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Visibilidade ou Integridade? Eis a Questão! 
Míriam Martinho

 

 Em agosto do ano passado, li artigo de jornal, reproduzido em mensagem de e-mail, onde ativistas lésbicas do Rio de Janeiro diziam que o objetivo do movimento de lésbicas no Brasil era conquistar a visibilidade. Fiquei pensando: não era conquistar direitos? Em junho deste ano, por ocasião do dia dos namorados, outro grupo de ativistas de São Paulo conclamava os casais de lésbicas a se beijarem em público. Fiquei pensando: pra quê?

 Esses dois eventos, embora distantes entre si quase um ano, me fizeram refletir que o conceito de visibilidade, nos últimos tempos, passou de meio para atingir um fim a finalidade em si mesmo. Se no dia dos namorados, levo minha namorada a um restaurante e, embora os casais hétero estejam expressando seu carinho por seus pares livremente, sou alertada a não me expressar da mesma forma para não atentar contra o pudor público, posso e devo invocar as leis existentes contra a discriminação e, se achar conveniente, ir para a imprensa e/ou organizar um beijaço no estabelecimento preconceituoso. Uso da visibilidade para exigir tratamento igualitário. Mas e se eu e minha namorada formos do tipo discretas, não muito efusivas afetivamente em público? Deveríamos mudar de estilo para quê?

 Para fazer caminhada lésbica a fim de reivindicar direitos, junto aos poderes públicos, em diferentes áreas, obviamente tenho que fazer uso da visibilidade. Para lutar por meus direitos, individual ou coletivamente, tenho que necessariamente ter algum nível de visibilidade, razão pela qual, aliás, muitas pessoas homossexuais ainda não buscam fazer valer os poucos direitos já conquistados. Para evidenciar as lésbicas nas paradas que são ainda majoritariamente masculinas, a gente bota um carro só de mulheres na avenida. Então, a visibilidade é sempre um meio para atingir um fim.

 Mas não é um fim em si mesmo. Fora do contexto das reivindicações, para que ostentar a nossa orientação sexual? Não vejo sentido. Isso não quer dizer que esteja propondo a volta ao enrustimento, outra estratégia estabelecida pela população homossexual para lidar com o preconceito. Pondero que se deve apenas viver naturalmente o que se é, sem ostentar nem esconder. Viver como todo o mundo, na minha opinião, é a melhor forma de lidar com o preconceito e a discriminação, lembrando, porém, que o enrustimento – apesar dos pesares – ainda se configura, em algumas situações, como a única escolha de sobrevivência possível.

GRAÇA DO CORPO NU QUE INVISÍVEL SE VÊ 

 Sempre fui “visível”, desde a adolescência. Andava com minha namorada de mãos dadas pelas ruas de São Paulo em 1980. Posteriormente namorei a ativista mais “visível” do Brasil, em todos os tempos, que foi Rosely Roth, parada e cumprimentada nas ruas de Sampa por suas participações nos programas de Hebe Camargo e outros. No entanto, em nenhum momento, fora de meu contexto de militância, tive qualquer preocupação de ser “visível”. Se andava com a namorada de mãos dadas há 26 anos, é porque éramos namoradas e não porque estivéssemos preocupadas com visibilidade. 

  Em outras palavras, essa história de visibilidade - deturpada como fim em si mesmo - já está virando patrulha ideológica. Se antes éramos obrigadas a ser enrustidas, agora somos obrigadas a ser visíveis. Trocamos seis por meia dúzia? Pessoalmente, estou em dúvida sobre quem elejo como as mais chatas: se as paladinas da visibilidade ou as envergonhadas do enrustimento. Embora estratégias ainda úteis no momento, ambas são algo superado (enrustimento) ou a superar (visibilidade) pelo seu caráter antinatural. A bem da verdade, só saberemos que conquistamos uma sociedade realmente igualitária quando não houver mais especificidades (nem leis específicas, nem eventos específicos) a evidenciar, quando detalhes como sexo, etnia, orientação sexual, entre outros, não forem determinantes das oportunidades que a gente, como indivíduo, terá ou não na vida.

 Ainda que este cenário pareça distante, podemos, no entanto, começar a engendrá-lo através do conceito de integridade, que inclui a visibilidade, mas a transcende. Não é possível ter integridade se vivemos mentindo a respeito de nossas relações mais íntimas, preocupadas em manter aparências e até casamentos de fachada. Evidentemente que a gente relativiza as situações: ser visivelmente lésbica com a namorada ao cruzar com um bando de skinheads é uma tentativa de suicídio; assumir-se em um emprego, cujo entorno é conservador, do qual você depende absolutamente porque inclusive naquele momento está com um caso grave de saúde na família é irresponsabilidade. Ninguém deve – porque a militância agora só fala disso – se assumir se não houver condições objetivas e emocionais para tal. Ninguém deve transformar sua privacidade em caso público só para atender as demandas de ativistas e de cartões de crédito que – parece – agora se irmanam na manipulação de nossos anseios mais íntimos para vender ideologias e/ou o mais novo produto supérfluo.

 Mas nós todas podemos e devemos buscar integridade em nossas vidas, cada vez mais avançando, com bom senso, no sentido de vivermos nossas relações com naturalidade, sem vergonhas e mentiras. O enrustimento fere a integridade das pessoas porque ele é feito de mentiras. As mentiras de qualquer tipo ferem a integridade de nosso ser, e devemos ter o propósito de evitá-las como uma bússola ética em nossas vidas. E aqui cumpre salientar que a militância não mente sobre sua orientação sexual, ao contrário a ostenta, mas mente sobre outras tantas coisas tão essenciais que é como dar um passo para frente e outro para trás. Freqüentemente, a gente se depara, dentro do ambiente de militância, com contradições gritantes que nos dão a certeza que a construção de um mundo melhor – esse clichê também repetido ad nauseum – passa ao largo desse entorno.

 Porque – para construir de fato um mundo melhor – temos que ser, citando Mahatma Gandhi, a transformação que queremos no mundo. Temos muito mais que simplesmente ser do que dizer e ostentar ou, como diria Fernando Pessoa:
 ...És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

(Não: não digas nada! Cancioneiro, Fernando Pessoa, 1931)

Míriam Martinho, 53, é editora do site Um Outro Olhar On-line. Leia mais aqui.

 

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