Seções

Cultura

Direitos

EcoLógica

Em Movimento

Enfoque

Entrevistas

Horóscopo

Lazer & Cia

Saúde & Beleza

Símbolos & Dias

Integração

Enquetes

Links Legais

Sua Opinião

ponto de encontro

colaboração

pesquisas

 
 
 
 
 
Enfoque
 
L de Liberdade
Miriam Martinho 
 

Como já é de conhecimento geral, uma das propaladas conquistas da I Conferência Nacional GLBT (no início de junho deste ano em Brasília), convocada pelo governo federal (algo irônico em si mesmo), foi a inversão na ordem da sopa de letrinhas onde se junta o verdadeiro saco de gatos conformado pelos deserdados da sociedade hetero-compulsória, ou seja, transexuais, travestis, bissexuais, lésbicas, gays e etcetera.

Agora todo mundo está convocado a utilizar a sigla LGBT, com as lésbicas puxando o carro. A proposta, tirada da cartola do recém-formado grupo de mulheres feministas (?!) da ABGLT tem rendido falsas polêmicas e irritações.

Na verdade, tudo soa falso em toda essa história seja pelo arrazoado, cheio de clichês em feministês, utilizado por algumas supostas líderes de lésbicas para justificar a mudança, seja pelo simples fato de que o  uso da sigla LGBT já é uma convenção de séculos em outras partes do mundo e mesmo no Brasil. Ainda que travestis e alguns gays tenham chiado com essa prioridade lésbica no geral tudo foi tão fácil quanto cortar manteiga.

Ao que tudo indica, embora o L na frente da sigla tenha sua simbologia, pelo exposto acima, a mudança teve mesmo mais a ver com a necessidade do tal grupo de mulheres feministas da ABGLT de mostrar serviço. Como todos sabem a troca não representa nenhuma mudança real na situação das lésbicas dentro do movimento sopa de letrinhas. Aliás, em lugar algum.

 As ativistas lésbicas brasileiras parecem bolinhas de pingue-pongue numa eterna partida entre gays e feministas, com cada set sendo ganho por um dos jogadores em questão. De 2003 para cá, ansioso por pegar carona na evidência da questão homossexual em geral e lésbica em particular, para a qual nunca contribuiu em nada, o Movimento Feminista tem movido um dos mais impressionantes processos de (re)cooptação e (re)aparelhamento do ativismo lésbico brasileiro (igual só o que o PT fez com os movimentos sociais), chegando ao ponto de, na última caminhada de lésbicas, o aborto já estar sendo inclusive colocado como reivindicação lésbica (sic) na área de saúde, embora todo mundo saiba que lésbicas não fazem aborto.

Na mesma linha, o tal grupo de mulheres da ABGLT tem um projeto feminista para a entidade, cujo fundamento ideológico não sabe ou não quer esclarecer (considerando o feminismo se dividir em numerosas correntes até mesmo antagônicas), que, além de certas obviedades, como maior espaço e poder para as mulheres na associação, prevê apoio as campanhas do movimento feminista e seminários sobre feminismo.

A palavra feminista vem inclusive sendo utilizada de forma descaradamente essencialista como uma espécie de bálsamo contra os males da sociedade patriarcal, uma oposição inteiramente positiva à sociedade machista inteiramente negativa. Só podem concordar com isso as ingênuas, as mal-informadas ou as de má-fé. Uma das lições de vida que se aprende ao conhecer o movimento feminista é de que as diferenças entre homens e mulheres se resumem ao poder que uns têm e outras não têm. Tendo poder, como naquele velho ditado de que a ocasião faz o ladrão, essas diferenças desaparecem, e as mulheres têm se revelado capazes das mesmas cruezas que sempre caracterizaram o exercício do poder masculino.

Então, se é para pôr o L na frente, que seja na frente dos olhos e do coração das lésbicas, tendo na frente as nossas prioridades, a nossa agenda, as nossas vidas. Que seja o L de Liberdade.

 

Míriam Martinho, 53, é editora do site Um Outro Olhar On-line. Leia mais aqui.

 

Enfoque Índice

Comentários
Nome:
E-mail:
telefone:
Cidade:
Estado:
País do exterior

Deixe seu comentário sobre o artigo acima

 
 

Comentários

Um Outro Olhar On-line © 2004-2008 Rede de Informação Um Outro Olhar
Todos os direitos reservados.