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Saúde & Beleza
 
O Corpo Fala
(A questão da Obesidade entre lésbicas)

Sílvia Monteiro
 

A obesidade nada mais é que o excessivo acúmulo de gordura nos tecidos. A estabilidade do peso corpóreo nos indivíduos normais é garantida pelo equilíbrio entre a quantidade de calorias que se ingere e a quantidade de calorias queimadas pelo organismo.

Mas todos conhecemos pessoas que comem bastante, são sedentárias e nem por isso têm problemas com a balança. O que nos leva a pensar que por trás da obesidade existem outras questões que não só a comida. É sobre isso que eu as convido a refletir comigo.

O corpo é o nosso habitat, é dentro dele, e através dele, que temos contato com o mundo. É com ele que vemos o mundo e o mundo nos vê. Ele é um reflexo das nossas emoções e conflitos. Pensamentos, sensações e brigas internas que não admitimos nem para nós mesmas muitas vezes se revelam no nosso corpo e são visíveis a um bom “leitor”. Para nos tornarmos um bom leitor de corpos, basta termos disponibilidade para o outro, observar, ouvir e ver o outro sem criticar ou julgar.

Muitas vezes acontece de você estar aborrecida com algo, triste e sua postura revelar seu estado mesmo sem você perceber, fazendo com que as pessoas mais próximas perguntem: “Tudo bem? Você está bem? Quer conversar?”.

Em outras vezes, você está feliz e sua fisionomia e expressão corporal declaram isso aos quatro ventos. Em momentos como esse, sua postura se torna mais ereta, seu rosto mais aberto.

Essas manifestações do corpo acontecem de forma tão automática, que nem paramos para refletir sobre elas, da mesma forma que agimos de maneira bastante intuitiva em relação à expressão corporal do outro. Dependendo da cara do nosso chefe, protelamos aquele papo sério que queríamos levar com ele ou o pedido de algo que precisávamos.

Também é através dos sinais corporais que percebemos — e até com mais clareza — o momento certo de discutir a relação com a nossa parceira, ou mesmo se ela enfrentou alguma coisa difícil naquele dia.

Essa aptidão para a leitura corporal torna-se tão natural em nós, tão afinada com o passar do tempo, que, se prestarmos uma real atenção em alguém, somos capazes de intuir até mesmo suas sensações e sentimentos.

No entanto, com o desenvolvimento da fala e toda a correria da vida moderna, fomos deixando de prestar atenção à linguagem do corpo, os seres humanos foram se tornando mais egoístas e isolados. Como, porém, a capacidade para essa leitura está intrínseca em nós, mesmo não prestando muita atenção somos capazes de fazer uso do nosso corpo para, inclusive, nos protegermos. E o modo como muitas vezes fazemos isso é utilizando o mecanismo da gordura.

A psicossomática é a área da psicologia que se dedica a estudar a relação das doenças com os conflitos psíquicos. Quando vivemos conflitos de trabalho, por exemplo, nosso corpo pode reagir de diversas formas.

Certa vez, um rapaz de 24 anos que trabalhava em uma empresa de segurança se viu em uma situação difícil. Seus parceiros de trabalho tinham o vício de beber em serviço e batizavam todos que pertenciam àquela equipe. O rapaz, evangélico e preocupado em sustentar a sua família, não poderia delatá-los sob pena de perder o emprego, mas também não queria tomar parte naquilo. No terceiro plantão do grupo, o rapaz pisou em falso e torceu o pé, tendo que ficar afastado do serviço por quinze dias. Quando retornou ao trabalho, soube que tinha sido transferido para outra equipe.

Essa história mostra o quanto nossos conflitos psíquicos atuam em nosso corpo. Apesar de, didaticamente, separarmos o corpo da mente, essa divisão não existe. Somos um ser único e nosso sistema, ou seja, nosso corpo e mente, atua junto para nos manter vivos.

É bem verdade, que a lógica do corpo nem sempre está de acordo com a lógica da mente. Pode ser que aos olhos de alguns o rapaz tivesse como se livrar daquela situação sem precisar “optar”, mesmo que inconscientemente, por uma solução tão dolorosa. Porém, sua mente estava tão fixada no problema de relacionamento com seus colegas que nenhuma saída ocorreu a ele. E aí o corpo, muito sábio, se encarregou de agir em favor de todos.

Quando falamos em obesidade, podemos até arriscar a dizer que, em muitos casos, pode exister um conflito sexual por trás dela, um medo da pessoa de não saber lidar direito com sua sexualidade. O corpo então vai em socorro dela, criando uma capa de gordura para mascarar o problema e protegê-la de enfrentar aquela dificuldade.


Sílvia Monteiro tem 40 anos e é psicóloga clínica e professora.
 

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