Em uma de suas acepções, a mais conhecida por nós, ocidentais, a
palavra meditar significa refletir, analisar, ponderar. É comum a
gente dizer: “-Vou meditar sobre o assunto”. Em outras palavras,
vamos estudar uma situação ou tema detalhadamente para chegar a
alguma conclusão, encaminhar algum procedimento, responder a alguma
demanda.
Outra das idéias que temos sobre meditação, um pouco mais próxima
da nossa perspectiva neste artigo, é de que se trata de uma
atividade de relaxamento. O pessoal senta, em algum lugar, de pernas
cruzadas, fica lá quietinho, respira pausadamente e vai relaxando.
Bom, a meditação de fato relaxa, pois o simples fato de alguém se
sentar em silêncio, respirando profundamente por algum tempo,
geralmente provoca um atenuamento das tensões. Entretanto, o
objetivo principal da meditação não é nem esquentar a cabeça,
para resolver algum problema, nem simplesmente relaxar.
A meditação visa treinar a capacidade de atenção e de concentração
das pessoas, além do autoconhecimento, através da focalização da
mente em um determinado ponto (pode ser a própria respiração, a
repetição de palavras ou a visualização de objetos, divindades
ou situações). O essencial é disciplinar - embora de forma bem light
- o fluxo desordenado de
pensamentos, imagens e sentimentos que rola, em nossas mentes, o
tempo todo, deixando-nos literalmente de cabeça fundida. Por isso
também, aliás, a meditação acaba relaxando quem a pratica.
Centrando sua atenção, em uma única coisa, por um certo tempo,
você acaba dando um descanso para si mesma(o).
Mas, além de descansar, o que é que ganho com tudo isso? – você
deve estar se perguntado. Um bocado de coisas. Com a prática contínua
da meditação, a pessoa vai ficando mais calma, mais tranqüila, e
muito mais concentrada. Resultado: uma vida menos ansiosa, mais saudável,
mais organizada e feliz. Por exemplo, você economiza tempo na execução
de tarefas, pois, com a cabeça realmente atenta às atividades, é
possível fazer qualquer coisa em menos minutos e com mais eficiência.
Você fica menos esquecida (lembra da tal história do “onde será
que eu botei tal coisa super-importante?!"), pois, com a mente
mais alerta, é possível lembrar do que realmente interessa. Fica
também mais saudável, já que, segundo os especialistas no
assunto, quando você medita, suas ondas cerebrais se alteram
(entrando em cena as que relaxam e repousam), as batidas cardíacas
e o ritmo respiratório caem, os órgãos digestivos e excretores
trabalham melhor e vilões como o colesterol e os radicais livres
diminuem seu impacto sobre o organismo. Portanto, você fica mais
apta a enfrentar o estresse inevitável do dia-a-dia e as doenças
em geral.
Então, não quer experimentar? Pois, vamos lá. Só que antes
cumpre esclarecer que existem milhares de tipos de meditação
(budistas, taoístas, iogues, além de variações). Dizem que o próprio
Buda, o príncipe Sidarta Gautama, fundador histórico do Budismo,
elaborou mais de 84000 tipos de meditação. Bom, nós aqui,
humildemente, vamos falar apenas de uma, para começar.
Aprendendo
a meditar
Um
dos tipos de meditação mais conhecido dos ocidentais é o zazen
(meditação sentada) da escola zen-budista. Para efetuá-la,
sente-se, em uma almofada,
com as pernas cruzadas, ou em uma cadeira, na metade do assento, ou
mais para a ponta do mesmo. O mais importante é manter a coluna bem
ereta e empurrar a barriga para a frente, mas sem levantar os
ombros, evitando assim causar tensão.
Se você sentar em uma almofada ou equivalente, pode tentar a posição
de semi-lótus, com um dos pés sobre a coxa da outra perna, ou lótus
completa, com os dois pés em cada coxa oposta. Se preferir a
cadeira, mantenha os pés bem assentados no chão, com as pernas
levemente separadas uma da outra.
Em qualquer um dos casos, após sentar-se, com a coluna bem ereta, apóie o dorso
das mãos sobre as coxas e balance o corpo, para a esquerda e a
direita, até encontrar uma posição bem alinhada.
Em seguida,
inspire e expire, profundamente, como se para limpar o organismo.
Depois, com as palmas viradas para cima, coloque o dorso da mão
esquerda sobre a palma da mão direita (a ponta dos dedos da
esquerda deve coincidir com as juntas dos da direita) e una os
polegares, formando uma espécie de círculo com as mãos. Nesta
posição, leve a borda das mãos até a barriga, posicionando-as
cerca de quatro dedos abaixo do umbigo (os polegares devem ficar à
altura do umbigo). Os braços devem ficar ligeiramente separados do
corpo como se segurassem dois ovos nas axilas. A cabeça também
deve permanecer ereta, com a parte superior esticada, em direção
ao teto, o queixo ligeiramente recuado para dentro, e os olhos
direcionados diagonalmente à sua frente (num ângulo de mais ou
menos de 45 graus).
Assim posicionada, comece a respirar abdominalmente, ou seja, quando
inspirar, infle o
abdômen, quando expirar, recolha-o. Uma forma natural de fazer isso
é mantendo a língua no céu da boca, atrás dos dentes da frente. Mantenha sua atenção neste
movimento de inspirar e expirar, contando até dez (para cada
inspiração/expiração conte um número, depois retorne ao um
novamente até dez e assim por diante) durante cerca de dez minutos pela manhã
e à noite. O ideal mesmo são vinte minutos contínuos para se
sentir melhor o gostinho da coisa. Do ponto de vista físico, no
começo é bem possível que você sinta adormecimento das pernas e
dores nos ombros ou pescoço, mas com o tempo, isso passa. De
qualquer forma, após o início da meditação, procure não se
mexer, mesmo que sinta coceira, adormecimento das pernas ou outras
sensações. Preste atenção a essas sensações e observe-as indo
e vindo até desaparecerem. Do ponto de vista mental é a mesma
coisa. Com certeza, vão passar por sua cabeça, nesses poucos vinte
minutos, inúmeros pensamentos, imagens, emoções positivas e
negativas. Simplesmente os observe, sem acalenta-los nem
rejeita-los, procurando sempre trazer a atenção para o ato de
respirar. Com a prática, cada vez mais, sua atenção permanecerá
apenas na respiração, e sua mente agradecerá muitíssimo.
Ao término dos vinte minutos (marque-os com um cronômetro, por
exemplo), desfaça o círculo (mudra cósmico), formado por suas mãos,
e posicione o dorso das mesmas novamente sobre as coxas. Mais uma
vez balance o corpo, para os dois lados, para frente e para trás,
mexas as pernas e, por fim, inspire e expire fortemente. Se tiver
alguma crença, diga uma oração ou algumas palavras inspiradoras
de paz, saúde e felicidade. E pronto.
Obviamente, não esqueça de fazer sua meditação em um local com
pouca luz, tranqüilo, silencioso, onde você não vai ser
interrompida por nada nem ninguém. Para dar um toque final ao
ambiente, deixe um incenso perfumado queimando no turíbulo. E boa
viagem.
Versão original deste texto: Boletim Ousar
Viver, ano 4, n. 8, Dezembro de 1998. Míriam Martinho. Edição
atual, 07/05/05.
Link de interesse para quem quer praticar meditação:
http://www.zendobrasil.org.br/
Míriam Martinho, 53, é editora do
site Um Outro Olhar On-line.
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