|
Sim. Eu levo café na
cama todos os dias para a minha namorida. Pode parecer a coisa
mais besta do mundo, e talvez seja. Aliás, nossas amigas tentam
entender isso até hoje. “Como, depois de três anos morando na
mesma casa, dividindo obrigações e contas, ela ainda te leva café
na cama?”, perguntam, atônitas, quando minha garota, toda
orgulhosa e com um tom quase de desdém, diz numa mesa de bar que é
acordada com beijinhos e café na cama todo santo dia.
É claro que por algum
tempo o café na cama vira o assunto da mesa. Umas olham com ar
angelical e dizem “Ai, que fofo!”, outras são mais práticas e
começam a discorrer sobre o tempo que se perde na produção de uma
refeição matinal. E, naturalmente, uma onda de lembranças vem à
mente de muita gente. “Ah, bons tempos em que a Fulana trazia meu
café na cama” é a frase mais recorrente. Diante dos inúmeros
questionamentos que ouço sobre os motivos que me levam a ainda
fazer isso todos os dias, em geral respondo apenas que faço porque
gosto. Mas hoje me peguei pensando sobre esse meu café na cama e
os motivos que me fazem, todos os dias, acordar, levantar,
preparar o café-da-manhã e levar numa bandeja tudo o que imagino
que minha garota vá querer comer naquele dia. E depois de muito
pensar, amigas, vou finalmente dar a verdadeira resposta sobre
essa questão.
Longe de ser a boa moça
ou a mulherzinha submissa que talvez possam imaginar, levo café na
cama todos os dias para a minha garota por necessidade. Isso
mesmo, pela mais pura e absoluta necessidade. É claro que no
início o café na cama ajudava a conquistar, demonstrava carinho
(especialmente em se tratando de alguém que não possui nenhum
outro talento na cozinha, como eu). Mas, com o passar do tempo,
levar o café na cama para a minha garota também assumiu as vezes
de hábito. Notem que eu disse hábito e não obrigação. Para
mim, tornou-se algo como vestir uma roupa ou tomar banho. E aí
vocês devem estar se perguntando: e onde está a necessidade nisso?
Porque qualquer um enxerga a necessidade de se vestir e tomar
banho, mas levar café na cama...? Que necessidade é essa?
Vou explicar melhor.
Trabalho aproximadamente doze horas por dia. E levo cerca de três
horas para ir e voltar do trabalho. Em média, fico longas quinze
horas fora de casa. Isso sem contar os outros tantos eventos que
ocorrem à noite e nos fins de semana. A partir de agora as coisas
vão começar a fazer sentido. Tenho necessidade de ter um tempinho
só meu com a minha namorida. Tenho necessidade de dividir minha
vida com ela, de dar exclusividade por
pelo menos uma hora à
mulher que atura minhas esquisitices faça chuva ou faça sol.
Vocês podem não acreditar, mas é aquele beijo sonolento, aquela
corrida pra fazer o xixi que ficou guardado a noite toda, aquela
preguiça dela em levantar que me fazem acreditar que terei um bom
dia. São aqueles olhos semi-abertos e ainda inchados de uma noite
bem dormida e o abraço do corpo dela ainda quente do edredom que
me fazem renovar as energias para mais um dia.
Tudo bem, vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver
com o fato de eu levar o café na cama para a minha garota. E eu
digo o seguinte: encontrei no café-da-manhã um jeito de dizer à
minha mulher, todos os dias, o quanto a amo. Certamente existem
milhões de outras maneiras de fazê-lo e todas, claro, são sempre
muito bem-vindas. O que não dá é pra deixar o tempo passar,
esquecer os carinhos diários e esperar que a pessoa que vive ao
seu lado mantenha a mesma paixão. Por isso, longe de querer dar
aulas de como manter sua mulher, quero apenas que vocês, minhas
amigas queridas, parem e reflitam um pouco sobre o que estão
fazendo para garantir o amor de seus pares. Porque eu e a minha
garotona já estabelecemos para nós o café na cama nosso de cada
dia.
Beth Andrade,
29 anos, jornalista e, das 6h30 até as 7h30, apenas a mulher da
Mozinha, acordada com café na cama.
|