Na
última caminhada lésbica (28/05/05), à parte todo o bom astral do
evento, dois fatos me chamaram a atenção: primeiro, a quase ausência
de organizações lésbicas e bandeiras de luta lésbicas e a presença
de ativistas pró-descriminalização do aborto e faixas sobre o
assunto. Antes da caminhada, notei também com surpresa, lendo um
e-mail, que, na pauta do futuro Seminário Nacional de Lésbicas,
das quatro mesas do evento, duas têm como tema agendas do movimento
feminista, sendo uma delas mais uma vez a questão da descriminalização
do aborto. Li também no Centro de Mídia Independente artigo de uma
feminista homossexual tentando explicar, com argumentos muito
abstratos, porque o aborto seria uma questão de interesse das lésbicas.
Por fim, em conversa informal durante a Feira do Arouche (26/05/05),
que precede a Parada de São Paulo, uma colega me perguntava o que
estava acontecendo com essa história de discussão sobre aborto na
militância lésbica, levando em conta que lésbicas não fazem
aborto.
Esses
fatos me levaram a refletir sobre a relação lésbicas e questão
do aborto e me fazer a pergunta que intitula este artigo: Seria o
aborto uma questão lésbica? Tal pergunta demanda uma resposta Zen:
sim, o aborto é uma questão lésbica; não, o aborto não é uma
questão lésbica.
Sim
porque em tese todas as questões sociais têm a ver com todo mundo.
Furtar-se a ter uma opinião e uma posição sobre elas, a não ser
quando elas tenham relação direta conosco, é um equívoco comum e
danoso. Assim sendo quaisquer pessoas, mulheres ou homens,
informadas e sensíveis, sabem que a criminalização do aborto não
serve para nada a não ser causar mortes e sofrimento em grande
escala. Questão ética e moral das mais delicadas, onde geralmente
patinam defensores e opositores da descriminalização, com especulações
absurdas sobre quando começa a vida e sobre a alma do feto ou
declarações sobre os direitos que o feto não teria por não
poder viver fora do útero da mãe, o aborto acaba sendo um dilema
cuja solução mais razoável ainda deve ser encontrada pela própria
mulher, necessitando ter liberdade para tal. Além disso, gravidez
indesejada se previne com educação sexual, acesso a métodos
contraceptivos, planejamento familiar, estratégias rejeitadas, por
exemplo, pela Igreja Católica, ardorosa oponente da descriminalização
do aborto.
Mas
e porque então o aborto não é uma questão lésbica? O aborto não
é uma questão lésbica pelo simples fato de que relações entre
mulheres não resultam sequer em gravidez desejada quanto mais
indesejada. A não ser em caso de estupro, ou no caso de
profissionais do sexo, as mulheres que só se relacionam com
mulheres nunca vivenciam – felizmente – a realidade do aborto. O
aborto não faz parte de nossas vidas. Os direitos reprodutivos das
mulheres lésbicas são o exato oposto dos das mulheres
heterossexuais: enquanto estas lutam por métodos contraceptivos,
pelo direito de ficar grávidas apenas quando desejarem, aquelas
lutam por métodos conceptivos, pelo acesso a meios que lhes
permitam ser mães, ter crianças com suas companheiras, manter a
guarda de seus filhos
Este
é o tema de nossas mesas, a pauta de nossa agenda, uma das
bandeiras que devemos levantar em nossas manifestações. Então por
que estamos discutindo outras agendas, se mal conseguimos encaminhar
as nossas? Por solidariedade? Solidariedade podemos demonstrar
apoiando a campanha de descriminalização do aborto do Movimento
Feminista, com abaixo-assinados, moções de apoio, engrossando suas
manifestações, etc.... Mas não devemos perder de vista nossas
prioridades nem permitir ingerências que nos desviem delas. Apoio a
bandeiras de outros movimentos é uma necessidade de qualquer
movimento, mas essas bandeiras não devem ser confundidas com as
nossas a ponto de substituí-las.
É preciso também tomar
cuidado com analogias simplistas que buscam equalizar liberdade de
orientação sexual com direito de fazer aborto, pois elas podem nos
ser inclusive prejudiciais. Para começar, porque não é crime
transar com outra mulher em nosso país. Fazer aborto é. Depois
porque liberdade de orientação sexual envolve apenas o corpo da própria
mulher; aborto envolve também a vida de outro ser, queiram ou não
queiram as colegas feministas. Daí ser o aborto a tal questão ética
e moral das mais delicadas que citei acima, muito mais complexa
portanto que a questão da orientação sexual. Por fim se for para
priorizar temas de outros movimentos, escolhamos ao menos questões
mais pertinentes à nossa realidade como, por exemplo, a questão do
racismo, porque há muitas lésbicas negras e as relações
inter-raciais nem sempre são fáceis.
Sei
que o Movimento Feminista está fazendo um tour-de-force para tentar
descriminalizar o aborto, luta das mais justas, procurando portanto
ocupar todos os espaços possíveis, mas é preciso que este
movimento – historicamente tão ingrato conosco – saiba agora
pelo menos respeitar nossa autonomia. Alianças verdadeiras só se dão
de forma horizontal e
com respeito às diferenças, senão vira outra coisa que não creio
precise explicitar aqui. A maioria das lésbicas seguramente
concorda comigo.
(08/07/05)
Míriam Martinho, 53, é editora do
site Um Outro Olhar On-line.
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