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"Vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas e mergulhar no
poço escuro de nósduas vamos viver agonizando uma paixão vadia,
maravilhosa e transbordante feito uma hemorragia/'... ("Bárbara" de
Chico Buarque de Holanda e Rui Guerra)
Vampiro continua mais do que nunca na moda. Assunto de revistas,
filmes, Livros, de seriados como Buffy, a caça-vampiros, de sites,
de Halloweens... e, recentemente, até de uma novela da Rede Globo.
Mas o que costuma prevalecer em grande parte da literatura que cerca
o tema é uma ótica unilateral heterossexual. Sabemos que sempre
existe um outro olhar... No contexto homoerótico do vampirismo
feminino, esse olhar é aquele da vampira predadora sobre sua
"presa", feita objeto de seu desejo, em um clima denso e sexual que
evoca muito do estilo de vida sadomasoquista, misturando dor e
prazer na mesma receita sensual de entrega e posse...
Falar do vampirismo lésbico significa também falar do papel do
sangue na afetividade entre as mulheres. Fundamentalmente do sangue
como alimento e desejo. O desejo de se alimentar da mesma, do
manancial fluido da fonte feminina: a seiva da flor e suas
metáforas. A alimentação vampiresca é cíclica e sanguínea, afinada
com as simbologias do ciclo menstrual, principalmente porque ocorre
sempre à noite no domínio lunar, lembrando que a palavra menstruação
significa "mudança de lua".
Cenas famosas de vampirismo no cinema, inspiradas em romances, onde
o vampiro ou a vampira penetra um belo pescoço de mulher com suas
pontiagudas presas, fazendo-o sangrar numa densa hemorragia, são
reconhecidas por seu forte apelo erótico, remontando à equação
vulva-garganta/menstruação-sangue... Sangue e garganta evocam
claramente simbologias sanguíneo-uterinas. A garganta corresponde
simbolicamente ora à vulva ora à vagina ou ao útero em inúmeras
culturas e na própria história da psicanálise e da medicina na
relação com a histeria.
A fome da vampira, que se sacia sorvendo voluptuosamente o sangue
de outra mulher, talvez oculte outra fome comandada pelo ritmo lunar
e os ciclos menstruais do universo feminino. O apetite erótico ou o
desejo da mulher pela mulher consiste no núcleo do "vampirismo
lésbico" que carrega uma fome gulosa da mulher: seu sexo, ovários,
útero e sangue, inclusive menstrual, como uma metáfora da potencialização do feminino na soma dos duplos do mesmo sexo,
multiplicando a mulher para a mulher, pela via simbólica do sangue.
Bram Stoker teria se inspirado, para a criação literária do seu
Drácula, na vampira Carmilla, que o fascinou, de um conto de seu
conterrâneo e contemporâneo Sheridan Lê Fanu, publicado em 1872 na
antologia In a Glass Darkly. Uma história clássica de vampirismo com
conotações lesbianas. Na literatura, que contextualiza o vampirismo
lésbico, encontramos esse jogo dos duplos femininos potencializados
no intramundo mítico da (homo)sexualidade feminina. Outro exemplo é
o clássico poema Crístabell, de Coleridge, em que a vampira
Geraldine seduz e se apossa da jovem Cristabell.
Por sua vez, atraente para homens e mulheres,
Vampirella, personagem de histórias em quadrinho criada por Forrest
J. Ackerman, em 1969, é uma versão vampiresca de Barbarella, na qual
o autor se inspirou. Teve seu auge nos anos 70 e voltou a ser
redescoberta nos anos 90, inclusive no Brasil e na Internet, espaço
de Vampirellas virtuais que aparecem com esse nome em e-mails e
chats. As histórias de Vampirella com parcerias femininas foram as
que mais venderam nas décadas de 80 e 90, segundo inúmeros endereços na Web com páginas sobre a sexy predadora.
http://quadrideko.blogspot.com/2007/07/vampirella.html
http://www.supers.com.br/quadrinhos/vampirella.htm
Uma das mais importantes versões do vampirismo lésbico pode ser
analisada em Fome de Viver (The Hunger, 1983), de Tony Scott,
baseado no romance homônimo de Whitley Strieber. Trata-se de um dos
mais belos filmes de vampiro já feitos, locado no cenário punk
nova-iorquino dos anos oitenta e interpretado por Catherine
Deneuve, como a vampira bissexual Míriam Blaylock, David Bowie, como
seu marido John Blaylock, e Susan Sarandon como a médica geneticista
Sarah Roberts. O filme e o livro original de certa forma reforçam o
imaginário da lésbica como extirpadora da vida, geradora de
antifetos.
Míriam seduz Sarah, tocando uma música ao piano que fala de duas
mulheres: uma princesa indiana, Lakmé, e sua escrava Mallika.
Princesa e escrava cantam num jardim mágico, seguindo o curso de um
rio de águas brilhantes. Trata-se de uma cena da ópera Lakmé, de Léo
Delibes (1836-1891). Sarah percebe a conotação amorosa e sensual da
imagem traduzida por Míriam e se deixa seduzir pelas águas fluidas e
poéticas da bela e elegante vampira. Encanta-se com a fluidez
aquática que é invocada de suas profundezas míticas e cíclicas
enquanto Míriam a seduz como uma sereia, imperando sob o Eros de sua
feminilidade. O desejo se traduz na umidade líquida feminina, na
qual as águas são espelhos lunares que se projetam nas marés, em
ondas de prazer. Míriam oferece a Sarah uma bebida vermelha: um
cherry brand que mancha a blusa branca de sua seduzida, na altura de
um dos seios... O vermelho e o branco, a inocência e o desejo...
Quando se relaciona sexualmente com Sarah, leva-a a sorver seu
sangue e se apossa dela inteiramente, escravizando-a, tornando-a
dependente de um alimento incomum. Elas passam a se pertencer, numa
simbiose sanguínea. Eroticamente, somam seus femininos rios
vermelhos. Trata-se do rio menstrual-lunar que as irmana numa mesma
corrente sanguínea, em que trafegam representando a rainha egípcia e
sua escrava Mallika. Afinal, que sangue é esse, sob o ponto de vista
simbólico, que circula em comum, no corpo das duas mulheres,
alternando seus ciclos alimentares e gerando tanta fome de vida?
Qual o significado do sangue em comum entre as mulheres, capaz de
conferir-lhes a proximidade com a morte e com a perpetuação da
espécie, que não o menstrual? Míriam brinda a iniciação de Sarah,
quando esta faz sua primeira vítima para se alimentar de seu sangue,
mais uma vez com uma bebida vermelha, provavelmente o cherry brand.
Promete amor eterno e as duas se acariciam. O amuleto que Míriam
usa, pendurado no pescoço, é fálico e, enquanto elas se abraçam e se
beijam, Sarah o finca na própria garganta, gerando uma hemorragia
que transborda em suas bocas... Conforme já se observou, a garganta,
a "goela" onde Sarah finca o amuleto, tem afinidades simbólicas com
a vulva.
No vampirismo lésbico, encontramos uma comunhão menstrual entre as
mulheres, energizada pela paixão, mais um dos significados do
sangue. Tal comunhão é uma aliança circular, útero-ovariana, em que
a mulher se reconhece pela mesma. No domínio da sexualidade, a
simbologia do vampirismo lésbico adquire outras significações quando
deparamos com a Grande Mãe - enquanto manancial fluido feminino -
como fonte inesgotável de alimento e de vida, cercada pelas filhas
de Lesbos em seus rituais de amores sáficos. E a mulher de vivência
lesbiana, na linguagem simbólica da literatura sobre o vampirismo
lésbico, parece buscar na própria mulher o encontro energizante da
vida, ainda que carregue em sua forma de amar os estigmas da
diferença, dos seres malditos e postos à margem da vida por um
sistema dominante, alheio às suas necessidades afetivas.
Para saber mais:
Dark Angels, Lesbian Vampire Stories, de Pam Keesey
(dá para encomendar pela www.amazon.com)
Fome de Viver, nas locadoras.
Também foi publicado no Brasil o romance que deu origem ao livro.
Carmilla, Sheridan Lê Fanu. Consultar nas livrarias, pois a primeira
edição brasileira é bem antiga
Fonte: Revista Um Outro Olhar, Edição 38, 2002, p. 26. Edição para o
UOO online, 17/04/2008
Cenas do Filme The Hunger abaixo com Catherine Deneuve e Susan
Sarandon |