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Auto-estima e ciúmes entre mulheres
Sílvia Monteiro
 

Duas funcionárias de uma companhia de transportes estavam em horário de almoço, sentadas na sala de refeições da empresa, distantes do restante do grupo que lá almoçava, quando uma delas começou a gritar e a esmurrar a mesa, fazendo acusações de infidelidade à outra.

Antônia, vítima das agressões, ficou extremamente envergonhada e cabisbaixa, enquanto Alexandra, não contente com as ofensas verbais, arremessou na cara da outra um prato cheio de espaguete à bolonhesa. O macarrão foi escorrendo pelo rosto de Antônia e manchando sua blusa, branca como um véu de noiva. Foi como sangue jorrando de um corte aberto.

Todos no refeitório ficaram atônitos com a cena, que causou nos colegas um misto de espanto e repulsa. E de pena — pena daquela que sempre fora uma colega de profissão correta, simpática, pronta a ajudar. Querida Antônia!

Ninguém ousou dizer nada, nem teve qualquer reação, pois não queriam constranger Antônia ainda mais. Desejavam com seu silêncio mostrar solidariedade, e em silêncio seus colegas permaneceram, como se não houvessem visto nem ouvido nada.

Assim que Antônia saiu da sala de refeições (Alexandra já tinha ido embora), como era de se esperar, o burburinho tomou conta do refeitório. As pessoas não se entendiam, queriam falar todas ao mesmo tempo e diziam que desde que Alexandra começara a trabalhar na empresa sabiam que algo ruim um dia iria acontecer.

Antônia era chefe de setor, trabalhava havia muitos anos nessa empresa de transportes, era muita querida e sempre agira com lisura e companheirismo, “mesmo com aquele “jeito esquisito dela, como muitos comentavam. Mas todo mundo nem mais notava que Antônia parecia ter algo diferente. Quando, porém, Alexandra, uma jovem muito bonita e explosiva, começou a trabalhar no mesmo departamento de Antônia, como sua subordinada, uma espécie de tragédia começou a se anunciar, pois era notório o interesse dela na chefe. E por fim deu nisso.

Através desse pequeno instantâneo da vida de Antônia e Alexandra, pode-se perceber como a auto-estima muitas vezes se entrelaça na personalidade de uma pessoa e como isso pode acabar comprometendo setores importantes de sua vida, sem que ela nem se dê conta do que realmente a motivou a agir de tal modo.

A auto-estima é um tema que tem provocado diversos estudos e pesquisas, e não só na área da psicologia. Observa-se que pessoas com baixa auto-estima tendem a também desenvolver mais facilmente transtornos físicos, afirmam especialistas da área psicossomática, que dizem existir ainda uma relação direta entre a maneira como pensamos e as doenças que temos.

Uma pessoa que desenvolve sua auto-estima de forma positiva adquire possibilidades de atuar melhor em qualquer área, seja ela profissional, afetiva ou de suas relações interpessoais. Foi o que aconteceu com Antônia, que conquistou naturalmente seu espaço profissional e tinha o respeito e a admiração de seus colegas de trabalho.

A discriminação é fator preponderante no desenvolvimento do autoconceito. Em nossa sociedade, pessoas diferentes do usual geralmente acabam ficando isoladas, o que provoca no indivíduo, ou reforça nele, uma visão pobre de si mesmo. Porém, quando as pessoas que tendem a ser discriminadas por sua orientação sexual ou escolhas de vida têm uma auto-estima elevada, elas conseguem se destacar não só por seu modo de vida como por sua capacidade e seus talentos, com isso angariando o respeito das pessoas que a rodeiam.

Em qualquer relação afetiva, as duas pessoas são responsáveis pelo sucesso daquele amor, sejam elas homens ou mulheres com seus diferentes condicionamentos. Na relação lésbica, fica muito evidente que, apesar de serem ambas mulheres, sempre haverá uma com uma atitude mais Yan (masculina) e outra com uma postura mais Yin (feminina), e que essa relação só se estabelece se assim for, pois necessitamos de equilíbrio entre o Yan e o Yin.

Na cena que presenciamos entre Antônia e Alexandra, percebe-se, pela atitude da Alexandra, que a convivência entre Yin e Yan estava estabelecida. Ficou evidente que existia insegurança e medo entre as duas, e daí podemos pressupor que, se alguma expectativa catastrófica importante se confirma, como a chegada de outra pessoa que passa a conviver com o casal (pode ser até a sogra), as parceiras tendem a se sentir ressentidas e abandonadas, estimuladas pelo alto grau de passionalidade que existe na relação. Os sentimentos e as emoções são vividos, então, com alto grau de intensidade.

E disso, de emoções à flor da pele, a maioria das mulheres entende bem, pois, no decorrer da história da humanidade, coube a elas o papel de vivenciarem mais a emoção enquanto a razão teria ficado a cargo do homem. A mulher, além de abrigar no útero a própria espécie, tem também que garantir a vida através de seus seios, de onde jorra o primeiro alimento de seus filhos. É durante a amamentação que a criança desenvolve sua relação com o mundo e, se a mãe faz um contato olho no olho com o bebê nessa situação, ela dá os primeiros passos no sentido de ajudá-lo a adquirir confiança num mundo onde para ele tudo é ainda muito novo. Portanto, é necessário que a mãe se permita estar bem próxima de suas próprias emoções para poder sentir as necessidades da criança que ainda não sabe se expressar completamente e que tem tudo para aprender.

Tornando-se então a emoção parte integrante da personalidade de toda mulher, na relação lésbica é o encontro de duas personalidades emotivas que ocorre. Dependendo de como essas mulheres estão postadas na vida, psicologicamente falando, essa dose extra de emotividade pode permanecer adormecida, assim como também pode vir à tona a qualquer momento. E quando há problemas de auto-estima baixa em uma das parceiras, isso pode ser o estopim de uma crise, por exemplo, de ciúmes. Lembre-se: uma auto-estima rebaixada só faz com que a pessoa fique imaginando e elaborando fatos tristes consigo mesma em relação à amada.

Foi o que parece ter acontecido com Alexandra, que, numa explosão de ciúmes, levou para o âmbito profissional questões da vida íntima dela e de Antônia, expondo desnecessariamente a ambas. No próximo artigo, discutiremos como a auto-estima influencia na escolha da parceira.

Sílvia Monteiro tem 40 anos e é psicóloga clínica e professora. Colaboração de Ágata Dourado
 

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