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Ah,
finalmente você encontrou sua princesa encantada após longo e
árduo tempo de busca pelos bares, chats eletrônicos,
classificados ou através de amigas comuns, trabalho, vida. O
importante é que você encontrou e agora, sim, vai viver feliz
para sempre.
Se existe algo que nós, escritores de romance, deixamos em
suspenso no final de nossos livros é a continuidade da vida do
casal finalmente reunido. Na verdade, o the end é onde, de fato,
tudo começa: a vida a duas, o relacionamento, as descobertas, a
adaptação, o amor terno e recíproco, o companheirismo, a
parceria. É isto que une as namoradas. A atração é apenas a
isca, o que as leva a se interessarem uma pela outra e se
aproximarem. Mas será a convivência, o companheirismo, a
parceria, a atenção, os gestos miúdos e ternos que as manterão
unidas e fortalecerá a relação. O final feliz dos romances não
passa do começo feliz ou infeliz e solitário de uma relação.
Opa, está escrito infeliz no parágrafo acima? E ainda somado a
solitário? Será possível? Pior que possível, tem sido este o
final “feliz” de muitas princesas encantadas: insatisfação e
solitude. E por quê? Porque um dos lados ou ambos não fizeram a
lição de casa no período da busca: deixaram de refletir, de se
perguntar quais eram suas prioridades na vida e o que procuravam
num relacionamento amoroso.
Há mulheres que tem por prioridade o trabalho, outras, a
família, outras a turma de amigos. Os porquês são muitos e não
há como discuti-los aqui. As primeiras vivem assumindo mais
trabalho. Há aquelas cuja prioridade é estar com os amigos. A
namorada se quiser que venha junto, porque esta mulher não sabe
viver sem a rodinha dos amigos que, aliás, são sempre os mesmos.
Outras se dedicam à família como se fossem o arrimo emocional,
financeiro e enfermeiro, a única do clã a se devotar
inteiramente. Conheci um caso em que a namorada vivia às voltas
com a mãe doente. Quando a mãe faleceu, passou a dedicar-se ao
pai. Anos depois, quando este se foi, voltou seu tempo e seu
coração para o cuidado de outros familiares...
Pode ser que você seja uma workalcoholic ou, em bom português,
uma ólatra: mulher que tem por prioridade o trabalho, a família
ou a turma de amigos ou o que quer que absorva seu tempo, seus
pensamentos, seus afetos e sobrepõe-se a tudo o mais, inclusive
a relação com a sua namorada. Se você é uma ólatra, com certeza
você será uma namorada meia sola, meio presente e meio ausente
da relação. Se a sua princesa for tão ólatra quanto você, que
bom! Vocês serão, sem dúvida, muito felizes. Desde que, claro,
consigam acertar as agendas, já que as prioridades são as
mesmas, isto é, estão ambas focadas em algo que não é o namoro e
a namorada... Na eventualidade de não conseguirem ajustar as
agendas, cada qual há de sair do caso reclamando da falta de
tempo da outra, uma ólatra contumaz. Nada mais verdadeiro.
Agora, se você, minha cara princesa, é uma mulher equilibrada,
que vive com relativo equilíbrio os múltiplos aspectos da vida e
tem por prioridade viver um relacionamento amoroso duradouro e
companheiro, fique atenta às prioridades da mulher que deseja
namorar: não vá viver o desgosto e a frustração de se sentir
preterida com freqüente e irritante regularidade. Portanto,
hélas, confira prioridades, as suas e as dela no início do
namoro. Ouça o que ela tem a falar, mas não se fie das palavras.
Pesquisas já demonstraram que na comunicação as palavras valem
7%, a expressão e a postura 39% e as atitudes, 54%. Veja se o
discurso confere com as atitudes. É fácil falar em grande amor e
depois telefonar para dizer que não vai dar para sair com você
porque pintou um lance no trabalho, família ou na turma...
Confira também as afinidades. Se ela adora heavy metal e você é
fã de ópera, ela curte a noite, você o dia, acampar para ela é
um programa de primeira e para você, de índio: cuidado, a
atração não vai resistir a interesses tão díspares e
excludentes, e irá, certamente, para o brejo se não houver um
esforço hercúleo de adaptação de lado a lado. Lembre-se, no amor
como nos negócios, a relação tem de ser ganha-ganha, isto é: os
dois lados cedem alguma coisa e ganham alguma coisa.
Se você é uma ólatra, esteja preparada para as reclamações de
que não está presente, não prioriza a relação, é desatenta etc.
E quando perceber que as reclamações acabaram, das duas uma: ou
o caso está perto do fim ou a sua namorada se resignou. Não é
uma namorada feliz, mas também querer ter uma namorada feliz
quando se a deixa em segundo plano já é querer demais... Aliás,
como uma autêntica ólatra, você nem percebe que sua namorada
está insatisfeita. Ouve as reclamações e as dispensa como
queixas inúteis. Afinal, todas as suas namoradas anteriores já
reclamavam disso...
A ólatra, em geral, está mesmo em busca não de uma namorada no
sentido amplo do termo, mas de uma acompanhante que vá com ela
aos lugares que a interessam seja por motivos profissionais,
familiares ou de turma. Não é importante, nem há tempo para sair
com a namorada para namorar, divertirem-se juntas, somente elas,
bastando-se uma à outra, aprofundando a relação, criando e
tecendo vida e experiências que serão somente delas. Cedo a
princesa encantada perceberá que você é uma ólatra. E perceberá
que a função dela não é mais do que a de mera acompanhante, ser
o repouso da guerreira, quando você cansada do trabalho,
aborrecida com a família ou farta da turma se recolhe aos seus
braços.
Mas há também ólatras que preferem se casar. Desde que a
companheira siga o modelito tradicional de nossas avós: moram
juntas e quando ela volta para casa às altas horas, cansada do
trabalho, da família ou da turma, a esposa está ali com a janta
pronta e o abraço carinhoso, embora a cada dia mais ressentida e
insatisfeita.
É frustrante ser namorada de uma ólatra. Quando se pensa que se
vai ter sua companhia, acontece algo no último minuto que altera
planos, saborosos encontros a duas, nos quais poderíamos curtir
a namorada, relaxar, amar e nos sentirmos amadas. Ólatras
costumam take for granted, tomar como certa e garantida a
presença da namorada. Jamais lhes passa pela cabeça que
namoradas se desenamoram, o encanto desencanta, o amor evapora
diante das repetidas vezes em que a princesa se vê relegada a um
segundo plano.
Assim, se você é uma princesa encantada que vive a vida, a
carreira profissional, a família e curte os amigos com
equilíbrio; não se contenta com qualquer coisa, nem com migalhas
de tempo, afeto e atenção, acredita em si, tem uma boa
auto-estima e sabe que pode – porque é verdade! - encontrar
alguém que a mereça e que lhe dê a atenção, o carinho, o tempo e
o espaço que você precisa e também está disposta a dar: fuja das
ólatras. E se por infelicidade topou com uma e vive hoje a
solidão de ser acompanhante ou esposa de uma delas, pense bem e
veja lá se não é o caso de se preparar para alçar vôo e
continuar na busca de uma princesa encantada que – como você –
queira viver com plenitude um relacionamento amoroso. Esteja
certa, vale a pena batalhar um pouco mais e encontrar uma
namorada de verdade.
Stella C. Ferraz é autora
dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e
Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense.
(25/10/05)
(Texto originalmente publicado em revista Um Outro Olhar, n. 38)
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