Entrevista
 

A terceira temporada da série The L Word estréia segunda-feira (16/07/07), às 23:00, na Warner Channel, dando seqüência às aventuras e desventuras do grupo de amigas da cidade de Los Angeles (Califórnia, Estados Unidos), apresentado na primeira e segunda temporadas, ainda que com modificações. Para falar dessa terceira temporada, convidamos novamente as owners da lista de discussão The L Word BR, Martha Vasconcelos, 29 anos, jornalista, e Luriana Cohen, 42, engenheira, que já se tornaram referência sobre o tema.

Antes da entrevista, dê uma espiada no trailer da terceira temporada abaixo, clicando duas vezes na seta do quadro. Após a exibição desse trailer, você também pode clicar nos outros quadrinhos que aparecem no quadro maior e ver outras exibições sobre a série.

Confira também as entrevistas anteriores sobre a primeira e a segunda temporadas.
 

 

UOO: Primeiro, uma panorâmica: o que a terceira temporada de The L Word nos reserva? Mais drama, mais comédia, mais profundidade na abordagem dos temas?

The L Word BR: A terceira temporada mostra a série um pouco mais sisuda, mais concentrada em problemas. É como se as autoras quisessem mostrar que nem tudo são flores como o que foi pintado nas duas temporadas anteriores. Dessa vez, a série se aprofunda em temas mais delicados e comuns ao nosso cotidiano, como o rompimento de uma relação estável homossexual, incluindo disputa pela guarda da filha; dúvidas de uma personagem sobre sua orientação sexual, depois de anos em uma relação homoafetiva; dependência química causada por antidepressivos, por causa de um relacionamento rompido; doença grave que poderia até ser curada se diagnosticada no início; transexualidade, entre outros assuntos.

 

UOO: Que personagens entram e saem desta terceira temporada e quais mais se destacam? Também quais retornam das outras temporadas?

The L Word BR: As personagens principais são mantidas: Bette, Tina, Alice, Shane, Dana, Jenny, Helena, Carmen e Kit. Dois novos personagens entram para o elenco: Moira Sweeney, interpretada pela atriz iniciante Daniela Sea e Angus Partridge, feito por Dallas Roberts. Depois da insistência das fãs, a personagem Lara retorna para quase toda a temporada. Já o indigesto Mark, companheiro de casa de Jenny e Shane na 2ª. temporada, desapareceu sem explicações e sequer é mencionado. Tonya e Tim retornam para pequenas participações, assim como conhecemos o pai da Shane, vivido pelo veterano ator Eric Roberts.

A terceira temporada deu impulso às personagens Alice, Tina e ao casal formado por Shane e Carmen. Moira foi um destaque mais para negativo, talvez pela superficialidade com que o assunto da transexualidade foi tratado inicialmente.

 

UOO: Personagens têm algumas de suas características mais determinantes bem alteradas nesta temporada. Por exemplo, a forte e assertiva Bette Porter parece perder o poder junto com o emprego. E a “promíscua” Shane é finalmente laçada pela namorada Carmem. O que as fãs da série achaAlice - Leisha Haileym dessas mudanças de rumo repentinas?

The L Word BR: A mudança radical na personagem Bette até pode ser justificada - ela vinha de uma perda recente do pai (no episódio 12 da 2ª. temporada), da perda do emprego, do nascimento da filha e da tentativa de reatar um relacionamento já falido. A Bette não começa a temporada tão inerte, ela ainda é a pessoa que acredita nos seus ideais, mas não se sente apoiada pela companheira que, agora responsável pela parte financeira da família, não esconde que quer controlar os gastos de Bette. Na verdade, a mudança da personagem foi uma tentativa das produtoras de “driblarem” a gravidez da atriz Jennifer Beals (Bette) que, ao contrário do já ocorrido com Laurel Holloman (Tina) na 2ª. temporada, não poderia ser inserida na trama de forma convincente.

Já a mudança da Shane foi mais aceita entre as fãs, pois o par formado entre ela e Carmen agradou a todas. Na verdade, as pessoas em nossa lista de discussão se revoltaram quando a Shane traiu a Carmen.

Mas a guinada radical que não convenceu muito foi a da personagem Helena Peabody. De menina mimada e riquinha, ela passou a ser grande amiga da Alice e uma pessoa preocupada em agradar as outras. Não que a personagem tenha piorado, mas muita gente especulou que a explicação para essa mudança tão drástica estivesse na Moira (Max) - Daniela Sealacuna de seis meses da estória, contida entre o final da 2ª. e o início da 3ª. temporada, que logicamente ninguém viu.

 

UOO: Também como foi a recepção da personagem Moira (Max), uma transexual, pelas fãs mundiais da série? A abordagem dada pela série ajudou a combater o preconceito contra este segmento que existe no meio lésbico?

The L Word BR: A personagem Moira não foi muito bem vista pelas fãs dos Estados Unidos, principalmente por estar em um período de transição – ela começa como uma “butch” namorada de Jenny, mas com o desenrolar da temporada, demonstra não se sentir à vontade em seu corpo feminino.  Para uma grande parte do público, o assunto ainda é bastante desconhecido.

Moira tinha tudo para ser uma das personagens mais complexas e ricas da 3ª. temporada de The L Word, mas a construção das situações e o tratamento superficial do tema não colaboraram. Mas isso foi somente um princípio de abordagem, vamos torcer para que o assunto evolua bem nas próximas temporadas.

 

Dana - Erin DanielsUOO: A personagem Dana, exatamente a atleta da turma, se descobre com um câncer de mama e suas conseqüências. As roteiristas da série decidiram incluir o tema na trama para fazer um alerta à comunidade sobre as necessidades de prevenção desse mal?

The L Word BR: Sim, em entrevistas dadas à Imprensa internacional, Ilene Chaiken, produtora e idealizadora da série, disse que esse foi o motivo pelo qual o assunto foi tratado na trama. Foi inclusive inserida a menção a tratamentos e pesquisas feitas por instituições e médicos conceituados dos Estados Unidos – como a Dra. Susan Love e seu livro sobre esse tema. Da forma como foi abordado, nós fãs sentimos falta de uma visão mais positiva do combate à essa doença, que é tão grave mas que também conta com esses muitos recursos de tratamento e até de cura, dependendo do caso. O importante era mostrar a necessidade de prevenção, que qualquer pessoa, inclusive a atleta, está sujeita a ser acometida por uma doença dessas e que deve procurar um médico quando perceber os primeiros sintomas.

 

UOO: A personagem Jenny, ficou marcada por ser a mais chata da turma, com suas crises existenciais eternas, mas parece que, nesta temporada, dá a volta por cima e passa a afirmar-se profissional e emocionalmente. Confere?

TJenny - Mia Kirshnerhe L Word BR: Confere. Antes das gravações da 3ª. temporada, Ilene Chaiken já havia prometido não mostrar mais aquelas “viagens literárias” que a Jenny fazia sempre que ia escrever. Os problemas de Jenny agora são as dificuldades comuns aos escritores mais iniciantes – falta de editores para publicarem seus livros, ter que arranjar outros empregos para se sustentar, etc. A personagem da Mia Kirshner está muito mais feminista e segura de seus sentimentos em relação à vida e aos seus desejos, passando a interagir com maior tranqüilidade com as outras personagens e exercendo papel fundamental no apoio à transição da Moira.

 

UOO: Alguns críticos da série dizem que, além das mudanças de rumo bruscas, ela chega às vezes a ser até inverossímil, por exemplo colocando pessoas de nível social bem diferente numa mesma rede de relacionamentos. Seria possível na realidade alguém como a rica Helena Peabody ser amiga da Shane, a cabeleireira meio punk da trama? Vocês acham que  essas críticas são pertinentes ou são exageradas para o que na verdade é um folhetim lésbico?

The L Word BR: As críticas talvez sejam um pouco exageradas. Helena se Helena Peabody - Rachel Shelleyaproximou do restante da turma através de Tina (que foi contratada por Helena para trabalhar com ela) e depois pela Alice, de quem se tornou grande amiga. A princípio, como era de se esperar, Bette foi a principal opositora a essa aproximação.  Mas a Helena Peabody da 3ª. temporada se mostra carente e sem amigas mesmo com todo o dinheiro que possui. Na ânsia de ser aceita pelo grupo de amigas da Alice, onde se inclui a Shane, Helena passa a usar seu dinheiro para se mostrar generosa: paga festas, cede jatinho particular, patrocina viagens e hospedagens muito caras. Ela se mostra insegura, como se pensasse que sem essas demonstrações de generosidade, elas não seriam suas amigas.

 

UOO: Na enquete que fizemos sobre a temporada anterior (a segunda), o ranking das personagens preferidas ficou assim: Shane, Carmem e Bete, nos primeiros lugares, e Tina e Jenny nos últimos. Pelo que vocês conhecem das fãs da série, esse ranking vai se manter ou mudar na terceira temporada?

The L Word BR: As mais aceitas podem permanecer iguais, mas as mais odiadas mudariam. A Jenny perde seu posto de mais chata para a Moira, que por sua vez não fica muito longe da Tina. Aliás, Tina e Moira foram as personagens mais criticadas durante a exibição da 3ª. temporada nos EUA.

 

Shane - Katherine MoenningUOO: As personagens da série continuam aparecendo como mulheres de visual super-produzido, femininas (com exceção de Shane e agora Moira) e bem de vida. Mesmo para os EUA, esse é o padrão de uma minoria. E para nós, no Brasil, apesar dessas diferenças tão expressivas com a nossa realidade, continua havendo uma boa identificação com a série e suas personagens? Se sim, por quê?

The L Word BR: Sim, continua havendo identificação entre as fãs brasileiras e as personagens da série. Pelo menos na lista de discussão The L Word BR, que atualmente está com quase 2 mil pessoas, as fãs não parecem se importar com status social de nenhuma das personagens. Quando alguém diz que “se viu” na pele de Bette, nunca se refere ao carro que ela dirige ou à roupa que veste. Percebemos que essa identificação sempre diz respeito às ligações afetivas e aos problemas amorosos pelos quais as personagens passam. E traições, incertezas, paixões incontroláveis e dor-de-cotovelo independem de status financeiro e/ou social.

 

UOO: Que a série contribui para apresentar as lésbicas como quaisquer outras pessoas, ainda que glamurosas demais para a realidade, é um fato. Mas o quanto a série também não está conformando à própria comunidade lésbica não só na elevação da auto-estima mas também numa maneira de ser e agir?

Bette - Jennifer Beals The L Word BR: Algumas participantes de nossa lista de discussão disseram que, por causa de The L Word, puderam ver que as relações lésbicas são iguais às ditas “relações normais” (hétero), que as mulheres homossexuais não são “bichos-de-sete-cabeças”. Já outras disseram que só começaram a identificar o que sentiam depois de assistir à série. Um terceiro grupo, ainda, vê TLW somente por curiosidade. De qualquer forma percebemos que a série quase sempre induz à reflexão por parte de quem a assiste. 

 

UOO: Nos EUA, a série já vai para a quinta temporada e, no Brasil, a Warner já adquiriu os direitos de exibição da quarta, passando a transmiti-la agora às segundas-feiras no seu prime time. Enfim, a série continua bem-sucedida, apesar de algumas críticas. A que vocês atribuem esse sucesso?

The L Word BR: Em relação à Warner Channel, The L Word ganhou uma maior atenção do canal depois que centenas de fãs exigiram que os episódios da primeira temporada fossem exibidos na íntegra – na época, em 2005, a Warner chegou a exibir ainda os 5 primeiros episódios com cortes das cenas de sexo e com legendas pouco adequadas. Principalmente por causa das reclamações das fãs brasileiras, toda a América Latina passou a assistir aos episódios novamente e sem cortes, desde o primeiro.

Quanto ao público, dois motivos principais: algumas pessoas se identificam com as aventuras e desventuras das nossas heroínas, vivem as dores e torcem por elas, como se assistissem a uma novela onde as personagens lésbicas não são somente duas pequenas inserções pinçadas em um monte de capítulos. Além do mais, muitas fãs gostam de ver mulheres lésbicas bonitas na telinha, fazendo o que elas próprias costumam (ou querem) fazer também no cotidiano: beijando a companheira, despedindo-se com selinho, ter um grupo de amigas onde nenhuma se preocupa com a maneira que as outras são e, muito importante, a bonita interação entre amigas lésbicas.

 

UOO: Agradecendo mais uma vez pela entrevista, gostaria que deixassem uma mensagem para nossas leitoras seguramente todas fãs da The L Word.

The L Word BR: Nós que agradecemos pela entrevista e recomendamos às fãs de The L Word que não deixem de assistir a essa terceira temporada, com suas abordagens de assuntos importantes e fundamentais, que sempre dizem respeito a todas nós.

        Que venham a 3ª.,a 4ª. e a 5ª. temporadas e quantas mais forem produzidas!

Para se associar à lista The Lword BR, visite a página http://br.groups.yahoo.com/group/thelword_br/ e o site www.thelwordbr.com.br.
 

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