|
UOO: Garotas, primeiro, a
apresentação: nomes (pseudônimos), idades, no que trabalham e
outras referências pessoais.
Bia e
Helena: Beatriz Almeida, 25 anos, administradora de empresas,
professora de inglês e, agora, aspirante a escritora. Helena
Moraes, 23 anos, médica, webmaster por osmose nas horas vagas.
UOO: Quando surgiu o Manual da
Lésbica Contemporânea?
Bia: A idéia
do manual surgiu há cerca de dois anos, durante uma conversa
descontraída na cantina da minha faculdade (eu ainda nem era
formada, veja só!). Discutíamos sobre a possibilidade da minha
professora ser ou não ser gay, e eu morria de rir enquanto a
Helena encarava a dita-cuja tão profundamente a ponto da coitada
achar que a conhecia e mandar tchauzinho para ela.
Helena:
Enquanto nos divertíamos conversando, mencionamos a dificuldade da
gente se envolver com mulheres mal-resolvidas (enrustidas) ou
iniciantes, como tinha acontecido com o meu último relacionamento
na época. Eu já tinha refletido muito no assunto, mas soltei só de
brincadeira: “Nossa... toda lésbica em começo de carreira devia
receber um manual com todo um acervo de conhecimentos passado
pelas mais experientes. Tipo o manual de instruções que vem junto
com a TV nova que a gente compra e que nos ensina a mexer nela.
Um verdadeiro passo-a-passo que começasse com as dúvidas do ser
ou não ser gay, depois abordasse a saída do armário,
relacionamentos, sexo, etc. Até demos para a nossa futura “obra” o
título de Manual da Lésbica Contemporânea.
Bia:
Começamos a fazer alguns capítulos, mas, em função de outras
atividades nossas, o projeto acabou ficando esquecido no meio dos
outros arquivos do computador. Tempos depois, em uma conversa de
bar, quando Helena falava de uma garota que queria namorar,
lembrei do manual, fui reler os textos e vi que tínhamos um
material maravilhoso nas mãos que merecia ser conhecido. Sugeri
então para a Hell que montássemos um blog.
Helena: Como os textos já estavam prontos, o trabalho foi apenas
criar um layout para o blog. Aí faltava divulgar. Mandamos um
e-mail para o Mix Brasil que topou nos divulgar. Graças a essa
primeira divulgação, tivemos um boom de acessos, o que nos
convenceu rapidinho a mudar para um domínio próprio, o
www.manualcontemporaneo.com.
Bia: É, e
agora já temos um fórum de discussões para atender os e-mails de
mulheres e os diferentes tipos de situação que relatam, colunas,
debates, entretenimento, etc.
UOO: O manual também tem uma
versão impressa ou ele é só virtual?
Helena: Não,
não tem uma versão impressa. Mas a gente não descarta a
possibilidade de um dia o passarmos também para o papel. Seria
maravilhoso presentear nossas garotas com um livro futuramente,
vamos ver.
UOO: A quem se dirige o Manual?
Bia: Hoje eu
posso dizer que o nosso público predominante são mulheres entre 18
e 28 anos, inteligentes, bem encaminhadas em suas carreiras, mas
ainda com alguns problemas em relação à sexualidade.
UOO: Na opinião de vocês, quais
os principais dramas da lésbica iniciante?
Bia:
Definitivamente, sair do armário! Os problemas afetivos são
praticamente os mesmos de qualquer adolescente ou adulto-jovem. E
quem já passou por isso sabe como só esses problemas já são em si
bastante pesados. Ainda por cima é bem complicado ter que lidar
com o fato das pessoas acharem que você é diferente e ter que
encarar a diversidade como uma coisa natural.
|
A lésbica
assumida e discreta age como alguém comum, como qualquer outra
pessoa. Você não vê héteros te dizendo “Oi, olha... preciso te
falar, dei meu primeiro beijo ontem num garoto. Sou hétero!”. A
visão da lésbica discreta é a de que não há nenhum problema em ser
gay, e por isso mesmo é que essa condição não requer nenhum
anúncio. |
UOO: O manual está com três
capítulos agora. Quantos serão ao todo? Ou não tem número para
terminar, na base do tantos capítulos quantas lésbicas existem?
Bia: (risos)
Bom, nós planejamos aproximadamente 20 capítulos, mas o tamanho e
a ordem vão variar de acordo com os feedbacks que recebermos das
leitoras.
Helena:
Todos os capítulos que publicamos até agora já tinham sido
escritos. Os capítulos que estão por vir serão criados durante as
próximas semanas, o que permitirá uma construção conjunta com as
meninas do fórum, que já estão dando suas opiniões a respeito do
que elas querem ler.
UOO: Sair do armário sem ser
vista, além de dar o tom de humor do manual, pretende propor a
visibilidade com bom senso em vez da visibilidade panfletária, do
tipo daquela que se assume até para operadora de telemarketing?
Bia: Bem, a
sensação de luxúria, a vontade de “pecar”, ou até a paixão louca e
a necessidade de gritar que a gente está amando outra mulher, tudo
isso tira muito do juízo e da prudência. Mas não adianta levantar
a bandeira do arco-íris se você não estiver preparada para isso.
Colocar o carro na frente dos bois pode trazer conseqüências muito
pesadas. A idéia desse capítulo, aliás, a idéia do livro inteiro,
é mostrar, de forma bem-humorada, um retrato real do que é ser
lésbica e das suas implicações.
Helena:
Nosso pensamento é o de que a maioria das mulheres lésbicas
carrega algum trauma de sua saída do armário, e quase sempre o
problema poderia ter sido evitado se tivesse havido um pouco de
cautela antes de agir e um pouco de auto-análise prévia. Queremos
mostrar às garotas que todo o processo pode ser leve e indolor,
basta que seja conduzido com moderação.
Queremos
apenas enfatizar que há um meio-termo que preserva a vida
profissional, familiar, amigos e todo o universo social que nos
cerca, que é a da lésbica discreta, que não nega que é gay, mas
que também não sai por aí dando um bom-dia a todo mundo
acompanhado da declaração bombástica de que gosta de mulher.
A lésbica
assumida e discreta age como alguém comum, como qualquer outra
pessoa. Você não vê héteros te dizendo “Oi, olha... preciso te
falar, dei meu primeiro beijo ontem num garoto. Sou hétero!”. A
visão da lésbica discreta é a de que não há nenhum problema em ser
gay, e por isso mesmo é que essa condição não requer nenhum
anúncio.
UOO: O trabalho de vocês é
obviamente para mulheres, mas “aqüendar”, palavra que vocês
utilizam no manual, é um termo originalmente usado pelas
travestis. Trata-se de uma apropriação devida ou a gíria já entrou
no domínio público lésbico?
Bia: Bom, é
uma gíria da qual nós nos apropriamos, sim, e que é usada de uma
forma bem mais leve do que o seu significado original.
Helena:
“Aqüendar” foi introduzida em nossas vidas pelo Antônio, um amigo
gay nosso que é um luxo. Incorporamos ao nosso repertório por
osmose. Na nossa visão, a “aqüendação” faz referência a todo e
qualquer ato relacionado à corte, desde o cortejar mesmo até o
beijar, ficar, fazer sexo e afins. Pra nós tem uma conotação menos
sexual do que o uso original que as travestis fazem da palavra. E
por que não nos apropriarmos?
UOO: O Manual tem dicas musicais
para a hora de levar a seduzida para a cama (ou qualquer outro
lugar). A trilha sonora está bem cool. Vai ter algo mais heavy
futuramente? E também algo mais tupiniquim?
Bia: Em
relação à música nacional, sem dúvida. Eu sou viciada em MPB! Como
diria uma amiga minha, “Chico Buarque é homem, mulher e anjo”!
Quanto a algo mais heavy, vamos pensar a respeito.
Helena: A
gente até pode, sim, incluir futuramente uma coisa mais heavy na
seção “Músicas para Aqüendar”. Entretanto, para a playlist do
Manual, aquela seleção que toca quando a garota entra no site,
procuramos melodias mais leves, que permitam a leitura do texto,
que funcionem como uma boa música de fundo. Algo muito barulhento
iria contrastar com o visual e o conteúdo do Manual. O objetivo
ali é relaxar, ler e imaginar.
UOO: O que vocês acham desse boom
lésbico dos dias de hoje? Tem novelinha lésbica na TV (The L
Word), sites e blogs de todos os tipos e para todos os gostos,
caminhadas e paradas lésbicas até nos rincões do Brasil.
Conquistamos o mundo ou esses são apenas os primeiros passos?
Bia: Eu
tenho um pouco de receio de tudo que é exposto na mídia dessa
forma. Como dizemos no Manual, o caminho é que a coisa seja
encarada com naturalidade. Nada contra passeatas, muito menos
contra o The L Word, que a Heleninha, por sinal, adora. Mas a
idéia de massificação de qualquer coisa que seja me assusta.
Sobre já
termos conquistado o mundo... Não, ainda temos um longo caminho a
percorrer. Serão muitos anos de luta para quebrar os moralismos e
a idéia de que só é correto se relacionar com alguém do sexo
oposto. Aliás, é muito triste ver pessoas notoriamente gays
vivendo uma vida dupla, por medo do preconceito. Mas acredito que
estamos no caminho certo.
UOO: Muitas vezes a população
lésbica e as ativistas lésbicas parecem meio descompassadas. Como
aproximá-las?
Bia:
Nossa... pergunta difícil! Não acho que exista alguma fórmula. É o
mesmo que tentar aproximar as donas de casa felizes dos anos 50
dos movimentos feministas. Vai acontecer no seu devido tempo,
quando os ideais forem se aproximando.
Helena:
Felizmente, a globalização vem permitindo a união de pequenas
populações que estão separadas por grandes distâncias. Creio que
seja apenas uma questão de tempo até as ativistas brasileiras se
organizarem (as americanas já fizeram isso) e solidificarem sua
presença nacional.
UOO:
Por fim, deixem uma mensagem para nossas leitoras. E obrigada pela
entrevista. Helena: A mensagem que fica é a de que, assim como eu
e a Bia, garotas comuns como aquelas que vocês vêem diariamente,
conseguimos abrir um blog para discutir nossos temas e problemas,
até meio casualmente a princípio, por que vocês não conseguiriam?
Esses espaços são super-importantes, pois ainda existem milhares
de mulheres gays no mundo vivendo em eterna insatisfação consigo
mesmas e com o pequeno universo restrito que as cerca devido à
dificuldade em se obter material lésbico de qualidade, seja na
internet, seja nas publicações impressas.
São Paulo, outubro de 2007
|