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E
eis que, quando você menos espera, - tchantchantchan! -
você topa, tropeça, é atropelada por sua princesa
encantada, a mulher de seus sonhos, tudo o que você havia
pedido à Deusa ou a Deus.
Você
finalmente encontrou a sua cara metade. E agora? Agora
dependendo de seu temperamento, signo, atividades e projetos
de vida, você há de viver por algum tempo horas de maior ou
menor ansiedade e angústia. Não sem razão corre a
anedota de que, no segundo encontro, as mulheres já vão com
o caminhão de mudanças. Infelizmente para as mais ansiosas,
a fase da Lusitana demora um pouco mais para acontecer. Antes
que o caminhão de mudanças estacione à frente da casa de
uma delas, muita água tem de rolar por debaixo da ponte.
É
a fase de as candidatas a namorada se conhecerem e procurarem
conhecer quais são as intenções uma da outra. Ainda mais
nesses tempos de ficar, o one night stand como
dizem as americanas, esse padrão de comportamento de passar
apenas uma noite juntas e nunca mais se ver ou se falar. Muita
gente já saiu de coração partido, porque foi para a cama
sonhando uma vida em comum, enquanto que a outra parte não
queria mais do que algumas horas juntas, quanto muito, uma
noite.
Eis
a angústia que assalta as enamoradas: por que ela não
me telefona? Puxa, queria sair com ela hoje também! Será que
ela gosta de mim? A gente vai voltar a se ver? Ficou de
telefonar e ainda não telefonou!
Ou será que quem ficou de telefonar sou eu? Telefono
ou não telefono? O que faço?
As
mais objetivas ou ansiosas costumam declarar peremptoriamente
que não gostam de jogo e não querem participar deste
delicado game amoroso que são os primeiros encontros.
E será que se trata mesmo de jogo ou apenas de uma dança,
leve e sutil, de sedução e descobrimento que acontece com os
animais e conosco também, não menos animais que eles, e bem
mais complexas? Afinal no reino da Femina Sapiens,
existem os complexos de Édipo, de Electra, de inferioridade e
de superioridade para citar os mais conhecidos.
Esse
jogo, ou momento é difícil mesmo. As mãos suam, perde-se a
fome, vive-se à espera de um telefonema ou sente-se palpitar
forte o coração quando é a nossa vez de chamar o celular da
amada ou da amada-a-vir-a-ser.
Amada-a-vir-a-ser?
Isso mesmo. Quem diz que a princesa encantada que você acabou
de topar ou de cruzar seu caminho é a sua amada mesmo e não
a de outra pessoa? Princesas encantadas também se enganam, se
atrapalham, pensam de um jeito e depois despensam...
Por isso, nada melhor do que um período de
conhecimento, de fazer a corte, de observar com quem estamos
saindo, de quem se trata. É o momento de ouvir. E mais
importante de que ouvir, observar. Afinal, falar é fácil. E
não são só os portenhos que podem ser comprados pelo que
valem e vendidos pelo que pensam que valem. Por isso,
aproveite este tempo para verificar se o que ela faz confere
com o que ela diz que faz. Depois de juntas, não adianta
muito alegar, como nos divórcios, erro de pessoa. Até aí, já
se sofreu muito, já se amargou muita tristeza. Use esse tempo
de sedução e de jogo para conhecer as intenções de sua
amada, para saber se ela é a pessoa que você está
procurando para partilhar sua cama e sua vida. Se ela tem a
ver com você.
O
jogo da sedução é sofrido para ambas as partes. Mas
reflita: o Amor, antes de ser um contrato de vida, é emoção.
As pessoas ficam juntas porque se querem bem, química, física
e sentimentalmente. Não adianta querer colocar o carro na
frente dos bois, sentar diante dela e falar e falar, ouvir e
ouvir e acreditar que está tudo resolvido. Que tudo foi dito
e ouvido. Relacionamentos amorosos acontecem ao longo do tempo
e não num instante. Pedem convivência. O love at first
sight acontece ao primeiro olhar, mas o relacionamento, o
bom entendimento e a alegria de estar juntas, acontece com o
passar dos dias. Por isso, administre sua ansiedade e angústia.
E lembre: “Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo,
mas aprendendo a jogar”, como cantava Elis Regina. O jogo
amoroso requer tranqüilidade, tudo o que nós, que amamos, não
conseguimos ter.
Stella C. Ferraz é autora
dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e
Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense. (20/10/04)
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