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Você já reparou como sempre que lembramos do nosso cão
logo algum tipo de sentimento nos vem à mente? De alegria, emoção,
carinho, amor... Como os especialistas em cães
dizem, o cão é um ser irracional que age por instinto. Tudo
bem, mas e o sentimento? Os cães, então, são puro instinto? Os cães
não sentem?
Para responder a essa pergunta, tento imaginar o
comportamento canino mais próximo diariamente de mim: minhas duas
cachorras. Quando chego em casa, o rabo delas não pára de balançar,
elas dão saltos felizes ao meu lado e me acompanham por todos os cômodos,
disputando minha atenção e querendo me lamber a todo o custo. Para
o meu lado emocional, isso é amor.
Mas é claro que também posso fazer outra leitura de toda
essa comovente recepção: ao chegar em casa, minhas cachorras me
recebem como a chefe da matilha, à espera da recompensa por terem
me aguardado e guardado nosso território enquanto eu saía em busca
de alimento. A chegada do líder da matilha (eu!) estimula a
necessidade delas de saciar a fome, e por isso acompanham meus
movimentos pela casa, esperando receber de mim o alimento que fui caçar
para elas. Geralmente tentam lamber minha boca, pois é bem
possível que eu tenha trazido a caça na boca, já estraçalhada
e pronta para ser devorada.
Percebe como pode haver duas leituras para o mesmo
comportamento? Uma emocional e outra racional? E de fato é impossível
separarmos um do outro ou simplesmente dar um pause nos sentimentos quando observamos e também quando educamos
nosso cão.
Podemos, sim, é assumir nossos limites e nossas
“fraquezas emocionais”, pois
ao assumi-los damos um grande passo para atingir o objetivo de
educar um cão sem medo de dar ou reprimir nosso afeto.
E então? O cão age por instinto ou movido pelo
sentimento? Um pouco dos dois, embora seja muito mais gostoso
acreditar que ele é puro sentimento. Além do mais, como não
existe nada mais irracional do que o amor incondicional, para mim
minhas cachorras me lambem porque eu as adoro
e porque elas também me adoram.
Comportamento
De uma forma simplificada, pode-se dizer que comportamento
é a atitude que o cão toma mediante estímulos externos e
internos, isto é, um cachorro se comporta de acordo com sua bagagem
genética, seu temperamento e, fundamentalmente, influenciado pela
postura que o ser humano tem com ele.
A maioria das pessoas erram ao interpretar o comportamento
canino por pura falta de conhecimento da linguagem usada pelos cães.
Muitas vezes cheguei à casa de alguém que se queixava que seu cão
era violento e dominante, mas depois de avaliá-lo percebi que ali
estava apenas um cão medroso tentando se proteger.
Saber interpretar a linguagem canina facilita muito a nossa
comunicação com os cães e pode evitar sérios problemas de
comportamento do animal. A forma como são os latidos, a posição
da cauda, o olhar, a orelha, enfim, toda a postura corporal do cão
diz algo a seu respeito.
Podemos, por exemplo, perceber se o cão está apanhando na
nossa ausência, pois o
ato de abaixar a cabeça e o rabo quando alguém levanta a mão é
um comportamento adquirido pelo cão, isto é, ele já passou por
essa situação algumas vezes e aprendeu a se proteger do tapa
violento. Se fizermos esse gesto para um cão que nunca apanhou, ele
não terá o reflexo de abaixar a cabeça. É claro que devemos
guardar uma certa distância no qual o cão não se abaixe por puro
reflexo. É só basear-se nos seres humanos, se um amigo seu
levantar a mão em uma distância razoável, não vamos ter reação
nenhuma, mas se ele se aproximar, provavelmente piscaremos os olhos
e afastaremos o rosto. Cuidado, tudo é uma questão de coerência,
mas usando o exemplo acima acredito que ficará mais fácil.
Outro comportamento inadequado que os cães podem ter é
com relação a vassoura. Muitas pessoas confundem quando o cão
apresenta um comportamento agressivo diante de uma vassoura em
movimento achando que ele está levando vassouradas. Nem sempre.
Nesse caso pode estar acontecendo o inverso do comportamento
adquirido. Ele pode estar reagindo instintivamente ao movimento da
vassoura.
O cão
é um caçador inato, isto é, ele já nasce com esse instinto de
correr atrás de um outro animal. Como na vida urbana e familiar não
existem “presas”, os cães substituem por tudo que for
semelhante: bolinhas, ossinhos, vassouras, etc..
Quando o cão tem comportamento dominante?
Embora costume-se dizer que em toda regra há exceção, nesse caso
NÃO há: TODOS OS CÃES DEVEM SER SUBMISSOS AO SEU DONO.
Quando o oposto acontece, ocorrem problemas de relacionamento sérios.
Muitas vezes as pessoas só percebem o problema quando o cachorro já
se tornou o tirano da casa. Isso ocorre principalmente porque quando
filhotes, não percebemos ou não nos importamos com certos
comportamentos que ele apresenta. Realmente é muito bonitinho um
Pastor Alemão de 2 meses agarrado no seu brinquedo preferido,
rosnando para quem ousa tirá-lo. Agora, imagine esse Pastor com
esse mesmo comportamento 2 anos depois. Existem algumas boas dicas
que podem ser aplicadas quando seu cão ainda é filhote que irá
ajudar muito na sua obediência:
Montar na perna -
para o filhote ainda não existe uma conotação sexual nesse
ato, mas sim um exercício para o “poder”. Reprima sempre que
ele tentar montar em alguma coisa, principalmente em você;
Não deixar você se
aproximar quando ele está comendo -
é muito importante a relação entre o cão e seu alimento.
É através da comida que ele estabelece sua posição na matilha. O
líder sempre come primeiro. Quando o filhote estiver comendo,
chegue perto dele, pegue alguns grãos de ração, dê na sua boca.
Isso irá mostrar que você é o líder, pois você controla sua
comida;
Querer sempre sair primeiro
que você ao abrir qualquer porta - para
o cão, sempre ser o primeiro é sinal de liderança. O mais forte
tem a “regalia” de entrar e sair antes que todos. Saia ou entre
primeiro que ele. É simples e ajuda a manter sua posição hierárquica;
Não ficar com a barriguinha
para cima essa é uma posição que indica relaxamento e
entrega. O cão líder nunca relaxa ou fica desatento, pois precisa
proteger sua matilha. Ensine-o a relaxar nessa posição. Se ele
resistir, vá com muita calma e gradativamente deixe-o adquirir
confiança ficando nessa posição;
Ficar sempre na mesma poltrona ou no mesmo lugar no sofá da sala e
rosnar quando alguém tenta tirá-lo
- não importa se seu cão dorme na sua cama ou no
quintal, o importante é você ter voz de comando sobre ele. Se seu
cão adora ficar na mesma poltrona que você, ele pode ficar na sua
ausência. Você chegou, diga calmamente para sair. Faça isso
quando ele ainda for filhote para evitar problemas posteriores.
Kátia Aiello
é psicóloga especialista em comportamento animal, atuando em
projetos como o Cão do Idoso. |