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UOO:
Qual seu nome (pseudônimo), etnia, idade, profissão? Onde mora e
com quem?
R:
Meu nome é Bárbara, sou branca (caucasiana), tenho 37 anos e
trabalho como aeronauta. Moro no Rio (nasci aqui) com minha
companheira Bruna, meu filho, uma babá e um cachorro (família
completa!)
UOO: Quando
e onde você conheceu sua namorada? Qual a idade dela, etnia,
profissão?
R:
Nos conhecemos em uma boate há 5 anos, numa festa de aniversário
de uma amiga em comum. Ela tem 35 anos e também é caucasiana (é
assim que aparece nas fichas de doação - branco é muito
vago...!!!), e é professora. Começamos a namorar logo em seguida.
UOO:
Há quanto tempo vocês estão juntas? Quando vocês decidiram ter
filhos?
R:
Há 6 anos. Eu sempre quis
ter filhos. Quando me "descobri" lésbica o que me incomodou não
foi como iria lidar com os outros, mas sim que não iria ter
filhos, o que sempre planejei desde criança... No meu
relacionamento anterior (com minha primeira mulher, que durou 10
anos), quando percebi o quanto isso significava para mim, ela
sugeriu que estudássemos a idéia, e resolvemos ter um bebê por
inseminação artificial. Chegamos a planejar, a escolher o doador,
mas a relação terminou antes da inseminação ocorrer. Ainda bem,
pois na ruptura ela disse que nunca quis ter filhos mesmo..! Vai
entender a cabeça dos outros!
Quando conheci Bruna, até antes de
começar o namoro mesmo, contei minha história e meu desejo de ter
filhos e o quanto eu nunca seria completa sem isso. Ela disse que
pensava muito nisso também. Só nunca havia pensado em como
viabilizar isso. Ela tinha cogitado ter um filho com um amigo
(também gay), e eles brincavam muito com esse assunto sem nunca
terem realmente conversado sério a respeito. Eu contei minha
experiência com a pesquisa de bancos de sêmen e doadores. Ela
achou interessante. Durante o namoro sempre falávamos em um dia
morarmos juntas e termos filhos. A idéia ia amadurecendo... Um ano
depois, não sem antes uma cerimônia na casa de meus pais, da qual
participaram família e amigos, "casamos", ela se mudou para o meu
apartamento. As conversas sobre filhos foram, aos poucos,
evoluindo. Uns 2 anos depois, tomamos a decisão.
Daí, passo a passo, começamos a tomar
as providências: escolhemos a clínica, o doador, combinamos tudo
com a clínica que receberia o material no Brasil, com a minha
ginecologista e com o médico responsável pela inseminação e fomos
juntando dinheiro. Então, 3 anos e meio depois de estarmos juntas,
2 anos e meio depois de casadas, e uns 7 meses depois de termos
tomado a decisão, fizemos a inseminação.
UOO: Por
que vocês optaram por um filho natural em vez de um adotivo?
R:
E por que não? Porque teria que me privar disso ? Não temos nada
contra adoção. Só pensamos que era mais fácil a inseminação do que
duas lésbicas adotarem um bebê... Depois, apesar de cogitarmos a
adoção, caso não conseguíssemos a inseminação, eu queria ficar
grávida, amamentar, olhar para o bebê e ver traços da minha
família e características minhas... Porque teria eu que me privar
dessa experiência? Não tivemos que pedir a juiz nenhum, a ninguém.
O filho é nosso e pronto...
UOO:
Quais os passos que vocês tiveram que dar para chegar à
inseminação artificial?
R:
Escolhemos uma clínica confiável - foi feito pela Internet e
posteriores contatos por telefone -, escolhemos o doador no
arquivo dessa clínica e arrumamos um médico responsável, com o
equipamento correto para receber e guardar o material no Brasil
(os bancos de sêmen brasileiros têm um universo pequeno de
doadores à disposição; todos com poucas amostras, o que pode
obrigar a escolha de outro, caso muitas tentativas sejam
necessárias. E os bancos em grandes hospitais não atendem casais
homossexuais.). Fizemos controle do ciclo de ovulação com
ultra-sonografias em série, inseminamos na data certa, esperamos 2
semanas para saber se deu certo e escolhemos o enxoval!
UOO:
As possibilidade de fazer todo o processo no Brasil são limitadas
então...
R:
Sim. No Brasil não se pode comercializar material humano (sangue,
tecidos, sêmen, órgãos, etc.). Tem de ser doado. Por isso o
universo de doadores é pequeno. Em alguns países, pode-se pagar
ajuda de custo aos doadores - não pode ser muito para que ninguém
viva disso. Normalmente são estudantes universitários que entram
no programa para ajudar a pagar os custos dos estudos. Mas a
inseminação foi feita no Brasil, a alguns metros da minha casa, na
Clínica de Reprodução Humana. Estavam presentes a bióloga,
responsável pela manipulação do sêmen, o médico especialista em
inseminação, minha ginecologista, minha companheira e eu. Aliás,
foi ela quem me inseminou, depois que essa turma aí preparou tudo.
O médico a chamou e mostrou como fazer. Ela nunca poderá dizer que
não tem nada com isso...(risos).
UOO:
Qual o custo atual desse processo?
R:
O custo varia
dependendo de quantas amostras do sêmen se quer importar e se o
sêmen já está "lavado" (pronto para inseminação dentro do útero)
ou in natura. Cada amostra custa em torno de US$200,00. A
importação é que sai mais cara e não importa se você importa 1 ou
100 amostras, pois o custo é tirar um botijão de criogênio dos EUA
e trazer para o Brasil e retorná-lo.
Nós decidimos importar amostras
suficientes para tentar 2 bebês - uma tentativa para mim e outra
para ela, mais tarde. Cada gravidez (segundo estatística) leva em
média 5 tentativas (amostras). Então importamos 10 amostras do
mesmo doador. Nossos filhos serão mesmo irmãos! Só que eu
engravidei de primeira! Ela terá as outras 9 chances! O custo
total é mais ou menos o de um carro popular 0 Km. Isso no caso de
apenas a maneira de o sêmen chegar ao corpo da mulher ser
artificial. Caso sejam necessários outros procedimentos como uso
de hormônios (por favor não caiam nessa de tomar hormônios para
aumentar as chances. Até prova em contrário não temos problemas
para engravidar. A não ser que queiram gêmeos!), lavagem de sêmen,
inseminação in vitro (este sim aumenta e muito o custo !!!),
etc... Aí pode sair bem mais caro.
UOO:
Vocês tiveram um menino, não? Qual a idade dele? Como está sendo a
presença dele na vida de vocês?
R:
Fomos abençoadas com um menino lindo, que está agora com 1 ano e 3
meses. Uma benção! Apesar de dar muito trabalho, e ter modificado
muito nossas vidas, ele é a coisa mais gostosa que existe!
Adoramos sentar juntos à mesa (ele na cadeira alta) para o café da
manhã. Nos finais de semana, quando queremos dormir até mais tarde
e ele acorda cedo, coloco ele na cama conosco e ele volta a
dormir, ora agarrado numa ora em outra. É muito gostoso. Chama as
duas de mamãe, apesar de ser diferente como sai o mamãe dela e o
meu. Eu sou mamãeeeeee, e ela mamã. Ele escolheu assim. Muitas
amigas curtem o bebê junto com a gente, outras não entendem as
limitações que ele causa e se afastam, pois você não pode mais
badalar com elas como antes. Mas são opções que cada uma faz; Como
são menos comuns em nosso meio, às vezes algumas têm mais
dificuldade de entender... Mas meu filho é o que tenho de mais
precioso na vida e não troco manhãs na piscina e tardes no Parque
da Mônica com ele por badalação nenhuma desse mundo!
UOO:
Como fica a questão legal? Em nome de quem ele foi registrado? O
que você reivindicaria neste sentido?
R: Legalmente sou mãe solteira e ele
está registrado no meu nome, mas colocamos o sobrenome da minha
companheira também, antes do meu. O cartório achou estranho eu
colocar um nome que não tenho, mas insisti, e eles não podem
impedir... Temos testamentos, feitos na época de nosso casamento,
que diz que caso tenhamos filhos naturais ou adotivos e uma de nós
venha a falecer, a outra é a tutora do menor até a maioridade.
Somos também herdeiras uma da outra. Nossas famílias sabem e
convivem com isso sem problemas. O bebê chama ambas nossas mães e
pais de vovó e vovô, e assim por diante com tios e primos. Isso
foi conguistado aos poucos por nós antes mesmo de termos um filho.
UOO:Como
vocês esperam criá-lo, tendo em vista a questão do preconceito?
R:
Se eu te chamo de feia você pode ouvir e pensar - essa é apenas
uma opinião dela - ou você pode se sentir feia por isso. A escolha
é sua! É isso que acredito que muitos gays e lésbicas não
entendem, inclusive minha companheira! E só pelo medo dela do
preconceito no ambiente de trabalho é que uso pseudônimo, pois,
por princípio, sou contra. Não carrego bandeiras, mas não me
escondo. Todos que convivem comigo, de amigos a colegas de
trabalho, do porteiro do meu prédio a funcionários da creche de
meu filho, todos sabem que somos um casal e temos um filho. Não
tenho problemas por isso. Se alguém tem problema com o fato de eu
ser lésbica, essa pessoa é que tem o problema. Não tomo para mim o
problema dela. Sigo vivendo a minha vida. Meus sobrinhos desde
pequenos souberam, sempre colocaram isso para os amigos com
naturalidade e nunca sofreram preconceito. Eu, própria, vivo
abertamente há 15 anos, sempre lidei naturalmente com isso e nunca
escondi. Só sofri preconceito uma vez. Briguei, com o que me
permitiu a lei, o bom senso e a ética, e ganhei. Ganhei não só a
causa mas o respeito de muitos por não me esconder. Nunca precisei
assumir bandeiras: apenas vivo minha vida como qualquer outra
pessoa, sem achar que tenho que me esconder ou que mereço menos
que os outros ou que vão me prejudicar. Sem medo!
Existem muitos novos padrões de
famílias hoje em dia: uns só com o pai, uns só com a mãe. Muitas
crianças são criadas por 2 mulheres: mãe e avó. Meus sobrinhos,
depois do divórcio de meu irmão e seu novo casamento, têm 2 pais e
2 mães, em 2 casas. Outros são criados pelas avós ou tios. Somos
apenas mais um tipo de família em meio a muitas. Nem melhor nem
pior. Apenas mais um tipo de família. A festa de um ano de meu
filho teve a presença de todos os amigos da pracinha deles. Todos
viram as duas mães de meu filho junto a ele na mesa - sem dramas,
sem problemas, e com muito orgulho. Ele não deixou de ser
convidado para outras festinhas. Costumo dizer, quando necessário
explicar: esse não é um bebê de papai-e-mamãe, é um bebê de duas
mamães. Aí todos abrem um sorriso, e o gelo se quebra! A partir
daí é normal, como com qualquer outra criança.
Não temos a ilusão de que nunca
existirá um momento difícil por ele ter duas mães. Só que ele será
criado com a verdade, com amor, e com o fato de que foi e é muito
desejado. E que não há pessoa no mundo com o direito de dizer que
ele não deveria ter nascido por ser filho de duas mães. Sofrerá e
superará os obstáculos caso se sinta amado e seguro, como qualquer
pessoa com seus problemas sejam de que natureza forem. Meu filho
tem uma vida normal, uma família estável, muitos modelos
masculinos próximos na família, é amado, será criado com verdade,
aprendendo que o mundo não é perfeito e há pessoas preconceituosas
com os gays, com os negros, com os gordos, com os carecas, com os
feios, com os pobres, etc.. E que ele não é melhor nem pior que
ninguém por conta de nada disso. Simplesmente que ele tem o dever
de ser digno e feliz.
UOO:
Com a evolução das técnicas de reprodução assistida, os cientistas
já anunciam, para breve, crianças filhas naturais de duas mulheres
(a célula de uma seria implantada no óvulo da outra). Caso este
venha a ser um método seguro, vocês optariam por uma segunda
criança por essa via?
R:
Teremos uma segunda
criança com sêmen do mesmo doador como já dito. Nossa médica citou
essa possibilidade. Explicou que seria apenas uma questão de
querer investir a grana e esperar a conquista. Além da espera de
alguns anos, o que não desejávamos, pensamos um pouco, e depois de
um entusiasmo de alguns dias, refletimos que estamos preparadas
para criar mais uma criança sem pai, mas não estamos preparadas
para criar a primeira criança do planeta fruto biológico de 2
mulheres. Sou moderninha e bem resolvida, mas nem tanto! A
publicidade seria muito grande.
UOO: Que
mensagem vocês dariam a nossas leitoras, sobretudo, para as que,
como vocês, querem ter filhos?
R:
Assegurem-se que o assunto
está bem resolvido na cabeça de vocês, pois só assim poderão
resolver bem os possíveis conflitos que aparecerem. Pensem como
será na escola, no condomínio, se alguém do trabalho encontrar
vocês na rua e a criança chamar as duas de mães. Não criem uma
criança com vergonha de ter as parentes que tem ou que tenha que
mentir porque vocês não estão bem resolvidas. Assegurem-se que tem
uma relação estável que pode dar segurança a uma criança.
Assegurem-se que ambas querem o bebê e não que uma esteja cedendo
ao desejo da outra, pois sem o vínculo biológico, se a vontade não
for real, o relacionamento será prejudicado e a criança rejeitada
em algum momento. Um filho é para a vida inteira, não tem volta !
Boa sorte !
2004 |