Grupos lésbicos brasileiros existentes em
2001. Da esquerda para a direita: Movimento D'Ellas, Um Outro
Olhar, Grupo Lésbico da Bahia (GLB), Coletivo de
Lésbicas-Feministas (CFL), Associação Lésbica de Minas
(ALÉM), Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro e Movimento de
Lésbicas de Campinas (MOLECA). Também na foto 3 representantes de
grupos mistos (Nuances, Arco-Íris e Estruturação). Foto tirada
durante reunião sobre saúde lésbica com a CN-DST/AIDS, em
Brasília, (março de 2001).
Todos os anos, por
ocasião dos dias de celebração lésbica em agosto, nos
perguntam porque celebramos o dia do orgulho lésbico e
não o dia da visibilidade lésbica, considerando ser a Um
Outro Olhar a mais antiga organização lésbica
existente.
Muitos esclarecimentos já foram
feitos, mas anualmente as perguntas se repetem. Há 2
anos, publicamos o texto
Dia da Visibilidade: 10 anos de uma história mal
contada(que atualizamos no ano passado com uma foto)
e algumas pessoas se deram por satisfeitas com as
explicações. Mas outras permanecem nos perguntando.
Resumo então - mais uma vez - nossas
ponderações sobre o tema, esperando aclarar as dúvidas
sobre nosso posicionamento e convidando a todos a lerem
o
Dia da Visibilidade: 12 anos de uma história mal
contadaem sua versão atual. Acreditamos poder
fornecer até o próximo ano outros subsídios para a
história da organização lésbica no Brasil que possam
trazer ainda mais esclarecimentos a essas e outras
dúvidas.
Agora indo ao ponto novamente. Primeiro, a Um Outro
Olhar nunca se identificou com o dia da visibilidade
porque nunca entendeu a razão pela qual um encontro
feito a portas fechadas, com pouca ou nenhuma
visibilidade para a população lésbica e para a
sociedade, tenha virado símbolo de um dia exatamente de
visibilidade. Seria o caso de perguntar, por exemplo,
porque o dia da primeira caminhada lésbica, feita na
rua, para todo o mundo ver, não foi eleito como dia da
visibilidade. Porque não celebramos, portanto, o dia da
visibilidade, desde o início, está explicado, mas porque
quem o propôs também não celebrou, durante os 6 anos
seguintes à sua criação, falta explicar.
Segundo, quando o dia foi de
fato lançado, em 2003, foi lançado para se contrapôr
ao lançamento do dia do orgulho lésbico, por sua vez,
efetivado neste mesmo ano. Ocorria em São Paulo, o V
SENALE, em 2003, e foi, a partir deste evento, que de
fato se projetou o dia da visibilidade publicamente ao
mesmo tempo que se lançava uma ofensiva contra o dia
do orgulho, apoiada por elementos estranhos à
organização lésbica brasileira, ansiosos por faturar em
cima da evidência que a questão lésbica já começava a
apresentar desde a época.
Terceiro, quando de seu real
lançamento em 2003, o dia da visibilidade passou a ser
propagandeado com base em algumas mentiras que
violam a história da organização lésbica
brasileira de forma contundente, sendo a de maior
tamanho a treta de que o dia teria sido lançado, em
1996, por mais de 100 ativistas lésbicas. Em 1996, o
número de grupos lésbicos brasileiros chegava com muito
custo aos 5 dedos de uma mão, com duas ou até mesmo uma
componente em cada um. Em 2001, 5 anos após o I SENALE,
havia ainda apenas 7 grupos lésbicos em todo o país
(ver
a foto no início deste texto), todos diminutos.
Portanto, afirmar que o dia da visiblidade foi lançado
em 1996 por mais de 100 ativistas lésbicas é uma mentira
cabeluda. E que tenha sido celebrado desde então outra
mentira.
Também são mentiras a história de que
o I SENALE tenha se configurado como a primeira vez em
que lésbicas se reuniram no Brasil. Ativistas
lésbicas brasileiras se encontraram pela primeira vez
durante o I Encontro Brasileiro de Homossexuais, em São
Paulo, em 1980. E ativistas lésbicas se reuniram pela
primeira vez, em um encontro especificamente lésbico, em
1981, também em São Paulo, durante o I Encontro de
Grupos Homossexuais Organizados (em pesquisa).
Assim sendo, notamos ainda que o lançamento do dia da
visibilidade, em 2003, vem se configurando como um ponto
de partida (uma espécie de âncora) para um processo mais
amplo de distorções históricas e apagamentos que a cada
ano mais nos impressionam. Sendo protagonistas e
testemunhas oculares da organização lésbica, em nosso
país, desde seu nascimento, não podemos obviamente
concordar com isso.
Temos consciência de que, no Brasil,
cujo povo se ironiza como aquele que esquece tudo a cada
15 minutos e onde questões morais vem sendo
especialmente ridicularizadas sobretudo nos últimos 5
anos, falar de História e de ética pode parecer bobagem,
mas a gente insiste, sobretudo quando se trata de
explicar o porquê de nossas escolhas. Mais uma vez,
portanto, esperamos ter conseguido nos explicar.