
Eu ligo a tevê numa noite de
domingo e passeio com o controle remoto por vários canais: nada
encontro. Uma amiga liga instantes depois, e na passarela importada
vê uma cena que a deixa intrigada: duas mulheres se beijam, e na
boca. Anunciava-se ali a 1ª. Temporada de um seriado
norte-americano chamado The L Word. O horário refletia um pouco a censura do canal: por
volta de meia noite apareciam os coqueiros característicos de uma
grande avenida de Los Angeles (Califórnia-EUA), os carros que
passavam, as pessoas que desfilavam. Um casal de mulheres mexia-se
entre lençóis e travesseiros brancos, outras se encontravam num
café-bar e um rapaz organizava um quarto que irá abrigar sua
namorada que logo logo seria recepcionada no aeroporto por ele.
Eu não sabia do que se tratava, nunca ouvira falar daquela série,
e as cenas que passariam depois me deixariam mais curiosa ainda:
sexo entre mulheres, sexo entre homem e mulher, um casal lésbico
planejando a vinda de um bebê. Para mim foi uma surpresa.
O fato é que, a partir de
amigas(os) cheguei à 4ª temporada, concomitante à apresentação
nos Estados Unidos – são as graças da Internet! – e estou cada
vez mais parceira da vida e cotidiano das personagens. Compreendo
que a série tem cumprido com muita destreza seu papel de ficção
– que ao contrário do que pensa muita gente, ficção não é a
mesma coisa que mentira ou retrato fantasiado da realidade. Ficção
exerce o mesmo papel da Arte, ou seja, que é fazer refletir,
questionar e (re)fazer. A meu ver, The
L Word exerce esse papel e deixa que o escrevemos a cada episódio
em nossas próprias vidas, daí o L,
letra que deve ser (re)significada por cada um(a), escrita no seu
dicionário particular, diário, carta, e-mail, paredes... Nós
refletimos a cada episódio, homens e mulheres, sobre
“ser-humano” e a vivência dessa humanidade. Vejamos os
exemplos:
da capacidade de viver e
superar a dor
Bette, protagonista da série, após
relacionar-se com uma outra pessoa que não é sua parceira (com
quem viveu 7 anos), padece por toda a 2ª temporada para
reconquistar sua companheira; na terceira temporada, quando as duas
voltam a viver juntas, e, desta vez, com a responsabilidade de criar
seu bebê (nascido de uma inseminação artificial), separam-se: a
parceira de Bette descobre que ainda deseja homens;
do amar desmedidamente
Alice que vivera uma paixão com
Dana (antes sua melhor amiga), vê-se medicada com antidepressivos.
Passa parte da terceira temporada sofrendo e agredindo sua
ex-companheira;
do desejo descoberto
Jenny, escritora e noiva do rapaz
que a buscou no aeroporto, envolve-se com uma mulher e acaba
separando-se. Na segunda temporada ela vivencia as ressonâncias de
sua “caixa de pandora”, autodescobertas profundas que a levam a
setores obscuros da própria vida. Na terceira temporada, além de
retornar do hospital em que se internou por um tempo, vive uma relação-aprendizado
com Moira/Max, que pretende realizar uma cirurgia de mudança de
sexo;
da experiência da morte
Dana, ex-companheira de Alice e
famosa tenista, vê-se com um câncer detectado num estágio avançado
que a faz passar por uma cirurgia. Vítima de uma mastectomia, a
doença toma conta de seu sistema muscular, o que a leva à morte;
dos problemas de adoção
A briga na Justiça das mães
Bette e sua ex-companheira Tina para conseguirem tornar Angélica
filha adotiva da primeira mãe. Por imprudências, ciúmes e desavenças
entre as mães, termina a 3ª. temporada no seqüestro da criança
por parte de Bette;
da discussão sobre amor,
casamento e identidade
Shane, que experimenta a monogamia
pela primeira vez na vida, pede sua namorada Carmem
em casamento. Esta
aceita. Todas as amigas vão ao casamento que será realizado numa
estação montanhosa, e, na última hora, após conversar com o pai
(que conheceu há dias), Shane dá-se conta que “é o que é”,
ou seja, estabelecida que é sua imagem (mulher conquistadora) ela
mesma, Shane, não consegue desvincular-se do rótulo. Vai embora e
abandona sua noiva no corredor do altar.
Há mais e tantas outras coisas que poderiam ser discutidas e
refletidas a partir desta série. Por enquanto, ficarei por aqui.
Mas já agora terminando este escrito, vem-me à mente uma frase de
Tadeu, personagem de uma ficção chamada Tu não te moves de Ti, da escritora paulista Hilda Hilst, e que
diz:
como
se tudo, luta repouso dentro de mim se entranhasse.
Talvez seja isso.