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Os
Encontros Lésbico-Feministas Latino-Americanos e do Caribe
surgiram, como idéia em 1986, quando ocorreu em Genebra, na Suíça,
a 8 Conferência do Serviço Internacional de Informação Lésbica
(ILIS), organização já encerrada. Neste evento, um dos maiores de
todos os tempos, ao reunir cerca de 600 mulheres lésbicas de
diferentes países, lésbicas latino-americanas e asiáticas se
encontraram pela primeira vez, resultando desse intercâmbio, uma
rede lésbica asiática e, na América Latina, a realização de
encontros regionais.
O
primeiro encontro se deu, no México, em 1987, e depois houve outras
versões na Costa Rica (90) Porto Rico (92), Argentina (95) e Brasil
(99), onde passou despercebido. Agora, em sua sexta versão, o encontro retorna ao México,
após 17 anos, e assessorado pela Internet e as facilidades tecnológicas
atuais, busca resgatar essa história e fazer avançar os direitos lésbicos
no continente, com a ousada missão de conciliar ativistas das mais
diferentes concepções políticas.
Participei do
primeiro encontro em 1987 e do quarto, na Argentina, dois eventos
opostos em corpo e espírito: o primeiro, extremamente conflituado e
realizado em condições precárias; o segundo, embora situado longe
de Buenos Aires, com melhores acomodações e muito mais tranqüilo
do que o primeiro. Do quinto, realizado no Rio, participou Luiza
Granado, da Um Outro Olhar, que deu, como destaque positivo do
evento, a configuração para os encontros posteriores, da adoção
do sistema de consenso modificado, onde em caso de duas posições
divergentes, deve-se buscar uma terceira convergente e, no caso da
manutenção da divergência, deve-se partir para uma votação,
onde por dois terços dos votos, uma das propostas será considerada
vencedora, embora a outra tenha garantido seu registro nos anais do
encontro. A prevalecer este sistema, haverá chances de produzir-se
um encontro que realmente traga avanços ao até hoje alivanhado,
embora corajoso e persistente, movimento lésbico regional.
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E
para falar do VI encontro entrevistamos Cecília Riquelme Ugarte
(foto ao lado), chilena radicada no México, 47 anos, editora da
revista mexicana Las Amantes de la Luna, pesquisadora histórica,
professora de Português, pintora e fotógrafa, e participante da
atual comissão organizadora do evento.
UOO: Primeiro, Cecília, uma pergunta sentimental: como se sentem
voltando a organizar o Encontro de Lésbicas Feministas no México?
Quantas organizadoras do primeiro encontro estão presentes neste
agora?
Cecília: Com respeito à parte sentimental, todas sabemos que
manter-se por muitos anos neste tipo de ativismo é desgastante e
implica muita disposição. Somente uma de nós que participou da
organização do primeiro encontro está novamente neste esforço
coletivo, mas temos também ativistas de duas décadas do movimento e
muitas caras novas. Aliás, acho genial que novos rostos apareçam no
encontro de um movimento lésbico regional que tem crescido
paulatinamente e precisa demonstrar sua maturidade, realizando uma
reflexão política e fazendo acordos que nos permitam seguir
avançando na luta por nossos direitos, além de desfrutar também da
parte humana que têm os encontros. O trabalho é árduo, porém creio,
que vale a pena voltar a ter um encontro latino-americano no México.
UOO: Qual o eixo principal do encontro e quais os secundários?
Cecília: As mulheres da comissão temática e conceitual estão
trabalhando uma proposta de temas para o encontro que trarão a
público em breve e será discutida com todas as organizadoras. Além
disso, estamos trabalhando também com a agenda lésbica que é uma
lista de discussão na Internet aberta para lésbicas da região que
queiram propor temas de discussão (veja como se inscrever ao final
da entrevista). De fato, já há vários fóruns com temas como mães
lésbicas, ciberlesbianismo e ciberfeminismo.
UOO: Quais são as comissões que compõem a organização do encontro?
Cecília: As comissões do encontro são as seguintes:
· Temática e conceitual: está encarregada de realizar uma agenda
temática para a discussão do encontro, a metodologia e finalmente a
produção das memórias do encontro;
· Resgate histórico: desenvolverá um trabalho retrospectivo,
resgatando a riqueza dos encontros anteriores mediante entrevistas,
documentos, vídeo-gravações e fotografias, e também produzirá um
trabalho final com as recompilações
de materiais, a ser provavelmete registrado em CD.
· Cultura: cheia de atividades, até agora já realizou uma exposição
de fotos e de documentos do movimento lésbico, várias performances
(fazem registros de casamentos simbólicos para reivindicar a
legalização das uniões lésbicas; fantasiam-se de Sor Juana, Frida
Kalo e outras mexicanas famosas). Estarão encarregadas de todas as
atividades culturais durante o encontro, onde haverá várias
escritoras, fotógrafas, videastas, exposições de documentários
e
música.
· Traduções: será responsável pela tradução simultânea durante o
encontro e mantém as traduções das páginas do site em inglês,
francês e português;
· Página Web: mantém e atualiza o site do encontro;
· Financiamento: responsável pela busca de recursos a fim de poder
financiar bolsas para algumas companheiras;
. Finanças: administra os fundos que estamos levantando com a
realização de atividades;
· Logística: busca todo o necessário para o bom funcionamento do
encontro: o local onde nos hospedaremos e teremos as actividades;
· Difusão: responsável pela divulgação das atividades que estamos
realizando para a própria comissão organizadora e para a sociedade
mexicana e outros países
UOO: Como será o critério de representatividade e tomada de
decisões?
Cecília: Os critérios de representatividade e tomada de decisão são
os que foram tirados no encontro anterior. As decisões tomadas em
um encontro somente podem ser modificadas em outro encontro. No
Brasil, decidiu-se pela permanência da representação individual, e
não por grupos ou países, com direito de voz e voto, para latinas, e
de voz para não-latinas.
UOO: Todos os encontros têm momentos difíceis, e vocês até criaram a
figura da mediadora de conflitos. Quem serão essas mediadoras?
Cecília: A mediação de conflitos será realizada pela comissão
organizadora dentro da própria, auxiliada por uma pessoa externa com
experiência no assunto.
UOO: Como e onde está sendo feita a divulgação do encontro?
Cecília: A divulgação do encontro está sendo feita de várias formas:
pela página da web, outras páginas, listas lésbicas da região, mídia
impressa, semanas da diversidade em distintas universidades...
UOO: Quais são as diretrizes e as expectativas da comissão
organizadora em relação ao encontro?
Cecília: A comissão organizadora é um grupo heterogêneo e diverso, e
não temos diretrizes quanto a temas prioritários. Nossa maior
expectativa é possibilitar o espaço e as condições para que o
encontro se realize com sucesso.
UOO:
O encontro está tendo financiamento, terá condições de oferecer
bolsas às interessadas? Se sim, como proceder para concorrer a uma
bolsa?
Cecília: O encontro está encarregado, através da comissão de
Finanças, de buscar recursos para poder financiar algumas pessoas.
Já discutimos os critérios e quando soubermos de quanto dinheiro
teremos para esse propósito, faremos uma convocatória com
informações para quem quiser postular uma bolsa.
UOO: Por fim, que mensagem gostaria de deixar às leitoras
brasileiras?
Cecília: Gostaria de dizer, para as manas brasileiras, que os
encontros podem ser um lugar de discussão política, de reflexão, mas
também um lugar de aprendizagem, de encontros de todo o tipo e,
sobretudo, um lugar onde se encontram nossas vidas, maneiras de ser.
Cada encontro tem sua vida própria, e cada mulher o vive como quer
porque não há regras para vivê-lo.
Tradução e Edição: Míriam Martinho
Créditos: Figura: Poster do VI ELFLAC (da página do encontro)
Fotos: Parada da Cidade do México, 2004, Cecília Riquelme Ugarte
Introdução histórica: Centro de Documentação da Um Outro Olhar:
boletim ChanacomChana jun/set-1986, boletim Um Outro Olhar 19/20,
1993, e revistas Um Outro Olhar 22 e 31
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