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A
obesidade nada mais é que o excessivo acúmulo de gordura nos tecidos.
A estabilidade do peso corpóreo nos indivíduos normais é garantida
pelo equilíbrio entre a quantidade de calorias que se ingere e a
quantidade de calorias queimadas pelo organismo.
Mas todos
conhecemos pessoas que comem bastante, são sedentárias e nem por isso
têm problemas com a balança. O que nos leva a pensar que por trás da
obesidade existem outras questões que não só a comida. É sobre isso
que eu as convido a refletir comigo.
O
corpo é o nosso habitat, é dentro dele, e através dele, que temos
contato com o mundo. É com ele que vemos o mundo e o mundo nos vê. Ele
é um reflexo das nossas emoções e conflitos. Pensamentos, sensações e
brigas internas que não admitimos nem para nós mesmas muitas vezes se
revelam no nosso corpo e são visíveis a um bom “leitor”. Para nos
tornarmos um bom leitor de corpos, basta termos disponibilidade para o
outro, observar, ouvir e ver o outro sem criticar ou julgar.
Muitas
vezes acontece de você estar aborrecida com algo, triste e sua postura
revelar seu estado mesmo sem você perceber, fazendo com que as pessoas
mais próximas perguntem: “Tudo bem? Você está bem? Quer conversar?”.
Em outras
vezes, você está feliz e sua fisionomia e expressão corporal declaram
isso aos quatro ventos. Em momentos como esse, sua postura se torna
mais ereta, seu rosto mais aberto.
Essas
manifestações do corpo acontecem de forma tão automática, que nem
paramos para refletir sobre elas, da mesma forma que agimos de maneira
bastante intuitiva em relação à expressão corporal do outro.
Dependendo da cara do nosso chefe, protelamos aquele papo sério que
queríamos levar com ele ou o pedido de algo que precisávamos.
Também é
através dos sinais corporais que percebemos — e até com mais clareza —
o momento certo de discutir a relação com a nossa parceira, ou mesmo
se ela enfrentou alguma coisa difícil naquele dia.
Essa
aptidão para a leitura
corporal torna-se tão natural em nós, tão afinada com o passar do
tempo, que, se prestarmos uma real atenção em alguém, somos capazes de
intuir
até mesmo suas sensações e sentimentos.
No
entanto, com o desenvolvimento da
fala e toda a correria da vida moderna, fomos deixando de prestar
atenção à linguagem do corpo, os seres humanos foram se tornando mais
egoístas e isolados. Como, porém, a capacidade para essa leitura está
intrínseca em nós, mesmo não prestando muita atenção somos capazes de
fazer uso do nosso corpo para, inclusive, nos protegermos. E o modo
como muitas vezes fazemos isso é utilizando o mecanismo da gordura.
A
psicossomática é a área da psicologia que se dedica a estudar a
relação das doenças com os conflitos psíquicos. Quando vivemos
conflitos de trabalho, por exemplo, nosso corpo pode reagir de
diversas formas.
Certa
vez, um rapaz de 24 anos que trabalhava em uma empresa de segurança se
viu em uma situação difícil. Seus parceiros de trabalho tinham o vício
de beber em serviço e batizavam todos que pertenciam àquela equipe. O
rapaz, evangélico e preocupado em sustentar a sua família, não poderia
delatá-los sob pena de perder o emprego, mas também não queria tomar
parte naquilo. No terceiro plantão do grupo, o rapaz pisou em falso e
torceu o pé, tendo que ficar afastado do serviço por quinze dias.
Quando retornou ao trabalho, soube que tinha sido transferido para
outra equipe.
Essa
história mostra o quanto nossos conflitos psíquicos atuam em nosso
corpo. Apesar de, didaticamente, separarmos o corpo da mente, essa
divisão não existe. Somos um ser único e nosso sistema, ou seja, nosso
corpo e mente, atua junto para nos manter vivos.
É
bem verdade, que a lógica do corpo nem sempre está de acordo com a
lógica da mente. Pode ser que aos olhos de alguns o rapaz tivesse como
se livrar daquela situação sem precisar “optar”, mesmo que
inconscientemente, por uma solução tão dolorosa. Porém, sua mente
estava tão fixada no problema de relacionamento com seus colegas que
nenhuma saída ocorreu a ele. E aí o corpo, muito sábio, se encarregou
de agir em favor de todos.
Quando
falamos em obesidade, podemos até arriscar a dizer que, em muitos
casos, pode exister um conflito sexual por trás dela, um medo da
pessoa de não saber lidar direito com sua sexualidade. O corpo então
vai em socorro dela, criando uma capa de gordura para mascarar o
problema e protegê-la de enfrentar aquela dificuldade.
Sílvia Monteiro
tem 40 anos e é psicóloga clínica e professora.
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