Talvez
mais difícil do que encontrar a princesa encantada seja nos
entender com ela. Depois de um tempo que nos parece infinito
percorrendo bares, boates (até aquele som alto e música bate
estaca você aturou para encontrar a sua bela), teclando nos
chats e freqüentando a feirinha da Praça Benedito Calixto
aos sábados (se você ainda não foi, e está sem princesa
encantada, agarre essa dica), você finalmente encontra sua
cara metade para viver com ela felizes para todo o sempre.
Como já se disse aqui, os romances de amor estampam o the
end imediatamente após o happy end por bons
motivos. Não vá o happy end espichar demais e por
descuido revelar o que vem depois do the end! Porque,
então, pode ser tarde demais: o público há de descobrir com
horror e espanto que o que vem a seguir não é só lua de
mel, tesão e felicidade, mas também uma certa dose de passio
(de onde vem palavra paixão) que é sofrimento.
Não é um sofrimento amargo, infeliz, mas é um
sofrimento. Falo aqui da adaptação.
Passados os primeiros momentos de enlevo e encantamento,
aquelas semanas de paixão acelerada, olhos brilhando, suor
nas mãos e muita taquicardia, quando o casal começa a se
acomodar enquanto casal, aí sim se inicia o verdadeiro
relacionamento, a possibilidade das enamoradas criarem um
mundo e uma vida para si mesmas. E é aqui que a porca torce o
rabo e a coisa pega. Muitas vezes é aqui, onde começa o
relacionamento, que muito namoro vai pro brejo. Conheci uma
mulher fascinante que tinha namoros arrebatados, vivia
intensamente a paixão e, depois de 3 meses, todo aquele
frenesi amoroso se esvaía pelo ar e acabava o namoro. Não
raro nem a amizade ficava.
Por quê? Porque mais difícil do que encontrar a
princesa encantada é nos entendermos com ela. Você já deve
ter ouvido comentários desse tipo: F. é divertida e engraçada,
mas quando está com a namorada muda. Ou este outro comentário
que alguém faz da própria namorada: Impossível conversar
com ela, não dá.
A base do entendimento é o
diálogo, um princípio da diplomacia que deveria
ser estendido a todas as relações, principalmente as
amorosas. Infelizmente, há duas coisas que não nos ensinam
nos bancos escolares: relacionamento amoroso (só aquelas
aulas de biologia com mitose e meiose pelo meio) e parental
abilities (habilidades a adquirir para o exercício da
paternidade e maternidade), que começa a ser uma disciplina
nos Estados Unidos, mas que ainda não chegou por estas
bandas.
Entendimento e diálogo, lamentavelmente, exigem
paciência e tolerância. Uma pena que paciência seja uma
condição sine qua non, porque pedir paciência já é demais
para quem quase a perdeu na busca da amada. Observe. Quantas
vezes a namorada traz um problema e sua cara metade mal a ouve
e já lhe sapeca uma solução prática, rápida, segura e,
mais importante do que nunca, eficaz para fazer com que a
outra feche a boca, cale aquele problema e mude para um
assunto mais agradável? Se ela volta a tocar naquela tecla, o
que fazemos? Repetimos o refrão com ar de mestra cansada:
“já não lhe disse que é para fazer isso e aquilo?” E
nos admiramos quando ela não segue nossa sugestão. E se a
amada cai na asneira de contar suas desventuras a uma terceira
pessoa na nossa frente, quantas de nós não dizemos: “já
falei como resolver! Ela só se queixa e não faz nada do que
eu disse. Não sei porque então me pede ajuda!”
Onde está o entendimento? Não está, porque ou
falta paciência, ou falta amor para ouvir os lamentos,
queixas da amada em relação ao trabalho, família etc. O que
fazemos é encerrar a sessão de lamúrias e queixumes com uma
solução qualquer que tem por objetivo não tanto ajudar a
amada, mas nos poupar de ouvir seus problemas.
Desafortunadamente, não há soluções prêt-à-porter,
prontas como roupas nos cabides. Você diz o seu número e a cor
desejada e, záz, eis a solução para seu problema.
Somos complexas e as soluções também o são. Cada
pessoa tem uma cara, um estilo, uma forma de encarar a vida e
vivê-la. O que serve para Maria não serve para Zélia. As únicas
soluções razoavelmente boas são aquelas sob medida. Assim,
quando sua namorada começar a falar de seus problemas, não lhe
proponha uma solução que serve para você. Dificilmente
servirá para ela, terá a cara dela e o estilo dela.
Ouça. A maior parte das vezes, o que as pessoas e,
namoradas principalmente, querem e precisam é de um ouvido
amigo. Alguém que as ouça tantas vezes elas tenham
necessidade de falar, queixar-se, reclamar. Geralmente, de
tanto falar, começam a entender melhor o problema e sua dinâmica,
e hão de descobrir, por si mesmas e a seu modo, a melhor saída.
Que é a saída do jeito delas e não do seu ou do meu jeito.
Saber ouvir é um passo importante para transformar
uma grande paixão num grande amor.
Imagem: Xena, The Warrior Princess: The Way. Mais
informações: www.ausxip.com
(um dos maiores sites sobre a princesa guerreira)
Stella C. Ferraz é autora
dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e
Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense.
(18/07/04)