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O café na cama nosso de cada dia  
Beth Andrade 

Sim. Eu levo café na cama todos os dias para a minha namorida. Pode parecer a coisa mais besta do mundo, e talvez seja. Aliás, nossas amigas tentam entender isso até hoje. “Como, depois de três anos morando na mesma casa, dividindo obrigações e contas, ela ainda te leva café na cama?”, perguntam, atônitas, quando minha garota, toda orgulhosa e com um tom quase de desdém, diz numa mesa de bar que é acordada com beijinhos e café na cama todo santo dia.  

É claro que por algum tempo o café na cama vira o assunto da mesa. Umas olham com ar angelical e dizem “Ai, que fofo!”, outras são mais práticas e começam a discorrer sobre o tempo que se perde na produção de uma refeição matinal. E, naturalmente, uma onda de lembranças vem à mente de muita gente. “Ah, bons tempos em que a Fulana trazia meu café na cama” é a frase mais recorrente. Diante dos inúmeros questionamentos que ouço sobre os motivos que me levam a ainda fazer isso todos os dias, em geral respondo apenas que faço porque gosto. Mas hoje me peguei pensando sobre esse meu café na cama e os motivos que me fazem, todos os dias, acordar, levantar, preparar o café-da-manhã e levar numa bandeja tudo o que imagino que minha garota vá querer comer naquele dia. E depois de muito pensar, amigas, vou finalmente dar a verdadeira resposta sobre essa questão.  

Longe de ser a boa moça ou a mulherzinha submissa que talvez possam imaginar, levo café na cama todos os dias para a minha garota por necessidade. Isso mesmo, pela mais pura e absoluta necessidade. É claro que no início o café na cama ajudava a conquistar, demonstrava carinho (especialmente em se tratando de alguém que não possui nenhum outro talento na cozinha, como eu). Mas, com o passar do tempo, levar o café na cama para a minha garota também assumiu as vezes de hábito. Notem que eu disse hábito e não obrigação. Para mim, tornou-se algo como vestir uma roupa ou tomar banho. E aí vocês devem estar se perguntando: e onde está a necessidade nisso? Porque qualquer um enxerga a necessidade de se vestir e tomar banho, mas levar café na cama...? Que necessidade é essa? 

Vou explicar melhor. Trabalho aproximadamente doze horas por dia. E levo cerca de três horas para ir e voltar do trabalho. Em média, fico longas quinze horas fora de casa. Isso sem contar os outros tantos eventos que ocorrem à noite e nos fins de semana. A partir de agora as coisas vão começar a fazer sentido. Tenho necessidade de ter um tempinho só meu com a minha namorida. Tenho necessidade de dividir minha vida com ela, de dar exclusividade por pelo menos uma hora à mulher que atura minhas esquisitices faça chuva ou faça sol.  

Vocês podem não acreditar, mas é aquele beijo sonolento, aquela corrida pra fazer o xixi que ficou guardado a noite toda, aquela preguiça dela em levantar que me fazem acreditar que terei um bom dia. São aqueles olhos semi-abertos e ainda inchados de uma noite bem dormida e o abraço do corpo dela ainda quente do edredom que me fazem renovar as energias para mais um dia.  

Tudo bem, vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com o fato de eu levar o café na cama para a minha garota. E eu digo o seguinte: encontrei no café-da-manhã um jeito de dizer à minha mulher, todos os dias, o quanto a amo. Certamente existem milhões de outras maneiras de fazê-lo e todas, claro, são sempre muito bem-vindas. O que não dá é pra deixar o tempo passar, esquecer os carinhos diários e esperar que a pessoa que vive ao seu lado mantenha a mesma paixão. Por isso, longe de querer dar aulas de como manter sua mulher, quero apenas que vocês, minhas amigas queridas, parem e reflitam um pouco sobre o que estão fazendo para garantir o amor de seus pares. Porque eu e a minha garotona já estabelecemos para nós o café na cama nosso de cada dia.

Beth Andrade, 29 anos, jornalista e, das 6h30 até as 7h30, apenas a mulher da Mozinha, acordada com café na cama.
 

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