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Símbolos & Dias
 

Edição 2008  
Memória


Democracia também para lésbicas: uma luta no FERRO's bar
Vanda Frias

"Invasão" do Ferro's Bar em 19 de agosto de 1993 - Jornal da TardeO dia 19 de agosto é muito especial para o Grupo de Ação Lésbica-Feminista (GALF) e para as Lésbicas que freqüentam o "Ferro’s — antigo e velho bar situado quase no Bexiga, bairro dos mais badalados da noite de Sampa.
 
 O frio que baixa na cidade não impede que o "happening” político organizado pelo GALF seja um sucesso. Por volta das nove da noite, as militantes do grupo e mais alguns companheiros do Outra Coisa Ação Homossexualista, formado por homens, continuam a distribuir na frente do famoso bar um panfleto de anunciando as agressões que o GALF vinha sofrendo ha meses, quando tentava vender seu boletim ChanacomChana dentro do Ferro’s. Um pouco mais tarde, começam a "invadir" o bar figuras um tanto estranhas para suas fiéis freqüentadoras: mulheres "diferentes", rapazes de barba e lindos paletós de couro (desses que a gente costuma ver nas manifestações tradicionais da esquerda), bichas finérrimas.
 
 Dentro, a maior confusão. Como sempre acontece no Ferro's, há poucas mesas para suas freqüentadoras, que são obrigadas a se espremer nos estreitos espaços livres, à espera de que a sorte lhes premie com um lugar. Num dia especial, então, os garçons são obrigados a fazer verdadeiros malabarismos para chegar com suas bandejas sãs e salvas até a mesa que fez o pedido.
 
 Mas não e só isso. O atarracado porteiro -- sempre tão agressivo com as militantes do GALF — segura firme a porta fechada para garantir que nenhuma dessas “perigosas” mulheres invada tão imaculado recinto. A medida que se aproxima o histórico momento, a folga estranha que já havia invadido o - bar explode aos gritos de: "entra", “entra", "entra”. Numa das mesas, a vereadora Irede Cardoso (do PT) discursa aos berros sobre a luta pelas liberdades democráticos inclusive para as lésbicas.
 
 Chega a hora: entre os flashes dos fotógrafos, as militantes do GALF - e outras pessoas que ainda estão pra fora — forçam a porta do bar, que o porteiro, agora ajudado por outros defensores da “paz e da ordem”, segura como pode.
 
 O inesperado — ou mais uma artimanha de um dos alegres rapazes da banda — precipita tudo. O boné do porteiro é arrancado e jogado longe. Enquanto ele busca tão importante signo de seu poder, duas mulheres puxam-no para o lado oposto. Aproveitando-se desse inusitado embate, as lésbicas do GALF entram. Uma delas, Rosely, sobe imediatamente sobre uma cadeira e começa a denunciar as atitudes autoritárias do bar.
 
 Lésbicas em busca de uma entrada
 
O que Rosely denuncia começara há quase dois meses. Todos os sábados, quando íamos vender o boletim ChanacomChana no Ferro’s éramos agredidas pelo porteiro — com ameaças ou com puxões de braço para que nos retirássemos. Até que no dia 23 de julho último, a barra pesou mais: um dos donos do bar, seu segurança e seu porteiro tentaram concretizar a expulsão, através de agressões físicas. Enquanto nos puxavam para o lado de fora, parte das lésbicas — que compram o boletim e conversam com as moçoilas do GALF - nós segurava Iá dentro. Belo corpo-a-corpo: dos que tem a força da ordem e da lei contra as que ganharam no dia-a-dia uma força física e inte¬rior para poder viver numa sociedade onde a regra é ser heterossexual. Quem foge desse padrão é pervertida (o), louca (o), imatura (o) sexualmente e definitivamente não merece compartilhar das benesses desse paraíso terrestre.
 
 Alegando que nós estávamos fazendo "arruaça dentro de tão comportado ambiente, o dono chamou a policia. Os policiais chegaram, ouviram as argumentações do dono, as nossas, as das lés¬bicas não militantes que nos apóiam. E estranhamente um deles respondeu que, como deviam ser imparciais, pois os direitos são para todos os brasileiros, não tomariam qualquer atitude contra nós. Puxaram o carro e pudemos jantar em meio as outras lésbicas, como sempre f azemos. Ha também dias — ainda raríssimos — que são da caça e não do caçador.
 
 Foi uma vitória. Depois dela muitas discussões no GALF. Já estávamos cheias de sermos agredidas injustamente e pensávamos que o incidente podia se repetir mais vezes, talvez com mais apoio da policia. Não queríamos ficar na defensiva. Precisávamos reconquis¬tar nosso direito de vender o ChanacomChana no Ferro’s. Não só vendê-lo mas conversar com as lésbicas dos mais distintos estratos sociais e vivências pessoais. Não somos e não queremos ser elite ou vanguarda.
 
 A militância política de esquerda sempre foi reprimida. Mas sempre compensada pela certeza de se estar lutando por um mundo melhor e de se estar fazendo História. Mas as (os) militan¬tes da esquerda não enfrentam, no seu dia-a-dia, as dificuldades das lésbi¬cas e das feministas mesmo quando heterossexuais. São olhadas com certo deboche e feridas com agressões verbais por estarem numa luta menor, num combate não-prioritário. Boa parte da esquerda ainda nos olha des¬sa forma. Mas não poderia ser de outro jeito numa sociedade falocrata, onde as mulheres nunca tiveram direitos, só deveres-- e quantos. É lógico que - quando algumas buscam resgatar seu passado, para que o presente e o futuro sejam diferentes, sejam vistas como as feiticeiras queimadas na Idade Média por estarem à frente de seu tempo.
 
 Processo semelhante acontece com os negros em sociedades racistas como a brasileira. Ou com os índios, que eram muitas nações nesse Brasil antes da invasão do branco colonizador. E que foram— e ainda são — gradual¬mente confinados em regiões desabitadas (guetos?) nessa terra de Vera Cruz que já foi só deles.
 
 São as chamadas "minorias", mais uma palavra que esconde o verdadeiro nome: grupos oprimidos. Nós do GALF queremos ajudar a romper com essa historia. Por isso, resolvemos reconquistar o Ferro’s com a ajuda de homens homossexuais, mulheres feministas, ativistas dos direitos civis e militantes ou políticos dos partidos de oposição mais identificados com as lutas das minorias.
 
 Por sermos um grupo autônomo, o GALF é aberto às lésbicas dos mais di¬ferentes horizontes políticos. Ao contrário de alguns outros grupos feministas, o GALF não aceita a chamada dupla militância: isto é, batalhar dentro de um grupo e, ao mesmo tempo, dentro de um partido político. Pensamos que a dupla militância foi um dos principais fatores de enfraquecimento dos grupos feministas nos últimos anos particu¬larmente com as eleições de 1982.
 
 Isso não impede que busquemos ótimas relações com os partidos de posição — PMDB, PT e PDT — pois nossas lutas se cruzam em alguns pontos essenciais, como é o caso da luta pe¬las liberdades democráticas. Por isso, fizemos questão de convidar, para o happening político do Ferro’s, a deputada Ruth Escobar (PMBB), a vereadora Irede Cardoso (PT), o deputado federal Eduardo Suplicy (PT) e a bancada do PT na Assembléia Legislativa através de carta endereçada ao líder de sua bancada, Marco Aurélio Ribeiro. Como apoio na área legal, convidamos a advogada Zulaiê Cobra Ribeiro (representante da Ordem dos Advogados do Brasil e da Comissão de Direitos Humanos).
 
 Batalhamos na organização do "happening” do 19 de agosto durante quase um mês, enquanto distribuíamos no gueto um panfleto denunciando a atitude do Ferro’s, que não é isolada. Com a reconquista de Ferro’s, buscávamos também lutar pelo legítimo direito de circular livremente em todos os locais.
 
 Resgate de uma história
 

 Ao contrário de outras ocasiões, quando nos sentíamos acossadas, nós - as militantes do GALF — tomamos a ofensiva naquela sexta-feira. Rosely fez discursos em várias cadeiras. É bom deixar claro que ela não é e não quer ser líder do grupo, pois lutamos contra a hierarquia e o poder; algumas militantes do grupo ainda lutam contra o medo de se exporem publicamente. A interiorização do medo e da repressão é um dos motivos que impedem o grupo de crescer quantitativamente. Porque qualitativamente ele vem avançando desde seu surgimento, em 1979.
 
 Os discursos de Rosely se intercalam com gritos de parte das lésbicas e de nossas(os) companheiras (os) de luta para que o dono apareça. A ordem dentro do bar é sempre garantida pelos garçons, pelo porteiro e pelo segurança, em troca do salário mensal e da sobrevivência. Dos lucros, ele e seu sócio sabem fazer bom proveito.
 
 Por fim, a voz do dono. Cercado por jornalistas, lésbicas não-militantes ou do GALF e pela vereadora Irede, o dono e obrigado a discutir suas atitudes — uma prática democrática a qual parece não estar muito acostumado. Afinal, vivemos no Brasil.
 
 As militantes do GALF conversam com o dono e conseguem que ele declare diante delas, da imprensa e de outras companheiras (os), que o grupo poderá divulgar seu boletim dentro do bar sustentado pelas lésbicas. Findo o episódio, Irede dá um viva a democracia.
 
 Qual democracia? Para nós, do GALF, sua definição transparece na complementação que Rosely faz à Irede: “ele só voltou atrás por causa da nossa força, da nossa união. A democracia neste bar só depende de nós”. Por acreditar nessa democracia, sem lideranças, sem vanguardas e sem elites, é que continuamos a lutar para que todas as lésbicas se expressem e lutem por seus direitos. À maneira de cada uma. Acreditando em nossa autonomia individual, mesmo que participando dos mais diversos grupos.
 
 A repercussão do “happening” político do Ferro’s abriu espaços sociais para o GALF em dois sentidos. Entre as lésbicas, muitas vieram participar do grupo. As que ainda não querem militar já lêem nosso boletim com outros olhos e discutem mais conosco. Sabemos que a libertação individual e um processo a longo prazo. Sabemos, também, que na História a militância sempre foi um gesto de muito poucos e dentro de espaços delimitados - por exemplo, os partidos político.
 
 Neste final de século XX, grupos e pessoas dos mais diversos países querem modificar isso. A militância pela democracia não se restringe aos trabalhadores, seus sindicatos e seus partidos políticos, mas se estende ao cotidiano: às ruas, aos bares, às escolas, ao trabalho, às camas, aos jardins, aos mercados. Em suma, ao dia-a-dia mais "corriqueiro e banal" de todas (os) cidadãs (aos). É assim que esperamos ir construindo a verdadeira democracia e o verdadeiro socialismo. Sem todas as hierarquias e poderes que sufocam há milhares de anos, desde a pré-história, a existência, a alegria e o prazer dos seres humanos.
 
 Nessa luta em constante movimento e transformação, as lésbicas têm um papel importante a desempenhar. Desde Safo - poeta grega que fez alguns dos mais lindos versos de amor pelas mulheres e que, vivendo na ilha de Lesbos deu origem a palavra com qual orgulhosamente nos denominamos - as lésbicas não tiveram voz e foram oprimidas. O resgate dessa História, dos versos perdidos em livros malditos, dos beijos que nunca puderam ser dados à luz do dia, do amor que nunca pode ser declarado à amiga com medo de perdê-la para sempre. Tudo isso e muito mais faz hoje nossa alegria de viver e de lutar.
 
 Fonte: publicado originalmente no Boletim ChanacomChana 4, setembro de 1983
 

Míriam Martinho, 54, é editora do site Um Outro Olhar On-line. Leia mais aqui.
 

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