Em
13 de maio de 1888, a princesa Isabel, primeira senadora brasileira
e primeira mulher a assumir uma chefia de Estado no continente
americano, exercendo por 3 vezes a Regência no Brasil, sancionou a
chamada Lei Áurea que aboliu a escravatura em todo o território
nacional. Antes disso, a princesa Isabel já demonstrara sua posição
como abolicionista convicta, financiando tanto a alforria de
escravos quanto até quilombos (Quilombo do Leblon, onde se
cultivavam camélias brancas, flor-símbolo da abolição). Seu empenho
na abolição da escravidão lhe custou caro inclusive, já que os donos
de escravos, sobretudo dos grandes cafezais paulistas, deixaram de
apoiar a monarquia em represália à luta do nobres pela abolição,
bandeando-se para o lado dos republicanos, o que, segundo alguns
estudiosos, teria apressado a instituição do regime republicano.
O papel da princesa Isabel na efetivação da abolição da escravatura
no Brasil não deve, portanto, ser subestimado, mas não foi ela, na
qualidade de branca sensível de bom coração que botou fim a uma das
páginas mais infames de nossa história. Seu gesto foi de fato fruto
não só de suas crenças pessoais mas também da pressão de um
movimento social de grande abrangência, comparado por alguns com as
Diretas Já!, que uniu gente de várias classes sociais e várias
etnias na luta contra a escravidão, juntando desde políticos e
intelectuais brancos como Joaquim Nabuco, o teatrólogo Artur Azevedo
e o poeta Castro Alves até negros como o advogado Luís Gama e o
engenheiro André Rebouças e ainda mestiços como o jornalista José do
Patrocínio. Também estudantes universitários, que começavam a se
evidenciar no período, se engajaram na luta em prol da abolição bem
como o exército brasileiro, formado à época por bom número de
ex-escravos que haviam lutado na guerra do Paraguai. Isso para ficar
em alguns exemplos, embora existam outros, pois o movimento
abolicionista foi um dos maiores movimentos populares da história
brasileira.
Não obstante esse histórico glorioso, movimentos negros confusos –
para dizer o mínimo – passaram, a partir da década de 70, a rejeitar
a data do 13 de maio sob a desculpa de que ela representaria uma
efeméride das elites brancas brasileiras, pois teria sido um gesto
de generosidade (sic) dos brancos, tendo a princesa Isabel como
principal protagonista – o que não é verdade como vimos acima – e,
além disso, uma abolição para inglês ver, já que os cerca de 700 mil
escravos libertos na ocasião não foram de fato integrados à
sociedade brasileira, como devido, acabando livres dos grilhões de
ferro mas prisioneiros das senzalas da pobreza. Em substituição ao
13 de maio, inventaram o dia da consciência negra, em 20 de
novembro, como homenagem a data da morte de Zumbi dos Palmares,
líder negro que teria lutado contra a escravidão, o que simbolizaria
a resistência e a bravura dos negros contra o cativeiro.
Curti essa história do Zumbi por um bom tempo, pois, me amarro num
herói ou heroína, como todo mundo aliás, haja vista a quantidade
enorme deles e delas nas revistas em quadrinhos e nos cinemas. Curti
até conhecer a verdade histórica sobre esse personagem mitologizado.
Zumbi foi de fato um negro foragido do cativeiro que formou um
quilombo, como estrutura de resistência a seu cativeiro pelos
brancos, mas não era nenhum herói da luta contra a escravidão. Em
Palmares assim como em outros quilombos havia escravos também e
escravos negros. Sim, o herói da luta contra a escravidão era um
escravocrata também. Simplesmente não queria ser escravo, mas não se
incomodava
de escravizar outros homens, pior, outros homens negros.
É que de fato, o sistema escravagista era onipresente na África na
época do tráfico negreiro. Não só na África mas ainda em todos os
outros continentes. Na África, os vencidos das eternas guerras
tribais, entre as diversas etnias existentes, eram escravizados
pelos vencedores que por sua vez os vendiam para árabes e europeus. Então,
a escravidão era um sistema comum no período, que a maioria das
pessoas aceitava como natural, e que os vencedores em qualquer tipo
de batalha aplicavam aos vencidos. Em Palmares, Zumbi era vencedor
e, portanto, escravizava outros negros, geralmente negros que não
queriam ter saído das fazendas dos brancos. De repente, as senzalas
dos brancos ofereciam melhores condições de vida do que as galés dos
quilombos (hehehe).
Pois, é! Então, a maioria dos ativistas do movimento negro rejeita
uma data fruto de um movimento social popular, multi-étnico,
multiclassicista e, portanto, pra lá de democrático, para afirmar
uma outra data que celebra a existência de um personagem
supostamente heróico contra a escravidão mas que também
escravizava?!!! Arrisco uma explicação para esse paradoxo. O atual
movimento negro – em sua maioria – tem um viés nitidamente racista,
tanto que todo o seu programa de atuação é calcado na afirmação do
conceito de raça (uma idéia já sepultada pela ciência), onde a raça
negra teria sido subjugada e oprimida pela raça branca que lhe
deveria conseqüentemente uma reparação pelos maus-tratos oriundos da
escravidão. Toda a estrutura desse programa de ação é assentada no
antagonismo racial que, por sua vez, é alimentado pelo vitimismo. É
preciso descrever os negros como vítimas dos brancos, os negros como
vítimas e os brancos como algozes, assim tudo na base do preto ou
branco, sem nuances.
Para alimentar essa ideologia, inclusive brutais d
istorções
históricas têm sido feitas. Na historinha da carochinha dos
racialistas negros, os negros viviam numa África paradisíaca,
correndo apenas dos leões, quando os europeus, brancos e malvados,
chegaram e os levaram escravizados para seu continente e para
outros, submetendo-os a exploração e a brutais agressões físicas.
Como já disse acima, a verdade é outra. Os africanos viviam às
voltas com suas guerras tribais (até hoje, aliás) e vendiam seus
cativos para quem os comprassem, no caso, os europeus que, por
acaso, eram brancos. No Brasil, com o passar dos anos, mesmo antes
da Abolição, muitos negros começaram a ser alforriados e, por sua
vez, passaram a ter terras também e a comprar escravos, seus irmãos
de “raça”. Nos próprios quilombos, os negros fugidos das senzalas
brancas também escravizavam outros negros, portanto, não existem
bandidos e mocinhos nessa história como, aliás, raramente existem em
qualquer período da sombria história humana. A escravidão foi um
sistema nefasto – que até hoje existe embora proscrito – de que
todos os povos e etnias participaram.
Mas a política do movimento negro atual, em sua grande maioria,
rejeita a verdade histórica por uma leitura altamente ideologizada
dos fatos, maniqueísta e perigosa, baseada no antagonismo racial. O
13 de maio, como descrevi acima, foi um movimento onde brancos,
negros e mestiços, de diferentes classes, lutaram juntos contra a
escravidão e venceram a batalha juntos. A Abolição foi uma conquista
de pessoas de bem, e pessoas de bem não têm cor. O fato de a
inserção dos negros libertos na sociedade brasileira, pós-Abolição,
não ter sido realizada como deveria ter sido não invalida a
conquista do movimento abolicionista. O que aconteceu após a
Abolição é uma outra história, uma história que passa de um regime
monárquico para um regime republicano, igualmente negligentes quanto
à situação social dos ex-escravos negros. As conseqüências dessa
negligência jogaram a população negra na pobreza, mas nunca
impediram a miscigenação, nunca promoveram o apartheid racial no
Brasil, tanto que somos essencialmente um país de mestiços, sendo a
população negra -propriamente dita – minoritária. Mesmo a pobreza
não é só desprivilegio de negros e
pardos,
havendo também um razoável número de brancos pobres. Deveriam estar
todos, como nos tempos dos abolicionistas, lutando juntos para tirar
a todos da pobreza através de uma revolução educacional, através do
resgate da sucateada educação brasileira e de sua melhoria e
universalização, pois é ela que permite democraticamente a ascensão
social de qualquer um(a). Mas, ao contrário, o movimento negro, em
sua maioria, tem preferido o caminho das cotas e do malfadado
Estatuto da “Igualdade” racial, em análise pelo Senado no momento,
que promovem coisas inacreditáveis como a divisão da população em
negra ou branca, tribunais raciais em universidades, para julgar
quem é de fato negro ou não (inspiração nazista), e a destruição do
critério de mérito, um dos pilares da democracia. A picaretagem
chegou a ponto de estarem propondo 60% de vagas para cotistas em
universidades, o que, na realidade, praticamente acaba com o
vestibular.
O 13 de maio mostra brancos, negros e mestiços lutando juntos contra
um sistema absurdo e não se encaixa na visão do atual movimento
negro porque este quer brancos e negros separados, brancos e negros
antagônicos, o mulato inzoneiro Brasil se definindo como negro ou
branco, embora sempre tenha sido mestiço e continue sendo mestiço.
Por isso, prefere o dia que homenageia Zumbi e os quilombos, pois
estes teriam sido uma luta só de negros, protagonizada por um negro
herói, mesmo tendo sido esse "herói" um escravista. Por isso, hoje,
o 13 de maio, não apenas por ser uma data histórica oficial, merece
ser lembrado como um dia de celebração da união de todos,
independente da cor da pele, contra sistemas injustos e crenças
equivocadas.
Fotos na sequência: Princesa Isabel, Luis Gama, Joaquim Nabuco,
André Rebouças e José do Patrocínio, brancos, negros e mestiços pela
Abolição.
Fontes: Divisões Raciais: políticas raciais no Brasil contemporâneo.
Editora Civilização Brasileira;
Dossiê Abolicionismo;
Monstros Tristonhos
(excelente texto de Demétrio Magnoli sobre os tribunais raciais que
vêm sendo instalados nas universidades brasileiras);
Nação Mestiça
P.S. A propósito, sou mestiça e bisneta de um abolicionista,
Martinho Rodrigues, que como advogado, deputado e jornalista, lutou,
em sua terra natal, Fortaleza (CE), pela abolição da escravidão no
Brasil.
Veja abaixo vídeo do Jornal Nacional sobre a discussão a respeito do
Estatuto da Desigualdade Racial, em 13 de maio de 2009
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na enquete do site do Senado Federal sobre as cotas