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UOO:
Susan, fale um pouco sobre por que e quando surgiu a
iniciativa de criar o Adote um gatinho.
Susan: Não foi nada planejado. Em 2002 me tornei voluntária para
ajudar a castrar alguns gatos de um parque perto de casa. A
Juliana Bussab, minha sócia no site, também fez o mesmo e nos
conhecemos lá. A idéia era castrá-los e devolvê-los, pois eram
adultos e ariscos, mas aos poucos foram aparecendo gatos dóceis e
filhotes. Tínhamos dó de deixá-los ali. Abrigamos uma, duas, três
ninhadas e procuramos donos para elas. Aí percebemos que isso
tinha virado uma atividade regular. Na época eu trabalhava com
internet, sabia construir sites. Decidi criar uma página para
ajudar a divulgar esses gatinhos. Era uma ferramenta a mais para
nos ajudar a doá-los. O site começou a ser visitado, os gatinhos
adotados e as pessoas começaram a entrar em contato para oferecer
ajuda, em dinheiro e em produtos. Foi aí que percebemos que doar
gatos pela internet poderia dar certo.
UOO: Quem são vocês e quantas pessoas estão envolvidas nesse
trabalho?
Susan: Eu e a Juliana (foto acima) somos as fundadoras, mas temos
amigas que nos ajudam. Hoje somos oito. Eu, a Juliana e a doutora
Angélica Klaussner — veterinária — cuidamos dos gatinhos, entre
outras tarefas, e as meninas nos ajudam com algumas partes do
site, como a arte, lojinha, textos, etc.
UOO: Com o que vocês trabalham, além do Adote um Gatinho?
Susan: Sou formada em jornalismo, mas trabalho com programação
musical. A Ju também é jornalista, mas optou por se dedicar o
tempo todo aos gatinhos.
UOO: Vocês têm uma sede onde recolhem e tratam os gatinhos?
Susan: Os gatinhos ficam divididos em vários locais. Tenho gatos
em casa, a Ju na casa dela, também temos gatos no consultório da
doutora Angélica e num espaço que a Ju construiu na Barra Funda,
dentro da empresa do pai. Cada uma cuida de uma quantidade de
gatinhos, e eles são reunidos no site. Não há uma sede.
UOO: Quais os critérios para adoção? Por que vocês só doam para
pessoas que têm condições de manter o gato em casa?
Susan: Para adotar com a gente é preciso ter condições financeiras
mínimas, ou seja, dar uma ração de boa qualidade, vacinas e
atendimento veterinário quando necessário. Também é preciso morar
em apartamento com telas em todas as janelas/sacadas ou em casas
fechadas (das quais os gatinhos não possam sair).
Muita gente acha que gato é um animal livre, que não se deve
mantê-lo somente dentro de casa, mas a nossa experiência mostra
que lugar de bicho não é na rua, pelo menos não em São Paulo e em
cidades grandes. Na rua ele corre riscos o tempo todo:
atropelamento, envenenamento, maus tratos, cães, doenças, etc.
Pegamos gatos da rua, então sabemos bem como eles chegam. Não
lembro a fonte, mas estatísticas mostram que um gato indoor vive
em média doze anos e um gatinho que sai para a rua apenas três.
Muita gente nos escreve querendo adotar um gato porque o anterior
sumiu, fugiu ou morreu.
Então temos cada vez mais certeza
de
que é preciso manter os gatos
somente dentro de casa. Nossos gatinhos já passaram pelo pior, já
sentiram fome, frio, foram abandonados e maltratados. Somos
responsáveis por eles. Está em nossas mãos a escolha do seu novo
lar, do seu futuro, do seu destino. Não podemos falhar. Podemos às
vezes pecar pelo excesso de zelo, mas, acredite, é com a melhor
das intenções.
UOO: Como as pessoas podem ajudar vocês, além de se proporem a
adotar um gatinho?
Susan: Todo mundo pode ajudar, nem que seja apenas com divulgação:
comentando com os amigos sobre o site, imprimindo folhetos e
colocando-os em locais de grande circulação, etc. Nós aceitamos
doações em dinheiro, para tratamentos, castrações, compra de
vacinas, internações. Aceitamos doações de produtos, como ração,
areia, remédios, caixas de transporte, etc. Também é possível
ajudar participando de nossas rifas ou adquirindo um produto da
lojinha.
UOO: Os gatinhos são doados já castrados, mesmo com poucos meses.
Fale da importância da castração.
Susan: Simplesmente não há donos suficientes para a superpopulação
de animais hoje existente. Mesmo que você consiga um lar para cada
um dos filhotes da sua gata ou cadela, saiba que esses bebês não
precisavam ter nascido e que estarão ocupando lugar de bichinhos
que estão na rua, passando fome e necessidade. Eles poderiam ter
sido adotados e ter um final feliz.
Uma gata não tem o desejo de ser mãe. Você quer que ela seja mãe,
mas ela não fica sonhando com a maternidade. Os animais agem por
instinto. Um animal castrado não entra no cio e não sente falta de
cruzar e ter bebês. A castração é uma questão de consciência. Quem
ama os animais verdadeiramente é a favor da castração.
Mas a castração não serve só para evitar que nasçam filhotes. Ao
serem esterilizados, os animais ficam mais caseiros, pois não
querem mais procurar um parceiro do sexo oposto, deixam de brigar
pela disputa de um parceiro, não marcam território. Ou seja, a
chance de serem atropelados e maltratados é menor, assim como o
risco de serem infectados por doenças transmitidas por outros
animais, pelo sexo ou mordidas.
Além disso, problemas de comportamento como a necessidade de
urinar para demarcar território são reduzidos ou eliminados. O
gato macho não vai ficar fazendo xixi pela casa toda. E o risco de
os animais desenvolverem certos cânceres em idade avançada é
bastante reduzido com a esterilização.
UOO: Muitas leitoras e muitos leitores da nossa coluna Fala Bicho
perguntam sobre onde castrar seus animais (cães e gatos)
gratuitamente. Você teria algumas dicas de locais de castração
gratuitos?
Susan: Só conheço locais que cobram castração a preço de custo. No
link www.adoteumgatinho.com.br/castracao.htm há uma lista de
veterinários que realizam este serviço.
UOO: Você conhece também alguém da área de direito, especializado
nessa eterna luta dos proprietários de bichos com os condomínios
dos prédios que pudesse indicar?
Susan: Não conheço. Mas somente se
houver barulho, agressividade ou ameaça à saúde pública o
condomínio poderá pedir que você não tenha mais o animal. É o que
diz a Lei n° 4.591, de 16 de dezembro de 1964. Qualquer outra
implicância pode e deve ser questionada.
UOO: O que há de mais difícil em seu trabalho e o que há de mais
gratificante?
Susan: Muitas vezes a gente se sente enxugando gelo. Você trata,
castra, vacina, cuida com amor e carinho de uma ninhada... e
quando você consegue doar um gatinho aparecem mais três. Nunca tem
fim, nunca tem um respiro, e todos os dias pessoas ignorantes e
folgadas chegam até você com seus animais, dizendo que "se você é
protetora, então tem obrigação de cuidar do caso". E não é isso.
Ajudamos porque amamos os animais, porque eles merecem uma vida
digna, porque sofremos pensando no sofrimento deles nas ruas.
Somos pessoas comuns, que trabalham, estudam, têm famílias e seus
próprios animais, mas optamos por não ter tempo livre, não ter
tempo para um cinema ou uma viagem à praia, para poder ajudá-los.
É a velha história do "te dou a mão e você quer o braço".
Todos os dias chegam e-mails com as histórias mais absurdas, de
gente que pegou um bichinho e quer se desfazer dele. Os motivos
são os mais ridículos. Isso entristece, desgasta. Mas quando a
gente abre a porta e vê aquela gataiada feliz e de barriguinha
cheia, quando a gente entrega um gatinho e a pessoa te agradece,
quando a gente recebe fotos por e-mail dos gatinhos adotados,
quando a gente vê que já passaram pelas nossas mãos quase dois mil
gatinhos e que graças a todo o esforço hoje eles são tratados como
filhos... vemos que valeu e vale a pena, sempre. Para esses
gatinhos nosso trabalho fez toda a diferença.
UOO: Quais suas perspectivas para o futuro?
Susan: Estamos com a papelada pronta e assinada. Em pouco temos
vamos nos oficializar como ONG. A idéia é continuar com este
trabalho, mas também buscar parceiros para tornar o projeto mais
forte e mais amplo. Também pensamos em atuar na parte de
conscientização em relação à posse responsável.
UOO: Por fim, deixe uma mensagem para nossas leitoras! E obrigada
pela entrevista.
Susan: Queridas, foi um prazer falar um pouquinho sobre o nosso
trabalho com vocês! Quem quiser conferir é só acessar nosso site e
quem quiser marcar uma visita para conhecer os gatinhos é só
entrar em contato. Um beijo!
Essa entrevista foi feita com a colaboração e a aprovação da gata
preta da editora deste site, de 16 anos, chamada Catarina, que
manda a todas as moças do Adote um Gatinho um grande ronronar de
agradecimento em nome de toda a sua espécie.
Edição e revisão de texto: Ciça Caropreso (jan 2007) |