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UOO – Rose, você participou, há
30 anos, do primeiro grupo lésbico brasileiro, o grupo
lésbico-feminista (1979-1981), mais conhecido pela sigla LF. Vamos
então resgatar um pouco de sua trajetória antes e durante o LF.
Rose Mancini (RM)
- Antes do Somos e do LF, no início dos anos 70, já
formara um grupo, em São Paulo, com outras mulheres “como eu”, um
grupo de amigas, de socorro, de “renegadas”, de “entendidas”, que
queria viver a vida, o teatro, a arte, as discussões, as brigas, as
separações, sem o drama lésbico. Era o tempo do amor livre, e
tentávamos exprimir a afetividade erótica até o fim do amor ou da
paixão. Todas nós trabalhávamos, éramos mulheres economicamente
independentes do pai, situação ainda incomum para a época. Mas
tínhamos, por outro lado, a sensação de ser erradas, anormais ou
invertidas, crescidas na negação do feminino e da lesbianidade,
odiando a nós mesmas. Como antídoto para esses sentimentos,
buscávamos esvaziar o significado negativo das palavras que nos
rotulavam, mudando a nossa língua, nos inventando. Líamos alguns
textos feministas, usávamos técnicas teatrais, tínhamos uma
espiritualidade sem religião. Éramos como uma rede de repúblicas só
de mulheres “entendidas”. Não tínhamos nenhuma liderança, mas
involuntariamente formávamos uma elite.
Estávamos nesse ponto quando uma de nós chegou com a notícia de que
um grupo iria se reunir para discutir sobre a condição dos
homossexuais (na época a denominação englobava também as lésbicas).
A maior parte desse grupo era composta de homens. A maioria da
república de entendidas não aceitou participar do que viria a ser o
Somos, mas eu escolhi frequentar o grupo, apesar de não ser
habituada à dialética masculina. Existia como que uma obrigação de
masculinizar-se politicamente para existir lá dentro, além de ter
que seguir a relativa democracia da maioria masculina. O Grupo
Somos foi politicamente importante, mas não propunha muito de novo
na modalidade e na gestão do espaço das lésbicas. Como no Somos não
tínhamos um espaço para a discussão das nossas prioridades, nos
separamos formando o LF. A coisa mais importante, para mim, que o
Somos trouxe foi fazer o meu “ser lésbico” virar político.
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UOO – Quais os eventos de que
participou, na época do LF, que considera mais marcantes?
RM - Foi o caráter público do
LF o aspecto mais importante daquele período. Participar nas
comissões, nas discussões de preparação de convenções, congressos,
viajar pelo Brasil fazendo política lésbica e construindo um sujeito
social. Íamos em grupo nas universidades (de psicologia, medicina,
direito, etc.) para falar do fato de não ser heterossexual. Íamos
panfletar nos bares e boates e dizer que ser mulher era lindo, dizer
que mulher com mulher não dava jacaré, mas muito amor.
Em
nível de conquista de visibilidade, outro fato que me marcou muito
foi quando Marisa Nunes, uma integrante e amiga do LF, foi vítima de
violência sexual e decidimos acompanhá-la, ao programa do Silvio
Santos, para protestar contra o estupro de que foi vítima. Também
marcante foi
a passeata contra o delegado Wilson Richetti
(junho/1980) que fazia arrastões nos bares gays, lésbicos, prendia
prostitutas e travestis (Rose aparece no círculo mais claro).
UOO – Passados tantos anos, qual
sua avaliação pessoal e política do ativismo do Grupo
Lésbico-Feminista?
RM - O LF, com todas as
dificuldades, conseguiu viver e sobreviver apesar dos partidos da
esquerda patriarcal. Apesar dos pesares e da ditadura. Tímida e
corajosamente arrebentou cadeados de algumas pesadas portas
milenares, permitindo um grande respiro e a entrevisão de espaços
novos. Teve que lutar muito para encontrar uma definição e um perfil
lésbico, sem conseguir plenamente, pois a componente política
“feminista” venceu, como sempre e como ainda hoje acontece nos
grupos. Prevaleceu porque favorece os subterfúgios da cultura
masculina e a misoginia generalizada. Porque a lesbianidade é uma
ameaça ao sistema binário patriarcal.
UOO – Faz tempo que reside em
Milão? Como foi parar aí?
RM - Vim para a Europa, em
janeiro de 1986, trabalhar como artista. Morei primeiro em Barcelona
e depois em Milão, onde ainda estou há 24 anos. Vim atrás de um
sonho, para uma realidade bem longe da nossa. Entrei na Europa como
se entra em uma dimensão já vista e superada. É muito difícil
enfrentar realidades baseadas em pequenos números, pequenos
contatos, pequenas distâncias. No velho mundo, a tradição, a
descendência e o quase imobilismo constituem e formam o terreno onde
todos caminham e se nutrem. A História passa várias vezes no mesmo
lugar, produzindo mais ou menos os mesmos efeitos sem provocar
fraturas consideráveis.
UOO – No que trabalha? Exerce
algum tipo de ativismo na Itália?
RM - Atuo profissionalmente como
fisioterapeuta desde que cheguei. E continuo produzindo
artisticamente: escrevo contos, histórias, poesias, ensaios. Faço
vídeos. Pinto quadros. E tento manter o meu equilíbrio no mundo não
comendo animais e não fumando.
Participei de alguns grupos lésbicos por aqui desde que cheguei e
formei outros. Com algumas amigas formamos o grupo “
Tempestade Hormonal”. Depois o “Grupo
Delas”. Depois o “Elas”. Foram
se acabando porque tinha sempre alguém com mania de protagonismo e
liderança que contaminava o trabalho das outras. Após todas essas
tentativas, entrei em um grupo sem nome e que depois passou a ser
chamado de “Subjetividade Lésbica”. Por
fim, criei o “Grupo LESSESSU”
– exclusivamente sobre a afetividade erótica lésbica, uma oficina
permanente, com um trabalho surpreendente, mas onde encontrei as
maiores e piores dificuldades.
Em
geral, o ativismo lésbico no norte da Itália não é diferente do que
acontece no Brasil. É a velha luta pelo poder das letrinhas da sopa
GLBT, onde sempre tem quem queira comer mais do que a outra. Nos
grupos, vigora mais ou menos a mesma linha de hierarquia dos
partidos politicos. Vivem em posições muito distantes do amor pelas
mulheres.
UOO – Como é a vida social
lésbica em Milão?
RM - Não existem muitas
possibilidades de socialização ou de divertimento exclusivamente
lésbico em Milão. A sociedade lésbica é composta de pequenos grupos
de amigas que se encontram para jantar, ir ao cinema ou viajar. A
moda dos últimos anos é o campeonato de buraco (o jogo de cartas
brasileiro). A realidade das jovens lésbicas é quase somente de
recreação: discoteca 2 ou 3 vezes por semana, futebol (poucas
jogam). O ativismo lésbico das jovens é pequeno ou inexistente.
UOO – Se conhece, como é o
ativismo LGBT por aí e a situação das lésbicas dentro dele? Quais as
reivindicações, quais as ações efetivas, quais as alianças, quais os
conflitos?
RM - A Arci-Gay é a maior
associação nacional GLBT, com sócias de carterinha em todo o
território italiano, mas as que seguem as suas atividades não são
muitas. Elas têm o telefone-amigo, um grupo de arte, onde conversam
sobre as exposições que vão ver juntas, e um grupo de mobilização
que discute basicamente qual será a participação da Associação nas
várias manifestações políticas, como, por exemplo, contra as
declarações do Papa, da Igreja em geral, contra as declarações dos
políticos.
Existem também outros círculos, coletivos ou associações como o CDM
/CICIPCICIAP (respectivamente coletivo donne milanese, circolo di
donne milanese)/Rahbar (bar mixto, com espetáculos, leituras, etc.)/
Università delle donne (associação feminista com uma participação
lésbica).
Tem a famosa e anual luta pela sopa de letras que é o Gay Pride.
Aqui não temos um dia das lésbicas. As ações atuais são contra o
recrudescer da homofobia, transfobia, lesbofobia; contra o fascismo,
a violência contra as mulheres; contra o racismo (tem aumentado
exponencialmente o ódio racial e o ódio contra todos os tipos de
diversidades); contra dispositivos repressivos heterossexistas,
contra o autoritarismo; contra as hierarquias eclesiásticas e outras
instituições que têm construído campanhas de ódio e de instigação à
violência contra todas as pessoas que não entram no paradigma da
“normalidade”.
As lutas internas entre os grupos são muito frequentes, e isso
enfraquece não só os grupos, mas todo o movimento. De fato, um
movimento lésbico não existe. Existem várias pequenas realidades que
fazem muito esforço para manter-se em pé. Nos grupos maiores não
existe a possibilidade de desenvolver relações de amizade. A maioria
corre atrás das emergências como eu digo.
UOO – Vem com frequência ao
Brasil? Pretende retornar ou já se tornou por demais italiana para
tal?
RM - Não vou muito ao Brasil e,
agora que minha mãe faleceu, acho que irei ainda menos. Não sei se
voltarei a morar aí um dia, não se pode hipotecar assim tanto o
futuro. Por enquanto, a minha idéia é continuar por aqui.
UOO – Qual sua avaliação da
política homossexual em geral, no mundo, e, em especial, a situação
das lésbicas dentro dessa política?
RM -Não tenho muito que falar da
política homossexual. Enquanto pensamos ou deixamos que os outros
pensem que a lesbianidade não é uma questão pública, seremos sempre
cúmplices do sistema. Temos interesses políticos absolutamente
inéditos e diferentes de outros grupos marginalizados. Nem o
discurso lésbico-feminista nos prevê, porque somos o imprevisto ou
as não-nominadas na história da humanidade. Como pessoas, dividimos
o mesmo planeta e temos as mesmas necessidades dos demais, mas como
lésbicas políticas que querem um movimento lésbico político,
precisamos absolutamente pensar outras estratégias políticas
exclusivas e inéditas como nós.
UOO – Por fim, deixe uma
mensagem para nossas leitoras, algo pessoal, político, o que quiser.
RM – Deixo a seguinte poesia, de
minha autoria: Eu digo que nós somos como eternas grandes mães com
as tetas prontas para alimentar a todos, até o filho da outra. O
nosso tempo é medido pela ampulheta. Somos detidas nessa
transparência de vidro, onde nos confundimos com a areia que escoa,
e nós escoamos também. Confusas na nossa mesma história, continuamos
a cair continuamente, começando do começo sempre e sempre, grão por
grão. Vivemos o imediato. Estamos coladas, grudadas sempre no
grânulo de areia do último minuto. Perdida da nossa história a
razão. Não queremos saber de ter uma história. Somos contagiadas
pela escravidão da mãe, na premência que antecipa, prevê, socorre,
controla e não vive. Somos sobrecarregadas por correr atrás das
urgências e emergências. Tudo súbito, no imediato, como se ainda
tivéssemos medo de viver. De ser. Correr como animais acuados -
escapar. Quantas urgências urgem a nossa intervenção? Quantas
urgências existem neste tempo de poder masculino? Quantas urgências
para ficarmos distraídas e longe das nossas prioridades, dos nossos
corpos, dos nossos desejos verdadeiros?”
“A
lésbica é a prova viva do “gênio” das mulheres. Todas as mulheres
gostariam de acreditar no “gênio” das mulheres, mas só as lésbicas
acreditam nele, se inspiram nele e o experimentam. Acreditar na
mulher, através das mulheres, é um ato filosófico que só as
lésbicas tiveram a disposição de realizar.”
KIND SKIN MY MIND, Nicole Brossard, La Lettera Aerea,
Firenze, Estro, 1989. |