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Votar em quem? Missão (quase) impossível
    
Míriam Martinho

Todos os anos quando ocorrem eleições, as pessoas nos pedem dicas de voto: vocês têm candidato, em quem vão votar? Ainda que a gente fique lisonjeada com a confiança, trata-se de uma tremenda saia justa apontar em quem votar este ano, dadas às circunstâncias lamentáveis do atual contexto político. São tantos os casos de corrupção envolvendo o atual governo (o PT, a base governista) e mesmo parlamentares de outros partidos, que a vontade mesmo é de não votar em ninguém. Daí muitos optarem pelo voto nulo, o que, embora seja perfeitamente compreensível, não apazigua nossa sede de justiça porque, pela lei atual, o voto nulo pode inclusive beneficiar os picaretas de sempre que tentam se reeleger. 

A triste verdade é que ainda não estamos numa democracia plena, pois somos obrigada/os a votar, o que é um paradoxo. Votar é um direito e não um dever. Votamos porque queremos e porque temos em quem votar. No atual contexto, ambas as coisas andam muito difíceis. Votar hoje é um jogo estratégico onde, de um modo geral, tentaremos eleger os menos ruins de modo a iniciar um processo de purgação da cena política brasileira. Esse é o nosso papel como eleitoras e eleitores, um papel que – temos que assumir – andamos fazendo muito mal. Temos que reconhecer nossa parte nesse chamado mar de lama que quase diariamente nos assombra por via da mídia impressa ou virtual. Nós, brasileiras e brasileiros, ligamos muito pouco para política: desconhecemos a função dos poderes, dos parlamentares; votamos sem critérios, sem investigar os candidatos e sem acompanhar o trabalho de quem elegemos. Depois, nos escandalizamos com o grau de corrupção do meio político. 

Agimos como se não tivéssemos nada com isso. Mas temos tudo a ver com isso. O Brasil é nossa casa coletiva. Em nossa casa individual, só admitimos, para realizar algum trabalho, profissionais com um certo currículo e com referências. E, se mesmo com referências, essa ou esse profissional não se apresentar competente ou honesta(o), nós a(o) demitimos. Se começam a sumir coisas de nossa casa e quem contratamos para tomar conta de nossos interesses vêm com uma conversa mole que de nada sabe, de nada viu, no mínimo, por uma questão de prudência, devemos mandar essa pessoa embora, se não quisermos continuar sendo roubados. 

O Brasil é nossa casa coletiva. Os políticos são os profissionais que contratamos para cuidar de nossa casa. Não são uma casta à parte do resto da sociedade que tudo pode, para os quais as leis não existem. Agora, se, como em nossa casa individual, deixamos os profissionais que contratamos sem monitoria, a possibilidade de termos problemas é grande. Como diz o ditado, a ocasião faz o ladrão.

Então, vamos realizar nossa parte no sentido de impedir que os descalabros que vêm acontecendo na política brasileira pelo menos diminuam. Vamos votar de forma consciente, com critérios. Reproduzo abaixo o que não se deve fazer em eleições, segundo a revista Superinteressante (edição 230), com meus adendos e comentários em lilás. 

  1. Confundir a pessoa com o político. Muitos políticos ruins ou corruptos são carismáticos.
    Não vote em candidatos que sejam suspeitos de desvio de verba (improbidade administrativa) ou tenham problemas passados (mal-resolvidos) ou presentes com a Justiça. Veja no site do Transparência Brasil, organização dedicada ao combate à corrupção, o perfil da sua/do seu candidata/o (projeto Excelências),   http://www.transparencia.org.br/index.html no que se refere ao quesito “problemas com a Justiça”.

  2. Votar em quem está ganhando. (Não necessariamente quem está ganhando é a/o melhor candidata/o. Pode estar ganhando por ter maior exposição na mídia, por  exemplo).

  3. Votar em esquisitões para protestar. (Isso não é protesto. É estupidez. Tem grandes chances de desperdiçar seu voto com um medíocre ou corrupto).

  4. Votar em alguém só porque compartilha algo com ele (mesmo bairro ou religião). E puxando pro nosso lado. Não vote em candidata/o só porque ela/ele é mulher, mulher lésbica, gay, negro, portador de necessidade especial ou qualquer outro auto-intitulada/o representante de grupos discriminados. Vote com base nas propostas da/o candidata/o, sua honestidade (presumida pelo menos) e suas realizações (para as/os que tentam se reeleger). Neste caso, veja se a/o candidata/o cumpriu pelo menos a metade do que se propôs a fazer em seu mandato anterior. Agora, evidentemente, faça do empenho já demonstrado ou a demonstrar da/o candidata/o pelas questões das mulheres, das pessoas homossexuais, da questão racial, ambiental, etc... um diferencial na hora de decidir seu voto. E claro, continue de olho em quem elegeu.

  5. Trocar o voto por um presente ou um favor do candidato. (Fazer isso é obviamente alimentar o sistema de corrupção espantoso que existe em nosso país no momento).

Por fim, deixo  links de outros sites, ao fim desta matéria,  onde você poderá ter informações sobre os candidatos em geral, cargos e funções dos parlamentares. Mas, se você ainda estiver indecisa/o, pondere a possibilidade de dar seu voto a um dos partidos pequenos, mas ideológicos, como o Partido Verde, que podem ficar inviabilizados pela cláusula de barreira. Esse dispositivo, que visa diminuir o número de partidos sem representatividade (o que é positivo), penaliza, contudo, alguns partidos pequenos que merecem pelo menos nosso voto de confiança em função de suas propostas (a questão ambiental é super-importante). Pelo PV, tivemos, por exemplo, o bom trabalho do deputado Fernando Gabeira (RJ) contra a corrupção em Brasília, trabalho que pode ficar muito limitado se o partido não conseguir passar pela cláusula. 

Esclareço que não sou filiada ao PV nem a partido algum. Pondero apenas que, já que somos obrigadas/os a votar, que tentemos fazer algo útil com nosso voto em vez de anulá-lo e dar chances aos de sempre. O número do PV é 43. Há inclusive dois candidatos homossexuais por ele. 

E ainda uma última palavra sobre uma palavrinha muito vilipendiada nestas atuais eleições. Trata-se da palavra Ética. Em função da sucessão de escândalos, envolvendo o atual Presidente da República e candidato à reeleição e seu partido de base, o PT, seguidores de Lula vêm tentando passar a imagem de que os picaretas de “esquerda (seja lá o que for que isso ainda queira dizer)” não são exatamente picaretas. São na verdade uma espécie de Robin Hood que tira dos ricos para dar aos pobres, sendo sua roubalheira portanto necessária e até justa. Para eles, a política é uma merda mesmo e, se a causa for nobre (sic), como privilegiar os desprivilegiados, não se pode ficar com pruridos éticos e evitar pôr a mão em excrementos (leia-se corrupção).  

Esse “argumento” é de uma incrível desfaçatez. Primeiro porque, se a corrupção for considerada moralmente aceitável, dependendo das circunstâncias, tudo poderá vir a ser. Sem  pruridos éticos para impor limites aos governantes e as pessoas em geral, fica valendo tudo, desde criar campos de concentração (para eliminar as “impurezas raciais” e aperfeiçoar a espécie humana) até torturar e matar em nome de Deus ou do Estado ou, nos casos mais light, botar a mão no dinheiro público para aumentar o patrimônio pessoal e agradar os amigos. É a Ética que diz: porque aqui não dá, seja em nome do que for. 

Então, a corrupção nunca é moralmente aceitável. Ela representa roubo do dinheiro público – nosso dinheiro portanto – que deixa, entre outras coisas, de entrar no financiamento de projetos sociais que possam efetivamente, a médio ou longo prazo, eliminar a miséria e não simplesmente minimizá-la ou maquiá-la com abordagens assistencialistas e populistas. Não que se seja contra projetos paliativos ou emergenciais, só não se pode aceitá-los como um atenuante para o crime de corrupção. Roubei dos cofres públicos, mas lembrei de guardar um pouco para dar umas esmolas aos pobres que seguramente haverão de votar em mim. 

Se aceitarmos que a política é mesmo uma inevitável matéria fecal, estaremos condenando o Brasil a viver eternamente deitado numa latrina. Pessoalmente, não aprecio certos odores. E você? 

Links sobre as eleições, candidatos, os Poderes, cargos, funções, em quem votar, perfil ou ficha do candidato, como monitorar o futuro parlamentar, etc... 

Movimento Natura: http://www2.natura.net/web/br/foryou/hotsites/voto/src/index.asp

Instituto Ágora: http://www.institutoagora.org.br/

Transparência Brasil: http://www.transparencia.org.br/index.html

Blog do jornalista Fernando Rodrigues:
http://noticias.uol.com.br/fernandorodrigues/politicosdobrasil/

Míriam Martinho, 53, é editora do site Um Outro Olhar On-line. Leia mais aqui.

(SP/SP-29/09/06)

 

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