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O direto é meu, é teu, é nosso!
Cassiane Chagas

Roberta (Foto: Reprodução/TV Tem)Barbaridade! Agora sim acho que vou precisar de um bom terapeuta. Também, pudera, é cada uma que acontece... Eu estava para tocar neste assunto já há algum tempo, mas, sabe como é, trabalho, casa, problemas com a casa e depois com o trabalho... (Já notou que, quando um problema vem, ele vem em enxame, coisa danada). Mas, enfim, estava eu, num dia qualquer da semana, não lembro qual (aliás, não me lembro nem o que comi hoje no jantar, quer dizer, exceto minha esposa, não sei mesmo o que comi no jantar), vendo um programa da televisão aberta que não vou dizer o nome, que não sei por que razão decidiu falar do caso da Roberta, uma transexual que mora em São José do Rio Preto. Ela é casada com um aposentado, tem uma vida estável, os dois pretendiam adotar uma criança e, veja bem, um determinado promotor da Infância e Juventude queria impedir tal decisão.  

O caso é mais ou menos esse, evidente que há mais detalhes e blablablás. Mas o que me deixou puta da vida (desculpe) é que o promotor de justiça, um indivíduo que está aqui pra defender a sociedade e que, no mínimo, freqüentou um curso superior de direito, era extremamente homofóbico. Não nas entrelinhas, mas na cara dura mesmo. Ele teimava em chamar Roberta pelo seu nome masculino de nascença, sem respeito algum pela cidadã (muito mulher por sinal) que estava na sua escuta. Esbravejava horrores, falava que Roberta não tinha estrutura psicológica para educar uma criança porque tinha problemas com sua sexualidade. Peraí, senhor! Estamos no século 21, em que mundo o senhor está vivendo? Fiquei passada, passadézima, queria quebrar o televisor na cabeça daquele sei lá o quê. 

Bem, recuperada da situação, ainda ouvi o tal cidadão dizer que para uma criança crescer bem estruturada psicologicamente é necessário que ela more com um casal “normal”. Acreditam, lindinhas? “Normal”! Meu Deus, alguém na face da Terra me diga: o que é um casal normal? Fui criada por pais divorciados que nem se olhavam na cara e eis-me aqui, viva, bem profissionalmente e com uma estrutura de dar inveja à Heloisa Helena (nossa, como tá sumida essa mulher).  

Não, não, ele não parou por aí. Disse que filhos de casais homossexuais não são bons frutos. Nessa hora não fiquei só com pena dele, não; fiquei com pena foi dos filhos desse cidadão. Já imaginou? Aff... Na verdade, o que senti diante de tudo aquilo foi o descarado desprezo da lei, que não respalda totalmente os homossexuais. Aí já viu, meus amores, vem um cidadão vomitar essas palavras em rede nacional em cima de um grande público consumidor de roupas, calçados e afins (e como somos consumidores neste país).

Quanto a Roberta? Bem, ela não pode nem processá-lo. Fico imaginando ele, como um cidadão negro que é e com todo respaldo da lei, sendo chamado de repente de “negão filho da mãe”. Mas não, Roberta não poderia (nem iria querer) chamá-lo assim. Mas se o chamasse poderia ser presa pela lei do racismo (a qual, aliás, acho muito importante).

Só dois pontos para finalizar meu raciocínio: nós, homossexuais, precisamos de leis mais rigorosas e até mesmo práticas para que não fiquemos à mercê de colegas de trabalho, chefes e vizinhos homofóbicos que se sentem à vontade para falar o que quiserem porque não serão punidos. Outra coisa: se me chamarem de sapatão, bolacha, Bino, não me sentirei ofendida porque é o que eu sou. Certa vez, conversando com um advogado (incrível por sinal) sobre crimes de racismo, ele me disse que não se sente ofendido quando alguém o chama de “negão”, porque é isso que ele é. O problema é se o ofenderem com palavras pejorativas. Bingo! Essa é a questão. O problema não é me chamarem de “bolachona”, porque eu sou mesmo uma bolachona (e com muito orgulho, obrigada). A questão, e o buraco então fica mais embaixo, é quando se torna ofensa.

Quando promotores de justiça, que têm por obrigação defender a sociedade contra abusos, um advogado que estuda, conhece leis, que dia a dia trata de casos urgentes, vem dizer na televisão, sem argumento nenhum, que o homossexual não pode adotar uma criança porque tem problemas psicológicos, isso acaba com o dia de qualquer uma.

E o que não é nada animador: sabe o que aconteceu com esse promotor da Infância e Juventude? Nada, lindinhas, nada! Por mais que achemos argumentos (fortes por sinal), não há lei concreta para a homofobia. E assim caminhamos (às vezes com pés surrados) em nossos ideais. Não podemos parar nunca. Acredite, o jogo pode mudar e o time que está perdendo pode ganhar de virada. O segredo é manter a fé e a conduta...

Quanto ao promotor de justiça fortão, o super-homem da moralidade, bem, é como dizem vários especialistas: “Quem muito detesta...”. Parece que quem tem problemas com a sexualidade, definitivamente, não somos nós.

Cassiane Chagas, 28, é jornalista e radialista - 26/02/2008
 

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