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Uma amiga me disse estar muito triste porque se sentiu
discriminada quando, ao entrar num banco, a porta giratória
travou. Ela afirma ter sido barrada porque é lésbica. Ao ouvir
isso, perguntei se só ela havia sido barrada (até aquele momento
eu nem sabia da sua opção sexual). Ela disse que sim.
Fico pensando no que possa tê-la feito imaginar e acreditar que
foi vítima de discriminação, porque hoje é bastante comum
acontecer de a porta do banco travar. Os bancos afirmam ser por
motivos de segurança, e muitas pessoas já passaram e passam por
essa chateação todos os dias. Fatos corriqueiros que geram em
algumas pessoas mal-estar ou sentimentos de inadequação e vergonha
costumam revelar problemas com auto-estima.
E o que é auto-estima? Bem, existem várias definições, mas
ficaremos com a seguinte, muito simples, registrada pelo
dicionário Michaelis: é a “aceitação que o indivíduo tem de si
mesmo”. Quando se fala em aceitação, pensamos como pode ser fácil,
por exemplo, aceitar e admirar quem amamos, tudo que a pessoa faz
até pode ser aceito e perdoado por nós. Sempre achamos motivos
para perdoar o objeto do nosso amor, e esse sentimento envolve
respeito e compaixão.
Compaixão é a capacidade de se colocar no lugar do outro e sofrer
pelo sofrimento dele, e nos mobilizarmos para encontrar com ele
saídas e soluções para seus problemas. É interessante como temos a
capacidade de sentir compaixão pelas pessoas e nem sempre a
sentimos por nós mesmas. A auto-estima vem nos solicitar
exatamente essa sensibilidade, essa percepção a nosso respeito.
A única maneira de alimentarmos nossa auto-estima é nos
felicitarmos por nossas conquistas, reconhecermos que somos
capazes de executar algumas coisas bem e outras não tão bem, que
temos, sim, qualidades.
Quando agimos dessa forma e sabendo qual é a nossa capacidade,
somos capazes de encarar com mais tranqüilidade nossas
imperfeições sem nos envergonhar e reunimos energia suficiente
para modificá-las, assim como para procurar ajuda quando
necessário.
Em seu livro O mal-estar na civilização, Freud dizia que a
sociedade desde há muito tempo vem construindo suas regras para
uma melhor convivência em grupo, e que essas regras são passadas
de pai para filho. Freud afirma ser essa a função dos pais. Isso
mostra como, desde muito cedo, o indivíduo tem necessidade de
viver em comunidade — essa mesma que costuma se mostrar repressora
e não perdoa quem não se adapta e/ou segue suas regras.
Quando o indivíduo opta por viver à margem desse sistema, dessas
regras, ele sofre as conseqüências disso, e elas se revelam sob
várias formas. Uma é a segregação.
Como forma de sobrevivência psíquica, a pessoa segregada busca o
convívio com outros segregados, formando-se então as “tribos”. As
tribos são compostas de iguais que, por motivos diferentes,
sentem-se segregados da sociedade dita “normal” e se juntam para
trocar idéias e informações e se ajudarem mutuamente.
No entanto, o grande problema que essas pessoas enfrentam é o da
baixa auto-estima, uma vez que as regras da sociedade,
intrinsecamente atuando na psique, aparecem sob a forma de
autocobrança, sentimentos de inadequação e de se sentir
constantemente alvo de críticas.
Essa é uma sensação contínua e, mesmo sem termos consciência dela,
é como algo que vai minando ao poucos nossas forças psíquicas e a
capacidade de alimentarmos positivamente nossa auto-estima em
todas as áreas de nossa vida.
É importante e necessário ressaltar que esse é um sentimento
vivido por todas as pessoas, ou seja, mesmo por aquelas que adotam
um comportamento aprovado pelos padrões estabelecidos pela
sociedade. A diferença é que, quando fazemos parte de uma tribo,
seja ela qual for, nos tornamos evidentes dentro dessa sociedade e
muito mais evidentes para nós mesmos, sendo cobrados e nos
autocobrando muito mais.
É claro que há solução, que podemos nos sentir melhores, mais
adequados e, conseqüentemente termos uma auto-estima mais
positiva. Para isso, torna-se necessária a prática de uma reflexão
consciente, que vai nos ajudar a descobrir onde estamos e para
onde queremos ir. Esse é um pensar que não só nos ajuda a
estabelecer objetivos práticos mas também a desenvolver uma
atividade mental mais saudável.
No próximo artigo, vamos ver como a auto-estima interfere nas
nossas relações.
Sílvia Monteiro
tem 40 anos e é psicóloga clínica e professora.
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