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Em agosto do ano
passado, li artigo de jornal, reproduzido em mensagem de e-mail,
onde ativistas lésbicas do Rio de Janeiro diziam que o objetivo do
movimento de lésbicas no Brasil era conquistar a visibilidade.
Fiquei pensando: não era conquistar direitos? Em junho deste ano,
por ocasião do dia dos namorados, outro grupo de ativistas de São
Paulo conclamava os casais de lésbicas a se beijarem em público.
Fiquei pensando: pra quê?
Esses dois eventos, embora distantes entre si quase um ano, me
fizeram refletir que o conceito de visibilidade, nos últimos
tempos, passou de meio para atingir um fim a finalidade em si
mesmo. Se no dia dos namorados, levo minha namorada a um
restaurante e, embora os casais hétero estejam expressando seu
carinho por seus pares livremente, sou alertada a não me expressar
da mesma forma para não atentar contra o pudor público, posso e
devo invocar as leis existentes contra a discriminação e, se achar
conveniente, ir para a imprensa e/ou organizar um beijaço no
estabelecimento preconceituoso. Uso da visibilidade para exigir
tratamento igualitário. Mas e se eu e minha namorada formos do
tipo discretas, não muito efusivas afetivamente em público?
Deveríamos mudar de estilo para quê?
Para fazer caminhada lésbica a fim de reivindicar direitos, junto
aos poderes públicos, em diferentes áreas, obviamente tenho que
fazer uso da visibilidade. Para lutar por meus direitos,
individual ou coletivamente, tenho que necessariamente ter algum
nível de visibilidade, razão pela qual, aliás, muitas pessoas
homossexuais ainda não buscam fazer valer os poucos direitos já
conquistados. Para evidenciar as lésbicas nas paradas que são
ainda majoritariamente masculinas, a gente bota um carro só de
mulheres na avenida. Então, a visibilidade é sempre um meio para
atingir um fim.
Mas não é um fim em si mesmo. Fora do contexto das
reivindicações, para que ostentar a nossa orientação sexual? Não
vejo sentido. Isso não quer dizer que esteja propondo a volta ao
enrustimento, outra estratégia estabelecida pela população
homossexual para lidar com o preconceito. Pondero que se deve
apenas viver naturalmente o que se é, sem ostentar nem esconder.
Viver como todo o mundo, na minha opinião, é a melhor forma de
lidar com o preconceito e a discriminação, lembrando, porém, que o
enrustimento – apesar dos pesares – ainda se configura, em algumas
situações, como a única escolha de sobrevivência possível.
GRAÇA DO CORPO NU QUE INVISÍVEL SE VÊ
Sempre fui “visível”, desde a adolescência. Andava com minha namorada de
mãos dadas pelas ruas de São Paulo em 1980. Posteriormente namorei
a ativista mais “visível” do Brasil, em todos os tempos, que foi
Rosely Roth, parada e cumprimentada nas ruas de Sampa por suas
participações nos programas de Hebe Camargo e outros. No entanto,
em nenhum momento, fora de meu contexto de militância, tive
qualquer preocupação de ser “visível”. Se andava com a namorada de
mãos dadas há 26 anos, é porque éramos namoradas e não porque
estivéssemos preocupadas com visibilidade.
Em outras palavras, essa história de visibilidade - deturpada como fim em
si mesmo - já está virando patrulha ideológica. Se antes éramos
obrigadas a ser enrustidas, agora somos obrigadas a ser visíveis.
Trocamos seis por meia dúzia? Pessoalmente, estou em dúvida sobre
quem elejo como as mais chatas: se as paladinas da visibilidade ou
as envergonhadas do enrustimento. Embora estratégias ainda úteis
no momento, ambas são algo superado (enrustimento) ou a superar
(visibilidade) pelo seu caráter antinatural. A bem da verdade, só
saberemos que conquistamos uma sociedade realmente igualitária
quando não houver mais especificidades (nem leis específicas, nem
eventos específicos) a evidenciar, quando detalhes como sexo,
etnia, orientação sexual, entre outros, não forem determinantes
das oportunidades que a gente, como indivíduo, terá ou não na
vida.
Ainda que este cenário pareça distante, podemos, no entanto,
começar a engendrá-lo através do conceito de integridade, que
inclui a visibilidade, mas a transcende. Não é possível ter
integridade se vivemos mentindo a respeito de nossas relações mais
íntimas, preocupadas em manter aparências e até casamentos de
fachada. Evidentemente que a gente relativiza as situações: ser
visivelmente lésbica com a namorada ao cruzar com um bando de
skinheads é uma tentativa de suicídio; assumir-se em um emprego,
cujo entorno é conservador, do qual você depende absolutamente
porque inclusive naquele momento está com um caso grave de saúde
na família é irresponsabilidade. Ninguém deve – porque a
militância agora só fala disso – se assumir se não houver
condições objetivas e emocionais para tal. Ninguém deve
transformar sua privacidade em caso público só para atender as
demandas de ativistas e de cartões de crédito que – parece – agora
se irmanam na manipulação de nossos anseios mais íntimos para
vender ideologias e/ou o mais novo produto supérfluo.
Mas nós todas podemos e devemos buscar integridade em nossas vidas, cada
vez mais avançando, com bom senso, no sentido de vivermos nossas
relações com naturalidade, sem vergonhas e mentiras. O
enrustimento fere a integridade das pessoas porque ele é feito de
mentiras. As mentiras de qualquer tipo ferem a integridade de
nosso ser, e devemos ter o propósito de evitá-las como uma bússola
ética em nossas vidas. E aqui cumpre salientar que a militância
não mente sobre sua orientação sexual, ao contrário a ostenta, mas
mente sobre outras tantas coisas tão essenciais que é como dar um
passo para frente e outro para trás. Freqüentemente, a gente se
depara, dentro do ambiente de militância, com contradições
gritantes que nos dão a certeza que a construção de um mundo
melhor – esse clichê também repetido ad nauseum – passa ao
largo desse entorno.
Porque – para construir de fato um mundo melhor – temos que ser,
citando Mahatma Gandhi, a transformação que queremos no mundo.
Temos muito mais que simplesmente ser do que dizer e ostentar ou,
como diria Fernando Pessoa:
...És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
(Não: não digas nada! Cancioneiro, Fernando Pessoa, 1931)
Míriam Martinho, 53, é editora
do site Um Outro Olhar On-line.
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