|
No domingo próximo, dia 23/10/2005,
estaremos votando pela proibição ou não do comércio legal de
armas no Brasil. Listo abaixo, algumas razões essenciais para se
votar NÃO.
1.
O plebiscito é desonesto. Associou a proibição ao
desarmamento. Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral obrigou a
Rede Globo a desvincular a palavra desarmamento do verdadeiro tema
do plebiscito que é a proibição ou não do comércio legal de
armas no Brasil. O que estaremos votando em 23/10 não é nenhum
desarmamento, mas sim e tão somente a proibição ou não do comércio
legal de armas no Brasil.
2.
Os partidários do SIM passaram a chamar qualquer um(a) que não
concordasse com suas idéias de turma da bala. Pessoas honestas que
sempre tiveram uma arma em casa, para simples proteção de si
mesmas e de seus familiares, passaram a ser tratadas como bandidas,
trogloditas, contra a paz, contra a vida. Por esse tipo de
argumento, dá para se julgar a justeza das idéias do pessoal do
SIM.
3.
O atual estatuto do desarmamento, para quem é civil, já é
rígido o suficiente para controlar quaisquer usos inadequados de
armas pela população. O comércio de armas para civis é muito
pequeno e, agora, sob rigoroso controle do Estado (só a taxa para
registro e porte em casa é de R$1000,00). Então para que se está
gastando todo esse dinheiro com esse plebiscito, para que se está
tentando matar uma mosca com um tiro de canhão?
4.
Segundo Adilson Abreu Dallari, professor de direito
Administrativo da PUC de São Paulo, o governo não pode negar à
população civil o direito à legítima defesa, pois tal atitude
viola o direito constitucionalmente assegurado às pessoas de se
proteger, expresso no artigo 25 do Código Penal. Apenas em regimes
totalitários, os governos interferem no direito inalienável que as
pessoas tem de decidir sobre suas próprias vidas. Desarmamento de
verdade se faz com campanhas de informação e conscientização, além
de obviamente com a melhoria das condições da população de modo
a que esta tenha outras alternativas de vida além da fuga para a
marginalidade.
5.
A proibição do comércio legal de armas no Brasil levará
à expansão e fortalecimento do comércio ilegal de armas. Esta é
a razão pela qual os narcotraficantes do Rio de Janeiro estão
fazendo campanha pelo SIM. Por que bandidos haveriam de apoiar uma
campanha de desarmamento? Obviamente é porque não haverá nenhum
desarmamento de quem realmente interessa desarmar. Ao contrário,
haverá uma expansão e a facilitação do tráfico de armas pelos
bandidos que passarão não só a comprar e vender armas de grande
calibre mas também de pequeno calibre. Todo mundo sabe que o
governo não tem controle sobre o tráfico de armas no Brasil.
6.
E por que então esse plebiscito? Da parte do governo
federal, a hipótese que mais se aventa é que isto seja uma cortina
de fumaça para desviar a atenção do escândalo de corrupção que
chocou a nação. Enquanto nos debatemos pelo SIM ou pelo NÃO,
nossos políticos trabalham para garantir que tudo termine em
pizza mais uma vez. Os indícios neste sentido são alarmantes. De
parte das ONG envolvidas na campanha do SIM, há um idealismo cego
que tem tudo para ser um tiro pela culatra (para ficar bem dentro do
tema).
7.
Nesta semana, os partidários do SIM, agora em empate técnico
com o NÃO, prometem satanizar ainda mais as armas, os fabricantes
de armas e quaisquer pessoas que as tenham. É importante não cair
nessa. Armas não têm vida própria. Quem responde por elas são
seus/suas usuári@s. Podem ser
utilizadas para atacar ou defender, dependendo de quem as usa. Os
fabricantes de armas não são criminosos porque querem defender
seus interesses numa sociedade capitalista. Pelo menos, eles pagam
impostos e criam empregos. Os narcotraficantes vão dar o que para a
sociedade? Mais tiroteio agora com armas de diferentes calibres? As
pessoas têm o direito de escolher se querem ou não ter armas de
fogo. Qualquer um(a) que se proponha a ter uma arma hoje pela via
legal precisa fazer teste psicológico, ter habilitação no uso da
arma, pagar taxa. Bandidos não fazem nada disto.
8.
Desarmamento – repetindo – se faz com combate a corrupção
em nossos governos, com distribuição de renda entre a população
(nosso país tem a maior concentração de renda do mundo), com
justiça social, dando às pessoas, sobretudo as jovens,
alternativas de vida, investindo nas comunidades carentes de modo a
que elas não caiam nas garras dos traficantes, com combate da
corrupção dentro da polícia, com melhores condições de trabalho
para os policiais, com o controle de nossas porosas fronteiras por
onde entra facilmente o contrabando de armas, com a reforma de nosso
sistema carcerário, com mais Justiça simplesmente. Retirar da
população que não tem ficha criminal o direito a manter ou ter
uma arma para sua própria defesa não é desarmamento. É conversa
para boi dormir (ou para traficante curtir).
9.
No dia 23/10, vote contra a proibição do comércio legal de
armas de fogo no Brasil. Vote NÃO. Vote NÃO para que o Estado não
use mais desses embustes para se eximir de cumprir com sua função.
O problema da criminalidade no Brasil está relacionado à corrupção
policial, ao sistema penitenciário falido, ao crime organizado, às
condições de miséria do povo,
e não ao comércio legal de armas de fogo. Vote NÃO para
que este debate tão importante possa vir a ser tratado de forma
honesta e profunda – como exige sua complexidade e não da
maneira superficial e maniqueísta como vem sendo travado - de modo
a que as ações de combate à violência e à criminalidade no
Brasil venham a ser realmente efetivas.
Míriam Martinho, 53, é editora
do site Um Outro Olhar On-line.
Leia mais aqui. |