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AGOSTO – MÊS DA CONSCIÊNCIA LÉSBICA 
Míriam Martinho
 

Embora se queira restringir o mês de agosto à chamada visibilidade lésbica, a verdade histórica é que, por força do destino, o mês acabou congregando personagens e eventos ligados à formação da cultura e da organização lésbica no Brasil.

No dia 10 de agosto de 1982, falecia Sandra Mara Herzer, egressa da Febem, apadrinhada pelo então deputado Eduardo Matarazzo Suplicy, uma das primeiras lésbicas brasileiras a ter suas experiências de vida registradas em livro (A queda para o Alto, Editora Vozes, 1982). Sandra Mara era o que chamamos atualmente de butch, uma lésbica masculinizada, cuja sensibilidade artística e humana, no entanto, pode ser constatada em sua obra, contrastando com a visão estereotipada das butches como simples imitadoras de homens. Baseada na vida de Sandra Mara, em 1987, também o cineasta Sérgio Toledo produziu o filme Vera, premiado em festivais nacionais e internacionais de cinema (a atriz Ana Beatriz Nogueira ganhou o Urso de Prata do Festival de Berlim –1987 - por sua atuação como Vera). Leia mais sobre Sandra.  Leia mais sobre butches.  Veja vídeos sobre butches

No dia 19 de agosto de 1983, cansadas dos abusos, incluindo violência policial, dos donos do bar lésbico que freqüentavam, o Ferro’s Bar, que as impediam de vender seu boletim dirigido às lésbicas, num bar sustentado por lésbicas, um grupo de mulheres (do primeiro coletivo de lésbicas do Brasil GALF) fez uma demonstração de protesto em frente a esse estabelecimento, com apoio de ativistas gays, feministas e parlamentares da época. Primeira demonstração do gênero no Brasil, precursora em 20 anos dos beijaços e outras demonstrações públicas contra o preconceito, foi chamada pelo Lampião da Esquina (jornal gay da época) de nosso pequeno Stonewall Inn. Motivo de muito orgulho, todos os anos efetuamos atividades para lembrar a data que consagramos como dia do orgulho lésbico. Clique aqui para ver a edição 2007 do 19 de agosto

No final do mês de agosto, resgatamos ainda a memória de Rosely Roth (21/08/59-28/08/90), a mais “visível” ativista lésbica de nossa história. Em sua breve trajetória de vida, Rosely se destacou por sua participação na mídia escrita e televisa (programas de televisão, rádio, artigos em publicações, lésbicas, feministas) e igualmente por sua participação em inúmeros encontros dos movimentos feminista e homossexual de sua época, sempre levando a questão lésbica.

Não faz muito tempo, uma dessas feministas homossexuais equivocadas, disse que era mórbido lembrar de mulheres que se suicidaram (como Sandra Mara e Rosely) e que era preciso “criar” datas mais “alegres” para celebrar. Adepta de um feminismo cada vez mais avesso de si mesmo, essa feminista não entendeu que o que se celebra ao resgatar essas biografias, bem como as biografias de Safo, Virgínia Wolf e Ana Cristina César (que também se suicidaram) não é a morte, mas sim a vida dessas mulheres. Vidas que merecem ser resgatadas e celebradas porque brilharam intensamente por sua coragem e talento, apesar das tentativas dos opressores e das opressoras de todos os tempos de apagá-las da História.

E para terminar esta matéria, convido a todos a clicar aqui e ler o artigo Vera, sobre o filme baseado na vida de Sandra Mara Herzer, escrito por Rosely Roth em 1987 e publicado no primeiro número do (na época) boletim Um Outro Olhar. Embora escrito há quase 20 anos, o texto trata de temas atualíssimos como a questão das identidades de gênero, das butches e das/dos transexuais.

 

Míriam Martinho, 53, é editora do site Um Outro Olhar On-line. Leia mais aqui.
 

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