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Dia
desses recebi a notícia de que minha sobrinha era lésbica. Não que
eu já não soubesse, mas naquele dia fui oficialmente comunicada. A
mãe da adolescente Ju, como a menina de catorze anos é chamada,
conversou sobre o assunto pela primeira vez. Não sei se queria
apoio, desabafo ou alicerce, mas dedicou horas de papo a falar das
suas certezas com relação à filha, das “amigas” da sua caçulinha,
de seus medos, de como tentava saber da filha o que estava
acontecendo e coisas desse tipo.
Ouvindo a mãe
da Ju falar sobre a orientação sexual da filha e das suas
preocupações com a sua segurança (notem que a mãe da Ju pouco se
importa com o que os outros vão dizer), percebi o quanto as coisas
mudaram. Resolvi, então, fazer uma análise do que estava havendo
com a minha sobrinha. E, cá com meus botões, a primeira coisa em
que pensei foi “Caramba, a Ju se deu bem”. Afinal, quem não quer
poder chegar em casa, falar para a mãe que é homossexual e, em vez
de choro, repressão e culpa, receber carinho, compreensão e colo?
Aos catorze, eu
tinha que fazer milagres para conseguir ir sozinha ao cinema com
uma “amiga”. A mãe da Ju, já sabendo da condição da filha (mesmo
sem ela ter dito explicitamente para a mãe), pode ir e vir sem o
menor questionamento quando o assunto é a “Coisinha” – nome que eu
prefiro dar à “amiguinha” dela porque, afinal, sou ciumenta com a
minha sobrinha-bebê Ju.
Quando o tema
homossexualidade surgia por algum motivo lá em casa, minha mãe
fugia da conversa a qualquer custo. Já a mãe da Ju quer mais é
falar sobre isso com a filha. Aliás, tenta criar sempre uma
atmosfera boa para que ela converse sobre o que quer que seja.
Na minha época
(odeio passar um atestado da minha idade com essa frase), o máximo
que eu conseguia saber sobre homossexualidade era o que passava
nos programas da Silvia Poppovic que tocavam no tema. Sempre, é
claro, ouvindo os comentários da minha querida e preconceituosa
mãe. Com a Ju é diferente. Ela tem uma tia que é casada com outra
mulher, vai a passeata gay com a mãe se quiser e até recebe
orientação sobre o assunto na escola. A Ju é ou não é uma garota
de muita sorte? De liberdade a informação, essa menina tem de
tudo.
Eu estava quase
batendo o martelo e já comemorando o fato de que a Ju não sofreria
tanto quanto eu até estabelecer-se socialmente como homossexual.
Eu estava radiante porque minha sobrinha não precisaria chorar
seus amores escondida, teria com quem dividir suas
dores-de-cotovelo. Aí me dei conta de um detalhe: a Ju é
adolescente. E como toda adolescente, a Ju também prefere o
caminho mais difícil, é sempre do contra. Em vez do diálogo,
prefere a reclusão. Em vez do afeto materno, prefere a distância.
E aí acabei vendo que minha adolescente Ju não tirou a sorte
grande, nem teve tanta sorte assim.
A Ju,
pobrezinha, tem uma mãe que quer saber de tudo, quer conhecer a
namorada que ela nem sabe se quer apresentar. A Ju pode ir aonde
quiser, tem a informação que desejar. E a Ju não quer nada disso.
A Ju quer que a mãe se cale. Quer ficar trancada em seu quarto.
Será que o mundo não percebe isso? A Ju quer sofrer como seus
amigos. Ela precisa ter algo que lhe sirva de argumento para
revolta. A Ju é adolescente. E com adolescente não tem comparação
que seja vantajosa, não tem nada fácil. Adolescente sofre muito e
ponto.
Beth Andrade,
29 anos, jornalista. 14/12/2007
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