Venturas e desventuras da maternidade nas palavras
de nossas entrevistadas de Brasília (DF),
Lusilene, digitadora, 39, que tem uma menina de 6
anos, e Recife (PE) Amanda, 33, produtora, que tem um menino de
1 ano e 8 meses.
UOO:
Primeiro, falem um pouco de suas vidas.
Vocês se identificam como lésbicas ou bissexuais?
Amanda: Agora
como lésbica, mas já tive experiências com homens.
Lusilene:
Olha, eu me identifico mais como lésbica do que
bi, pois, apesar de já ter namorado homens,
quando era mais nova, prefiro as mulheres porque a
gente se entende melhor. Moro sozinha com minha
filha. Viemos para Brasília em 2005. É uma cidade
onde me identifico muito porque foi aqui onde tudo
começou.
UOO:
Vocês tiveram filhos numa produção
independente ou num casamento formal?
Amanda:
Produção independente...
Lusilene:
A minha filha veio por acaso, foi um
descuido. No começo foi difícil admitir que estava
grávida.
UOO:
Se casaram, casaram por pressão social ou
familiar ou por amor simplesmente?
Amanda:
Não casei.
o pai do meu filho é um amigo.
Lusilene:
Nunca me casei nem pretendo me casar
com homens.
UOO:
Vocês sempre quiseram ser mães ou acabaram
sendo para atender as convenções sociais que
afirmam que todas as mulheres devem ser mães?
Amanda:
Não planejei,
mas tinha vontade sim.
Lusilene:
Nunca pensei em ser mãe, não me
imaginava como mãe, mas agora afirmo que ser mãe é
muito bom.
UOO:
Vocês têm quantas crianças? Meninas e
meninos? E quantos anos ela(s), ele(s) têm?
Amanda:
Tenho 1 menino
de 8 anos..Lindo de morrer e muito amado.
Lusilene:
Só tenho uma filha de 6 anos.
UOO:
Sempre se interessaram também por
mulheres? E sempre vivenciaram esse interesse ou só
após a separação?
Amanda:
Tive minha primeira namorada aos 14 anos. Sempre
soube do meu interesse por mulheres.
Lusilene:
Sempre me interessei por mulheres, e isso já vem
desde a minha adolescência; só que tinha medo de
me assumir totalmente.
UOO:
E como tem sido o relacionamento de
sua(s) namorada(s) com seus filhos?
Amanda:
Estou com o que considero meu primeiro
relacionamento sério e longo, por isso, o contato
maior com o assunto foi mesmo com ela, e eles se
adoram (meu filho e minha namorada). Ele já sabe
de tudo porque acho que um exemplo que posso
deixar pra ele é de que se deve ir atrás do que se
ama, e ser quem se é, sempre.
Lusilene:
Não tenho namorada atualmente, mas quando tive o
relacionamento foi péssimo: ela não gostava da
minha filha e queria que eu desse mas atenção a
ela do que pra minha filha. Só que eu sabia
dividir as coisas, e ela não entendia. Por isso
terminamos.
UOO:
Vocês acham que as mães lésbicas sofrem
mais preconceito da sociedade do que as lésbicas que não
têm filhos?
Amanda:
Acho que sim porque temos que conviver com mães,
professoras, e, infelizmente, as pessoas do meu
convívio que não aceitam a minha condição, usam
isso pra me atingir mais fundo. Só que eu me faço
respeitar e sem fazer nada, apenas sendo quem sou.
Quem tem o que fazer são eles, aprendendo a lidar
com a diferença.
Lusilene:
Acho que sim, mas ainda não sofri esse tipo de
preconceito, porque não gosto de falar da minha
vida pessoal com as pessoas no trabalho, e tenho
amigas que tem filhos e não sofreram nenhum
preconceito. De qualquer forma, acho que as
pessoas têm que respeitar a opção de cada uma.
UOO:
A família de vocês sabe que se relacionam
com mulheres? Se sim, como eles encaram? E os pais
de suas crianças?
Amanda:
Minha família sabe, e tenho a sorte de ter uma mãe
que me apóia. Alguns irmãos não apóiam (são 5, sou
a sexta, caçula, imagine...), mas, como disse, só
vão até onde eu deixo. E o pai do meu filho nunca
se meteu nessa área da minha vida.
Lusilene:
A minha família não se mete muito na
minha vida, mas, se eu arrumar alguma namorada,
com certeza já saberei a opinião deles porque eles
não admitem que eu namorei uma mulher e falam que
é uma doença e etc. O pai da minha filha não sabe
que ela existe; a gente só ficou uma vez, e ai
aconteceu.
UOO:
Quais os problemas que vocês enfrentam
como mães lésbicas: com a família, com amigos, no
trabalho, na escola?
Amanda:
Coisas do tipo
ver meu filho chateado por causa de crianças que
não vieram na festinha dele, e eu sabendo pelo que
foi ...Pessoas da família dizendo que eu não posso
expor ele a esse tipo de coisa, ou até olhares
tortos, na escola.. e coisas do gênero.. Mas
também tenho grandes pessoas comigo e com ele, que
me ajudam muito. Não faço disso um drama porque
não é nem quero que ele ache que seja. Tiramos de
letra e somos felizes..
Lusilene:
Vários. É difícil a gente se
encontrar. Os meus amigos gays se afastaram de
mim, quase não falo com eles.. No trabalho,
ninguém sabe que sou lésbica. Na escola, minha
filha fica sendo motivo de piadas....mas estou
dando um jeito nisso.
UOO:
E da própria população lésbica? Vocês
acham que as lésbicas preferem as mulheres sem
filhos?
Amanda:
Acho que varia, como numa relação heterossexual:
tem gente que prefere sem, que prefere com, e para
quem não faz diferença..
Lusilene:
Lógico que elas preferem as mulheres
sem filhos, por isso que ainda estou sozinha.
UOO:
Por fim, que mensagem gostariam de
deixar para as leitoras e leitores da UOO?
Amanda:
Nunca deixem de fazer e ficar com quem amam, todos
os tipos de amor, e preconceito é coisa de gente
limitada, não se limite a elas..bjs.
Lusilene:
Que lutemos pelos nossos direitos e que
sejamos mais unidas porque precisamos vencer
todos os preconceitos que existem.
SP, 09/05/07 |