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Saúde & Beleza
 
As narrativas da menopausa na homossexualidade feminina 
 Nádia T. Covolan 
 

O discurso biomédico, hegemônico, compreende que o corpo na menopausa adquire uma sintomatologia típica, física e mental, e apesar de vários profissionais relativizarem essa concepção na clínica diária, relacionar menopausa com doença de carência hormonal, tratável com a suspeita TRH (terapia de reposição hormonal), continua na ordem do dia [2]. Nesse contexto, feministas e estudiosas de gênero[3] tem criticado estas abordagens, que relacionam a parada da menstruação e da fertilidade com outras perdas, da feminilidade, da libido, da juventude, da beleza e da saúde. Nas pesquisas elaboradas por feministas e teóricas de gênero, os tópicos destacados para perceber as diferentes vivências na menopausa, são: os problemas do ninho vazio, do envelhecimento, da estética, da realização profissional, da vida entre cuidados com filhos e a casa, os percalços do casamento, a afetividade, a sexualidade. Os resultados dessa pesquisas apontam que, enquanto várias mulheres passam por essa fase sem problemas, a maioria apresenta um sofrimento maior que o biológico. Os problemas físicos mencionados são transitórios e podem ser tratados com  terapias alternativas à TRH. O sofrimento que aparece, porém, fortemente, está ligado a perda do status social da mulher, educada para ser mãe e cuidar do lar, de filhos e de um marido, quando essas funções sofrem transformações ou acabam. A grande maioria das mulheres assumem o discurso de perdas propalado pela biomedicina e pela sociedade, de que na menopausa deixam de ser desejáveis e ficam fora do mercado do  casamento, da conquista afetiva e sexual. Nesse sentido, o olhar desejante do interesse sexual masculino, aparece como um importante fator para o bem estar das mulheres nessa fase.

        No entanto, todas as pesquisas sobre a menopausa, tanto nos discursos biomédicos quanto nos das feministas/de gênero, se referem e foram realizados com mulheres heterossexuais, para quem tais tópicos e olhares importam fundamentalmente. Outrossim, estudos antropológicos estão demonstrando que as experiências físicas da menopausa diferem conforme e em resposta a valores culturais, de classe social, nutrição e parceiros de casamento [4]. Dessa forma, a consideração da heterossexualidade como orientação sexual tácita da mulher, não teria a conseqüência de tornar essas análises sobre a menopausa, restritas a um tipo de afetividade, estética, desejos, estilo de vida, problemas, sofrimentos, anseios, planos, expectativas?

       Nesse contexto, as mulheres homossexuais constituem um campo especial de pesquisa, porque rompem com os padrões de gênero estabelecidos, não se definem em função do desejo masculino, nem na sua maioria, do sistema de reprodução vigente, ou no mínimo, problematizam tais categorias. Considerando que nos tornamos humanos mediante a cultura, porém, isso não nos permite ignorar o corpo, seriam diversas as experiências das mulheres homossexuais, em relação aos discursos que vinculam menopausa a perdas, ou às percepções de perdas da feminilidade, da libido, da beleza, da procriação, da saúde?

        Outrossim, os discursos biomédicos insistem em que mulheres homossexuais teriam maior tendência a tumores malignos, assim como maior propensão ao uso de álcool e drogas; essas informações, porém, não contrastam com a falta de estatísticas sobre o homossexualismo feminino? São ignorados os preconceitos que o tornam invisível? Também é dito que as homossexuais não freqüentam médicos assiduamente; esses dados não estarão levando em conta apenas as visitas ginecológicas, restringindo, assim, a saúde ao aparelho reprodutor?; e como isso é dito se os profissionais médicos não perguntam a orientação de suas clientes? Dessa forma, as abordagens sobre o homossexualismo feminino, geralmente se inserem em discursos patologizantes e/ou estereotipados, sendo ignoradas as vozes/subjetividades das próprias interessadas, que são passíveis de sofrer iniquidade. As percepções sobre o corpo, a sexualidade, o envelhecimento, e a especificidade das vivências homossexuais na menopausa de um ponto de vista interdisciplinar é praticamente inexistente, pois em nossa sociedade todas as mulheres são consideradas tacitamente heterossexuais; assim como a heterossexualidade é pré-requisito de toda disciplina, havendo grande resistência a sua análise enquanto categoria cultural. 

       Nesse sentido, não estabelecendo nenhuma hipótese a ser comprovada, investigo as narrativas da menopausa em mulheres que se relacionam com mulheres, afetiva e sexualmente. Para tanto, estou realizando entrevistas com perguntas semi-abertas, individuais e coletivas, e também por e-mail, para coleta de informações precisas sobre essa fase da vida. Dessa forma, solicito que mulheres homossexuais que estejam entrando ou já estejam na menopausa, de 40 a 80 anos, que queiram e possam colaborar com essa pesquisa, que escrevam para o endereço abaixo. Qualquer contato pode contar com a certeza do compromisso ético do sigilo absoluto.

        Esta pesquisa vem a ser minha tese no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis/SC). É principalmente através das entrevistas, que poderei recolher subsídios que sirvam para a elaboração de novas e necessárias políticas públicas de saúde e educacionais para essa fase da vida das mulheres homossexuais, além de pretender favorecer a visibilidade homossexual, importante passo na busca por respeito e cidadania para todas as mulheres.  
Nádia Covolan defendeu sua tese em 2005 e nos enviou uma cópia para publicação. Clique aqui para acessá-la.    

Endereço para contato: nira1@terra.com.br 

UOO On-line (18/07/04)

 

[1] Filósofa (UFPR), Mestre em Tecnologia (CEFET-PR), doutoranda do Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas (UFSC).

[2] Sobre as  falas oficiais, podem ser consultados os sites: SOBRAC (Sociedade Brasileira do Climatério) – http://www.menopausa.org.br; e FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) – http://www.febrasgo.org.br.

[3] Al;gumas pesquisas: ARAÚJO, M.J e NISSIN, R. Dossiê Menopausa.  OLIVEIRA, Fátima. O Relatório do estado da arte da TRH. Bioetica@widesoft.com.br; MENDONÇA, Eliane A. P de. A influência dos padrões sócio culturais na problemática da mulher no climatério-menopausa. Rio de janeiro: 1996; CIORNAI, Selma. Da contracultura à menopausa – vivências e mitos da passagem.São Paulo: Oficina de textos, FAPESP, 1999; AMARAL, L. Menopausa: uma crise de produção? Gênero Plural, Curitiba: Ed. UFPR, 2002; BIFFI, E.F. Menopausa: uma perspectiva de compreensão. Cadernos Espaço Feminino, v. ½, ano2, jan/dez 1995; TRENCH, Belkis. Imagens, falas, gestos de mulheres caiçaras sobre envelhecimento e menopausa. Projeto Ondas. JURBERG, Marise B. Climatério e sexualidade – Fatores psicossociais. Revista Scientia Sexualis Eletrônica. Universidade Gama Filho, domingo, 01 de dez de 2002.

[4] Susan Sperling e Yewoubdar Beyene, “ A Pound of Biology and a Pinch of Culture or a Pinch of Biology and a Pound of Culture? The Necessity of Integrating Biology and Culture in Reproductive Studies, In Women in Human Evolution, ed. Hager.
 

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