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Quem desdenha quer comprar
Sílvia Monteiro
 

Carol, mulher inteligente, bonita, simpática, uma pessoa extremamente extrovertida, atrai a atenção dos mais próximos. É uma mulher que realmente justifica todos esses adjetivos, e ela tem consciência disso. Porém, existe algo nela que muitos não sabem. Alguma coisa atormenta sua cabeça. É o que ela traz no coração, em sua maneira de ser e agir em relação à vida.

Carol é uma mulher que se acha tão interessante, tão auto-suficiente, que chega a afirmar para si mesma: “Não preciso do amor para ser feliz”. Ela, porém, se sente só, e essa sua afirmação de auto-suficiência não passa, na verdade, de um grande medo da solidão, da não-aceitação, de não ser capaz de ser amada, de que ninguém venha a se interessar por ela. Carol vive boa parte do tempo tentando se auto-afirmar, repetindo a si mesma que não precisa de ninguém. Mas há uma problemática instalada em seu interior que faz com que suas escolhas a frustrem.

Seu estado de espírito se alterna entre altos e baixos, fazendo com que em alguns momentos ela se sinta auto-suficiente e em outros um lixo. Como por encanto, ela geralmente costuma escolher seus relacionamentos nos momentos em que seu humor está em baixa, e assim eles jamais a conduzem à satisfação nem são capazes de suprir suas necessidades e exigências. Isso faz com que se instale um circulo vicioso em sua vida, pois nos momentos em que está de bem consigo mesma e se sentindo maravilhosa ela não procura ninguém e usa sua defesa da auto-suficiência.

Desse quadro, podemos extrair vários dados, mas principalmente como a auto-estima influencia nossas escolhas afetivas e profissionais. Para tanto, é preciso entender algumas questões psíquicas. O ser humano é o único animal que nasce incompleto e tem seu desenvolvimento após o nascimento: o bebê precisa de alguém que cuide dele, pois é incapaz até mesmo de se alimentar sozinho; a criança precisa de cuidados, senão coloca sua vida em risco, e não sobreviveria sem a atenção de seus cuidadores.

O desenvolvimento psíquico acompanha o físico, mas é na psique que se acumulam todas as experiências vividas, que podem ser revividas voluntária e involuntariamente a qualquer momento. Por esse motivo, é que às vezes podemos nos comportar como crianças, como adolescentes e outras como bebês. Nos relacionamentos afetivos, isso fica bem claro. As pessoas se tratam e se comportam como bebês, crianças e adolescentes.

O trauma é uma experiência negativa com a qual, por algum motivo, não conseguimos lidar, e nosso inconsciente, para nos proteger, reprime essa experiência, ou seja, faz com que nos esqueçamos dela. Porém, sempre sofremos as conseqüências do trauma vivido. O nosso inconsciente é um arquivo dinâmico que tem como maior objetivo preservar a nossa vida. Ele vai se desenvolvendo no decorrer de nossa existência, o que significa que uma criança tem um inconsciente mais primitivo que um adulto. Primitivo no sentido de não elaborado, portanto para o inconsciente ainda primitivo de uma criança algumas situações podem significar uma ameaça muito grande enquanto para um adulto pode ser muito simples lidar com elas.

Por exemplo, para uma criança de quatro anos acostumada a ver os pais se desentenderem e às vezes chegarem até às vias de fato, isso pode ser algo tão ameaçador que ela pode congelar de pânico, vivência que irá se refletir em suas futuras relações afetivas. No entanto, para a mãe, a mesma experiência pode ser  tão corriqueira que no final da noite ela não se importe em dormir com o marido.

O inconsciente não tem a capacidade de se atualizar sozinho. Quando essa criança de quatro anos crescer um pouco, pode vir a refletir a dinâmica vivida com os pais na escola, na forma como se relaciona com os amiguinhos, ou ainda essa vivência pode ficar adormecida no inconsciente e só vir à tona quando ela apresentar dificuldades em escolher parceiras.

Claro que as possibilidades são muitas, este é apenas um exemplo de como age o inconsciente, cuja principal função é a de preservar nossa integridade física, a vida. Como o inconsciente não se atualiza sozinho e só temos acesso a ele através dos resultados de nossas experiências, é possível mudar os não-satisfatórios ao refletirmos sobre nossos atos, nos propondo a realizar coisas que nos satisfaçam e, se necessário, buscando a ajuda de um profissional.

Quando Carol reafirma a si mesma que tem várias qualidades e adjetivos, isso soa de maneira um tanto suspeita, insegura, pois a pessoa que simplesmente tem auto-estima não sente necessidade de viver expressando suas qualidades e sabe encarar os insucessos como resultados não satisfatórios de um evento, de maneira simples e clara, sem dramas, sabendo também pedir ajuda, se necessário e possível, para tentar mudar o resultado. Carol não percebe o quanto seus conteúdos inconscientes interferem em suas escolhas e muito menos que são eles que não a impedem de ter constância em sua auto-estima.

Nós, seres adultos, trazemos guardadas em nosso desenvolvimento físico e psíquico experiências que tivemos ao longo da vida. São vivências a que não temos acesso, pois se encontram em uma esfera mais profunda de nossa consciência. Mas esses conteúdos que se tornaram inconscientes, se não resolvidos, têm o poder de interferir em nossa vida sem nos darmos conta. E acontece então de, por vezes, fazermos escolhas e tomarmos decisões importantes sem refletirmos racionalmente, escolhas e decisões que foram, na realidade, tomadas não pela nossa razão, mas por nossos traumas e complexos.


Sílvia Monteiro tem 40 anos e é psicóloga clínica e professora. Colaboração de Lica Bernardes
 

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