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Mesmo que seja a ex
Beth Andrade 

Eu estava caminhando com minha irmã quando meu celular tocou. Do outro lado da linha, minha namorida pedia que eu me encontrasse com ela no seu trabalho. Ela dizia que a Bida (sua ex) estava com saudades de mim e queria que fôssemos jogar sueca e dormir na casa dela. Poucos instantes de papo com minha garota, e eu já estava aos risos com a Bida (ela é a maior figura). Desliguei o telefone e a pergunta da minha irmã foi quase imediata: você nunca teve ciúmes da Bida? 

Tal como a pergunta, minha resposta também foi rápida: claro que não. Mas aí parei para pensar um pouco sobre o assunto. Eu não tenho ciúmes da Bida porque sinceramente não vejo motivos para isso. Minha namorida viveu com ela por dez anos (eram duas fedelhas que resolveram sair de casa para viver juntas um amor adolescente). Depois de crescerem, amadurecerem e passarem bons bocados juntas, era natural que mesmo que não tivessem um final do tipo “... e viveram felizes para sempre”, se tornassem amigas.

 A primeira pessoa que a minha garotona me apresentou foi a Bida (acho que foi algo como “se a Bida aprovar, tudo bem”). Conhecê-la foi quase como pedir aprovação do namoro. Naturalmente nos tornamos amigas e a Bida foi até uma das testemunhas do nosso contrato de união estável. Aliás, a Bida não foi a única “madrinha” que já foi ex.

 Ao ouvir perguntas como as da minha irmã, e tendo como referência a minha realidade, causa-me certa estranheza sentir ciúmes de alguém que já deixou o posto que assumi. Por que cargas-d’água eu teria ciúmes de uma pessoa que já passou pela vida da minha namorida? Claro que se eu percebesse que a história não estava bem definida, não teria tanta tranqüilidade, mas acho também que muitos dos monstros que surgem são criados por nós mesmas.

 Eu entendo a preocupação da minha irmã. Primeiro porque ela é uma ciumenta assumida. Depois porque, apesar de saber quem nem todos são iguais, as referências dela sobre relacionamentos homossexuais não são as mais católicas. Não é mesmo, meninas? Não sei se por estarmos sempre ao redor das mesmas pessoas ou se por pura sem-vergonhice da classe, o fato é que é muito comum uma garota namorar a ex de outra que é conhecida de todas, mas ainda é apaixonada pela ex e assim por diante. E o pior: a mulherada é ciumenta ao cubo. Colocam logo a capa do Batman e fazem cara de meninas más para intimidar. Como se isso fosse o bastante...

 Não vou dizer que nunca senti ciúmes da minha garota. Não a amaria se não sentisse ciúmes. Mas sei que nem eu nem ela somos do tipo que mantém relacionamentos mal resolvidos. Então, em vez de morrer de medo de ganhar uma galhada (experiência que, eu creio, todas nós devemos passar um dia — e saibam as curiosas de plantão que eu já atingi a meta algumas vezes), preferimos colecionar amigos. Imaginem quantas Bidas a gente deixa de manter na vida pelo simples fato de estar namorando. Afastar-se dos amigos para namorar não é saudável. Acho que é perfeitamente compreensível sentir ciúmes de alguém que já esteve com quem você ama. Mas se sua namorada e a tal criatura não se amam mais, por que não manter a amizade? No meu caso tem valido a pena. Mesmo sendo ex.
 

Beth Andrade, 29 anos, jornalista e amiga da Bida, apelido vindo de “vida” pelo qual ela e minha garota se tratam mutuamente desde o namoro e que eu passei a assumir como nome. Do mesmo jeito que ela me chama de Bê, apelido que ganhei da minha namorida.
 

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