Grande Imprensa
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A iluminadora Neusa Maria de Jesus
e a economista Luiza Granado, coordenadoras de ONGs que defendem
os direitos das lésbicas.
Marlene
Bergamo/Folha Imagem |
ONGs lançam "dia
do orgulho lésbico" em SP
AURELIANO BIANCARELLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Pesquisa mostra que 60% das homossexuais não se assumem quando vão
ao ginecologista por temer discriminação
Cerca
de 60% das lésbicas não revelam ao seu ginecologista sua orientação
sexual. São tratadas por seus médicos como mulheres que fazem sexo
com homens, porque essa é a regra estabelecida. Os médicos perguntam
sobre contraceptivos, sugerem preservativos ou pílulas, e as
mulheres fazem de conta que concordam.
Esconder a "orientação" sexual tem seus motivos. Cerca de 60% das
mulheres que revelaram ser lésbicas dizem que sofreram algum tipo de
discriminação. Uma entrevistada afirmou que a médica pediu a
presença de sua enfermeira, com medo de ser assediada. Vários
médicos sugeriram que a paciente procurasse ajuda de um psiquiatra,
outros se "interessaram" em saber como era a relação com suas
parceiras.
Esse quadro de preconceito e desinformação médica aparece em
pesquisa feita com 150 mulheres de 17 a 57 anos pela Rede de
Informação Um Outro Olhar, ONG que tem uma publicação própria, com o
mesmo nome. As entrevistadas eram leitoras da revista. Do grupo de
mulheres ouvidas, 32% são mães e 23% fizeram pelo menos um aborto. A
primeira pesquisa foi concluída três anos atrás. Uma mais ampla está
em andamento.
O cenário revelado nessa pesquisa é uma das razões para o
lançamento, nesta quarta-feira, dia 11, do Dia Nacional do Orgulho
Lésbico. A data será comemorada no dia 19 de agosto, dia em que, 20
anos atrás, o Grupo de Ação Lésbica Feminista (Galf) invadiu o
Ferros Bar. O local era o ponto de encontro das lésbicas de São
Paulo, mas os proprietários decidiram proibir a venda ali do boletim
da associação, o "ChanacomChana". A invasão do bar, que contou com o
apoio de políticos e advogados, marcou uma espécie de "revolução"
lésbica, que está sendo retomada agora.
"Assumir a identidade de lésbica é difícil na família, no trabalho,
na igreja. É difícil também quando se trata de saúde", diz a
economista Luiza Granado, 42, coordenadora da Rede de Informação Um
Outro Olhar. Uma das líderes do movimento disse que não revela sua
orientação sexual aos médicos com medo de que eles não cuidarão de
sua saúde.
Não deveria ser assim. Pelos cálculos que elas mesmas fazem, 10%
das mulheres são lésbicas ou bissexuais. Na região metropolitana de
São Paulo, há 15 milhões de habitantes. Considerando-se que as
mulheres são metade da população, seriam 750 mil mulheres fazendo
parte desse grupo.
Em São Paulo, os grupos organizados não chegam a cinco. Na Parada
Gay deste ano, que acontece no próximo dia 22, quando desfilarão 30
carros alegóricos, apenas três são de lésbicas. No ano passado,
motociclistas do grupo Mulheres que Amam Mulheres abriram a parada.
"O primeiro grupo de mulheres desfilou há três anos, numa picape.
Agora já somos três trios elétricos, mas ainda é quase nada", diz
Luiza Granado.
A iluminadora de teatro Neusa Maria de Jesus, 45, da Coordenadoria
Especial de Lésbicas (CEL), da Associação da Parada GLBT (Gays,
Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), diz que a criação de um dia do
"orgulho lésbico" é uma identificação para as mulheres. "Nós
queríamos um dia específico para nós", afirma. Luiza Granado diz que
a nova data será incluída no calendário de eventos da cidade.
Um Outro Olhar,
tel. 0/xx/11/3735-1035, Associação da Parada Gay de São Paulo, tel.
0/xx/11/3362-2361
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Data de
comemoração
foi inspirada em protesto
DA REPORTAGEM LOCAL
O Ferro's Bar, na região central da cidade, permaneceu por décadas
como ponto de referência para a comunidade lésbica, quando os
proprietários do bar não permitiam a venda no seu interior de uma
publicação lésbica da época.
Em um dos incidentes, a bar chegou a chamar a polícia. Como reação,
integrantes do Galf convocaram políticos, militantes homossexuais e
invadiram o local. O ato foi acompanhado pela mídia.
Os fatos aconteceram em 19 de agosto de 1983 e a data agora, 20 anos
depois, está se transformando no Dia Nacional do Orgulho Lésbico.
Na época, o jornal "Lampião da Esquina", considerada a primeira
publicação homossexual do Brasil, chamou a invasão do Ferros Bar de
"nosso pequeno Stonewall Inn", referência à resistência da
comunidade homossexual americana à repressão policial. A data, 28 de
junho, transformou-se no Dia do Orgulho LGBT, hoje comemorado em
todo o mundo.
Luiza Granado disse que a semana do "19 de agosto" será comemorada
por um ciclo de palestras e uma série de atividades em São Paulo e
outras cidades.
Folha de S. Paulo - 25.06.03
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Bar das lésbicas entra
na história
GILBERTO DIMENSTEIN
Colunista da Folha
Na geografia da marginalidade paulistana, há um lugar reservado para
o Ferro's Bar, bar do centro da cidade que, durante muito tempo, foi
o principal ponto de encontro das lésbicas. Não raro, mulheres
movidas a ciúmes e álcool produziam, naquele ambiente enfumaçado e
de comida duvidosa, madrugadas memoráveis de pancadaria. De manhã,
porém, tudo deveria estar arrumado para receber a clientela
familiar. Até que viesse a noite e as mulheres ocupassem, com seus
olhares caçadores, as mesas.
Encravado numa região de cantinas italianas freqüentadas por
artistas e boêmios, o bar desapareceu, mas está prestes a virar
história. Depois de participarem da organização da Parada Gay,
realizada no domingo passado, movimentos de defesa de lésbicas
preparam seu próprio dia de orgulho, que será comemorado no próximo
19 de agosto. "Há questões específicas, que devem ser discutidas",
diz Miriam Martinho, coordenadora do grupo Um Outro Olhar.
O marco é a resistência no Ferro's Bar, onde, em 19 de agosto de
1983, foi lançado um manifesto pelos direitos das lésbicas. Dias
antes do manifesto, o dono do estabelecimento chamou a polícia e
proibiu as mulheres de vender ali uma publicação chamada "ChanacomChana",
considerada um atentado aos bons costumes. "A proibição era um
absurdo. Éramos, afinal, as principais clientes", comenta Miriam.
Desafiaram a proibição, forçaram a entrada e leram, em meio a
aplausos e assovios, o manifesto. O ambiente, recorda-se Miriam,
estava tenso. Muita gente tinha pavor de ser identificada, havia
imprensa registrando o protesto. Desde aquele dia, o Ferro's ganhou
uma clientela lésbica mais intelectualizada e politizada. E mais
rica. Mas não resistiu.
Embora permaneça a discriminação, os tempos mudaram para os
homossexuais da cidade de São Paulo, como mostraram os números da
passeata de domingo. Excesso de bebidas, uso demasiado de drogas e
prática de sexo inseguro, comportamentos tão louvados no passado
pela marginalidade, são hoje condenados pelos padrões do
politicamente correto. A entidade Um Outro Olhar, coordenada por
Miriam, é um exemplo: sua missão é cuidar da saúde das lésbicas, a
maioria delas, segundo descobriram, nem sequer fala com os médicos
sobre suas preferências sexuais.
O Ferro's, onde agora funciona o bar Xingu, ganhou concorrência de
lugares nos bairros de elite, com uma cozinha mais confiável e
garçons respeitosos, acompanhando o movimento de abandono do centro
-eram tempos em que apenas um bar atendia à clientela de mulheres
homossexuais e, se alguém dissesse que 800 mil pessoas iriam a uma
parada gay na aristocrática av. Paulista, seria tido por maluco.
E-mail -
gdimen@uol.com.br

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Intolerância
religiosa - Revista da Folha
[por Vange Leonel]
22.jun.1633 Galileu Galilei, temendo morrer, ajoelha-se perante
um tribunal eclesiástico e renega suas convicções para escapar da
morte. Seu pecado foi ter afirmado que a Terra se movia em torno do
Sol e não o contrário, como pregava a Igreja. Galileu foi condenado
somente à prisão domiciliar.
31.out.1992 O papa João Paulo 2º encerra os trabalhos da
comissão que admite o erro cometido por seus antecessores e
reabilita Galileu.
24.ago.1572
O rei Carlos 2º, da França, com a anuência do papa Gregório 13,
inicia a matança de protestantes (os huguenotes). Cerca de 70 mil
"hereges" são mortos. A perseguição aos seguidores de outras
religiões já estava se tornando praxe: um século antes, Tomás de
Torquemada, que dirigia o Tribunal de Inquisição da Espanha, havia
condenado 10.220 judeus à fogueira e outros 100 mil à prisão e ao
exílio, confiscando seus bens.
13.mar.2000 No documento "Purificação da Memória", João Paulo 2º
pede perdão a Deus e aos homens "pelo uso da violência que alguns
cometeram a serviço da verdade e pelas atitudes de desconfiança e
hostilidade assumidas contra os seguidores de outras religiões".
Deixa claro, porém, que o erro não foi cometido pela Igreja, mas
pelos filhos que a integravam.
30.mai.1431 Joana D'Arc é condenada por um tribunal
eclesiástico e queimada na fogueira como apóstata, herege e bruxa.
16.mai.1920 Joana D'Arc é santificada pelo papa Benedito 15.
31.jul.2003 O papa João Paulo 2º lança uma campanha mundial
contra a legalização das uniões homossexuais.
Eu me pergunto: já que a campanha foi lançada por alguns de seus
filhos, quanto tempo vai demorar para a Igreja pedir perdão por mais
esta perseguição?
Dia 19 de agosto é o Dia Nacional do Orgulho Lésbico, marcando
20 anos de nosso "Stonewall", quando um grupo de lésbicas foi
retirado de um bar, à força, pela polícia.
e-mail:
vangeleonel@uol.com.br

FOLHA DE SÃO PAULO
19/08/03
COTIDIANO
SAÚDE
Ministério pode adotar atendimento diferenciado para as mulheres
lésbicas
O Dia Nacional do Orgulho Lésbico, comemorado hoje pela primeira vez
no país, começa com uma perspectiva importante: o Ministério da
Saúde está acenando com uma política pública de atendimento
diferenciado para a mulher lésbica.
"Assim como há atenção para homem e mulher, a lésbica precisa de
cuidado diferenciado", diz Luiza Granado, 42, da Rede de Informação
Um Outro Olhar.
Segundo uma pesquisa da ONG, 60% das lésbicas disseram não revelar
aos ginecologistas sua orientação sexual. Um número igualmente
grande delas também não informava sua prática sexual ao terapeuta.
O Dia Nacional do Orgulho Lésbico começa hoje com a história do
movimento, um sarau literário e a benção da Wicca, deusa que dá
força à mulher.
No dia 23, às 16h, haverá a oficina Um Toque de Orgulho, estratégias
de auto-aceitação, com a psicóloga Graciela Barbero. No dia 30, às
19h30, um debate com as especialistas Sílvia Pimentel, sobre
direitos na união lésbica, a teóloga Yury Puello e Iza Paula
Hamouche, do Ministério da Saúde. Os eventos serão na Ação
Educativa, r. Gen. Jardim, 660, centro de São Paulo.
O dia 19 lembra a data, 20 anos atrás, em que o Grupo de Ação
Lésbica Feminista invadiu o Ferros Bar em protesto pela proibição da
venda, no local, do boletim da associação. (AURELIANO BIANCARELLI,
DA REPORTAGEM LOCAL)
PEQUENA IMPRENSA (FEMINISTA E LGBT)
Boletim das Católicas pelo Direito de Decidir - 24/06/03 -
http://www.catolicasonline.org.br/
Mulheres
que amam mulheres participam da Parada
O que mais emocionou Luiza Granado, coordenadora da Rede de
Informação Um Outro Olhar, foi olhar para baixo do trio elétrico e
ver os policiais militares fazendo a escolta dos carros, entre as
Avenidas do Estado (local onde ficam estacionados os trios
elétricos) e Paulista (início de percurso da Parada Gay). “Eles não
nos prendem mais como há 20 anos, agora nos protegem”, afirma Luiza.
A coordenadora da ONG lésbica, que atua na capital paulista, se
referia ao dia 19 de agosto de 1983 quando policiais e pessoas do
movimento lésbico entraram em confronto no Ferro’s Bar, local de
encontro GLS no centro de São Paulo.
“As coisas mudaram nesse tempo, nós fomos à luta”, afirma Luiza.
Quase 20 anos depois, as mulheres que amam mulheres estavam lá na
Avenida Paulista na Parada do Orgulho Gay participando de uma festa
juntamente com quase um milhão de pessoas.
Mas, o movimento lésbico ainda é tímido, ele contou apenas com
apenas três dos 21 trios. De acordo com Luiza, as mulheres ainda são
muito escondidas, tímidas. “Elas tem medo do preconceito, medo da
imprensa.”
Para reverter esse quadro, a coordenadora destaca a importância de
Instituições e ONGs lésbicas, que promovem seminários, palestras
para conscientizar as pessoas a respeito do tema. “Precisamos
discutir, saber quem somos nós”.
Em 19 de agosto será comemorado o “dia do orgulho lésbico” e a Rede
Um Outro Olhar vai promover uma série de atividades na cidade de São
Paulo.
Mais informações pelo telefone 11 3735 1035 ou e-mail
uoo@umoutroolhar.com.br
Entrevista - Site Resolvido GLBT
O orgulho lésbico
comemorado dia a dia
06/10/2003 Este é o principal recado com que a ativista Míriam
Martinho, encerrou entrevista concedida ao Resolvido, na qual
destacou a importância dos eventos homossexuais que, este ano,
tomaram as agendas, não só da própria comunidade GLBT brasileira,
como da mídia nacional. Referência obrigatória quando o tema são as
lutas pelos direitos homossexuais no Brasil, a tradutora e editora
da revista Um Outro Olhar coleciona atuações no movimento
lésbicodesde 1979, quando integrou o pioneiro grupo homossexual
SOMOS-SP.
De lá para cá, Míriam Martinho fundou três organizações de mulheres
homossexuais nas décadas de 70,80 e 90 - o Grupo Lésbico-Feminista,
a Ação Lésbica-Feminista e a atual Rede de Informação Um Outro Olhar
- organizou eventos nacionais sobre o tema e representou o Brasil em
encontros e paradas na Europa e América Latina. Nesta entrevista ao
Resolvido, ela ressaltou a crescente visibilidade que as questões
sobre a homossexualidade das mulheres vêm adquirindo nos dias
atuais, mas alertou para a necessidade de "canalizar melhor as
reinvidicações" pelos direitos lésbicos. Leia a íntegra abaixo:
Resolvido - Agosto deste ano, foi o mês escolhido para celebrar o
Orgulho Lésbico. Em sua avaliação, os objetivos destas comemorações
foram alcançados?
Miriam Martinho - O dia 19 de agosto - Dia Nacional do Orgulho
Lésbico colocou as lésbicas na pauta da grande, da média e da
pequena imprensa (incluindo a mídia LGBT). Nunca se teve tanta
visibilidade. As comemorações que incluíram o próprio dia 19, o dia
23 e o dia 30 de agosto foram bem sucedidas, embora modestas, porque
tivemos apenas um mês para organizar tudo. Houve um consenso entre
quem organizou e quem participou sobre a importância de eventos como
esse. Foi um marco político, inclusive trazendo a reboque uma outra
data de celebração lésbica que mofava no calendário do descaso há
sete anos.
Resolvido - Em junho o movimento GLBT ganhou muita visibilidade no
Brasil, com a Parada do Orgulho Gay, onde aparentemente os
homossexuais masculinos eram maioria. Como anda em sua avaliação o
movimento ativista voltado às mulheres homossexuais?
Miriam Martinho - Bom, a Parada não é um evento da militância LGBT e
sim um evento da população LGBT. A maioria das pessoas que vai a
esse evento não é ativista, mas se sente atraída por ele. Muita
gente diz que a Parada é apenas um Carnaval fora de hora, mas eu não
vejo assim. É uma das maiores manifestações populares que temos e,
apesar do caráter festivo, tem um aspecto político sim que precisa
apenas ser melhor canalizado para as reivindicações dos direitos
homossexuais. Para as mulheres, têm sido particularmente positiva,
pois permite os primeiros passos na arte de assumir-se sem maiores
traumas. Aliás, a presença feminina tem sido cada vez maior.
Resolvido - Estes eventos colaboram de fato para eliminar
discriminação no dia a dia dos homossexuais? Existe, mesmo entre a
comunidade GLBT, quem questione ou classifique tais acontecimentos
como oba-oba para a mídia - no cotidiano quem participa dos eventos
volta pra dentro do armário e continua enfrentando dificuldades. O
que voce diria sobre esta visão?
Miriam Martinho - Bom, o Dia Internacional do Orgulho LGBT, o dia 28
de junho, e o Dia Nacional do Orgulho Lésbico, o dia 19 de agosto,
aparentados em essência, por seu caráter de luta contra o
preconceito e sua repercussão na mídia, têm um poder simbólico que
vai além das páginas dos jornais. Na verdade, a mídia funciona como
multiplicadora dessas histórias de luta que são importantes como
alento,inclusive no embate cotidiano que as mulheres lésbicas têm
que travar contra o preconceito e a discriminação. Estamos na era da
informação: considerar a visibilidade dos eventos comemorativos LGBT
como simples oba-oba é cegueira política. Agora, evidentemente, são
as mulheres que têm que ir à luta, sob a inspiração desses eventos.
Eles sozinhos não vão produzir milagres.
Resolvido - Quais são hoje os principais pontos na batalha pelo fim
da discriminação das lésbicas brasileiras?
Miriam Martinho - Interessa às lésbicas tanto as reivindicações de
igualdade de direitos entre os sexos, entre homens e mulheres,
quanto as reivindicações de igualdade entre héteros e homossexuais
(união estável, adoção e custódia de crianças, pensões, direito à
inseminação artificial). De bem específico, poderíamos citar as
questões relativas à saúde lésbica, onde há a necessidade de um
treinamento dos agentes de saúde (médicos, enfermeiras,
hospitais...) para um atendimento minimamente satisfatório dessa
população.
Resolvido - Como está a interação entre o movimento lésbico e o
movimento feminista por conquistas para as mulheres em geral?
Miriam Martinho - O Movimento Feminista continua existindo sim, em
todo o mundo, apenas se tornou mais institucionalizado, mais formal.
Sua relação com a questão lésbica sempre foi espinhosa e mesmo
contraditória, mas hoje em dia está bem melhor. Hoje o Movimento
Feminista politiza a questão lésbica publicamente, tem dado mais
espaço para as lésbicas em suas plataformas e publicações, mas ainda
há bastante o que fazer.
Resolvido - Lesbianismo abordado em novelas das oito; Vaticano
condenando homossexualidade; Estados Unidos (onde homossexuais
obtiveram suas maiores conquistas) governado por conservadores. Um
passo à frente, outro para trás? É isso mesmo?
Miriam Martinho - Quanto maior a visibilidade da questão homossexual
na imprensa, quanto maiores os avanços dos direitos homossexuais em
geral, mais os setores conservadores se sentem alarmados e partem
para ofensivas mais pesadas. O documento do Vaticano é um exemplo
disso, mas é bom lembrar que nem mesmo na própria Igreja Católica
ele é consensual. Muitos católicos o consideram um absurdo. Então,
creio que essa guerra de valores vai continuar e pode mesmo se
acirrar, porém, mesmo com revezes, com idas e vindas, acredito que
devem continuar ocorrendo vitórias pelos direitos LGBT. Gostaria de
dizer a suas leitoras e seus leitores que nós agora temos um dia
específico para comemorar o nosso orgulho, que é o dia 19 de agosto,
mas que todos os dias são dias para se sentir orgulho de ser quem se
é, de amar outra mulher.

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MUITO ALÉM DE CLARAS E RAFAELAS
Oi Gente,
Hoje é 19 de agosto, DIA NACIONAL DO ORGULHO LÉSBICO.
Não dava pra deixar passar essa data em branco.
O dia, aqui na Serra, tá meio frio, mas o céu está lindo, há sol e
eu vi Marte imperando na madrugada. Será que tudo isso é pra
comemorar o dia de hoje?
Não sei, pode ser. Mas, estou fazendo a minha comemoração de forma
especial: envio pras meninas do meu catálogo essa foto que tem muito
a ver com esse dia.
A foto é de uma mulher (Cássia Eller) que tem muito peito pra
mostrar – em todos os sentidos!
Ela sintetiza pra mim todas as outras mulheres, que estão muito além
de Claras e Rafaelas; que não moram no Leblon, mas muitas vezes
escondem-se nas quebradas das periferias das cidades e até do país.
São tantas outras mulheres que pegam ônibus, trem, andam a pé,
brigam, choram, amam, criam seus filhos, são expulsas de casa,
trabalham, fazem biscates, bebem e cheiram, apanham, batem, sofrem,
amam.
A todas as mulheres que – por milhões de motivos – não podem dizer
que amam outras mulheres; a todas essas mulheres que dizem em alto e
bom som que amam outras mulheres; a todas essas mulheres que são
mães; a todas essas mulheres que são filhas; a todas essas mulheres
que AMAM OUTRAS MULHERES este é o NOSSO DIA, como todos os outros
também são.
Um beijo, Graca
Graça - Rio de Janeiro – Brasil (Graça Portela faz o clipping
Planeta Arco-Íris) 
Dia Nacional do Orgulho Lésbico
15/08/03 GLSPLANET.COM
Entrevista com Míriam Martinho, uma das pioneiras
do manifesto
do Ferro´s Bar, que aconteceu no dia 19 de agosto, há 20 anos, data
que inspirou a criação do Dia Nacional do Orgulho Lésbico.
- Você estava lá na manifestação contra a discriminação do Ferro´s
bar. Como tudo aconteceu?
Míriam Martinho:
O Ferro's foi durante décadas um ponto de encontro das mulheres
lésbicas de todo o pais, não só de São Paulo. Todo mundo que vinha
visitar a paulicéia desvairada, passava por lá. Apesar de sustentado
pelas lésbicas, contudo, os donos do bar faziam restrições em
relação às demonstrações de afeto entre as mulheres, por mais
simples que fossem, e não queriam que vendêssemos o boletim do
grupo, ao qual eu pertencia na época, o Grupo Ação Lésbica
Feminista, no interior do estabelecimento. Outras coisas, contudo,
eram vendidas livremente.
Quando tentávamos vender o boletim, vinha sempre alguém nos
"convidar" para sair. Como insistíssemos, o clima foi ficando mais
pesado. Primeiro, foi um segurança e um dos donos do bar que nos
mandaram sair, já ameaçando partir para a agressão física. Houve
empurra-empurra, puxões... Depois, a polícia foi chamada, e, numa
primeira vez, apenas conversou conosco, aceitou nossos argumentos, e
nos deixou em paz. Da segunda vez, acho que insuflados pelos donos
do bar, não foram tão diplomáticos: nos
escoltaram até à rua como se fôssemos criminosas. Então, organizamos
uma manifestação em frente ao Ferro's, em articulação com outros
grupos, abrimos a porta do bar, que estava guardada por um
segurança, após muita conversa, fizemos um discurso contra o
preconceito e a discriminação, já dentro do recinto, e obtivemos a
promessa dos donos de não mais nos reprimirem. Foi uma grande
vitória sobretudo para a época.
- Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, Dia Nacional do Orgulho
Lésbico, você não acha que seria melhor unir as datas para ampliar o
movimento?
Míriam Martinho:
Primeiro vamos aclarar as denominações. O 19 de agosto é o Dia
Nacional do Orgulho Lésbico em comemoração aos 20 anos da
manifestação do Ferro's bar. O dia da visibilidade a que você se
refere nunca foi chamado de nacional antes de termos lançado o dia
nacional do orgulho lésbico. Parece que a gente lançou moda.
Segundo, acho que datas nascem sobretudo de coerência política e
ideológica. A primeira manifestação de visibilidade lésbica ocorrida
no Brasil, e visibilidade significa dar-se a conhecer à sociedade
heterossexual em algum nível, foi a manifestação do dia 19 de
agosto. Foi uma manifestação de coragem, orgulho e visibilidade
semelhante a de Stonewall, guardadas às devidas proporções.
Portanto, o 19 de agosto congrega tanto o orgulho quanto à
visibilidade das lésbicas. É uma data histórica.
- Na época, "partidos de fora" como as feministas e os grupos gays
aderiram ao movimento. Hoje ainda existe esta divisão entre
lésbicas, gays e feministas?
Míriam Martinho:
Bem, a organização lésbica brasileira nasceu no bojo do Movimento
LGBT (na época chamado apenas de Homossexual) e depois é que entrou
em contato com o Movimento Feminista. O Movimento Feminista, ao
contrário do que ocorre hoje, era totalmente refratário à
politização da questão lésbica na década de 80.
O apoio de feministas à manifestação do Ferro's foi uma exceção à
regra. Os gays apoiaram a manifestação do 19 de agosto como já
haviam apoiado outras atividades lésbicas daquele período. Nós
inclusive dividíamos uma sede com um grupo gay muito legal. Hoje,
acho que os gays são mais voltados para suas questões, e as
feministas estão mais abertas à questão lésbica.
Mas não creio que exista uma divisão propriamente. Acho que
feministas e gays estão em movimentos que não abordam só a questão
lésbica, mas várias questões. Então, cabe às lésbicas ampliarem seus
espaços dentro desses movimentos ou conseguirem "caixas de
ressonância" para suas reivindicações dentro dos
mesmos.
- Como uma das pioneiras do movimento lésbico em Sampa como vê hoje
a evolução da sociedade brasileira em relação à lésbica?
Míriam Martinho:
Bom, apenas nos situando, sou uma das fundadoras do movimento
lésbico no Brasil. De fato, sou carioca de nascimento, paulistana de
coração e filha de nordestinos. Bairrismos, portanto, não são
comigo. Iniciei minha militância em 1979, quando entrei no Somos (a
primeira organização homossexual do país) e fui a única ativista a
permanecer trabalhando ininterruptamente com a questão daquela época
até hoje. Quanto à sociedade brasileira, esta vem se tornando mais
aberta em relação à questão homossexual em geral, e isso se reflete
numa maior tolerância quanto às relações entre mulheres também,
embora ainda de forma incipiente. O casal de adolescentes da novela
das 8:00 da Globoreflete bem isso. Observa-se uma tendência a
mantê-las juntas (por enquanto não foram implodidas, como as
parceiras de Torre de Babel), mas ainda não se tem certeza se haverá
final feliz. As últimas declarações do Vaticano, tão anacrônicas,
podem se refletir negativamente no trato da questão homossexual no
Brasil, pois somos um país católico, mas não acredito em retrocesso,
pois a tendência é de aceitação dos direitos homossexuais em todo o
mundo.
- Em que o Dia da Lésbica pode acrescentar às conquistas, mesmo
sendo um dia somente no ano?
Míriam Martinho:
Bom, o dia nacional do orgulho lésbico é emblemático da situação que
a maioria das lésbicas enfrenta em seu cotidiano ainda hoje, onde
sustentamos tantas coisas e até pessoas e temos direito a tão pouco
ou nada. E o 19 de agosto também é um símbolo da solução para esse
problema. Naquela data, enfrentamos os nossos medos, não deixamos
mais que nos humilhassem e nos explorassem, exigimos nossos direitos
e saímos vitoriosas. O 19 de agosto, portanto, é uma inspiração para
todos os dias do ano, pois constantemente enfrentamos situações que
nos exigem coragem e ousadia contra o preconceito e a discriminação.
- O que você acha que falta às lésbicas para poderem se impor na
sociedade?
Míriam Martinho:
Exatamente orgulho. Não há porque envergonhar-se de amar outra
mulher. Construímos esta nação como todas as demais pessoas, e temos
direito aos direitos mínimos de cidadania que todos têm. Direito a
amar, a constituir uma família, um patrimônio, a ter filhos e ter
tudo isso garantido como as pessoas heterossexuais têm. Agora,
ninguém dá nada de mão beijada: é preciso auto-aceitar-se e ir à
luta.
- O que acha da visibilidade lésbica nas matérias divulgadas nos
veículos de comunicação?
Míriam Martinho:
Vem crescendo continuamente, e isso é bom porque permite uma
identificação das mulheres lésbicas com personagens positivas,
muitas vezes mulheres como elas que, com naturalidade, falam de suas
vidas com outras mulheres, também identificação com artistas e mesmo
personagens fictícias que servem como exemplos a seguir. O poder dos
símbolos é muito grande. Felizmente, cada vez mais a grande imprensa
aborda as questões lésbicas de forma positiva, ficando mais por
conta da imprensa marrom a manutenção do enfoque baixaria. De
qualquer forma, é preciso estar de olho na imprensa e não permitir
abusos
As comemorações do Dia Nacional do Orgulho Lésbico começam dia 19,
terça-feira,com palestras, sarau musical e coquetel em São Paulo.
Participem
Local: Ação Educativa, Rua General Jardim, 660
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