Seções

Cultura

Direitos

EcoLógica

Em Movimento

Enfoque

Entrevistas

Horóscopo

Lazer & Cia

Saúde & Beleza

Símbolos & Dias

Integração

Enquetes

Links Legais

Sua Opinião

ponto de encontro

colaboração

pesquisas

 
 
 
 
 
Enfoque
 
Relacionamento é investimento?
Lydia MM Gonzalez
 

“Laura está vivendo uma relação que considerou muito feliz no primeiro ano de convivência conjugal. Morava com sua parceira. Quando chegou pela primeira vez ao consultório, enfatizou o quanto se sentia com sorte por ter encontrado alguém com quem compartilhar.
  
Contou que acabara de completar trinta anos e estava um pouco decepcionada com seus namoros quando conheceu Suzana, na casa de uma amiga em comum. Sentiu-se confortável com ela, sintonia imediata. O fato dela ser mais velha quase 12 anos não era importante. Sentia-se até protegida, muito compreendida, até mimada.  Algo mudou quando começou a sentir que a atenção de Suzana estava muito focada em tentar resolver todas as questões dela. Não podia fazer qualquer comentário, reclamar de alguma coisa, que Suzana imediatamente tentava achar uma solução. Muitas providências foram tomadas por iniciativa dela.

Mais 2 anos se passaram. Um sentimento de incompetência foi tomando conta de Laura. Tentou conversar com Suzana sobre sua necessidade de buscar as próprias respostas. Suzana não compreendia o que Laura estava sentindo. Fazia tudo para agradar. Quanto mais fazia, quanto mais tentava ajudar, mais Laura se afastava e dizia que precisava pensar sobre o que estava acontecendo com as duas.

Laura a amava, mas estava se sentindo presa, sentindo-se cada vez mais devedora, mais apagada na relação. Quando tentava dizer isso, Suzana não a ouvia, sempre conseguia mostrar o quanto estava feliz de poder ajudar, dificultando que Laura tivesse seu tempo de escolher suas soluções. A admiração que uma tinha pela outra estava começando a ser substituída por um outro sentimento. Laura começava a se sentir muito dependente. Não conseguia mais sair para conversar com seus amigos após o trabalho. Suzana sempre presente, sempre disponível.

Começou a sentir falta de ter seu próprio tempo, sair, rir e brincar sem ter alguém controlando seu comportamento.  Os amigos foram se afastando. Quando percebeu, estava mergulhada em uma rotina paralisante, fechada. Precisava ter seus projetos pessoais, suas pequenas vitórias. Deixou-se conduzir e já não conseguia estabelecer seus limites. As discussões, o ciúme, começaram a contaminar todo diálogo. Já não se entendiam. Brigavam.”
 


A
frase “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” é muito usada popularmente em situações de cobrança afetiva. Interessante observar que o uso se faz sem que se saiba a continuação da história após a raposa dizer a frase no livro “O Pequeno Príncipe” (de Antoine de Saint-Exupéry ). Lembrando que antes a raposa convence o resistente Príncipe a cativá-la.
 

O resultado pode ser desastroso para muitas pessoas que acreditam que esta é uma frase contendo a verdade inteira. Quando a raposa tenta evitar que o Príncipe vá embora, ela usa esta frase, mas não evita que o Príncipe continue com seu projeto de ir embora. Então, a astuta raposa tenta enrolar mais um pouco. O Príncipe reflete e até entende o que a raposa quer dizer com “cativar”, no sentido de tornar única a sua rosa, em relação a todas as rosas que encontra pelo caminho. Porém, entender também não evita que ele continue com seu equilíbrio e determinação. A persistência do Príncipe em continuar seu caminho mostra o quanto ele tinha de clareza para separar o que sentia como uma necessidade sua, pessoal e intransferível, da necessidade da raposa de manter-se como “cativada”. Podemos recorrer ao nosso auxiliar, um útil dicionário, para entender a origem da palavra “cativar”. Cativar, prender, escravizar.  O ato de cativar envolve muito mais do que simplesmente realizar um desejo, uma paixão. Podemos entender  melhor essa acepção negativa dessa palavra se olharmos para um zoológico, ambiente restrito que mantém animais presos para a realização de um desejo humano. O que ocorre dentro do zoológico? Uma situação onde os animais cativos devem satisfazer a uma necessidade “do outro” (humano) e para isso devem ter sua liberdade de ir e vir cortada, devem ser cuidados, vigiados, alimentados.

Parece uma coisa boa aos olhos ingênuos. Ser cuidado parece bom. Isso tudo custa algo a alguém. O custo maior é a perda do principal. O que o humano mais gosta nos animais é sua expressão de liberdade, sua força, sua beleza e harmonia. Tudo isso se deforma com a perda da liberdade. Todos sabem o que ocorre com os animais mais selvagens quando são submetidos ao cativeiro. Perdem o brilho, a força, a beleza, a harmonia. É isso que desejamos em nossos relacionamentos? Cativar no sentido de prender? Ou se lembrarmos bem: o que nos faz gostar de alguém é a possibilidade de admirar, respeitar, valorizar.
Respeitamos, valorizamos, dignificamos quem prendemos? Ou quando nos sentimos prisioneiros?


O que ocorre nos relacionamentos, onde “amar” se pode traduzir como “cativar”, é uma “prisão” para as pessoas envolvidas. Tornam-se prisioneiros e carcereiros. Falta confiança, respeito próprio e falta brilho. Quem deseja ter um relacionamento bom e saudável, com possibilidade de durar, deve se esforçar para não cair na armadilha da raposa. Amamos quem admiramos. O Amor brilha, tem luz.


É muito complicado amar quando o ambiente se torna um cárcere vigiado e desrespeitado em privacidade pessoal. O amor pode se tornar uma obrigação? Uma dívida de um investimento? Um constrangimento?  Será que isso é Amor?
Domar o desejo de “prender, vigiar e punir” o parceiro é uma necessidade constante, tornando maduro o relacionamento.

Quando alguém se percebe vigiando o parceiro, cobrando algo do outro, pode notar que algo está errado consigo mesmo. Algo está faltando em si mesmo, que ninguém poderá suprir. Falta o respeito próprio, a dignidade, a própria valorização. Amor se dá por generosidade, não por obrigação. Amor até pode ser visto como investimento se lembrarmos que poder Amar já é o lucro “em si mesmo”. Amar é um sentimento interno de generosidade, de transbordamento. Exigir Amor é provar que não o tem dentro, é impossível de ser cobrado. É para ser sentido, independente de qualquer coisa externa.

 

Clareza e esforço pode tornar um relacionamento prazeroso para ambos os parceiros, depois de passado os momentos iniciais de paixão e entusiasmo. Só podemos exigir a percepção do que somos para nós mesmos. Mesmo que para ter esta percepção precisemos de ajuda. Cultivar a si mesmo, cuidar-se, é possível.

Admiração e respeito é o principal alimento de qualquer relacionamento. A falta destes elementos faz desaparecer os outros potenciais sentimentos.
 

Laura aos poucos conseguiu estabelecer seus limites. Suzana começou a compreender que não estava cuidando de si mesma, ao se dedicar exageradamente a suprir as necessidades de Laura. Achava que isto era Amor. Agora estão reaprendendo a pedir ajuda uma da outra, quando realmente precisam e estão saindo mais com seus próprios amigos, equilibrando os passeios juntas. Reconheceram que é um esforço contínuo para não cair na rotina e nas armadilhas das cobranças.


Lydia MM Gonzalez – Psicóloga

 

Enfoque Índice

Comentários
Nome:
E-mail:
telefone:
Cidade:
Estado:
País do exterior

Deixe seu comentário sobre o artigo acima

 
 

Comentários

Um Outro Olhar On-line © 2004-2008 Rede de Informação Um Outro Olhar
Todos os direitos reservados.