|
Um
Outro Olhar número 9
novembro de 1989/janeiro de 1990
1979-1989:
10 anos de movimentação lésbica no Brasil
Míriam Martinho
Falar dos últimos dez anos de ativismo
lésbico, em apenas um artigo de boletim, não é tarefa fácil. Mesmo
tendo optado por enfocar apenas os pontos mais marcantes da
trajetória percorrida, ou seja, aqueles que determinaram mudanças
significativas no rumo dos acontecimentos, sei que não darei conta
de transcrever toda a imensa gama de experiências, sentimentos e
aprendizados ocorridos.
Apesar disso, decidi assumir o desafio do empreendimento com o
intuito não só de deixar um registro da história lésbica recente
como também para que este possa servir como possível referencial
para futuros trabalhos ou para outros grupos lésbicos. Esclareço,
ainda, que o histórico a seguir refere-se fundamentalmente aos
grupos de que participei, a saber, o GRUPO LÉSBICO-FEMINISTA (LF) e,
em particular, o GRUPO Ação LÉSBICA-FEMINISTA (GALF), embora tenham
existido outros grupos, de estrutura mais informal, que citarei no
final deste artigo.
SOMOS-LF : 1979-1981 - ASSUMINDO -
No final da década de 70 (1978), inicio da chamada abertura política
brasileira e, por certo, como reflexo da organização homossexual, em
todo o mundo, surgem o jornal Lampião da Esquina, no Rio, e o grupo
SOMOS (Grupo de Afirmação Homossexual), em São Paulo.
Minha aproximação do Somos se deu por meio do convite de uma amiga
para que comparecesse a um debate, sobre minorias, que ocorreria, na
Universidade de São Paulo (USP), no começo de 1979. Com a namorada
de então, fui ao debate e tive oportunidade de entrar em contato com
os rapazes do Somos bem como com algumas mulheres que,
posteriormente, viriam a fazer parte do Movimento Homossexual.
Um pouco depois do debate, passamos a freqüentar a casa de um dos
integrantes do grupo e as reuniões que lá aconteciam periodicamente.
Fomos das primeiras mulheres a ingressar no Somos e a ter uma
atuação significativa. Nesta fase, alimentado por artigos publicados
no Lampião, o grupo cresceu espantosamente com as reuniões atingindo
um número de até cem pessoas que se aglomeravam, onde possível, para
trocar experiências pessoais e afirmar sua homossexualidade. Mais
mulheres passaram a integrar o grupo e logo nossas diferenças com os
homens despontaram, levando, progressivamente à separação.
A partir de reuniões exclusivamente femininas, organizadas com o
objetivo de escrever um artigo sobre lesbianismo, para o Lampião de
maio de 79, algumas de nós sentiram a necessi-dade de criar um
subgrupo, só de mulheres, dentro do SOMOS, não apenas pela
consciência de nossa especificidade, enquanto mulheres e lésbicas,
mas também para fazer frente ao machismo dos "bichas" (como
costumávamos chamá-los) que não era brincadeira.
Demos, ao subgrupo, o nome de Lésbico-Feminísta (LF) e fomos, pouco
a pouco, nos separando efetivamente do SOMOS e nos aproximando do
Movimento de Mulheres. Evidentemente, essa independência era vista,
pelos homens, como divisionista, e, em conseqüência, não transcorreu
tranquilamente. Muitos atritos e ressentimentos ocorreriam de ambos
os lados, embora nunca atingissem o nível de hostilidade que fomos
obrigadas a encarar no Movimento Feminista. Neste, à parte pequenas
reuniões com grupos e ativistas independentes, estreamos mesmo
durante o II Congresso da Mulher Paulista, em março de 1980, para
divertimento de umas poucas e desespero da maioria que nunca havia
visto lésbicas assim tão públicas e não sabia o que fazer com tal
escândalo.
Enquanto não decidiam, fomos ficando e nos considerando, cada vez
mais parte do Movimento de Mulheres e não tanto do Movimento
Homossexual. A ratificação deste posicionamento viria com a
separação definitiva do SOMOS, em 17 de maio de 80, quando deixamos
de ser subgrupo para nos tornarmos um grupo independente.
Nosso namoro, com o Movimento Feminista (MF), por seu lado, teve seu
ápice durante o Encontro de Grupos Feministas, ern Valinhos,
interior de São Paulo, em junho de 80. Lá os últimos senões a nossa
presença foram rechaçados pelas integrantes mais "progressistas" do
próprio movimento e, lá também, os primeiros sinais de divergência
interna começaram a surgir.
O Grupo Lésbico-Feminista voltou de Valinhos bem cotado, indo,
inclusive, dividir uma sede, no bairro paulista de Pinheiros (Rua
Fidalga), com o grupo Brasil-Mulher, que fora, a princípio, um dos
mais contrários a sua participação no MF. Entretanto, embora
realizando atividades externas constantes e com um projeto de jornal
articulado, para breve, além de núcleo de artes, o LF não conseguiu
superar as divergências pessoais, entre suas integrantes, sofrendo
uni "racha", já no final de 1980 (outubro), que levou algumas de
suas dissidentes para o incipiente grupo SOS-MULHER e outras para a
formação do TERRA-MARIA, OPÇÃO LÉSBICA que não vingou.
O LF ainda prosseguiu, até outubro de 1981, inclusive publicando o
número 0 do jornal ChanacomChana e participando de outros eventos
feministas e homossexuais, mas não resistiu ao desgaste de suas
militantes e aos ataques de suas dissidentes que, agora, no
SOS-MULHER não viam mais muita razão para a existência de um grupo
especificamente lésbico.
CONSIDERAÇÕES POLÍTICAS

Analisar esta primeira etapa de movimentação lésbica é importante
tanto para entender o que não deu certo quanto para entender o
percurso e os percalços do grupo lésbico que viria a seguir, o GALF
(GRUPO AÇÃO LÉSBICA-FEMINISTA).
Com o fim do Grupo Lésbico-Feminista, a maioria de suas integrantes
ou deixou de militar, ou transferiu-se definitivamente para o
SOS-MULHER, grupo que, apesar de lutar contra a violência contra a
mulher, propunha implicitamente o enrustimento para as lésbicas que
o compunham, mesmo o enrustimento, quer dizer, a invisibilidade,
sendo uma das maiores violências que a sociedade nos impõe. Como o
grupo tratava basicamente com mulheres heterossexuais, de todas as
classes, temia-se que a explicitação do lesbianismo as afugentasse.
O resultado desta política, de uma perspectiva lésbica, chegava a
ser patético, pois, embora formado majoritariamente por mulheres
homossexuais, o SOS abordava todos os tipos de violência, Sofridos
pelas mulheres, menos os referentes à vivência da maioria de suas
integrantes.
Para entender porque as lésbicas do SOS acatavam essa situação, vale
a pena voltar um pouquinho atrás e retraçar, ideologicamente, a
trajetória do LF dentro do Movimento Feminista.
Após o impacto inicial do aparecimento do LF, no movimento, este
último adotou, consciente ou inconscientemente, a tática de abrir
espaços de aceitação individual, para as integrantes do grupo, ao
mesmo tempo que despolitizava a questão do lesbianismo. Considerando
que a aceitação é para as lésbicas, mais do que para outros
segmentos discriminados, um verdadeiro calcanhar de Aquiles, a
tática mostrou-se exemplar, pois aquelas que "morderam a isca",
zelosas do posto recém-conquistado, tornaram-se verdadeiros cães de
guarda da despolitização, atacando, ferozmente, as antigas
companheiras que permaneciam mobilizadas.
O pretexto ideológico, para a despolitização, era a noção de que
grupos especificamente lésbicos criavam uma "identidade lésbica",
coisa - segundo elas, é claro - cerceadora da sexualidade, pois
"naturalmente", hoje você pode estar com uma mulher, amanhã com um
homem, como quem troca de roupa, e isto não tem qualquer implicação
social, política, econômica, ou cultural, tratando-se apenas de uma
questão de "opção sexual", ou seja, de cama, portanto, assunto
privado para ser resolvido, entre as quatro paredes de um quarto, e
não através de ação coletiva.
Evidentemente, fica difícil sustentar este ponto de vista quando, no
mínimo, se observa os efeitos terríveis do preconceito sobre as
vidas das lésbicas. Por conseguinte, tornava-se imprescindível
minimizar o preconceito e, até mesmo, banalizá-lo, dissolvendo-o na
questão da discriminação às mulheres, em geral, e simultaneamente
caracterizando as posições contrárias à despolitização, como
"radicais" e ultrapassadas.
Este tipo de visão, que conduz as lésbicas a uma alienação de sua
própria realidade, foi, de fato, bem mais produto da necessidade das
feministas que haviam se "tornado" lésbicas, no contato com o LF, de
manterem suas novas "preferências sexuais" em sigilo, do que de uma
visão de libertação de quaisquer possíveis identidades limitadoras.
As conseqüências desta política ainda se fazem sentir nos dias de
hoje, embora não de maneira tão forte, e são responsáveis, em parte,
pela inexistência de qualquer outro grupo lésbico-feminista, além do GALF, que perdurasse, ao longo de dez anos.
GRUPO AÇÃO LÉSBICA FEMINISTA (GALF) -
1982-1984 AGITANDO -
Como disse, anteriormente, com o fim do Grupo Lésbico-Feminista (LF),
a maioria de suas integrantes ou deixou de militar ou ingressou no
SOS-MULHER. As demais, por sua vez, foram, pouco a pouco, se
reestruturando, reunindo-se com outras lésbicas e, por fim, dando
início ao GALF, a nível formal, ainda no final de 1981 e, a nível
efetivo, a partir de 82.
A primeira fase do GALF, mais ou menos de 82 a 84, caracterizou-se
pela realização de vários eventos, na sede que o grupo dividia com o
grupo homossexual OUTRA COISA, no centro de São Paulo, pela
continuidade da publicação do CHANACOMCHANA *, em forma de boletim,
e pela participação em debates, encontros e "agitos", em geral,
tanto do Movimento Homossexual quanto do Feminista. Também, nesta
fase, começamos a coletar publicações sobre lesbianismo, feminismo e
homossexualidade e a manter contatos com grupos do exterior. Por
fim, nesse período, iniciamos ainda uma aproximação com lésbicas
não-organizadas, vendendo o CHANACOMCHANA (CCC) em bares e boates de
São Paulo.
Dos eventos realizados na sede do grupo, destacaram-se os debates
com o psicanalista e teórico francês Félix Guattari, com a escritora
feminista italiana Dacia Maraini, com partidos políticos da época,
sobre Homossexualidade e Política, e com feministas, sobre
Lesbianismo e Feminismo, além da comemoração do aniversário do
Movimento Homossexual e do próprio GALF, com a exibição de filmes,
slides, vídeos, fotos e a realização de festas.
Das atividades externas, destacaram-se a participação no I FESTIVAL
DAS MULHERES NAS ARTES; a FESTA POLÍTICA do 8 de março de 1983 (Dia
Internacional da Mulher); o encontro das entidades civis com o então
governador Franco Montoro; a mobilização para libertação do
jornalista António Crisóstomo (preso no Rio, por causa de sua
homossexualidade) e, principalmente a "invasão" do Ferro's Bar,
tradicional recinto lésbico de São Paulo, onde a venda do boletim
ChanacomChana fora proibida.
Para exigir o direito de vender o boletim livremente, convocamos
grupos homossexuais, feministas e alguns políticos e realizamos urna
manifestação de protesto na porta do bar. Na base do "abre-abre"
geral, adentramos o "pedaço" e obtivemos a, nem um pouco espontânea,
permissão de um dos proprietários para vender o CCC, sem maiores
problemas, dali para frente. Foi muito divertido!
Entretanto, embora os eventos, acima citados, tenham sido os de
maior expressão pública, a manifestação que mais me agradou
realizar, neste período do GALF, foi a ocorrida durante um pequeno
debate, sobre violência contra mulher, organizado pelo SOS-MULHER,
onde aparecemos mascaradas e distribuímos e lemos um panfleto que
falava de nossa opressão específica.
Reproduzo, abaixo, o conteúdo do panfleto, que redigi, em abril de
1982, com muita emoção, não só porque o considero tão atual, hoje em
dia, quanto o foi, naquele tempo, mas também porque ele exemplifica
a verdadeira batalha que sempre tivemos que travar, com o Movimento
Feminista, para conseguirmos a politização da questão lésbica.
"SOBRE VIOLÊNCIA"
"ESTAMOS AQUI PARA EXPOR A NOSSA OPRESSÃO. OLHEM PARA
NOSSOS ROSTOS
E VERÃO MÁSCARAS.
ESTAMOS AQUI PARA MOSTRAR COMO TEMOS QUE VIVER DIARIAMENTE: TEMOS
QUE VIVER ASSIM, COM MÁSCARAS.
TEMOS QUE VIVER MASCARADAS, NAS CASAS DE NOSSOS PAIS, PARA NÃO
PERDERMOS RELAÇÕES AFETIVAS QUE NOS SÃO CARAS.
TEMOS QUE VIVER MASCARADAS, NAS ESCOLAS, PARA NÃO SERMOS
RIDICULARIZADAS, HUMILHADAS, AGREDIDAS E, ATÉ MESMO, IMPEDIDAS DE
CONSEGUIR UM NÍVEL MÍNIMO DE EDUCAÇÃO.
TEMOS QUE ESTAR AQUI, MASCARADAS, PORQUE NÃO PODEMOS DENUNCIAR NOSSA
OPRESSÃO SEM MÁSCARAS, PORQUE CORREMOS O RISCO DE PERDER NOSSAS
FAMÍLIAS, NOSSOS EMPREGOS, NOSSOS DIREITO DE ESTUDAR SEM QUALQUER
TIPO DE PRESSÃO.
A SOCIEDADE NOS IMPÕE A ESQUIZOFRENIA COMO PRÁTICA DE VIDA E NOS
DEIXA NUM BECO SEM SAÍDA NA MEDIDA QUE, PRATICAMENTE, IMPOSSIBILITA
ATÉ A PRÓPRIA DENÚNCIA DESTA SITUAÇÃO.
PRECISAMOS ROMPER ESTE CÍRCULO VICIOSO. QUEREMOS TIRAR A MÁSCARA
ANTES QUE ELA NOS COLE À FACE E NÃO POSSAMOS MAIS NOS DISTINGUIR
DELA.
QUEREMOS QUE CADA MULHER TIRE A SUA MÁSCARA. QUEREMOS PROPOR QUE O
MOVIMENTO FEMINISTA SEJA UM ESPAÇO ONDE AS MULHERES HOMOSSEXUAIS NÃO
PRECISEM UTILIZAR NENHUM TIPO DE MÁSCARA.
QUEREMOS PROPOR QUE O MOVIMENTO FEMINISTA NÃO REPRODUZA O DISCURSO
POLITIQUEIRO MACHISTA DAS LUTAS GERAIS CONTRA AS LUTAS ESPECÍFICAS E
QUE TODAS AS QUESTÕES REFERENTES A TODAS AS MULHERES SEJAM
IGUALMENTE PRIORITÁRIAS.
IGUALMENTE PRIORITÁRIAS MESMO PORQUE A MULHER HOMOSSEXUAL TAMBÉM É
NEGRA, A MULHER HOMOSSEXUAL TAMBÉM É DONA-DE-CASA, A MULHER
HOMOSSEXUAL TAMBÉM É PROSTITUTA, A MULHER HOMOSSEXUAL TAMBÉM É
OPERÁRIA, A MULHER HOMOSSEXUAL TAMBÉM ESTÁ NA PERIFERIA E CALAR A
RESPEITO DESTAS MÚLTIPLAS OPRESSÕES TAMBÉM NOS TORNA CÚMPLICES DA
VIOLÊNCIA."
Evidentemente, o panfleto visava salientar a contradição existente
na política do SOS-MULHER, cujo slogan era "O SILÊNCIO É CÚMPLICE DA
VIOLÊNCIA", mas que, na prática, pregava o silêncio a respeito da
opressão lésbica. A reação das mulheres do SOS foi a pior possível,
como se pode imaginar, mas nós e muitas outras mulheres da platéia
curtimos muito o "happening" das máscaras.
POR UM MOVIMENTO LÉSBICO
Esta primeira fase do GALF terminou, dramaticamente, com a perda da
sede que dividíramos, por quase dois anos e meio, com o grupo Outra
Coisa de Ação Homossexualista (Rua Aurora, Centro de São Paulo).
Devido às inúmeras atividades públicas que desenvolvíamos naquele
espaço, que não era uma sala comercial, passamos a receber
reclamações dos outros inquilinos, ironicamente muitos deles
homossexuais, quanto ao barulho e aquele "entra-e-sai", como diziam.
No fim da história, o proprietário do imóvel nos deu um ultimato: ou
deixávamos de fazer atividades públicas ou teríamos que ir embora.
Como o trabalho dos dois grupos, naquela época, era muito centrado
na realização de debates, reuniões, encontros, projeções de filmes,
etc., como já citado, consideramos melhor partir.
Nossa decisão, entretanto, deparou-se com o acirramento da crise
econômica brasileira e o aumento extorsivo dos aluguéis,
principalmente de salas comerciais. Resumindo, após duas tentativas
frustradas de manter um espaço autônomo, vimo-nos obrigadas a
recorrer a uma casa, cedida aos grupos feministas, de então, pela
Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, precisamente com o
objetivo de permitir que as organizações de mulheres sobrevivessem.
Todavia, embora a casa tivesse sido cedida para abrigar mais de um
grupo feminista, o Centro de Informação Mulher (CIM), que lá chegara
em primeiro lugar, decidiu considerar o espaço como sendo só seu.
De fato, a principio, quando a cessão da casa havia sido negociada,
optáramos por não dividir nenhum espaço com grupos feministas,
principalmente porque um dos grupos cessionários era o SOS-MULHER
com quem não tínhamos boas relações políticas, dadas às divergências
quanto à questão do lesbianismo, como já comentado.
Entretanto, o SOS-MULHER não conseguira sobreviver o tempo
necessário para tomar posse do espaço, e nossa situação também não
nos permitia muita escolha. Perdemos todo o ano de 1984 em
negociações, primeiro, para dividirmos o local (ou melhor, a sala),
depois, em tentativas de negociações para permanecermos no espaço.
Na verdade, o CIM estava prestes a receber um financiamento da
Fundação Ford e queria ocupar todas as dependências da casa. Neste
sentido, nossa presença era um estorvo que precisava ser eliminado a
qualquer preço.
Apesar de várias tentativas de acordo, as mulheres do CIM
conseguiram despejar todo o material do GALF em minha casa, numa das
atitudes mais desleais, injustas, arbitrárias e violentas que já
vivi na vida. E isto com a conivência de outros grupos e ativistas
"feministas" para quem o silêncio não era mais cúmplice da
violência.
Bom, a história toda se encontra relatada, em detalhes, no boletim
ChanacomChana 7, e, para quem se interessar, basta solicitá-lo por
carta. Portanto, não vou mais me ater aos acontecimentos,
propriamente ditos, e sim partir para uma análise política do
ocorrido, visto que ele representou uma mudança definitiva de nossas
relações com o Movimento Feminista.
POR UM GRUPO INDEPENDENTE LÉSBICO

Passados cinco anos desse lamentável episódio e passado igualmente
muito da revolta e da mágoa que ele nos trouxe, é possível fazer uma
análise objetiva dos fatos ocorridos e inseri-la no contexto mais
amplo desses primeiros anos de movimentação lésbica no Brasil.
Como quase todo grupo lésbico que está começando a organizar-se,
costumávamos considerar nossa existência impossível tanto fora do
Movimento Homossexual quanto, e principalmente, do Movimento
Feminista. Confundíamos possíveis alianças com os próprios objetivos
do grupo, esquecendo que os dois movimentos em questão têm
prioridades distintas das do Movimento Lésbico.
O resultado deste equívoco, em especial, em relação ao MF, foi um
imenso desperdício de tempo, energia e bom humor que poderiam ter
sido aplicados, com resultados bem melhores, na estrutura do próprio
GALF, que, nesse período, vivia ao sabor de "caprichos" que sequer
eram seus.
Organizar um grupo lésbico, no Brasil, ou qualquer outro país do
chamado Terceiro Mundo, é, por si só, tarefa para Amazona nenhuma
botar defeito, dadas às dificuldades socioeconômicas, políticas e
culturais que enfrentamos. Não é possível, para a maioria que
milita, viver da militância, pois o trabalho é geralmente
voluntário, e isto torna a definição das prioridades e do tempo que
será empregado para realizá-las um assunto de suma importância.
Neste contexto, é necessário conciliar seu trabalho profissional,
seus projetos de estudo e de lazer, além do tempo para namorar, com
a militância, que você julga necessária para melhorar a qualidade de
vida das lésbicas em geral. Não dá, portanto, a não ser que o grupo
tenha uma estrutura muito sólida, para investir em movimentos cujo
apoio é sempre tão incerto e circunstancial. E também não dá para
saber como conseguir esta estrutura tão sólida, se você perde o
pouco tempo de que dispõe em atividades que não visam à
concretização de seus próprios objetivos.
Nossa experiência com o Movimento Feminista até a ex¬pulsão efetuada
pelo CIM, é um exemplo claro disso. Costumávamos encaminhar questões
como as do aborto, creches, planejamento familiar, projetos de
gráfica, etc... e participar de manifestações contra a violência a
mulheres espancadas, ou mortas, por seus maridos, mas quando íamos
levantar nossas próprias questões tínhamos que enfrentar o
reacionarismo de grupos como o SOS-MULHER que não só não falava
contra a discriminação às lésbicas como também não admitia que
falássemos.
Enquanto tivemos sede, abríamos o espaço da mesma para reuniões de
organização do 8 de março, Dia Internacional da MUlher, e para
feministas que o requisitavam para suas atividades específicas.
Quando necessitamos dividir um espaço, com um grupo feminista, numa
casa, publicamente assumida como sendo para grupos feministas,
acabamos expulsas porque o grupo, que lá estava, considerava seu
trabalho mais importante que o nosso e queria mais era que nós nos
fu..... Em suma, aprendemos, a duras penas, que as prioridades do
Movimento Feminista e as nossas não são idênticas, e que as questões
lésbicas tendem a ser diluídas no mesmo.
Embora já estejamos, há bastante tempo, distantes desses problemas,
notamos que eles persistem no interior do incipiente Movimento
Lésbico Latino Americano, onde alguns grupos parecem não distinguir
um movimento do outro, priorizando atividades que nem sempre trazem
um avanço para a organização lésbica. Também por esta razão,
consideramos nosso referencial histórico bastante relevante para a
luta lésbica.
Não se trata de uma proposta politicamente separatista, pois,
embora, pessoalmente, tenha muito respeito e admiração pelas
correntes radicais, não creio que sua estratégia funcione em países
em desenvolvimento. Trata-se, isto sim, de uma proposta independente
e realista que procura manter laços com grupos feministas e
homossexuais, sem, entretanto, ceder na execução de suas
prioridades.
A segunda fase do GALF, que se estende praticamente até hoje,
comprova a eficácia desta perspectiva, visto que, no mínimo, o grupo
conseguiu comprovar a viabilidade da organização lésbica autônoma.
GALF-1985/1987/1989:
ALEGRIAS E DISSABORES DA AUTONOMIA
AS ALEGRIAS
O GALF destas fases caracteriza-se por um trabalho voltado
principalmente para mulheres lésbicas, organizadas ou
não-organizadas. Embora mantivéssemos o comparecimento a eventos
feministas, deixamos de participar em sua organização, poupando todo
tempo possivel para nossas próprias atividades.
Fomos aos III e IV Encontros Feministas Latino Americanos e do
Caribe (julho de 85), em Bertioga (SP), e em Taxco, no México
(outubro de 87) e aos 8° e 9° Encontros Feministas Nacionais, em
Petrópolis (RJ) e em Garanhuns(PE), respectivamente em 86 e 87,
sempre organizando e/ou participando de reuniões sobre lesbianismo
só para lésbicas e/ou para lésbicas e heterossexuais.
Livres da velha idéia de prestarmos serviços para o Movimento
Feminista, com o objetivo de sermos "aceitas", pudemos tanto
desenvolver melhor nosso trabalho quanto até mesmo receber o
reconhecimento do mesmo por parte das participantes dos encontros,
que compareceram as reuniões em número elevado.
A nova política também nos trouxe bons resultados a nível interno,
pois concentrando tempo e energia em nossos próprios objetivos
pudemos estruturá-los mais adequadamente. A utilização da mídia,
através da participação em programas de rádio, TV e de entrevistas a
jornais e revistas, divulgou o grupo como nunca antes, tornando-o
conhecido a nível nacional e trazendo uma enxurrada de cartas de
mulheres lésbicas de todo o Brasil.
O estreitamento de laços com grupos e ativistas lésbicas do exterior
nos possibilitou um aumento significativo de material, através do
intercâmbio de comparecimento a dois encontros lésbicos, o primeiro
em Genebra, Suíça, na 8ª Conferência do Serviço de Informação
Lésbica Internacional (ILIS) e o segundo, em Cuernavaca, México, no
I Encontro Lésbico Feminista Latino Americano e do Caribe, em
outubro de 87. Os dois eventos e as reuniões que efetivamos, aqui
mesmo no Brasil, com as companheiras de Genebra do ILIS nos
ensinaram inúmeras coisas.
Neste período também demos início ao sistema de associação do GALF,
onde, através de cotizações, mulheres de diferentes estados puderam
passar a colaborar conosco, embora ainda mantivéssemos a venda do
boletim CHANACOMCHANA, nos bares lésbicos, e por meio de
assinaturas.
A partir de 88, adotamos exclusivamente o sistema de associação,
editando o boletim UM OUTRO OLHAR, a principio, de dois em dois
meses, e depois, de três em três meses, como ocorre no momento, e
remetendo-o apenas para associadas.
Finalmente, neste período, organizamos também um debate, aberto ao
público em geral, chamado VIVÊNCIAS LÉSBICAS, em 85, e duas
reuniões, com associadas do GALF, em 87, ambos os eventos igualmente
bem sucedidos. Em 87 ainda, passamos a publicar o boletim UM OUTRO
OLHAR, em substituição ao CHANACOMCHANA.
OS DISSABORES: PROBLEMAS DE ORGANIZAÇÃO
Falar dos problemas de organização que enfrentamos, nesta fase,
implica analisar um pouco o estágio de consciência política das
lésbicas brasileiras que aprendemos a conhecer através de milhares
de cartas, vindas de todos os cantos do Brasil,e através de algumas
atividades de militância, além da experiência advinda de contatos
pessoais.
Infelizmente, o nível de consciência ainda é baixíssimo, com a
maioria vivendo na base do cada uma por si e os homens contra todas.
O preconceito e a marginalização dele decorrente, com a inevitável
escassez, ou mesmo falta, de locais de socialização, faz com que a
maioria das lésbicas tente transformar qualquer espaço acessível em
um espaço de socialização, mesmo que este não seja adequado para tal
papel.
Um dos problemas mais sérios que enfrentamos, na organização do GALF,
quando nossas reuniões eram abertas, originava-se precisamente deste
contexto. Embora nossas reuniões fossem de trabalho e isto também
fosse declarado, com todas as letras, para as pessoas que se diziam
interessadas em participar, o fato é que elas vinham com uma
perspectiva de bater papo, fazer amizades, arrumar namorada e etc.,
gerando um enorme descompasso de intenções, dentro de um mesmo
recinto, bem como inevitáveis conflitos.
No fim das contas, quem queria trabalhar não podia fazê-lo direito,
em razão do clima de festa, e quem estava em festa não podia
mantê-la porque a reunião era de trabalho. Acabava-se chegando a
situação constrangedora de se ter que se mandar as "farristas"
embora, com a paradoxal incompreensão das mesmas quanto ao porquê de
tal atitude.
De fato, trabalho e socialização podem coexistir num mesmo grupo
(aliás, esse é um de nossos objetivos), só que não no mesmo espaço e
ao mesmo tempo, a não ser para aquelas raras lésbicas brasileiras
que se socializam através da própria militância.
Apesar de termos eliminado problema, delegando atividades
especificas para serem realizadas,
na própria casa das interessadas, o individualismo exacerbado,
responsável em parte por essa "fissura" lésbica pela socialização em
detrimento do trabalho organizado, permeia toda a "comunidade" do
país, diga-se ela feminista, ou não, liberal ou conservadora,
trabalhadora ou burguesa, atrasando, em muito, o desenvolvimento do
Movimento Lésbico no Brasil.
Outra razão para a vagarosidade da organização lésbica brasileira é
o enrustimento, pois muitas mulheres homossexuais ainda supõe ser
imprescindível "assumir-se" para realizar alguma atividade política,
o que não corresponde à verdade. É perfeitamente possível participar
da maioria das atividades do GALF sem precisar "levantar bandeira".
Finalmente, o maior problema com que nos defrontamos não é
especialmente lésbico, mas sim inerente a qualquer organização
política. Trata-se da questão administrativa, coisa com a qual nós,
mulheres, não estamos muito acostumadas, mas que, várias vezes,
determina o sucesso, ou o fracasso, de qualquer projeto,
independente de sua justeza ou brilhantismo.
Hoje sabemos, especialmente considerando a natureza voluntária do
trabalho, ser necessário equacionar os fatores tempo, dinheiro e
pessoal, da forma mais precisa possível, antes de iniciar qualquer
plano. Por esta razão equiparamos a questão organizativa à
ideológica, sem receio de parecermos formais, ou pouco sentimentais,
como convém ao padrão feminino.
Isto pode não agradar àquelas que esperam uma perspectiva
assistencialista da organização, mas, por certo, é o único caminho
possível para a manutenção e desenvolvimento do trabalho, em seu
estágio atual.
CONCLUINDO
Quem me acompanhou até aqui deve estar se perguntando se considero
positivo o saldo destes 10 anos, apesar das muitas dificuldades
enfrentadas.
Eu diria que sim. Diria que muitos dos problemas ocorridos foram
produto inevitável do pioneirismo do trabalho que desenvolvemos no
tratamento de uma questão de difícil abordagem em qualquer lugar,
mas especialmente em países conservadores como o nosso. Se não
fomos, com o Grupo Lésbico-Feminista (LF), a primeira organização
lésbica-feminista da América Latina, fomos, ao que tudo indica, a
primeira da América do Sul. Se não nos tornamos, com o GRUPO AÇÃO
LÉSBICA FEMINISTA (GALF) tão estruturadas quanto gostaríamos de ter
nos tornado, sem dúvida, nos transformamos num ponto de referência
inegável para as lésbicas brasileiras.
Hoje, mesmo mulheres que já criticaram nosso trabalho, o reconhecem
e organizam, mesmo que ainda esporadicamente, reuniões e
demonstrações onde explicitam e discutem seu lesbianismo. Hoje, há
um espaço, aberto no Movimento de Mulheres, para a questão lésbica,
e as reuniões, sobre o tema, são as mais concorridas dos encontros
feministas.
Hoje, o Movimento Lésbico, a nível internacional, está se
organizando melhor e vem crescendo, nos últimos dois anos, até em
lugares outrora improváveis, como a Tailândia e a Iugoslávia. Na
América Latina, surgiram outras organizações, desde o encontro do
México, em 87, e deve haver outro encontro em 1990.
Principalmente, hoje já está sendo possível obter recursos do
exterior para investir em nossas organizações e encontros. Por
certo, ainda há muito que fazer, mas o avanço é indiscutível.
Este artigo, onde procurei fazer um apanhado da mobilização lésbica
na última década, encerra também o capítulo do GALF, com quem tanto
aprendemos e sonhamos, e que será substituído pela REDE DE
INFORMAÇÃO LÉSBICA UM OUTRO OLHAR, a partir do início de 1990.
Com ela, esperamos poder aprimorar os acertos do GALF e eliminar
seus erros, tornando-nos uma organização mais abrangente e
participativa. Esperamos, acima de tudo, poder compartilhar a
próxima década, que se anuncia como uma década de volta a valores
mais cooperativos e humanos, com, pelo menos, algum outro grupo
lésbico brasileiro.
NOTAS
* Foram publicados 12 números do boletim CHANACOMCHANA, fora o
jornal de número O, e 9 números do UM OUTRO OLHAR, incluindo esta
edição.
OUTROS GRUPOS E PUBLICAÇÕES
Temos registro dos seguintes grupos e publicações lésbicas, durante
a década de 80:
TERRA-MARIA, OPÇÃO LÉSBICA (SP);
GRUPO LIBERTÁRIO HOMOSSEXUAL (BA); PUBLICAVA O BOLETIM AMAZONAS;
IAMARICUMÁS (RJ); PUBLICAVA BOLETIM DE MESMO NOME;
TERCEIRA DIMENSÃO (RS) ;
GRUPO GAÚCHO DE LÉSBICAS FEMINISTAS (RS);
BOLETIM XERERECA (RJ).
São Paulo, novembro de 1989
|