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O
discurso biomédico, hegemônico, compreende que o corpo na menopausa
adquire uma sintomatologia típica, física e mental, e apesar de
vários profissionais relativizarem essa concepção na clínica diária,
relacionar menopausa com doença de carência hormonal, tratável com a
suspeita TRH (terapia de reposição hormonal), continua na ordem do
dia [2].
Nesse contexto, feministas e estudiosas de gênero[3]
tem criticado estas abordagens, que relacionam a parada da
menstruação e da fertilidade com outras perdas, da feminilidade, da
libido, da juventude, da beleza e da saúde. Nas pesquisas elaboradas
por feministas e teóricas de gênero, os tópicos destacados para
perceber as diferentes vivências na menopausa, são: os problemas do
ninho vazio, do envelhecimento, da estética, da realização
profissional, da vida entre cuidados com filhos e a casa, os
percalços do casamento, a afetividade, a sexualidade. Os resultados
dessa pesquisas apontam que, enquanto várias mulheres passam por
essa fase sem problemas, a maioria apresenta um sofrimento maior que
o biológico. Os problemas físicos mencionados são transitórios
e podem ser tratados com terapias alternativas à TRH. O sofrimento
que aparece, porém, fortemente, está ligado a perda do status
social da mulher, educada para ser mãe e cuidar do lar, de filhos e
de um marido, quando essas funções sofrem transformações ou acabam.
A grande maioria das mulheres assumem o discurso de perdas propalado
pela biomedicina e pela sociedade, de que na menopausa deixam de ser
desejáveis e ficam fora do mercado do casamento, da
conquista afetiva e sexual. Nesse sentido, o olhar desejante do
interesse sexual masculino, aparece como um importante fator para o
bem estar das mulheres nessa fase.
No entanto, todas as pesquisas sobre a menopausa, tanto nos
discursos biomédicos quanto nos das feministas/de gênero, se
referem e foram realizados com mulheres heterossexuais,
para quem tais tópicos e olhares importam fundamentalmente.
Outrossim, estudos antropológicos estão demonstrando que as
experiências físicas da menopausa diferem conforme e em resposta a
valores culturais, de classe social, nutrição e parceiros de
casamento [4].
Dessa forma, a consideração da heterossexualidade como
orientação sexual tácita da mulher, não teria a conseqüência de
tornar essas análises sobre a menopausa, restritas a um tipo de
afetividade, estética, desejos, estilo de vida, problemas,
sofrimentos, anseios, planos, expectativas?
Nesse contexto, as mulheres homossexuais constituem um
campo especial de pesquisa, porque rompem com os padrões de gênero
estabelecidos, não se definem em função do desejo masculino, nem na
sua maioria, do sistema de reprodução vigente, ou no mínimo,
problematizam tais categorias. Considerando que nos tornamos
humanos mediante a cultura, porém, isso não nos permite ignorar o
corpo, seriam diversas as experiências das mulheres
homossexuais, em relação aos discursos que vinculam menopausa a
perdas, ou às percepções de perdas da feminilidade, da libido, da
beleza, da procriação, da saúde?
Outrossim, os
discursos biomédicos insistem em que mulheres homossexuais
teriam maior tendência a tumores malignos, assim como maior
propensão ao uso de álcool e drogas; essas informações, porém, não
contrastam com a falta de estatísticas sobre o homossexualismo
feminino? São ignorados os preconceitos que o tornam invisível?
Também é dito que as homossexuais não freqüentam médicos
assiduamente; esses dados não estarão levando em conta apenas as
visitas ginecológicas, restringindo, assim, a saúde ao aparelho
reprodutor?; e como isso é dito se os profissionais médicos não
perguntam a orientação de suas clientes? Dessa forma, as abordagens
sobre o homossexualismo feminino, geralmente se inserem em discursos
patologizantes e/ou estereotipados, sendo ignoradas as
vozes/subjetividades das próprias interessadas, que são passíveis de
sofrer iniquidade. As percepções sobre o corpo, a
sexualidade, o envelhecimento, e a especificidade das vivências
homossexuais na menopausa de um ponto de vista interdisciplinar é
praticamente inexistente, pois em nossa sociedade todas as
mulheres são consideradas tacitamente heterossexuais; assim como a
heterossexualidade é pré-requisito de toda disciplina, havendo
grande resistência a sua análise enquanto categoria cultural.
Nesse sentido, não estabelecendo nenhuma hipótese a ser
comprovada, investigo as narrativas da menopausa em mulheres que se
relacionam com mulheres, afetiva e sexualmente. Para tanto, estou
realizando entrevistas com perguntas semi-abertas, individuais e
coletivas, e também por e-mail, para coleta de
informações precisas sobre essa fase da vida. Dessa forma, solicito
que mulheres homossexuais que estejam entrando ou
já estejam na menopausa, de 40 a 80 anos, que queiram e
possam colaborar com essa pesquisa, que escrevam para o endereço
abaixo. Qualquer contato pode contar com a certeza do compromisso
ético do sigilo absoluto.
Esta pesquisa vem a ser minha tese no Doutorado
Interdisciplinar em Ciências Humanas na UFSC (Universidade Federal
de Santa Catarina – Florianópolis/SC). É principalmente através das
entrevistas, que poderei recolher subsídios que sirvam para a
elaboração de novas e necessárias políticas públicas de saúde e
educacionais para essa fase da vida das mulheres homossexuais,
além de pretender favorecer a visibilidade homossexual,
importante passo na busca por respeito e cidadania para todas as
mulheres. Nádia
Covolan defendeu sua tese em 2005 e nos enviou uma cópia para
publicação. Clique
aqui para acessá-la.
Endereço para contato:
nira1@terra.com.br
UOO On-line
(18/07/04)
Filósofa (UFPR), Mestre
em Tecnologia (CEFET-PR), doutoranda do Programa Interdisciplinar
em Ciências Humanas (UFSC).
Sobre as falas oficiais,
podem ser consultados os sites: SOBRAC (Sociedade Brasileira do
Climatério) – http://www.menopausa.org.br;
e FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de
Ginecologia e Obstetrícia) – http://www.febrasgo.org.br.
Al;gumas pesquisas: ARAÚJO, M.J e NISSIN, R. Dossiê
Menopausa.
OLIVEIRA, Fátima. O Relatório
do estado da arte da TRH. Bioetica@widesoft.com.br;
MENDONÇA, Eliane A. P de. A
influência dos padrões sócio culturais na problemática da mulher
no climatério-menopausa. Rio de janeiro: 1996; CIORNAI,
Selma. Da contracultura à menopausa
– vivências e mitos da passagem.São Paulo: Oficina de
textos, FAPESP, 1999;
AMARAL, L.
Menopausa: uma crise de produção? Gênero
Plural, Curitiba: Ed. UFPR, 2002; BIFFI, E.F. Menopausa: uma
perspectiva de compreensão. Cadernos
Espaço Feminino, v. ½, ano2, jan/dez 1995; TRENCH, Belkis. Imagens,
falas, gestos de mulheres caiçaras sobre envelhecimento e
menopausa.
Projeto Ondas. JURBERG, Marise B.
Climatério e sexualidade – Fatores psicossociais.
Revista Scientia Sexualis
Eletrônica. Universidade
Gama Filho, domingo, 01 de dez de 2002.
Susan
Sperling e Yewoubdar Beyene, “ A Pound of Biology and a Pinch of
Culture or a Pinch of Biology and a Pound of Culture? The
Necessity of Integrating Biology and Culture in Reproductive
Studies, In Women in Human Evolution, ed. Hager.
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