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A
frase “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
é muito usada popularmente em situações de cobrança afetiva.
Interessante observar que o uso se faz sem que se saiba a
continuação da história após a raposa dizer a frase no livro “O
Pequeno Príncipe” (de Antoine de Saint-Exupéry ).
Lembrando que antes a raposa convence o resistente Príncipe a
cativá-la.
O
resultado pode ser desastroso para muitas pessoas que acreditam que
esta é uma frase contendo a verdade inteira. Quando a raposa tenta
evitar que o Príncipe vá embora, ela usa esta frase, mas não evita
que o Príncipe continue com seu projeto de ir embora. Então, a
astuta raposa tenta enrolar mais um pouco. O Príncipe reflete e até
entende o que a raposa quer dizer com “cativar”, no sentido de
tornar única a sua rosa, em relação a todas as rosas que encontra
pelo caminho. Porém, entender também não evita que ele continue com
seu equilíbrio e determinação. A persistência do Príncipe em
continuar seu caminho mostra o quanto ele tinha de clareza para
separar o que sentia como uma necessidade sua, pessoal e
intransferível, da necessidade da raposa de manter-se como
“cativada”. Podemos recorrer ao nosso auxiliar, um útil dicionário,
para entender a origem da palavra “cativar”. Cativar, prender,
escravizar. O ato de cativar envolve muito mais do que simplesmente
realizar um desejo, uma paixão. Podemos entender melhor essa
acepção negativa dessa palavra se olharmos para um zoológico,
ambiente restrito que mantém animais presos para a realização de um
desejo humano. O que ocorre dentro do zoológico? Uma situação onde
os animais cativos devem satisfazer a uma necessidade “do outro”
(humano) e para isso devem ter sua liberdade de ir e vir cortada,
devem ser cuidados, vigiados, alimentados.
Parece uma coisa boa aos olhos ingênuos. Ser cuidado parece bom.
Isso tudo custa algo a alguém. O custo maior é a perda do principal.
O que o humano mais gosta nos animais é sua expressão de liberdade,
sua força, sua beleza e harmonia. Tudo isso se deforma com a perda
da liberdade. Todos sabem o que ocorre com os animais mais selvagens
quando são submetidos ao cativeiro. Perdem o brilho, a força, a
beleza, a harmonia. É isso que desejamos em nossos relacionamentos?
Cativar no sentido de prender? Ou se lembrarmos bem: o que nos faz
gostar de alguém é a possibilidade de admirar, respeitar, valorizar.
Respeitamos, valorizamos, dignificamos quem prendemos? Ou quando nos
sentimos prisioneiros?
O que ocorre nos relacionamentos, onde “amar” se pode traduzir como
“cativar”, é uma “prisão” para as pessoas envolvidas. Tornam-se
prisioneiros e carcereiros. Falta confiança, respeito próprio e
falta brilho. Quem deseja ter um relacionamento bom e saudável, com
possibilidade de durar, deve se esforçar para não cair na armadilha
da raposa. Amamos quem admiramos. O Amor brilha, tem luz.
É muito complicado amar quando o ambiente se torna um cárcere
vigiado e desrespeitado em privacidade pessoal. O amor pode se
tornar uma obrigação? Uma dívida de um investimento? Um
constrangimento? Será que isso é Amor?
Domar o desejo de “prender, vigiar e punir” o parceiro é uma
necessidade constante, tornando maduro o relacionamento.
Quando alguém se percebe vigiando o parceiro, cobrando algo do
outro, pode notar que algo está errado consigo mesmo. Algo está
faltando em si mesmo, que ninguém poderá suprir. Falta o respeito
próprio, a dignidade, a própria valorização. Amor se dá por
generosidade, não por obrigação. Amor até pode ser visto como
investimento se lembrarmos que poder Amar já é o lucro “em si
mesmo”. Amar é um sentimento interno de generosidade, de
transbordamento. Exigir Amor é provar que não o tem dentro, é
impossível de ser cobrado. É para ser sentido, independente de
qualquer coisa externa.
Clareza e esforço pode tornar um relacionamento prazeroso para ambos
os parceiros, depois de passado os momentos iniciais de paixão e
entusiasmo. Só podemos exigir a percepção do que somos para nós
mesmos. Mesmo que para ter esta percepção precisemos de ajuda.
Cultivar a si mesmo, cuidar-se, é possível.
Admiração e respeito é o principal alimento de qualquer
relacionamento. A falta destes elementos faz desaparecer os outros
potenciais sentimentos.
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