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Carol, mulher inteligente, bonita, simpática, uma pessoa extremamente
extrovertida, atrai a atenção dos mais próximos. É uma mulher que
realmente justifica todos esses adjetivos, e ela tem consciência
disso. Porém, existe algo nela que muitos não sabem. Alguma coisa
atormenta sua cabeça. É o que ela traz no coração, em sua maneira de
ser e agir em relação à vida.
Carol é uma mulher que se acha tão interessante, tão auto-suficiente,
que chega a afirmar para si mesma: “Não preciso do amor para ser
feliz”. Ela, porém, se sente só, e essa sua afirmação de
auto-suficiência não passa, na verdade, de um grande medo da solidão,
da não-aceitação, de não ser capaz de ser amada, de que ninguém venha
a se interessar por ela. Carol vive boa parte do tempo tentando se
auto-afirmar, repetindo a si mesma que não precisa de ninguém. Mas há
uma problemática instalada em seu interior que faz com que suas
escolhas a frustrem.
Seu estado de espírito se alterna entre altos e baixos, fazendo com
que em alguns momentos ela se sinta auto-suficiente e em outros um
lixo. Como por encanto, ela geralmente costuma escolher seus
relacionamentos nos momentos em que seu humor está em baixa, e assim
eles jamais a conduzem à satisfação nem são capazes de suprir suas
necessidades e exigências. Isso faz com que se instale um circulo
vicioso em sua vida, pois nos momentos em que está de bem consigo
mesma e se sentindo maravilhosa ela não procura ninguém e usa sua
defesa da auto-suficiência.
Desse quadro, podemos extrair vários dados, mas principalmente como a
auto-estima influencia nossas escolhas afetivas e profissionais. Para
tanto, é preciso entender algumas questões psíquicas. O ser humano é o
único animal que nasce incompleto e tem seu desenvolvimento após o
nascimento: o bebê precisa de alguém que cuide dele, pois é incapaz
até mesmo de se alimentar sozinho; a criança precisa de cuidados,
senão coloca sua vida em risco, e não sobreviveria sem a atenção de
seus cuidadores.
O desenvolvimento psíquico acompanha o físico, mas é na psique que se
acumulam todas as experiências vividas, que podem ser revividas
voluntária e involuntariamente a qualquer momento. Por esse motivo, é
que às vezes podemos nos comportar como crianças, como adolescentes e
outras como bebês. Nos relacionamentos afetivos, isso fica bem claro.
As pessoas se tratam e se comportam como bebês, crianças e
adolescentes.
O trauma é uma experiência negativa com a qual, por algum motivo, não
conseguimos lidar, e nosso inconsciente, para nos proteger, reprime
essa experiência, ou seja, faz com que nos esqueçamos dela. Porém,
sempre sofremos as conseqüências do trauma vivido. O nosso
inconsciente é um arquivo dinâmico que tem como maior objetivo
preservar a nossa vida. Ele vai se desenvolvendo no decorrer de nossa
existência, o que significa que uma criança tem um inconsciente mais
primitivo que um adulto. Primitivo no sentido de não elaborado,
portanto para o inconsciente ainda primitivo de uma criança algumas
situações podem significar uma ameaça muito grande enquanto para um
adulto pode ser muito simples lidar com elas.
Por exemplo, para uma criança de quatro anos acostumada a ver os pais
se desentenderem e às vezes chegarem até às vias de fato, isso pode
ser algo tão ameaçador que ela pode congelar de pânico, vivência que
irá se refletir em suas futuras relações afetivas. No entanto, para a
mãe, a mesma experiência pode ser tão corriqueira que no final da
noite ela não se importe em dormir com o marido.
O inconsciente não tem a capacidade de se atualizar sozinho. Quando
essa criança de quatro anos crescer um pouco, pode vir a refletir a
dinâmica vivida com os pais na escola, na forma como se relaciona com
os amiguinhos, ou ainda essa vivência pode ficar adormecida no
inconsciente e só vir à tona quando ela apresentar dificuldades em
escolher parceiras.
Claro que as possibilidades são muitas, este é apenas um exemplo de
como age o inconsciente, cuja principal função é a de preservar nossa
integridade física, a vida. Como o inconsciente não se atualiza
sozinho e só temos acesso a ele através dos resultados de nossas
experiências, é possível mudar os não-satisfatórios ao refletirmos
sobre nossos atos, nos propondo a realizar coisas que nos satisfaçam
e, se necessário, buscando a ajuda de um profissional.
Quando Carol reafirma a si mesma que tem várias qualidades e
adjetivos, isso soa de maneira um tanto suspeita, insegura, pois a
pessoa que simplesmente tem auto-estima não sente necessidade de viver
expressando suas qualidades e sabe encarar os insucessos como
resultados não satisfatórios de um evento, de maneira simples e clara,
sem dramas, sabendo também pedir ajuda, se necessário e possível, para
tentar mudar o resultado. Carol não percebe o quanto seus conteúdos
inconscientes interferem em suas escolhas e muito menos que são eles
que não a impedem de ter constância em sua auto-estima.
Nós, seres adultos, trazemos guardadas em nosso desenvolvimento físico
e psíquico experiências que tivemos ao longo da vida. São vivências a
que não temos acesso, pois se encontram em uma esfera mais profunda de
nossa consciência. Mas esses conteúdos que se tornaram inconscientes,
se não resolvidos, têm o poder de interferir em nossa vida sem nos
darmos conta. E acontece então de, por vezes, fazermos escolhas e
tomarmos decisões importantes sem refletirmos racionalmente, escolhas
e decisões que foram, na realidade, tomadas não pela nossa razão, mas
por nossos traumas e complexos.
Sílvia Monteiro
tem 40 anos e é psicóloga clínica e professora. Colaboração de
Lica Bernardes
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