Entrevista
 

A segunda temporada da série The L Word estréia domingo (23/07/06), às 23:00, na Warner Channel, dando sequência às aventuras e desventuras de um grupo de amigas da cidade de Los Angeles (Califórnia, Estados Unidos), apresentado na primeira temporada. Já com uma quarta temporada encomendada em sua terra natal, a série continua fazendo a cabeça das lésbicas em escala internacional e alimentando muitos sites, blogs e listas de discussão pelo mundo afora. Nesta entrevista, conversamos com Martha Vasconcelos, da lista The L Word BR, sobre o que nos aguarda nesta temporada que se inicia. Martha contou com a colaboração de sua companheira, Luriana Cohen, nas respostas. Clique nas imagens dos novos personagens da série para ampliá-las!Reconheça outras personagens pelo nome, clicando aqui na página sobre a primeira temporada  Míriam Martinho

 

Carmen de La Pica  (Sarah Shahi) Helena Peabody (Rachel Shelley) Mark Wayland 
(Eric Lively)
 

UOO - Seu nome (ou nick), idade, profissão, onde mora, e o nome da lista da qual é owner.
Martha: Martha Vasconcelos, 28 anos, jornalista, paraibana mas residente em São Paulo. A lista da qual sou owner, juntamente com a Luriana Cohen (41, engenheira - moramos juntas há mais de 5 anos), minha
companheira, é a The L Word BR. Temos também o site é de mesmo nome  que está em fase de atualização (ver endereço no final da entrevista).

UOO -  Logo que a lista foi lançada, 2004 (?), uma de suas usuárias escreveu um artigo, para a UOO, sobre a primeira temporada da The L Word  e falou um pouco do trabalho de vocês. Como tem sido a evolução da lista, o que vocês oferecem nela, além de discussões sobre a série?

Martha: Sim, a lista "nasceu" em 2004, 25 de fevereiro, mais precisamente. De lá para cá, já somos 1500 pessoas, em sua grande maioria mulheres, que adoram The L Word. Talvez nossa maior contribuição e/ou oferecimento seja de debates inteligentes sobre os assuntos mais pertinentes à série: traição, comportamento, "saída do armário", sexo seguro, bissexualidade, transexualidade, sobre "butch" e "femme", entre tantos outros pontos. Há antropólogas, psicólogas, advogadas, médicas, todas colocando suas experiências e seus pontos de vista sobre os assuntos mostrados em The L Word : o que é coerente, o que não é, o que é interessante ser abordado ou de que forma teria sido melhor.

UOO -  The L Word emplacou a quarta temporada nos EUA. Quando ela estará começando por lá?
Martha: A Showtime, canal que produz e exibe
The L Word  nos EUA, anunciou a 4a. temporada para Janeiro de 2007. Estima-se que seja no dia 7 de Janeiro, mas ainda não há uma confirmação oficial, pois agora que as gravações começaram em Vancouver no Canadá. Essa data é variável, pois na 3a. temporada, a Showtime havia divulgado Fevereiro, mas acabou adiantando a estréia para 8 de Janeiro.

UOO -  A que você atribui o sucesso do seriado? O fato de ser história sobre o cotidiano de lésbicas (coisa inédita até o surgimento da The L Word ) justifica por si só esse sucesso ou há algo a mais que a sustente?
Martha: Não é muito fácil definir, com exatidão, a receita do sucesso de
The L Word  Talvez o fato de ser sobre lésbicas e seus cotidianos tenha sido o primeiro ponto de interesse, o que atraiu a atenção inicial das pessoas para a TV. Era novidade, era excitante, erótico, misterioso, exposto pela primeira vez e não escondido em subtextos como Xena ou delegado à função de coadjuvantes como em várias outras séries. 

A 1a. temporada foi mais introdutória, várias personagens e situações foram mostradas, mas todas superficialmente. Talvez o chamariz dessa temporada inicial tenha sido principalmente o sexo, o humor e as estórias emaranhadas que começavam a despontar nos dois núcleos principais, um deles liderado pela Jennifer Beals (Bette) e Laurel Holloman (Tina) e o outro pela Mia Kirshner (Jenny).

UOO -  The L Word estaria para Xena, a Princesa Guerreira em que termos?
Martha:A série Xena não tinha a intenção de tratar a amizade de duas mulheres como um relacionamento amoroso. A idéia acabou vindo de fora para dentro: as fãs que começaram a idealizar o "algo mais" entre as
duas e, aceitando essa suposição, a produção começou a embutir "cacos", falas de duplo sentido, situações que poderiam sugerir esse "algo mais". Mas nunca, em momento algum, ficou explícito que havia realmente um relacionamento íntimo, inclusive envolvendo sexo, entre Xena e Gabrielle. Em Xena, um beijo era mascarado pela intenção de se levar água à companheira, a amada é chamada de "melhor amiga" ou alma gêmea, entre outras coisas. 

The L Word  não é assim, não se agarra a eufemismos nem mascara o que está ali, na tela, para todo mundo ver. O beijo é o beijo entre duas pessoas que se gostam ou se desejam, o sexo é levado às últimas conseqüências, há orgasmo, há clímax, os casais são realmente de amantes, dividem a mesma cama e não fingem ser apenas boas amigas. The L Word  já começou assim, fez o caminho inverso de Xena, foi da produção para as fãs.

UOO -  Sobre a segunda temporada que estréia dia 23 de julho, às 23:00, na Warner, o que podemos esperar em relação à primeira? O casal Tina e Bette permanecem no centro da trama? Você acha que a série evoluiu da primeira para a segunda temporada?

Martha: A 1a. temporada deixou três principais situações em aberto, no suspense, para serem desenroladas na temporada seguinte. São elas: Bette e Tina brigadas por causa da traição de Bette; Jenny entre 3 amores - e morando no quintal de seu ex-marido; Alice tendo beijado a Dana, sua melhor amiga, deixando duvidoso o futuro da amizade delas.

Bette e Tina permanecem no centro da trama, mas as outras personagens crescem, deixam de ser meros componentes de uma cena para adquirirem as suas próprias individualidades. As tramas são mais aprofundadas, os assuntos passam a ser mais sérios, em geral sobre comportamentos e até um pouco de direitos civis e políticos. Os problemas apresentados deixam de ser relativos à casa, comida ou balada e ganham proporções intimistas. Alice, Dana, Shane e Kit ganham autonomia na trama e passam a ter seus próprios problemas a serem resolvidos.

Em relação à 1a. temporada, a 2a. também conta com uma produção bem mais caprichada, mais investimento, mais patrocinadores, uma abertura personalizada e participações de atores e pessoas de importância política dos EUA, como a Gloria Steinem (famosa e pioneira feminista americana) e Arianna Huffington (conhecida analista política e econômica).  

UOO -  A atriz que interpretou a Marina, na primeira temporada, deixou a série para tristezas de muitas. Sabe-se a razão da saída? 
Martha:Apesar de não passar de especulações, comentou-se sobre um desentendimento entre a atriz, Karina Lombard, e a produção da série. Na metade da 1a. temporada, a personagem Marina foi "desconstruída" de
sua figura de caçadora, mulher independente e dona de seu próprio nariz. Em termos populares, foi "detonada". Mostrou-se submissa, controlada, sustentada por uma companheira que fazia questão de exibi-la como um troféu, apenas um rosto (e corpo) bonito a ser contemplado. E ainda não é oficial, mas comenta-se que a personagem poderá voltar, para poucos episódios, na 4a. temporada da série.

UOO - Quais são as caras novas da segunda temporada?
Martha: Além de duas personagens femininas, há um personagem masculino (o qual vai dar o que falar) que entra para preencher o "vazio" deixado pelo Tim, que só participa do 1o. episódio. Sarah Shahi, descendente
de iranianos, entra no papel de Carmen, uma DJ latina e sensual que vai mexer com os corações de duas personagens. Rachel Shelley chega como Helena Peabody, filha de Peggy Peabody, milionária que financia a exposição "Provocations" de Bette na 1a. temporada. Helena será uma mulher mimada e achando que pode comprar a tudo e a todos, e vai ser pivô de maiores desavenças entre o casal Tina e Bette. E o papel masculino é o Mark, interpretado por Eric Lively, que vai representar o voyeurismo dos homens em relação às lésbicas. Um personagem controverso que foi bastante criticado pelas fãs no mundo inteiro, inclusive por nós.

UOO - Comenta-se que a série faz muita questão de passar uma imagem feminina das lésbicas, deixando de lado as mais masculinizadas. Haverá mais espaço para a diversidade do mundo lésbico na segunda temporada?
Martha: Para esse assunto, a principal demonstração de que essa abertura começa, é a Shane. O figurino da Shane ganha terninhos, gravatas, camisas e outros acessórios masculinos. Mas fora o vestuário, que
parâmetro devemos usar para classificar as lésbicas como masculinizadas? Atitudes ou maneira de se comportar em relação à maquiagem ou roupas? Tudo é relativo, mas o leque da variedade se abre na 2a. temporada e mais ainda na 3a.

UOO - Você que administra uma lista específica sobre a série, como analisa o impacto desta sobre o público lésbico brasileiro? Você acha que apesar das diferenças culturais, entre a realidade lésbica americana e a brasileira, as brasileiras se identificam com as personagens e a trama da série? Por quê?
Martha: As lésbicas brasileiras, pelo menos o que vemos entre as 1500 pessoas da lista e as mais de 1000 na comunidade do Orkut (muitas são comuns entre os dois meios), se identificam e muito com The L Word.

Mesmo que a trama se passe em Los Angeles, mostre mulheres que vivam em uma realidade totalmente diferente da nossa, os assuntos mostrados não diferem tanto assim de nossas vidas. Na verdade, a identificação com a série surpreendeu até as mais céticas, que no princípio criticaram fortemente The L Word por mostrar essa realidade que chama de fantasiosa - mesmo sem nunca terem assistido à série, tirando conclusões apenas pelas propagandas e aparências mostradas nos vídeos promocionais. Com o desenrolar da série, começou-se a perceber que aquilo que era mostrado é universal para as lésbicas: casal que vive junto há algum tempo e quer ter filhos, uma mulher que até então só se relacionava com homens e se "descobre" apaixonada por uma outra, a garota que se apaixona pela sua melhor amiga, o envolvimento com uma mulher, casada com um homem, que prefere romper esse affair a ter que se assumir e largar o conforto e status de um casamento hétero.

Podemos não viver em West Hollywood ou caminhar pelas ruas ensolaradas da California, mas todas nós já vimos ou vivemos algo assim. Essa identificação foi percebida e quase todos os dias vemos uma dessas usuárias da lista contar algo que praticamente reproduz o que vimos na série. Temos percebido também que as fãs heterossexuais, por incrível que pareça, têm se identificado de alguma maneira, e também conseguem se ver nos problemas mostrados na série. Muitas até dizem estar adorando saber que as lésbicas podem ter vidas tão normais quanto qualquer pessoa hétero.

UOO -  Você acha que The L Word ajuda as mulheres a se sentirem mais à vontade com sua orientação sexual?
Martha: Acho, e muitas dizem isso na lista, e também que até criaram coragem para viver o que já achavam que eram. The L Word, segundo elas, despertou uma curiosidade de conhecerem, finalmente, o que sentiam. E estarem em um ambiente onde a maioria é de lésbica fã da série - dois pontos em comum - deu coragem para muitas delas se abrirem, contarem suas experiências. Algumas se conheceram através da lista e até se casaram, mudaram de cidade e de país. Outras nem conheciam direito o que era uma lista de discussão, mas ao assistirem a The L Word na TV, sentiram uma imensa vontade de procurar com quem
conversar a respeito e correram para a Internet.

UOO - Qual a personagem que provoca mais suspiros entre as usuárias de sua lista? E qual a menos popular?
Martha:No começo da 1a. temporada, a Marina arrancava suspiros e declarações de amor da maioria. Mas no decorrer da trama, duas personagens (e suas respectivas atrizes, claro) ganharam força total
entre as fãs de nossa lista: a Bette e a Shane.

Bette representa a mulher forte, decidida, que toma as rédeas de sua própria vida - e da dos outros, se permitirem. Jennifer Beals é alvo de grandes elogios em relação à sua atuação e, principalmente, à sua sensualidade.

Já a Shane espelha a mulher independente, apaixonada pela vida e pela liberdade, que "é de todas, mas não é de ninguém". Fisicamente, também é a mais cobiçada. Entre as mais novas, Shane é figura quase certa no caderninho de "preferida das preferidas".

A menos popular foi, por 2 temporadas, a Jenny, de Mia Kirshner. A estória conduzida ao seu redor e os devaneios literários protagonizados por ela, fizeram com que suas cenas se tornassem as mais cansativas da série, sendo alvo, assim, de muitas críticas. Isso só veio melhorar na 3a. temporada.

UOO -  Por fim, deixe uma mensagem para nossas leitoras relativa à serie. E obrigada pela entrevista.
Martha:Também gostaríamos de agradecer à UOO pela entrevista e dizermos para quem ainda não conhece a série: assista. The L Word é um programa pioneiro, feito por lésbicas e, embora algumas vezes se diga o
contrário, para lésbicas (e não para homens). E para quem gostar, saiba que tem uma lista onde as pessoas são elas mesmas e falam de suas impressões, experiências e vidas comparadas ao que se vê em The L Word. Para se associar, visite a página http://br.groups.yahoo.com/group/thelword_br/ e veja nosso site www.thelwordbr.com.br.

 

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