depois.

Por último, ao contrário das inúmeras fabulações a respeito da entidade, o GALF não subsistiu durante toda a década de 80, apesar de supostamente ter seguido um padrão de grupos lésbicos formados por casais que, ao se romper, terminavam ou fragilizavam suas organizações. O Grupo Lésbico-Feminista, que precede o GALF, não foi fundado por um casal nem terminou com o fim dele. Esse coletivo teve várias fundadoras e simplesmente se dispersou após dois anos. E o Grupo Ação Lésbica Feminista também não foi fundado por um casal nem terminou por causa dele, ainda que, ao longo de sua trajetória, tenha formado casais.

O GALF terminou em função do esgotamento de seu ciclo de ativismo junto ao Movimento Feminista. Ficou claro para suas integrantes o quanto era contraproducente levar as lésbicas para o feminismo e, ao mesmo tempo incentivá-las a sair do armário, quando o próprio Movimento Feminista impunha a despolitização das vivências lésbicas empurrando-as para o terreno do privado, da chamada “opção sexual”. Nada incomum, no período de existência do GALF e até na década de noventa, encontrar grupos feministas formados majoritariamente por lésbicas, mas exclusivamente referentes às chamadas questões de gênero, ou seja, questões voltadas para a resolução dos problemas das mulheres heterossexuais em seus relacionamentos com homens. Não havia mais porque manter um grupo lésbico-feminista nesse contexto.

A Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar, como vimos. gestada pelo próprio GALF em seus últimos meses de existência, buscará um outro caminho a percorrer pelos direitos das lésbicas, renomeando, em setembro de 1993, o ainda então Movimento Homossexual Brasileiro de movimento de gays e lésbicas. To be continued....

_______________________

*Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes. 

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a 8ª Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Cuernavaca, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

Ativista lésbica francesa foi responsável por desassociar a palavra lésbica de conteúdo pornô na busca do Google

sexta-feira, 16 de agosto de 2019 0 comentários

Fanchon Mayaudon-Nehlig iniciou a discussão sobre como o algoritmo do Google selecionava
 conteúdos de busca sobre lésbicas.

Em julho deste ano, a francesa Fanchon Mayaudon-Nehlig, consultora de comunicação, recebeu uma ligação: “ei, você viu que a palavra ‘ lesbienne’ [lésbica, em francês] não é mais associada a resultados pornográficos no Google?”.

Três meses antes, a criadora do grupo ativista SEO Lesbianne havia iniciado uma campanha para que o algoritmo de busca da ferramenta fosse corrigido e parasse de apresentar conteúdos de pornografia ligados ao termo.
O mais engraçado é que, no momento em que recebi a ligação, eu estava no trabalho: o firewall que meu cliente usa em seu escritório proíbe que eu digite a palavra ‘lesbienne’, como se fosse um palavrão. Eu tive que sair do meu local de trabalho para verificar a informação e eu não acreditei em meus olhos”, disse em entrevista ao HuffPost Brasil.
Nossa primeira ação foi fazer com que as pessoas percebessem que havia um problema, um erro com os resultados sobre a palavra específica “lesbienne”. Fanchon Mayaudon-Nehlig, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Pela primeira vez em sua vida, ela pode digitar a palavra francesa “lesbienne” e não havia nenhuma pornografia nos resultados. O Google anunciou na última sexta-feira (9) que consertou o algoritmo com a intenção de fornecer resultados mais precisos e de qualidade para este tipo de consulta.

A mudança já está em vigor, mas ainda em fase inicial e termos relacionados ou buscas em línguas diferentes ainda podem apresentar os conteúdos antigos que apareciam nas buscas. Mas Fanchon acredita que após esse passo é questão apenas de um pouco de tempo para que a realidade seja modificada.
A SEO Lesbienne incentiva todas as lésbicas a mostrarem suas vidas diárias e produzirem muitos conteúdos associados à palavra ‘lésbica’ na internet em seu próprio idioma”, disse.
Abaixo entrevista do HuffPost com Fanchon sobre a iniciativa, os motivos de ocorrer por tantos anos a associação da palavra lésbica a conteúdos sexuais e a importância da mudança. 

HuffPost: Fale um pouco sobre a história e atuação da SEO Lesbienne e de como começou a campanha em relação à mudança do algoritmo de busca desse termo. 

Fanchon Mayaudon-Nehlig: O SEO lesbienne é agora um grupo ativista lésbico francês, não somos pagos e nao dependemos de nenhuma outra organização. Eu criei pela primeira vez a hashtag #SEOlesbienne no Twitter em abril de 2019, depois que minha esposa, Louise, me fez perceber que eu não estava confortável em usar a palavra “lesbienne” em público. Neste momento na França, algumas mídias tradicionais estavam começando a falar sobre lésbicas, e as próprias lésbicas estavam tentando alertar sobre o quanto somos sexualizadas, especialmente na internet.

Por acaso, o #SEOlesbienne teve a oportunidade de ser ouvido e o assunto foi coberto pela imprensa francesa (graças à mídia tecnológica Numerama e à jornalista Marie Turcan), mas há anos lésbicas e ativistas são alertados sobre esse assunto. Nós não tínhamos a menor ideia de que o Google mudaria alguma coisa sobre seu algoritmo, mas estávamos dispostas a tentar, e éramos apenas duas pessoas no SEO Lesbienne: eu e minha esposa. Sou consultora de comunicação e minha esposa é designer.

Tínhamos a intuição de que poderia funcionar se pudéssemos trazer especialistas em SEO conosco, por isso organizamos uma reunião de desafio: “vamos hackear o SEO da palavra lesbienne”: desde esse encontro fundador, SEO Lesbienne é um misto de especialistas em SEO e lésbicas.

Nossa primeira ação foi fazer com que as pessoas percebessem que havia um problema, um erro com os resultados sobre a palavra específica “lesbienne” nos resultados das páginas do Google. No momento, a SERP (página de resultados do mecanismo de pesquisa) mostrava apenas conteúdo pornográfico, como é possível ver na imagem abaixo.


Como você se sentiu quando recebeu a informação de que o algoritmo de busca tinha sido modificado?

Em primeiro lugar, o resultado foi inesperado! Sabíamos que o Google France poderia mudar o algoritmo, pois havia um precedente com a palavra “chatte” no Google relacionada a vaginas e não gatinhos como esperado, o que expunha crianças à sexualidade, por isso estávamos prestes a iniciar uma petição para fazer o Google France reagir sobre a palavra “lesbienne” sendo associada exclusivamente com pornografia.

Nós queríamos informá-los sobre como isso afeta os mais jovens da comunidade, quando no dia 18 de julho recebemos uma ligação da mídia francesa LGBT Têtu: eles nos disseram “ei, você viu que a palavra ’ lesbienne’não é mais associada a resultados pornográficos no Google?”.

O mais engraçado é que, no momento em que recebi a ligação, eu estava no trabalho: o firewall que meu cliente usa em seu escritório proíbe que eu digite a palavra “lesbienne”, como se fosse uma palavrão! Eu tive que sair do meu local de trabalho para verificar a informação e eu não acreditei em meus olhos. Essa foi literalmente a primeira vez da minha vida em que eu pude digitar a palavra francesa “lesbienne” e não havia nenhuma pornografia nos resultados!

Nós sabíamos que não estávamos lutando apenas por nós, era tarde demais para nós, tivemos que lidar com essa situação durante muitos anos, mas poderíamos impactar as meninas mais novas que se perguntam sobre sua orientação romântica. Lembrei-me de como fiquei surpresa com os resultados que descobri como uma adolescente digitando discretamente no Google “lesbienne”. Eu não queria ser atriz pornô, mas o Google parecia acreditar nessa única opção para mim!

Por que o termo “lésbica” ainda era associado exclusivamente a conteúdos sexuais enquanto outras palavras da comunidade LGBTQ isso não acontecia?

Alguns ativistas LGBTQ franceses nem sabiam que a palavra “lesbienne” era exclusivamente associada a conteúdo pornográfico no Google, enquanto a palavra “gay” não era. Quando perceberam essa injustiça, ficaram surpresos! 

A questão é que, como mulheres, a internet inteira não é o que podemos chamar de “lugar seguro”, e o ponto de vista expresso no algoritmo do Google pode ter algumas ligações sexistas. Por exemplo, é muito difícil para uma mulher contribuir na Wikipédia, e páginas relacionadas a mulheres famosas são frequentemente descartadas. Tivemos literalmente que lutar para mudar a imagem da página francesa “lesbianisme” com uma imagem histórica da poeta Safo em vez de uma imagem sexualizada.

Outra explicação talvez seja encontrada na pornografia em si. Pornografia gay é comercializada para homens gays: você tem que mudar a página ou mesmo o site para acessar pornografia gay. Considerando que não há pornografia “lésbica”, “lésbicas” é uma tag em sites pornográficos comercializados para homens heterossexuais. Na internet, admitem-se lésbicas para satisfazer o prazer de adultos do sexo masculino, e somente com esse objetivo.

Qual foi e qual pode ser o impacto dessa mudança para a comunidade lésbica?

O impacto dessa mudança no algoritmo do Google é enorme, e ainda não sabemos o tamanho! Acreditamos que o Google pode nos ajudar a tornar a palavra “lésbica” em todos os idiomas mais respeitada e, por consequência, todas as lésbicas podem ser tratadas da maneira que merecemos.

Também queremos que as pessoas estejam cientes de que o Google nem sempre reflete a realidade, e nós, como cidadãos, podemos nos reunir e fazer com que o SEO mude para o melhor. A palavra “lesbienne” não pertence à indústria pornográfica: ela pertence a nós, e estamos satisfeitas pelo fato de o Google ter nos dado a oportunidade de possuí-la e criá-la.

Após essa conquista, na sua opinião, quais são os próximos passos que a comunidade LGBT pode dar em relação a busca por visibilidade e igualdade sexual?

Homens gays e outros devem incentivar mais mulheres a falar, porque não é fácil ser abertamente lésbica em espaços públicos e na internet: nós nos expomos à misoginia e à lesbofobia. Desde o início de SEO Lesbienne, recebi insultos em minhas redes sociais, e sei que é um risco ter meu nome completo e rosto expostos em mídias em todo o mundo, mas sinto que tenho que fazer isso por outros que simplesmente não podem falar.

Gays, lésbicas e outras minorias não têm liberdade para viajar em alguns países onde suas próprias vidas são colocadas em risco. Não podemos viver nossas vidas sem nos preocuparmos com a comunidade em outros países. A história recente provou como as leis e os governos afetam nossas vidas para melhor e para o pior também. As mídias sociais são uma oportunidade para as lésbicas de todo o mundo se reunirem e mostrarem que nós existimos e importamos! 

Localmente falando, em alguns meses, o parlamento francês debaterá sobre a abertura da procriação medicamente assistida para lésbicas (conhecida como PMA na França), acompanharemos a evolução da palavra “lesbienne” no Google durante este período de tensão.

A SEO Lesbienne incentiva todas as lésbicas a mostrarem suas vidas diárias e produzirem muitos conteúdos associados à palavra “lésbica” na internet em seu próprio idioma.

Clipping "Palavra lésbica ‘pertence a nós’, diz criadora de campanha para corrigir algoritmo do Google", por Ana Ignacio, 12/08/2019

Em subúrbio carioca, Gisela Queiroz mantém espaço seguro para lésbicas

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019 0 comentários

"O Resiliência é para a gente ter um espaço que consiga falar sobre tudo
que não falam lá fora, ou que falam de uma outra forma."

Gisela Queiroz, a dona do espaço seguro para lésbicas no subúrbio carioca

Demitida após episódios de assédio moral, terapeuta ocupacional transformou garagem da casa em espaço cultural prioritário para mulheres. “O que eu vendo é segurança: um lugar de escuta, troca e segurança."

Quem chegar no número 52 da rua Galvani, em pleno subúrbio carioca, vai encontrar uma casa de cor laranja, com uma árvore grande na entrada e, já de fora, vai observar livros, quadros e mais plantas na garagem. É ali que mora Gisela Queiroz, de 54 anos, mas isso já é secundário: há três anos, o endereço abriga também o Resiliência Espaço Cultural e Atelier. O lugar é um bar, um sebo, um espaço para rodas de conversa e, principalmente, abrigo para escutas e afetos para as lésbicas da cidade do Rio de Janeiro. Gisela, "sapatão desde sempre", tem seu público definido mas não barra ninguém, exceto os idiotas, como ela mesmo define.

A ideia de criar o Resiliência não veio acompanhada de calmaria, pelo contrário. Terapeuta ocupacional por formação, Gisela se viu desempregada após enfrentar uma série de episódios de assédio moral no seu local de trabalho, há quatro anos. Observara pequenas sabotagens no exercício da profissão. Alocada inicialmente na Barra da Tijuca, zona oeste, pediu transferência para Irajá, zona norte e mais perto da sua casa, para fugir da rotina estressante e discriminatória. Ali, encontrou uma chefe que a respeitava, e "só a via profissionalmente". Foi bom enquanto durou: com a saída dessa profissional, entretanto, teve de lidar com mais boicotes e desqualificações, de acordo com seu depoimento ao HuffPost Brasil.

Entrou outra pessoa, extremamente insegura, que foi indicada para a chefia sem experiência e recém formada. A pessoa mais experiente para lidar com idosos era eu, e eu não fui indicada para a chefia. Mas eu nem estava preocupada com isso. Só que ela chegou se sentindo ameaçada, pela minha idade e pela minha experiência. Na cabeça dela, quis inventar algo para me desqualificar. Eu sou sapatão desde sempre na minha vida, mas isso não interessa no meu local de trabalho", afirma Gisela. Ela também acrescenta que ser negra, gorda, e usar dreads nos cabelos há 20 anos são características que podem contribuir para sua estereotipação enquanto profissional.

Por conta dessa experiência, Gisela deu entrada em uma emergência psiquiátrica, depois buscou auxílio no programa Rio sem Homofobia, mantido pela prefeitura da capital fluminense e criado para prestar assistência às vítimas do preconceito. Lá, foi atendida por um psicólogo que a encaminhou para a área jurídica. A chefe de Gisela foi denunciada no Conselho Regional de Enfermagem, mas "não deu em nada" além da demissão da própria Gisela. Hoje, ela afirma que desenvolveu Síndrome do Pânico e tenta se reerguer.

Na época da demissão, com o fim do valor recebido com a rescisão contratual, Gisela se viu cansada de procurar empregos em vão. Àquela altura, amigos já ocupavam a garagem da rua Galvani 52 para fazer churrascos, conversar e beber cerveja. Por que não unir o útil ao agradável e criar uma nova fonte de renda?
"Fui desenhando a história, pensei primeiro em um lugar para pessoas LGBT que estivessem envelhecendo, porque a gente não tem lugar quando começa a envelhecer, um lugar seguro. Mas as pessoas que têm a mesma idade que eu não entenderam a proposta, não se interessavam. Então eu repensei e conheci alguns coletivos lésbicos aqui da cidade, que adoraram o lugar no primeiro momento, mas como era coisa de militância pintaram outros interesses e resolveram fazer seus eventos em outros locais", afirma.
Para Gisela, a localização do Resiliência impede que seja um local mais fixo para a militância LGBT:
 "Eu estou no subúrbio, e aqui não tem mídia. Se aqui fosse uma casa de samba, talvez, mas não é o caso. O que dá mídia para a militância LGBT é centro ou zona sul".
Hoje, o bar se aperfeiçoou no seu objetivo e é tocado por uma lésbica para acolher o público com segurança. Do meio LGBT, menos militantes, mas sempre pessoas politizadas. Não sem restrições.
O público é restrito: a gente não quer saber de gente idiota. Não tem condição, porque aqui é a nossa casa. Não aceitamos esse discurso confuso que está aí fora, de que estamos segregando. A gente não está fazendo isso. Só que aqui é um lugar prioritariamente de mulher. Alguém tem que pensar em sapatão, nem que seja eu. Já que ninguém consegue pensar num espaço, ou num discurso somente para sapatão, ao menos uma pessoa no Rio de Janeiro pensa", afirma a empresária.
Casada, ela equilibra as contas da casa e sonha com o dia
em que o bar será uma fonte fixa de renda.
De riso fácil e hospitalidade admirável, Gisela mantém um Resiliência aconchegante. E ela reforça: ali não é só um bar.

A ideia de um bar misto com lugar cultural é justamente para eu não rasgar totalmente meu diploma, porque foi um investimento", explica. Junto com uma amiga psicóloga, ela trabalha bastante a questão da saúde mental com as frequentadoras, com grupos de apoios para lésbicas e encontros para discutir temas tangentes à vivência feminina.
O Resiliência é para a gente ter um espaço que consiga falar sobre tudo que não falam lá fora, ou que falam de uma outra forma."
Com o crescimento de episódios de homofobia, lesbofobia e violência contra minorias sociais nos últimos dias, Gisela não esconde o medo do que pode ser do seu empreendimento no futuro.
Eu temo o momento político atual, inclusive profissionalmente. Esse bairro aqui [Vila da Penha] é extremamente conservador. Se eu estivesse no centro da cidade seria outro mundo. No subúrbio é pior: a sensação que dá é que estamos sozinhos se acontecer alguma coisa", confessa a dona do bar.
Mesmo com a resistência de manter um espaço dito subversivo numa vizinhança conservadora há três anos, Gisela ainda não consegue viver exclusivamente com o lucro do bar. Casada com Lúcia, ela equilibra as contas da casa e sonha com o dia em que o bar será uma fonte fixa de renda. O diferencial do espaço, ela acredita, é a segurança.
Quem sai de casa para se aborrecer não vai encontrar isso aqui. Aqui realmente é para ficar tranquilo. O que eu vendo é segurança. Um lugar de escuta, troca e segurança", explica.
Questionada se o substantivo que nomeia o espaço vira um adjetivo na sua personalidade, ela desvia: não sabe se pode afirmar-se uma pessoa totalmente resiliente. O processo rumo a essa conquista, entretanto, iniciou antes do bar e não acaba com ele, ainda que temerosa com a conjuntura social.
No momento atual, não sei se vou sobreviver, porque o Resiliência não é só um bar. Não sei se vou dar outra volta por cima. Alguns amigos falam que agora não tem volta, que as mulheres vão precisar de espaços seguros", analisa. E se depender do carinho e do cuidado de Gisela com cada detalhe do espaço, a casa de cor laranja na rua silenciosa sempre será um lugar para mulheres estarem.
Fonte:  Huffpost Brasil, por Lola Ferreira (texto), Andréa Martinelli (edição), Valda Nogueira (fotos). Figurino: C&A; Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC. 19/10/2018


Memória Lesbiana: IX EBGLT, organizado por lésbicas, foi embrião das Paradas do Orgulho LGBT no Brasil

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019 0 comentários

Manifestação ao final do IX EBGLT foi a primeira passeata exclusivamente homossexual
da cidade de São Paulo e embrião da I Parada do Orgulho GLT

40 anos de organização lésbica no Brasil:
IX EBGLT, organizado por lésbicas, foi embrião das Paradas do Orgulho LGBt no Brasil


Míriam Martinho*

2019 é o ano da Copa Feminina de Futebol na França, esporte praticado por muitas lésbicas e apreciado por muitas delas também. Marca igualmente os 40 anos do início da organização lésbica no Brasil, a partir do surgimento do Grupo Lésbico Feminista (LF) em maio de 1979. Para celebrar essas quatro décadas de ativismo, relembraremos, durante este ano, os grupos e eventos organizados por lésbicas que determinaram inclusive os rumos do movimento pelos direitos de gays e lésbicas em nosso país.

Assim sendo, começamos por relembrar o IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, realizado há 22 anos, do dia 20 ao dia 26 de fevereiro de 1997, no Hotel San Raphael, centro da cidade de São Paulo, pela Rede de Informação Um Outro Olhar, entidade da capital paulistana composta só por lésbicas. Foi o segundo encontro nacional encabeçado pela organização, tendo sido o primeiro o VII Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais, ocorrido em 1993, em Cajamar, cidade do interior paulista.

O IX EBGLT foi acompanhado do II Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis que Trabalham com AIDS e financiado pela Coordenação de DST/AIDS do Ministério da Saúde, com aporte ainda da Secretaria de Saúde de São Paulo. Participaram dos eventos 338 pessoas, sendo 53% homens, 42% mulheres, 4% travestis e 1% transexuais. Ambos os encontros foram compostos de mesas, painéis, grupos de discussão, oficinas e atividades artísticas, com a participação de políticos, como Marta Suplicy, acadêmicos (que apresentaram suas pesquisas sobre a temática LGBT), representantes de ONG e do governo na área de prevenção à DST/AIDS, militantes das organizações de lésbicas, gays e travestis do Brasil da época e artistas que se voluntariaram para apresentar performances teatrais e espetáculos de dança e música.

Políticas e Politicagens

Do ponto de vista político, como descrevi na avaliação dos encontros em pauta, eles tiveram duas caras: uma solar, dos que tinham ido simplesmente ouvir os palestrantes, apresentar suas oficinas  e participar dos grupos de discussão e atividades em geral, e, outra, sombria, de alguns militantes do período que foram aos eventos  para tumultuá-los, movidos por irresponsabilidade, inconsequência e pelas picuinhas de poder que costumeiramente ocorrem entre integrantes de movimentos sociais. De qualquer forma, seu intento foi fracassado, e os eventos transcorreram independentemente de suas ações. Muitos participantes dos encontros, panelistas, oficinistas, sequer ficaram sabendo das ações circenses dos militantes revoltosos. Outros, como o escritor João Silvério Trevisan, que deu palestra sobre o histórico do movimento então GLT no IX EBGLT, tiraram da cartola muitos coelhos fabulosos. Trevisan declarou o seguinte em seu livro Devassos no Paraíso:
No entanto, o movimento homossexual correu o risco e em muitos casos resultou demasiadamente atrelado à luta contra a Aids, restringindo sua ótica e seu espaço. O resultado mais palpável, e, para dizer o mínimo constrangedor, pôde ser constatado no IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, em 1997, quando militantes rivais chegaram às vias de fato, indo acabar na polícia, dentro de um clima de conspiração e competição generalizado, que só fizera piorar com o passar dos anos. Estavam em disputa, nem mais nem menos, as minguadas mas fundamentais verbas dos Ministério da Saúde. (Devassos no Paraíso, p. 370, Rio de Janeiro: Record, 2000)
Passeata de encerramento do IX Encontro

Embora tenha havido de fato muita baixaria verbal dos rebeldes sem causa nos bastidores do IX EBGLT e do II EBGLT-AIDS, não há registro de que alguém tenha chegado às vias de fato, ou seja, brigado fisicamente, e ido parar na delegacia. E as disputas não foram pelas minguadas verbas do Ministério da Saúde, que não estavam em pauta nos eventos nem são passíveis de disputa em encontros, mas por picuinhas de poder dos que queriam ter protagonismo indevido no IX EBGLT, passando por cima do previamente acordado, e retaliaram a comissão organizadora por não lhes dar ouvidos  e espaço. Fora um bocado de sexismo contra a comissão organizadora que era fundamentalmente lésbica. O efeito imediato mais negativo das ações irresponsáveis desses ativistas foi o cancelamento, por parte do hotel, de um encontro de travestis que já havia sido agendado no local.

A passeata do dia 26 de fevereiro que foi embrião da I Parada do Orgulho GLT


De qualquer forma, a Rede de Informação Um Outro Olhar carregou os dois encontros nas costas, garantindo sua realização, apesar dos pesares, e ainda registrou o grupo Corsa como um dos organizadores do evento, embora sua contribuição tenha sido mínima e contraditória. No mais, possibilitou, junto ao DSV paulistano, a realização da passeata de gays, lésbicas e travestis que encerrou os eventos, no dia 26 de fevereiro,  e foi o embrião da primeira parada do orgulho GLT que viria a ser organizada naquele mesmo ano meses depois. Segundo uma das participantes da passeata, enquanto carregava a faixa de sua organização, ela já pensava em repetir a manifestação por ocasião do dia 28 de junho, o que de fato levou a cabo com outros grupos que também participaram do IX Encontro. Na tese "Sopa de Letrinhas - Movimento Homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90:  um estudo a partir da cidade de São Paulo", de Regina Facchini, lê-se à página 99:
Os IX EBGLT e II EBGLT-Aids foram encerrados com uma passeata pelas ruas do centro da cidade. o que já havia ocorrido em outros encontros, inclusive na 17ª Conferência Internacional da ILGA (Rio de Janeiro, 1995). Essa passeata foi referida, por alguns entrevistados para este trabalho, como uma experiência marcante, que influenciou definitivamente a ideia da organização de eventos de rua por ocasião do Dia Internacional do Orgulho Gay.
Assim se, no primeiro evento nacional que organizou, a Um Outro Olhar conseguiu mudar o nome do encontro e do movimento, então só homossexual, para de Gays e Lésbicas, iniciando o movimento LGBT no Brasil, no segundo, gerou o embrião das Paradas do Orgulho LGBT ao propiciar a primeira passeata específica de gays, lésbicas e travestis da cidade São Paulo.

Vale salientar que, em 13 de junho de 1980, ocorreu uma manifestação pública contra as prisões arbitrárias de prostitutas, travestis, negros, gays e lésbicas, movidas pelo delegado Wilson Richetti em sua chamada “operação limpeza”. O evento consta como a primeira participação de ativistas lésbicas e gays numa manifestação pública, mas não se tratava de uma passeata especificamente homossexual. Foi uma manifestação que uniu o movimento negro, o movimento feminista, e o incipiente movimento homossexual daquele tempo, fora entidades estudantis, num protesto “contra a violência policial, o desemprego, a discriminação racial e sexual, e pelo direito de ir e vir” (do documento da manifestação, intitulado Carta Aberta à População).

Assim sendo, até prova em contrário, a passeata ocorrida ao término do IX Encontro Nacional de Gays, Lésbicas e Travestis, no dia 26 de fevereiro de 1997, foi a primeira manifestação de rua especificamente homossexual de São Paulo. Em agosto de 1983, o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) organizou a primeira manifestação pública exclusivamente lésbica (e homossexual) ao invadir o Ferro’s Bar, para poder vender seu boletim no recinto, mas o evento ficou circunscrito ao estabelecimento, apesar de ter tido grande repercussão na mídia.

 No relatório do encontro, assim descrevi a manifestação:


Para mais informações, acessem o relatório dos encontros clicando aqui.

*A Rede Um Outro Olhar participou das Paradas do Orgulho LGBT em São Paulo, a pé ou com trios elétricos de 2000 a 2009.
** Houve outras manifestações de rua especificamente LG, no final de janeiro de 1995, em Curitiba, pelo encerramento do VIII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas e, no final de junho do mesmo ano, por ocasião da 17 Conferência Internacional da ILGA no Rio de Janeiro. Esta última foi chamada de Marcha pela Cidadania de Gays e Lésbicas.  A passeata pós IX EBGLT foi embrião da primeira parada do orgulho LGBT, então intitulada “Parada do Orgulho GLT” ocorrida em São Paulo, em junho de 1997, e que posteriormente veio a se multiplicar pelo Brasil.

Concentração a passeata do IX Encontro em frente ao Teatro Municipal

* Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes.

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a IX Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Taxco, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

MEC tira combate à homofobia dos critérios para avaliação de livros

segunda-feira, 28 de maio de 2018 0 comentários

MEC afirma que novo material deve ser 'livre de estereótipos ou preconceitos' - shutterstock.com/PanyaStudio

MEC tira combate à homofobia dos critérios para avaliação de livros

BRASÍLIA — O último edital do Programa Nacional de Livros e Materiais Didáticos (PNLD), publicado em março, deixou de conter referência explícita ao combate à homofobia e à transfobia na relação de critérios que deverão ser considerados na seleção das obras. De acordo com o novo texto, basta que a produção esteja "livre de estereótipos ou preconceitos" no que diz respeito a alguns temas — entre eles, orientação sexual e gênero.

O último edital do Programa Nacional de Livros e Materiais Didáticos (PNLD), publicado em março, deixou de conter referência explícita ao combate à homofobia e à transfobia na relação de critérios que deverão ser considerados na seleção das obras. De acordo com o novo texto, basta que a produção esteja “livre de estereótipos ou preconceitos” no que diz respeito a alguns temas — entre eles, orientação sexual e gênero. 

Os editais do PNLD são publicados periodicamente pelo Ministério da Educação, com o objetivo de selecionar os livros que chegarão às escolas públicas e demais instituições conveniadas de ensino infantil, fundamental e médio. Trata-se de um dos principais programas da pasta e que consome em média pouco mais de R$ 1 bilhão por ano. 

Em geral, as convocatórias do programa são publicadas com dois anos de antecedência. Assim, os materiais didáticos selecionados pelo edital deste ano deverão chegar às salas de aula em 2020. As três últimas edições do PNLD traziam o combate à homofobia e à transfobia no rol de critérios que deveriam balizar a avaliação dos livros.
O edital de 2018 do PNDL traz, destacado em negrito, o requisito de que os livros didáticos precisam abordar o combate à homo e transfobia (Foto: Reprodução)

Segundo o MEC, o respeito à diversidade e à pluralidade de grupos sociais continua contemplado pela nova redação do edital. “Apesar da modificação textual, por se tratar de um programa que foi reformulado, manteve-se a exigência clara de que a obra esteja livre de estereótipos ou preconceitos […] de gênero, de orientação sexual”, informou a pasta.



Já no edital de 2019, o termo “combate” some do texto. O documento se limita a pedir tratamento igualitário, mas não requer mais que os livros incentivem a luta contra a homo e a transfobia. Isso também se percebe no edital já preparado de 2020 (Foto: Reprodução)

O Ministério destaca que a supressão dos termos foi baseada em determinação do Conselho Nacional de Educação (CNE). Em abril do ano passado, o órgão retirou as expressões “identidade de gênero” e “orientação sexual” da Base Nacional Comum Curricular. “Assim, o MEC aguarda a publicação das normatizações do CNE sobre orientações sexual e identidade de gênero para poder complementar os critérios eliminatórios comuns disposto no edital 1/2018 (PNLD 2020), a fim de deixar mais claro todo e qualquer tipo de estereótipo e preconceito”, conclui a pasta.

Repercussão

A secretária de Educação da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Adriana Sales, defende que, ao alterar a redação do edital, o Ministério da Educação patrocina a invisibilidade desses grupos:
 Os conceitos de homo e transfobia entraram nos editais depois de muita discussão nos Grupos de Trabalho. É um retrocesso que reflete a atual conjuntura do MEC.
Já para o diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI e integrante do Fórum Nacional da Educação, Toni Reis, a nova redação não gera grandes impactos:
O importante é que trate da questão da orientação sexual e de gênero. Isso é fundamental. Nós precisamos que os livros didáticos tratem deste assunto.
Ele lembra dados da última Pesquisa Nacional sobre Estudantes LGBT e o Ambiente Escolar. O levantamento mostra que 73% dos jovens LGBT entre 13 e 21 anos já foram agredidos verbalmente por causa de sua orientação sexual, e 27% chegaram a sofrer violência física por isso.

A nova redação do edital do PNLD foi apenas uma das mudanças no programa, que foi sofreu reformulações por meio de um decreto presidencial publicado em julho do ano passado. A principal modificação foi a retirada das universidades públicas da dinâmica de avaliação dos livros didáticos, que passou a ser feita por comissões técnicas.

Para aumentar o controle sobre o processo, a escolha da composição dos grupos de avaliadores cabe agora ao ministro da Educação e é feita a partir de nomes indicados por organizações ligadas à área.

Fonte: Globo, por Luma Poletti, 11/05/2018

Criado projeto de visibilidade de gays e lésbicas no futebol brasileiro

quarta-feira, 4 de abril de 2018 0 comentários

Foto: O Mineirão presta homenagem ao dia do Orgulho LGBT. Crédito: Divulgação/Mineirão

Projeto reúne depoimentos de torcedores LGBT sobre a paixão pelo clube e pelo futebol

O futebol é uma paixão nacional. Qualquer pessoa, independentemente de religião, orientação sexual ou gênero, pode gostar e frequentar estádios sem se sentir oprimida. Foi justamente por isso que o jornalista William de Lucca, 32, resolveu denunciar em suas redes sociais os gritos de “bicha” de palmeirenses destinados ao time do São Paulo.

Reprodução/Logo do projeto criado por William de Lucca
para dar representatividade a torcedores arco-íris.
Ativista de causas LGBT há anos, ele chamou atenção ao denunciar os cantos e gritos que envolvem ofensas à sexualidade dentro do próprio estádio. A repercussão foi grande. Na postagem os comentários em apoio e os que propagam ódio e ameaças se misturam. Em entrevista exclusiva ao Torcedores.com, ele dá detalhes sobre o acontecimento.
Disseram que eu não poderia mais frequentar o estádio e me ameaçaram de agressão e até de morte”, conta William.
A partir do apoio e identificação de outros torcedores LGBT, ele criou o projeto ‘Eu sou, eu torço’, que divulga depoimentos sobre o amor ao clube e ao futebol.
Muita gente me mandou mensagem compartilhando suas histórias e eu achei que era legal ter uma plataforma para abrigar esses relatos”, afirma. “A ideia é dar visibilidade para gays e lésbicas no futebol, para que as pessoas saibam que eles existem e que precisam ser respeitados, já que nós só temos respeito quando não tocamos no assunto, quando fingimos que não existimos”, reflete.
O é um projeto de apaixonados por futebol que sentem orgulho de times e de suas orientações sexuais/identidades de gênero.

É um projeto para visibilizar os torcedores LGBT+ em ambientes de futebol e lutar contra a homofobia tradicional destes espaços! ❤️⚽️🌈

Hospedado na plataforma Medium, a conta do projeto já tem oito relatos publicados. O único responsável pelas postagens, por enquanto, é William, mas toda colaboração é bem-vinda.

Quem quiser enviar um depoimento deve escrever para o e-mail eusoueutorço@gmail.com, com um texto em primeira pessoa, falando sobre seu amor pelo clube ou contando alguma história que tenha marcado essa relação. É preciso informar nome, idade, onde mora, profissão, identidade de gênero e orientação sexual, além de mandar fotos com a camisa do clube de coração”, explica.
Fonte: Torcedores, 03/04/2018

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