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Duas
funcionárias de uma companhia de transportes estavam em horário de
almoço, sentadas na sala de refeições da empresa, distantes do
restante do grupo que lá almoçava, quando uma delas começou a gritar e
a esmurrar a mesa, fazendo acusações de infidelidade à outra.
Antônia, vítima das agressões, ficou extremamente
envergonhada e cabisbaixa, enquanto Alexandra, não contente com as
ofensas verbais, arremessou na cara da outra um prato cheio de
espaguete à bolonhesa. O macarrão foi escorrendo pelo rosto de Antônia
e manchando sua blusa, branca como um véu de noiva. Foi como sangue
jorrando de um corte aberto.
Todos no refeitório ficaram atônitos com a cena, que causou
nos colegas um misto de espanto e repulsa. E de pena — pena daquela
que sempre fora uma colega de profissão correta, simpática, pronta a
ajudar. Querida Antônia!
Ninguém ousou dizer nada, nem teve qualquer reação, pois
não queriam constranger Antônia ainda mais. Desejavam com seu silêncio
mostrar solidariedade, e em silêncio seus colegas permaneceram, como
se não houvessem visto nem ouvido nada.
Assim que Antônia saiu da sala de refeições (Alexandra já
tinha ido embora), como era de se esperar, o burburinho tomou conta do
refeitório. As pessoas não se entendiam, queriam falar todas ao mesmo
tempo e diziam que desde que Alexandra começara a trabalhar na empresa
sabiam que algo ruim um dia iria acontecer.
Antônia era chefe de setor, trabalhava havia muitos anos
nessa empresa de transportes, era muita querida e sempre agira com
lisura e companheirismo, “mesmo com aquele “jeito esquisito dela”,
como muitos comentavam. Mas todo mundo nem mais notava que Antônia
parecia ter algo diferente. Quando, porém, Alexandra, uma jovem muito
bonita e explosiva, começou a trabalhar no mesmo departamento de
Antônia, como sua subordinada, uma espécie de tragédia começou a se
anunciar, pois era notório o interesse dela na chefe. E por fim deu
nisso.
Através desse pequeno instantâneo da vida de Antônia e
Alexandra, pode-se perceber como a auto-estima muitas vezes se
entrelaça na personalidade de uma pessoa e como isso pode acabar
comprometendo setores importantes de sua vida, sem que ela nem se dê
conta do que realmente a motivou a agir de tal modo.
A auto-estima é um tema que tem provocado diversos estudos
e pesquisas, e não só na área da psicologia. Observa-se que pessoas
com baixa auto-estima tendem a também desenvolver mais facilmente
transtornos físicos, afirmam especialistas da área psicossomática, que
dizem existir ainda uma relação direta entre a maneira como pensamos e
as doenças que temos.
Uma pessoa que desenvolve sua auto-estima
de forma positiva adquire possibilidades de atuar melhor em
qualquer área, seja ela profissional, afetiva ou de suas relações
interpessoais. Foi o que aconteceu com Antônia, que conquistou
naturalmente seu espaço profissional e tinha o respeito e a admiração
de seus colegas de trabalho.
A discriminação é fator preponderante no desenvolvimento do
autoconceito. Em nossa sociedade, pessoas diferentes do usual
geralmente acabam ficando isoladas, o que provoca no indivíduo, ou
reforça nele, uma visão pobre de si mesmo. Porém, quando as pessoas
que tendem a ser discriminadas por sua orientação sexual ou escolhas
de vida têm uma auto-estima elevada, elas conseguem se destacar não só
por seu modo de vida como por sua capacidade e seus talentos, com isso
angariando o respeito das pessoas que a rodeiam.
Em qualquer relação afetiva, as duas pessoas são
responsáveis pelo
sucesso
daquele amor, sejam elas homens ou mulheres com seus diferentes
condicionamentos. Na relação lésbica, fica muito evidente que, apesar
de serem ambas mulheres, sempre haverá uma com uma atitude mais Yan
(masculina) e outra com uma postura mais Yin (feminina), e que essa
relação só se estabelece se assim for, pois necessitamos de equilíbrio
entre o Yan e o Yin.
Na cena que presenciamos entre Antônia e Alexandra,
percebe-se, pela atitude da Alexandra, que a convivência entre Yin e
Yan estava estabelecida. Ficou evidente que existia insegurança e medo
entre as duas, e daí podemos pressupor que, se alguma expectativa
catastrófica importante se confirma, como a chegada de outra pessoa
que passa a conviver com o casal (pode ser até a sogra), as parceiras
tendem a se sentir ressentidas e abandonadas, estimuladas pelo alto
grau de passionalidade que existe na relação. Os sentimentos e as
emoções são vividos, então, com alto grau de intensidade.
E disso, de emoções à flor da pele, a maioria das mulheres
entende bem, pois, no decorrer da história da humanidade, coube a elas
o papel de vivenciarem mais a emoção enquanto a razão teria ficado a
cargo do homem. A mulher, além de abrigar no útero a própria espécie,
tem também que garantir a vida através de seus seios, de onde jorra o
primeiro alimento de seus filhos. É durante a amamentação que a
criança desenvolve sua relação com o mundo e, se a mãe faz um contato
olho no olho com o bebê nessa situação, ela dá os primeiros passos no
sentido de ajudá-lo a adquirir confiança num mundo onde para ele tudo
é ainda muito novo. Portanto, é necessário que a mãe se permita estar
bem próxima de suas próprias emoções para poder sentir as necessidades
da criança que ainda não sabe se expressar completamente e que tem
tudo para aprender.
Tornando-se então a emoção parte integrante da personalidade de toda
mulher, na relação lésbica é o encontro de duas personalidades
emotivas que ocorre. Dependendo de como essas mulheres estão postadas
na vida, psicologicamente falando, essa dose extra de emotividade pode
permanecer adormecida, assim como também pode vir à tona a qualquer
momento. E quando há problemas de auto-estima baixa em uma das
parceiras, isso pode ser o estopim de uma crise, por exemplo, de
ciúmes. Lembre-se: uma auto-estima rebaixada só faz com que a pessoa
fique imaginando e elaborando fatos tristes consigo mesma em relação à
amada.
Foi o que parece ter acontecido com Alexandra, que, numa explosão de
ciúmes, levou para o âmbito profissional questões da vida íntima dela
e de Antônia, expondo desnecessariamente a ambas. No próximo artigo,
discutiremos como a auto-estima influencia na escolha da parceira.
Sílvia Monteiro
tem 40 anos e é psicóloga clínica e professora. Colaboração de
Ágata Dourado
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