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Reflexões sobre o Natal
 
 
Cassiane Chagas

 

Olha só o Natal aí. É, meus amores! Sininhos, luzes coloridas por todos os cantos, corais à beira da praça... Sentimentalismo à flor da pele, aumento das ações voluntárias de amor ao próximo. Perdão àqueles que necessitam, um abraço de apoio ao filho, ao pai, à mãe, ao irmão homossexual. Ok, honey, nem tanto, não vamos exagerar.  
No dia do Natal costumo conversar bastante com o tiozinho, mais conhecido como Papai Noel (amigo de noitadas nas várias boates gays que eu freqüentava). Ele anda meio fora de forma, até porque vivia em casas de troca de casais com a Mamãe Noel (que, pelas barbas do profeta, está inteiraça depois da última intervenção nos quadris). Conversamos sobre cultura, entretenimento, economia mundial e sobre as últimas tendências em posições sexuais. 

Bem, sou uma garota bem-humorada (além de outros dotes, é claro ). Natal, na maior parte das famílias, é uma reunião de troca de presentes e blábláblá. Não na minha. Passo quase todos os anos dormindo no Natal, e por opção, sim, meu bem. Costumo lembrar do nascimento do homem de Nazaré, de seus diálogos inteligentes, de suas profecias, de como era lúcido e claro em tudo que dizia e do quanto as religiões deturparam uma obra repleta de conhecimento. Fazer o quê?  

A família da minha esposa, Heb, realiza essas festas cheias de coisinhas minuciosas e afins, eu respeito as pessoas que promovem esses eventos, mas, também por opção, eu não participo. É que, na minha opinião, trocar abraços, demonstração de amor e carinho com a família e até com o estranho da esquina dever ser um treinamento diário e não somente na época em que os sinos, de repente, tocam mais entusiasmados.  

Talvez isso seja só uma mania de lésbica que passou um tempo vivendo sozinha e longe da civilização, aí, já viu, fica assim, parecendo uma tia anti-social. Mas como vivemos num país livre e pouco me importa o que dizem do meu jeito de viver, da minha orientação sexual, do meu corte de cabelo e do meu rímel com sombra prateada à luz do dia, acho que está tudo lindo, está tudo bem.  


Ah, mas não sou tão radical assim, meus anjos. Desejo um Natal com bastante amor, abundância e gratidão, e regado de muita, mas muita purpurina (adoro).  

E passe adiante esse espírito natalino” (que costuma vir acompanhado de ações humanitárias e respeito ao próximo) não só no dia do Natal, mas durante todo o ano, para as pessoas que amam você.  

Agora, para aquelas pessoas que insistem em viver odiando nossa irmandade, minhas queridinhas, não digam nada. Cá pra nós, vocês são lindas, gostosas e seguras o suficiente para não mandar essa gente pra lugar nenhum. Afinal de contas, tem coisa pior que elas conviverem consigo mesmas? Acho impossível. 

Um Natal lindo para as de bom coração, seja ele vermelho, rosa, amarelo ou... da cor do arco-íris!


Cassiane Chagas, 28, é jornalista e radialista

 

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