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Auto-estima: fundamental para a saúde lésbica
Sílvia Monteiro
 

Uma amiga me disse estar muito triste porque se sentiu discriminada quando, ao entrar num banco, a porta giratória travou. Ela afirma ter sido barrada porque é lésbica. Ao ouvir isso, perguntei se só ela havia sido barrada (até aquele momento eu nem sabia da sua opção sexual). Ela disse que sim. 

Fico pensando no que possa tê-la feito imaginar e acreditar que foi vítima de discriminação, porque hoje é bastante comum acontecer de a porta do banco travar. Os bancos afirmam ser por motivos de segurança, e muitas pessoas já passaram e passam por essa chateação todos os dias. Fatos corriqueiros que geram em algumas pessoas mal-estar ou sentimentos de inadequação e vergonha costumam revelar problemas com auto-estima.

E o que é auto-estima? Bem, existem várias definições, mas ficaremos com a seguinte, muito simples, registrada pelo dicionário Michaelis: é a “aceitação que o indivíduo tem de si mesmo”. Quando se fala em aceitação, pensamos como pode ser fácil, por exemplo, aceitar e admirar quem amamos, tudo que a pessoa faz até pode ser aceito e perdoado por nós. Sempre achamos motivos para perdoar o objeto do nosso amor, e esse sentimento envolve respeito e compaixão.

Compaixão é a capacidade de se colocar no lugar do outro e sofrer pelo sofrimento dele, e nos mobilizarmos para encontrar com ele saídas e soluções para seus problemas. É interessante como temos a capacidade de sentir compaixão pelas pessoas e nem sempre a sentimos por nós mesmas. A auto-estima vem nos solicitar exatamente essa sensibilidade, essa percepção a nosso respeito. 

A única maneira de alimentarmos nossa auto-estima é nos felicitarmos por nossas conquistas, reconhecermos que somos capazes de executar algumas coisas bem e outras não tão bem, que temos, sim, qualidades.  

Quando agimos dessa forma e sabendo qual é a nossa capacidade, somos capazes de encarar com mais tranqüilidade nossas imperfeições sem nos envergonhar e reunimos energia suficiente para modificá-las, assim como para procurar ajuda quando necessário. 

Em seu livro O mal-estar na civilização, Freud dizia que a sociedade desde há muito tempo vem construindo suas regras para uma melhor convivência em grupo, e que essas regras são passadas de pai para filho. Freud afirma ser essa a função dos pais. Isso mostra como, desde muito cedo, o indivíduo tem necessidade de viver em comunidade — essa mesma que costuma se mostrar repressora e não perdoa quem não se adapta e/ou segue suas regras. 

Quando o indivíduo opta por viver à margem desse sistema, dessas regras, ele sofre as conseqüências disso, e elas se revelam sob várias formas. Uma é a segregação. 

Como forma de sobrevivência psíquica, a pessoa segregada busca o convívio com outros segregados, formando-se então as “tribos”. As tribos são compostas de iguais que, por motivos diferentes, sentem-se segregados da sociedade dita “normal” e se juntam para trocar idéias e informações e se ajudarem mutuamente. 

No entanto, o grande problema que essas pessoas enfrentam é o da baixa auto-estima, uma vez que as regras da sociedade, intrinsecamente atuando na psique, aparecem sob a forma de  autocobrança, sentimentos de inadequação e de se sentir constantemente alvo de críticas. 

Essa é uma sensação contínua e, mesmo sem termos consciência dela, é como algo que vai minando ao poucos nossas forças psíquicas e a capacidade de alimentarmos positivamente nossa auto-estima em todas as áreas de nossa vida. 

É importante e necessário ressaltar que esse é um sentimento vivido por todas as pessoas, ou seja, mesmo por aquelas que adotam um comportamento aprovado pelos padrões estabelecidos pela sociedade. A diferença é que, quando fazemos parte de uma tribo, seja ela qual for, nos tornamos evidentes dentro dessa sociedade e muito mais evidentes para nós mesmos, sendo cobrados e nos autocobrando muito mais.

É claro que há solução, que podemos nos sentir melhores, mais adequados e, conseqüentemente termos uma auto-estima mais positiva. Para isso, torna-se necessária a prática de uma reflexão consciente, que vai nos ajudar a descobrir onde estamos e para onde queremos ir. Esse é um pensar que não só nos ajuda a estabelecer objetivos práticos mas também a desenvolver uma atividade mental mais saudável. 

No próximo artigo, vamos ver como a auto-estima interfere nas nossas relações.

Sílvia Monteiro tem 40 anos e é psicóloga clínica e professora.
 

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