Já foi para cama com a amada, fez de tudo e no auge da
coisa, jorrou como chafariz? Morreu de gozo e vergonha, pensando que
tinha feito xixi sem querer? Confundiu-se, enrolou-se e reprimiu o
que, ainda por cima, foi um de seus melhores momentos de prazer?
Bom, então fez mal. De acordo com médicos e sexólogos, desde os
anos 50, a ejaculação feminina é considerada um fato indiscutível
pelo menos para algumas mulheres. Inclusive o que hoje se argumenta
é que toda mulher é capaz de ejacular, variando apenas a
quantidade de líquido expelido (de algumas gotinhas a verdadeiros
jatos) relativa à capacidade de contração muscular de cada dama
durante o orgasmo.
E de onde vem essa fonte de prazer, você deve estar se
perguntando. Vem de minúsculas glândulas, chamadas parauretrais,
situadas na esponja uretral, também conhecida como Ponto G, tecido
esponjoso que envolve a uretra (canal que conecta a bexiga ao
exterior, por onde se faz xixi) e que faz parte do sistema clitoriano.
Durante o orgasmo, contrações musculares expelem este fluido das
glândulas parauretrais, por dois igualmente minúsculos ductos,
localizados em ambos os lados do canal uretral, em pouca ou muita
quantidade. Pesquisas realizadas no fluido expelido, de uma maneira
geral, revelaram pouca uréia e creatinina, componentes da urina e
bem mais glicose e ácido prostático fosfatoso, elementos
semelhantes aos encontrados no sêmen. Assim, de posse dessas
informações, as potentes ejaculadores que andavam se reprimindo e
até fazendo cirurgias para incontinência urinária, com vistas a não
molhar a cama ou a(o) parceira(o), sentiram-se menos constrangidas e
passaram a soltar a franga (ou seria melhor dizer a rolha?).
AS PIONEIRAS NO ASSUNTO
Bom, o certo é que essa nova expressão de prazer (digo
nova, por ser de recente discussão, pois até Shakeaspeare já
falava nas “águas do meu amor”) deve muito de sua vinda à luz
às médicas ligadas ao movimento feminista que, desde a década de
setenta, passaram a redesenhar a anatomia do clitóris, demonstrando
que sua parte visível (a glande) nada mais era que a ponta de um
iceberg, cujo corpo possuía uma estrutura interna muito maior e
mais complexa do que a sonhada pelos vãos tratados de anatomia
tradicional. Foram elas que apontaram a esponja uretral, como
responsável pela ejaculação feminina e, mais recentemente,
esclareceram ser esta esponja parte do sistema clitoriano e não
simplesmente um ponto ou região como indicado, na década de 50,
pelo médico Ernest Grafenberg (1881-1957), a quem o ponto G deve o
nome).
Além delas, outras pesquisadoras vêm aprofundando seus
estudos sobre este órgão sexual feminino e lançando novas luzes
sobre o assunto. Em 1998, a urologista australiana Helen O’Connell
dissecou o clitóris de cadáveres de mulheres de várias idades,
revelando que o corpo desse órgão de forma triangular, que se
conecta à glande, é tão largo quanto à primeira junta do
polegar, com dois braços de até 9 centímetros que adentram o
corpo e terminam a apenas alguns milímetros das pontas da coxa.
Entre esses braços, há, em cada lado da cavidade vaginal, dois
bulbos, anteriormente chamados de bulbos do vestíbulo, por haverem
sido considerados como partes da vagina, e que O’Connell agora
quer denominar de bulbos do clitóris. A médica também afirma que,
ao contrário da visão anatômica tradicional, o clitóris sim se
conecta à uretra, rodeando-a em três lados enquanto um quarto lado
se inserta na parede frontal da vagina. De fato, de acordo com
O’Connell, os nervos cavernosos do clitóris se estendem ao longo
das paredes do útero, da vagina, da bexiga e da uretra. Assim
sendo, uma das aplicações, entre várias, dos estudos dessa médica,
é a preservação da função sexual em mulheres que precisam ser
submetidas a cirurgias na região pélvica, como retirada do útero,
cirurgia para incontinência urinária e câncer na bexiga.
Legal mesmo será comparar a visão de O’Connell e a das
médicas feministas e ver no que
elas diferem e no que acrescentam dados uma a outra a outra. Com
certeza, após tanto tempo sem a atenção devida aos seus órgãos
sexuais, as mulheres só têm a ganhar com essa comparação bem
como com as novas descobertas sobre o tema que seguramente surgirão
nos próximos anos.
LEVE A TOALHA PARA A CAMA
Enfim, embora, em algumas pesquisas com ejaculadoras, seus
fluidos tenham apresentado mais elementos de urina do que de ejaculação,
hoje a maioria das (os) entendidas (os) bota a mão no fogo pela
verdadeira ejaculação feminina, fruto – repetindo – das glândulas
parauretrais, situadas na esponja uretral, que pode ser sentida ao
se inserir o dedo na parte da frente da vagina, pressionando na direção
do osso púbico ou do monte-de-vênus. Além disso, de qualquer
forma, é sempre bom lembrar que tem gente que também gosta de
praticar o que as gringas chamam de watersports (esportes aquáticos)
ou golden showers (banho dourado ou chuva dourada), práticas
sexuais que envolvem urina de uma ou de outra forma. Saídas do armário
sadomasoquista pela chegada da AIDS e pela necessidade da discussão
de todas as práticas sexuais com vistas à prevenção, os
watersports também passaram a ser citados nos folhetos de prevenção
as DST para lésbicas, perdendo um pouco de seu caráter de tabu.
Assim, seja por uma coisa ou outra, para alcançar ou intensificar o
orgasmo, se for o seu caso, vale mais a pena perder a vergonha,
achar uma companheira igualmente potente ou pelo menos compreensiva
e simplesmente levar a toalha para cama.
Bibliografia
CHALKER,
Rebecca. Female Ejaculation: Fact or Fiction? In: NYC?LHF. New York
City Lesbian Health Fair, May 4, 1996, p. 79-83.
CHALKER, Rebecca. Anatomy of the Clitoris. In: NYC/LHF. New
York City Lesbian Health Fair, May 4, 1996, p. 85-89.
WILLIANSON, Susan & NOWAK, Rachel. The Truth about women.
In: New Scientist Planet Science. 1998.
KEFER, Alex. Female Ejaculation – Just What is it? In: The
Human Sexuality Web.
CHUI, Glennda. Research called faulty on female sexual organ.
In: San Jose Mercury News, July 29, 1998.
Versão original deste texto: Boletim Ousar
Viver, ano 5, n. 10, Fevereiro de 2000. Míriam Martinho. Edição
atual, 29/12/05.
Míriam Martinho, 53, é editora do
site Um Outro Olhar On-line.
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